sexta-feira, 11 de setembro de 2009

ROGER BASTIDE E A CULTURA AFRO-BRASILEIRA


Os cientistas sociais no Brasil estão finalmente reconhecendo a muito rica contribuição do pesquisador francês Roger Bastide que aqui mergulhou profundamente na cultura afro-brasileira, principalmente no aspecto religioso. Bastide deu ao estudo do universo africano no Brasil uma visão ao mesmo tempo científica e poética respeitando as leis e regras próprias das manifestações culturais. O cientista social traçou a estrutura, os símbolos e o sensível que envolve as religiões afro-brasileiras em sua obra prima: “O Candomblé da Bahia”, reeditado pela Companhia das Letras em 2001 (São Paulo).

Com trabalhos como este e com suas aulas de sociologia, quando foi professor da USP entre 1938 e 1957, apesar de ter criado muitas polêmicas, Bastide é um dos mais influentes cientistas sociais do país. Entre seus alunos temos Antonio Candido, Décio de Almeida Prado, Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso. Bastide também estudou profundamente as obras e teve contato direto com Câmara Cascudo, Gilberto Freyre e Pierre Verger. Criou polêmica principalmente com os marxistas ao privilegiar o cultural e até o místico na formação dos seres humanos. O livro citado acima e aqui analisado é um estudo antropológico, sociológico, etnográfico e psicanalítico pioneiro e de enorme valor em que os significados e os ritos são enriquecidos com detalhes da vivência de campo e com o contato íntimo com os atores sociais.

O CONTATO ÍNTIMO

Os primeiros estudos da cultura negra no Brasil são de Nina Rodrigues e Homero Pires e extremamente preconceituosos. Nina Rodrigues, por exemplo, via as manifestações religiosas como simples histeria e considerava o negro inferior. Manuel Querino foi o primeiro, no início do século XX, a enfatizar a contribuição essencial da cultura africana na formação da civilização brasileira. Bastide utiliza-se das obras de todos estes acima, mas de forma bem crítica.

Bastide ressalta a necessidade de um contato íntimo para se compreender as manifestações culturais. “Para fazer trabalho etnográfico, não basta descrever os ritos ou citar o nome das divindades; é preciso também compreender o significado dos mitos e dos ritos” afirma (p. 22). Esta é a qualidade, por exemplo, segundo o autor, da contribuição de Artur Ramos que “despendeu-se de todo e qualquer preconceito, quer de raça, quer de religião” (p. 23). Destaca, portanto, a extrema necessidade de abandonarmos os etnocentrismos e considerarmos, antes de tudo, que o pensamento africano é extremamente culto. Ele procura penetrar-se ao máximo e com muita calma nos valores e símbolos. “O ingresso no mundo dos candomblés efetua-se por meio de uma série de iniciações progressivas, de cerimônias especializadas (...) e é à medida que se vai penetrando no interior do santuário que os mistérios vão sendo apreendidos”, enfatiza Bastide (p. 25). Assim o autor critica a apreensão apressada do Ocidental: “quer saber de tudo desde o primeiro instante, eis por que, no fundo nada compreende” (idem). A filosofia africana foi se desvendando para Bastide por etapas lentas e envolventes, com muito mais preocupação com os sentimentos do que com a razão.

Segundo o autor, os candomblés mais puros são os de Nagô, Queto e Ijexá. Justamente, os aprofundados por Bastide neste livro. O autor também enfatiza que as festas são apenas uma parte do candomblé e que a religião está presente em toda a existência dos adeptos.

AS CERIMÔNIAS E COTIDIANO

O livro de Bastide inicia-se com a descrição detalhada das cerimônias principais do candomblé da Bahia: o sacrifício, as oferendas, o padê de Exu, os deuses intermediários e as danças preliminares e específicas para os deuses. Tudo termina com os ritos de saída quando a personalidade normal reaparece, mas para sempre modificada após a iniciação. O autor descreve com detalhes muito ricos as etapas das cerimônias e as formas de solidariedade que são criadas entre as pessoas e entre o mundo dos deuses. Ele discorda de Durkheim e dos marxistas em geral ao afirmar que: “não é a morfologia social que domina e explica a religião (...) mas ao contrário é o aspecto místico que domina o social” (p. 45). No entanto, hoje suas obras estão sendo reeditadas e devidamente reconhecidas pelos detalhes e pela ênfase nos símbolos, ritos, mitos e significados. Toda a vida cotidiana do indivíduo que segue o candomblé passa a ser influenciada diretamente por suas crenças e manifestações religiosas, defende o autor.

