quarta-feira, 9 de setembro de 2009

"BONHOEFFER O AGENTE DA GRAÇA"

Dietrich Bonhoeffer nasceu em 1906 em Breslau, então Alemanha, mas atualmente Polônia. Seu pai era um professor de psiquiatria e agnóstico como todos os irmãos de Bonhoeffer. Bonhoeffer estudou teologia em Tubingen e Berlin até tornar-se pastor luterano. Após pastorear a congregação alemã em Barcelona e passar um ano no Seminário União Teológica em Nova York ele tornou-se um preletor na Universidade de Berlim em 1931. Mas a ascensão ao poder de Hitler em 1933 interrompeu sua carreira. Dois dias depois de Hitler tornar-se Chanceler, Bonhoeffer opôs-se ao Fuhrerprinzing (principio de liderança nazista) em um discurso pelo rádio – que foi interrompido antes do final. Naquele outono partiu para Londres para pastorear a congregação alemã de lá. Ele estava sinceramente por trás da igreja da confissão e da Declaração de Barmen.

Em 1935 voltou a Londres e ajudou a dirigir um pequeno seminário teológico para a igreja da Confissão, até que este foi fechado pelas autoridades em 1937. Restrições crescentes foram impostas sobre o próprio Bonhoeffer - ele foi proibido de dar preleções em Berlim, de pregar, e finalmente, em 1941, de escrever ou publicar. Em 1939 entrou para o movimento de resistência alemã e trabalhou para a Contra-inteligência alemã. Ele envolveu-se profundamente numa conspiração para assassinar Hitler e derrubar o estado nazista. Mas em abril de 1943, pouco de ter assumido o compromisso de casar-se, foi detido pela Gestapo, embora as autoridades não estivessem ainda conscientes da extensão de seu envolvimento com a resistência. Em setembro de 1944, uma evidência incriminadora foi descoberta e o destino de Bonhoeffer foi selado. Em 08 de abril de 1945, ele recebeu uma corte marcial sumária e na manhã seguinte foi enforcado junto com Almirante Canaris e outros que tinham conspirado contra Hitler. Suas últimas palavras ao ser tirado de seu julgamento foram: “Isto é o fim - para mim o começo da vida”.

Estes fatos estão representados no filme “Bonhoeffer o Agente da Graça”, mas de maneira bem sucinta e pobre em detalhes, deixando muito de sua contribuição para a teologia e filosofia de lado, como veremos a seguir.

Infelizmente o filme não desenrola sobre as obras que Bonhoeffer escreveu como O Custo do Discipulado (1937), Nela ele distingue entre graça barata e cara.

A graça barata é a pregação do perdão sem exigir arrependimento, batismo sem disciplina na igreja, comunhão sem confissão, absolvição sem confissão pessoal. A graça barata é a graça sem discipulado, graça sem cruz, graça sem Jesus Cristo vivo e encarnado.
O Custo do Discipulado, Capítulo 1.

A graça barata começa com o fato de que mesmo os melhores cristãos permanecem pecadores e usa isto para justificar viver uma vida de pecado. Qualquer tentativa de levar uma vida séria de discipulado é estigmatizada como legalismo ou “entusiasmo”.

A graça [cara] é cara porque ela nos chama a seguir, e é graça porque ela nos chama a seguir Jesus Cristo. É cara porque custa ao homem a sua vida e é graça porque dá ao homem a única vida verdadeira. Ela é cara porque condena o pecado, e graça porque justifica o pecador. Acima de tudo, ela é cara porque ela custou a Deus a vida de seu filho.
O Custo do Discipulado, Capítulo 1

Durante seu aprisionamento Bonhoeffer escreveu aos seus amigos e é por estas Cartas e Papéis da Prisão que ele é mais famoso. Em seu último ano escreveu enigmaticamente sobre “cristianismo sem-religião”. Sua morte prematura teve o duplo efeito de impedi-lo de explicar e desenvolver suas idéias ao mesmo tempo em que concedeu sobre elas a aura de seu martírio. Seu ensino da prisão pode ou ser interpretado de acordo com seus escritos anteriores ou, como tem acontecido em alguns tipos de “cristianismo secular” desde os anos 1960, ser considerado como uma divergência completamente nova. O veredicto de Helmut Thielicke é prudente: Bonhoeffer “tem simplesmente deixado os lemas para trás como espinhos em nossa alma para manter-nos saudavelmente incomodados”.

Bonhoeffer educado numa família tradicional e envolvido numa ocupação muito secular e em atividades (a conspiração) que não teriam sido sancionadas pela igreja, foi feito vigorosamente consciente do mundo moderno secular. Ele estava interessado em como confrontar o homem secular irreligioso. Desde cerca do século treze, a humanidade tem se movido constantemente para a independência de Deus. Deus tem sido progressivamente excluído da ciência, arte e até da ética. A educação e a política têm sido libertadas do controle da igreja. Como o filósofo Kant expressou, a humanidade e o mundo têm que “atingir a maturidade”. Cada vez mais o homem dirige seus negócios sem referência a Deus. Ele pode fazer uma confusão de sua vida, mas não pode voltar a ser novamente uma criancinha sob a orientação de seus pais. Bonhoeffer foi radical em ver este processo não como a história da apostasia progressiva do homem em relação a Deus, mas como um aperfeiçoamento correto e conveniente.

