quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

DOUTRINAS FILOSÓFICAS

FILOSOFIA ANALÍTICA



Dentro do pensamento contemporâneo, o que se costuma chamar de filosofia analítica não é exatamente um movimento homogêneo, e sim um conjunto de tendências. Mas essa denominação genérica é plenamente justificável, na medida em que, diante dos problemas filosóficos, essas tendências partilham uma determinada atitude que não tinha sido desenvolvida anteriormente.


O que faz essas correntes parecerem aparentadas entre si é a ênfase em ver a filosofia, antes de tudo, como análise -- ou seja, elucidação, esclarecimento. Nesse aspecto, seu interesse voltou-se fundamentalmente para a lógica e a análise dos conceitos subjacentes à linguagem, considerando que muitos dos dilemas filosóficos habituais podem ser resolvidos -- ou deixados de lado, por insolúveis -- mediante o estudo dos termos em que estão expostos.


Por suas concepções, a filosofia analítica se liga à tradição empirista anglo-saxônica. Não é de estranhar, portanto, que seu início se identifique com dois filósofos britânicos de Cambridge, Bertrand Russell e G. E. Moore, ambos nascidos na década de 1870, e que o enfoque dado por eles à percepção se vincule estreitamente ao proposto por John Locke no século XVII.


Bertrand Russell se caracterizou por abordar os problemas filosóficos através da lógica formal e por considerar que o único meio de adquirir conhecimento do mundo eram as ciências físicas. A teoria de Russell estava profundamente relacionada com a dos positivistas lógicos da escola de Viena, para os quais a tarefa principal da filosofia era distinguir entre as afirmações demonstráveis a partir da lógica e dos dados empíricos e as que não passavam de enunciados metafísicos indemonstráveis, ou "pseudoproposições".



Moore, ao contrário, nunca achou que fosse preciso empregar a lógica formal ou converter a filosofia em ciência. Defendeu o senso comum frente à grandiloqüência metafísica e sustentou que o caminho adequado para resolver um problema filosófico consistia em perguntar qual era sua causa.



Figura básica na história da filosofia analítica, com dois períodos criativos diferenciados e mesmo antitéticos, foi o lógico austríaco Ludwig Wittgenstein, que ensinou em Cambridge. Sua primeira fase é representada pelo Tractatus logico-philosophicus (1922; Tratado lógico-filosófico), no qual defendia um atomismo lógico. No nível lingüístico, as proposições são os átomos, ou seja, os enunciados mais simples se podem fazer sobre o mundo. Sua segunda fase foi marcada pelas Philosophische Untersuchungen (1953; Pesquisas filosóficas), publicadas depois da morte do autor,que nelas adotou pontos de vista diametralmente opostos aos anteriores. Nessa segunda obra, ele sustentou que a linguagem é um instrumento que pode ser empregado para um número indefinido de propósitos, uma instituição humana não sujeita a regras. Os "jogos da linguagem" são usos lingüísticos e correspondem à função pragmática e ativa da linguagem. As idéias de Wittgenstein nessa etapa foram acompanhadas por pensadores como os ingleses John Austin e Gilbert Ryle, os quais enfatizaram a função social da linguagem e a usaram como campo de investigação para o estudo dos processos mentais do indivíduo.


A gramática transformacional generativa do americano Noam Chomsky, que deu novo rumo às teorias lingüísticas, por sua vez adotava pontos desenvolvidos por Austin e Ryle. O enfoque mais positivista da filosofia analítica também permanece latente em diversos pensadores, entre os quais outro americano, Willard Van OrmanQuine.



FILOSOFIA CLÁSSICA


A progressiva dissolução das cidades-estados gregas e a posterior decomposição do império criado por Alexandre o Grande motivaram a decadência política da Grécia antiga. A conseqüente descrença nos ideais clássicos traduziu-se claramente nas concepções filosóficas. Assim, os grandes sistemas metafísicos se viram substituídos por outros mais pragmáticos, centrados fundamentalmente na ética e na busca da paz interior.