A POESIA AFRO-BRASILEIRA

Nas pesquisas sobre a poesia afro-brasileira, Bastide explicita mais uma vez preocupações que irão atravessar toda a sua obra sobre o Brasil. O estudo, publicado em 1943, trata das dificuldades de constituição de uma poesia afro-brasileira original, em um contexto onde os conflitos raciais encontram-se atenuados. Diante desse quadro, o intérprete vai tentar localizar os ecos africanos na poesia realizada pelos negros e mulatos no Brasil, abafados, desde o período colonial, por grossas camadas de verniz europeu.

As reflexões de Bastide sobre a presença do negro e do mulato na arte brasileira vai se desenvolver paralelamente às primeiras viagens que ele realiza pelo Brasil na década de 40, relatadas no livro "Imagens do Nordeste Místico em Branco e Preto" (1945).

Datam desse momento seus primeiros escritos sobre as religiões afro-brasileiras, objeto dos grandes trabalhos publicados na década de 60: "Religiões Africanas no Brasil", onde se encontra construída uma verdadeira sociologia das manifestações religiosas de origem africana no Brasil e "O Candomblé da Bahia", como já foi citado, estudo de caráter antropológico onde o candomblé é analisado como universo autônomo.

Os debates e críticas suscitadas pela obra de Bastide acerca dos cultos afro-brasileiros (uma das objeções diz respeito à idealização das raízes africanas, ao culto da pureza "nagô", que marcaria a visão do estudioso) só confirmam a importância de seus trabalhos. Não é possível discutir umbanda e candomblé no Brasil sem tomá-lo como referência primeira. Assim como qualquer estudo sobre sincretismo religioso não pode ignorar as noções de "princípio de corte" e de "interpenetração de civilizações" por ele elaboradas, que complexificaram a visão da heterogeneidade cultural brasileira.

Os escritos de Bastide mostram que no Brasil acervos culturais distintos se reuniram sem perderem suas características originais (daí a substituição gradativa do termo sincretismo pelo de "interpenetração"). Tal fato pode ser observado nos cultos religiosos onde os afro-brasileiros participam, simultaneamente, de dois universos culturais — o católico e o africano — que não se misturam completamente devido ao “princípio de corte”.

Seus antigos alunos (ver introdução) são unânimes em afirmar que foi pelas mãos do mestre francês que conheceram o Brasil e a cultura afro-brasileira. Seus colegas de ofício também são enfáticos nesse ponto. Diz Pierre Verger: "Foi Bastide que me revelou a África no Brasil!".

Além de seu papel docente e do impacto de sua obra entre nós, Bastide formou diversos pesquisadores através do projeto que coordenou na década de 50 com Florestan Fernandes sobre as relações raciais entre brancos e negros em São Paulo, patrocinado pela Unesco, e que deu origem a uma série de trabalhos sobre o negro e o preconceito de cor no Brasil.
Sem dúvida alguma, os estudos sociológicos de Roger Bastide sobre a cultura Afro-brasileira, são de fundamental importância para o entendimento mais profundo do sincretismo Afro-católico no Brasil.

REFERÊNCIAS

DAMIÃO, Valdemir. História das religiões. Rio de janeiro: Editora CPAD.

LEITE, Tácito da Gama. História das religiões. Rio de Janeiro: Editora Juerp, volume II.; 1965.

WILGES, Irineu. As religiões no mundo. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 4ª Edição, 1983.

BROWKER, John. Para entender as religiões. São Paulo: Editora Ática.

CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, teologia e filosofia. São Paulo: Hagnus, 2007.

Sites:

www.castingblack.com.br

www.ces.uc.pt/lab2004/pdfs/MariaLuciaBraga.pdf

www.usp.br

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