quarta-feira, 9 de setembro de 2009

SINCRETISMO AFRO-CATÓLICO


"Os negros veteranos, os ladinos, iniciavam os recém-chegados na moral e nos costumes dos brancos. Ensinavam à língua e orientavam nos cultos religiosos sincretizados. Eram ainda os ladinos que ensinavam aos boçais a técnica e a rotina na plantação da cana e no fabrico do açúcar."
(Casa grande e senzala, Gilberto Freire).

No início da década de 80, do séc. XX, começou um movimento de resgate da consciência negra. Uma valorização da cultura negra, suas tradições, sua religião. Nesse contexto, foi levantada a questão do sincretismo afro-católico, onde, muitos adeptos dos candomblés mais ortodoxos, levantaram bandeiras contra a utilização de imagens de santos católicos dentro dos terreiros e sua associação com os Orixás africanos.

Nos terreiros de Umbanda essa visão de resgate da consciência negra não foi tão forte, mas muitos terreiros e adeptos compraram a idéia de abolir as imagens dos santos católicos dos gongás e substituí-las pelos elementos característicos de cada Orixá como uma forma de tornar mais "verdadeira" o culto a esses Orixás dentro da Umbanda.

O que notamos nesse processo é que tanto os candomblecistas quanto os umbandistas, só conseguiram enxergar o sincretismo existente em suas religiões na forma de utilização das imagens, porém, não visualizaram as outras formas de sincretismo existentes dentro de seu culto. "Talvez seja mais fácil mudar de roupa do que saber o que vestir".

Com relação ao candomblé, existem outras formas de sincretismo além das imagens, como é o caso do culto de um panteão de divindades que, em sua maioria, tem culto reservado na África, como é o caso do Orixá Xangô e do Orixá Ogum. Só que com a vinda dos negros de várias localidades diferentes da África para o Brasil, devido ao tráfico negreiro, vários cultos e divindades africanas acabaram se aglutinando naquilo que conhecemos hoje como candomblés, mas que, em sua origem africana, eram formas estanques, multi-formais abrangendo mais de 2.000 Orixás.

O culto do candomblé foi formado por um processo sincrético, embora de origem africana, e, realmente, não caberia ser agregado a ele uma outra forma sincrética, incorporada num processo ou numa tentativa de aculturação do negro pelos padres católicos; de associar as divindades africanas aos santos católicos. É um ponto de vista coerente, pois os Candomblés não absorveram, na adoção das imagens dos santos, os fundamentos cristãos em seu culto ou doutrina. O que não pode ser dito em relação à Umbanda, pois ela, além de adotar a utilização do vínculo das imagens dos santos como representações dos Orixás, também incorporaram a mensagem cristã dentro de suas várias formas doutrinárias. Sendo assim, é mais fácil para os Candomblés se desfazerem das imagens dos santos católicos, do que os terreiros de Umbanda, pois se os terreiros de Umbanda retirar as imagens dos santos, também terão de retirar toda uma mensagem religiosa baseada nas palavras de Cristo.

JESUS X PRETO-VELHO

A forma religiosa cristã existente dentro dos terreiros de Umbanda pode ser percebida, principalmente, com relação aos pretos-velhos. Em suas mensagens esses guias maravilhosos sempre passam um exemplo, uma comparação, ou uma oração oriunda das palavras da fé cristã. Além disso, a sua "forma de vir à Terra", sempre curvados e exercendo uma enorme força ao se locomoverem mostra que suas presenças vêm de um grande sacrifício, e, por serem representantes do povo negro, espíritos de escravos, isso mostra que sofreram, padeceram, mas estão ali, prestes a dar uma orientação, uma palavra de conforto, uma ajuda a quem quer que seja mostrando uma resignação comparável somente a de Cristo.

Uma outra forma de identificação dos pretos-velhos com a cristandade são os elementos trabalhados por esses guias, como: o rosário, a cruz, o cruzeiro das almas, seus pontos riscados, a utilização de orações como o pai nosso e a ave Maria, ...

Os nomes que os pretos-velhos adotam também denunciam sua ligação cristã, pois estão, quase sempre, vinculados aos santos católicos ou aos anjos, como: pai João, vovó Catarina, pai José, vovó Maria, pai Cipriano,...

Podemos dizer que os pretos-velhos são "os representantes de Cristo" dentro da Umbanda ou seus mensageiros como podemos notar nos pontos cantados que são como pequenas orações, hinos de louvor aos pretos-velhos onde sempre encontramos as palavras "Jesus", cruz, cruzeiro, "Maria, mãe de deus", rosário, nomes de santos e de anjos ("São Pedro", "Miguel"), e tantas outras palavras que revelam ou denunciam esse vinculo, essa ligação, entre os pretos-velhos e a representação da fé cristã dentro da Umbanda.