Deus nos teria feito saber que nós devemos viver como homens que dirigem suas vidas sem ele... Diante de Deus e com Deus nós vivemos sem Deus. Deus se deixa ser empurrado para fora do mundo para a cruz.
Carta e Papéis da Prisão, 16 de julho de 1944.


A nova situação levou Bonhoeffer a questionar “o que o cristianismo realmente é, ou de fato, quem é Cristo realmente para nós hoje?” Durante dezenove séculos o cristianismo tem assumido o fato de religião e apresentado a si mesmo como a verdadeira religião. Mas como nós falamos a um mundo secular não religioso? Nós confinamos nosso apelo aos círculos reduzidos do religioso? Nós tentamos atrair as pessoas quando elas estão fracas – quando tem sido consternada ou estão enfrentando alguma outra crise – e traze-las de volta à religião? Bonhoeffer considerou estas tentativas ignóbeis e anticristãs. Nós precisamos questionar a pressuposição de que as pessoas precisam ser religiosas para se tornarem cristãs. Tal exigência pode ser comparada à necessidade dos gentios convertidos serem circuncidados e se tornarem judeus – ao que Paulo vigorosamente resistiu.

A proposta de Bonhoeffer é um “cristianismo sem-religião”. Bultmann procurou eliminar o mito do evangelho. De um lado, Bonhoeffer acusa-o de cair no erro liberal de retirar os elementos “mitológicos” e reduzir o cristianismo à sua essência. Mas por outro lado ele acusa Bultmann de não ser radical o suficiente. O problema para o homem moderno não é apenas “mito”, mas a própria religião. O homem moderno tem muito problema com o conceito de Deus como com o conceito de milagre. O cristão hoje deve aprender a falar de Deus de um modo secular e a viver seu cristianismo da mesma maneira. O cristão “deve viver uma vida ‘secular’, e por meio dela compartilhar dos sofrimentos de Deus”. “Não é o ato religioso que faz o cristão, mas participar do sofrimento de Deus na vida secular”.

Ao defender um “cristianismo sem-religião”, Bonhoeffer desejava ver o cristianismo purificado de certas facetas de religiosidade burguesa:
Metafísica. A religião tem considerado a transcendência de Deus filosoficamente e feito Ele abstrato e remoto. A salvação então é vista como escape para outro mundo – com o resultado que este mundo é desvalorizado e negligenciado.

Individualismo. Relacionado ao metafísico está o individualismo – preocupação com a própria piedade individual. Bonhoeffer reconhecia a necessidade de uma fé individual e pessoal, mas a “religião” enfatiza isto em detrimento da igreja e do mundo.

Parcialidade. A religião confina o cristianismo a uma área da vida – uma área já reduzida já que o processo de secularização prossegue. O resultado é que os cristãos vivem cada vez mais num gueto, remoto das preocupações do mundo secular.

A versão “religiosa” de cristianismo leva a uma igreja composta de indivíduos preocupados com a salvação pessoal. Sua religião leva-os a retirarem-se da sociedade secular e seus interesses para dedicarem suas energias a atividades “religiosas”. O “mundo” é visto primariamente como uma fonte de recrutas em potencial – como reino alheio a ser entrado com o propósito de libertar outros e retira-los também para o reino religioso. Ao mesmo tempo em que tal quadro contém um elemento de caricatura, indubitavelmente aproxima-se da verdade perto o bastante para provocar preocupação.

Bonhoeffer queria levar a Deus e a igreja de volta ao mundo secular. Deus deve ser visto no centro da vida - não apenas em suas fronteiras. Deus é transcendente, mas isto não significa que Ele está infinitamente remoto. “Deus está além do centro da nossa vida”. Isto é porque o cristão deve aprender a viver seu cristianismo e falar de Deus de uma maneira secular. A igreja não deve se preocupar com seus próprios interesses religiosos, mas servir o mundo. Ela tem que seguir o modelo de Jesus, “o homem para os outros”. Deve haver uma interpretação secular de cristianismo e de igreja.

Como as declarações acima devem ser consideradas? O próprio Bonhoeffer continuou a falar sobre Deus e considerou que o “novo estilo” cristão continuaria a manter uma vida de oração, pelo menos em particular. Sua última declaração registrada expressa confiança na vida após a morte e seu ato final ao pé do cadafalso foi orar. Não temos como saber como Bonhoeffer teria desenvolvido seu pensamento tivesse ele e há pouco benefício em especular sobre isto, mas com certeza, o filme “Bonhoeffer o Agente da Graça”, poderia ter representado mil vezes melhor a contribuição de Bonhoeffer para a teologia, assim como para a filosofia, e ter deixado um legado de reflexões a respeito do posicionamento do cristianismo no mundo pós-moderno secular, assim como suas obras escritas deixaram.


REFERÊNCIAS

MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia. Ed. JZE.

BROWN, Colin. Filosofia e fé cristã. Ed. Vida Nova.

LANE. Tony. Pensamento Cristão.Vol.2. Ed.Abba Press

Vídeo: Bonhoeffer o Agente da Graça.

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