MARIA X IEMANJÁ

Existe ainda, um sincretismo entre a santa católica Nossa Senhora dos Navegantes e a orixá da Mitologia Africana Iemanjá. Em alguns momentos, inclusive festas em homenagem as duas se fundem. No Brasil, tanto Nossa Senhora dos Navegantes como Iemanjá[5] tem sua data festiva no dia 2 de fevereiro. Costuma-se festejar o dia que lhe é dedicado, com uma grande procissão fluvial.

Uma das maiores festas ocorre em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, devido ao sincretismo com Nossa Senhora dos Navegantes, que é a padroeira da cidade. No mesmo estado, em Pelotas a imagem de Nossa Senhora dos Navegantes vai até o Porto de Pelotas. Antes do encerramento da festividade católica acontece um dos momentos mais marcantes da festa de Nossa Senhora dos Navegantes em Pelotas, que em 2008 chegou à 77ª edição. As embarcações param e são recepcionadas por umbandistas que carregavam a imagem de Iemanjá, proporcionando um encontro ecumênico assistido da orla por várias pessoas.

No dia 8 de dezembro, outra festa é realizada à beira mar baiana: a Festa de Nossa Senhora da Conceição da Praia. Esse dia, 8 de dezembro, é dedicado à padroeira da Bahia, Nossa Senhora da Conceição da Praia, sendo feriado municipal em Salvador. Também nesta data é realizado, na Pedra Furada, no Monte Serrat em Salvador, o presente de Iemanjá, uma manifestação popular que tem origem na devoção dos pescadores locais à Rainha do Mar - também conhecida como Janaína
Na capital da Paraíba, a cidade de João Pessoa, o feriado municipal consagrado a Nossa Senhora da Conceição, 8 de dezembro, é o dia de tradicional festa em homenagem a Iemanjá. Todos os anos, na Praia de Tambaú, instala-se um palco circular cercado de bandeiras e fitas azuis e brancas ao redor do qual se aglomeram fiéis oriundos de várias partes do Estado e curiosos para assistir ao desfile dos orixás e, principalmente, da homenageada. Pela praia, encontram-se buracos com velas acesas, flores e presentes. Em 2008, segundo os organizadores da festa, 100 mil pessoas compareceram ao local.

REUNINDO TUDO

Como podemos ver a retirada de imagens dos terreiros de Umbanda não acaba com o sincretismo afro-católico como muitos assim se referem, pois podem tirar as imagens e colocar, por exemplo, os elementos representativos de cada Orixá, mas isso não acaba com o sincretismo religioso existente dentro da Umbanda. Talvez fique mais difícil a percepção desse sincretismo, mas ela será evidente quando diante de um gongá, onde antes havia imagens de santos católicos e que agora são vistos elementos como pedra, ferro, flores... Um preto-velho começar a cantar:

Quando o galo canta
Raiou o dia
As almas pedem
Uma Ave Maria
Quando o galo canta
Raiou o dia
As almas pedem
Uma Ave Maria
Ave Maria
Cheia de graça
O Senhor está convosco
Bendita sois vós
Entre as mulheres
Bendito é o fruto
Do vosso ventre
Nasceu Jesus
Ave Maria
Cheia de graça
O Senhor está convosco
Bendita sois vós
Entre as mulheres
Bendito é o fruto
Do vosso ventre
Nasceu Jesus

A Umbanda é uma religião sincrética. Aliais, todas as religiões são sincréticas; umas mais, outras menos, mas todas são. Talvez o que os Umbandistas tenham que entender é que esse sincretismo não faz mal, e é sim, uma característica da Religião de Umbanda, que faz com que ela seja tão dinâmica, tão aberta, tão diversa em suas práticas. É ver o sincretismo como uma qualidade, um diferencial, que fez com que a Umbanda sobrevivesse como religião e abrisse suas portas às linhas que antes não existiam, mas que devido aos sincretismos e a diversidade que ele proporciona passaram a ser trabalhadas dentro da Umbanda, como: marinheiros, cangaceiros, baianos, orientais, monges (simiromba) e ciganos.

REFERÊNCIAS

DAMIÃO, Valdemir. História das religiões. Rio de janeiro: Editora CPAD.

LEITE, Tácito da Gama. História das religiões. Rio de Janeiro: Editora Juerp, volume II.; 1965.

WILGES, Irineu. As religiões no mundo. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 4ª Edição, 1983.

BROWKER, John. Para entender as religiões. São Paulo: Editora Ática.

CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, teologia e filosofia. São Paulo: Hagnus, 2007.

MARIANO, Leonardo. Educação Religiosa Vols: I e II. Coleção Docência Cristã (e - book): 2009.

OLIVEIRA, Lílian Blanck; JUNQUEIRA, Sérgio Azevedo; ALVES, Luiz Alberto Souza; KEIM, Ernesto Jacob. Ensino Religioso no Ensino Fundamental. Ed. Cortez.

BARROS, Sandra dos Reis. Ensino Religioso na Formação do Cidadão. Associação de Educação Católica de São Paulo.
site:http://www.umbanda.etc.br

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