Essa tendência dominou o primeiro período da chamada filosofia helenístico-romana e encontrou suas figuras mais expressivas no estoicismo, que preconizava a moderação das paixões; no epicurismo, que se baseou na cosmologia atomista e exaltou a busca do prazer mediante o exercício do gozo estético e intelectual e a temperança; e no ceticismo, que negava a possibilidade do conhecimento absoluto, tese que serviu de suporte ao individualismo.


A partir das últimas décadas do século II da era cristã, porém, o mundo romano experimentou a crescente influência das religiões orientais e suas doutrinas salvacionistas, freqüentemente unidas a elementos extraídos da tradição pitagórica e dos cultos dos mistérios gregos. O maniqueísmo e as diferentes seitas gnósticas são exemplos típicos dessas tendências. O neoplatonismo, que partilhou sua orientação espiritualista, tinha porém uma base filosófica mais sólida. Seu maior pensador, Plotino, elaborou, mediante a síntese da cosmologia aristotélica e o idealismo platônico, uma concepção harmoniosa do mundo como emanação divina que exerceria influência duradoura no Ocidente.



Durante esse período ocorreu também o auge do cristianismo e a lenta elaboração da teologia cristã. Embora muitos dos primeiros pensadores cristãos tenham demonstrado hostilidade declarada à filosofia pagã, outros, inspirados numa passagem de são Paulo na qual se afirmava a existência de um conhecimento natural de Deus, que os gentios também tinham, buscaram conciliar as noções filosóficas gregas com os dogmas revelados. Nessa tendência destacaram-se os mestres da patrística grega, em especial as escolas de Alexandria e Capadócia, e, sobretudo, santo Agostinho. Este, embora tenha resgatado numerosos conceitos do neoplatonismo, destacou sempre a primazia da fé e da revelação, elaborou uma doutrina da criação como ato livre da vontade divina e estabeleceu as bases da teologia medieval.



FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA


Em reação a tão dispersas propostas e posições filosóficas vindas à luz nos anos anteriores, as primeiras décadas do século XX assistiram a um profundo debate sobre a natureza, objetivos e métodos da filosofia. De maneira geral, esse debate deu lugar à formulação de duas grandes orientações no pensamento contemporâneo: a filosofia analítica, interessada sobretudo nas relações entre filosofia e ciência e na formalização da teoria do conhecimento, e as filosofias humanistas ou existenciais, para as quais o homem é o objeto fundamental de reflexão. Entre essas, no entanto, surgiriam numerosas doutrinas intermediárias com tendência a empregar elementos de ambas as correntes. O apogeu das ciências sociais, embora tenha levado à especialização das áreas de estudo, motivou também o surgimento de novas teorias interdisciplinares, baseadas na integração dos conhecimentos proporcionados pelas diversas ciências.



A expressão filosofia analítica abrange um conjunto de correntes de pensamento que entendem a filosofia basicamente como análise dos termos da proposição filosófica. A lógica e a linguagem ganham muita importância para essas correntes, já que para elas muitas questões filosóficas podem ser resolvidas ou "dissolvidas" mediante a análise dos termos em que elas estão expressas. Na origem desse movimento estão, ao lado dos britânicos Bertrand Russell e G. E. Moore, os positivistas lógicos da escola de Viena, que conceberam a filosofia como trabalho epistemológico cujo objetivo é elucidar as afirmações suscetíveis de demonstração segundo critérios lógicos ou empíricos, e excluir as "pseudoproposições" metafísicas indemonstráveis.


Figura fundamental no pensamento filosófico analítico foi Ludwig Wittgenstein que, a partir de um atomismo lógico próximo da escola de Viena, evoluiu até a análise dos usos lingüísticos e deu origem às chamadas "escolas da linguagem comum" de Cambridge e Oxford. Cabe assinalar, não obstante, que a atitude fundamental de Wittgenstein sobre o objeto da filosofia, que consiste "não em produzir uma série de proposições filosóficas, mas em esclarecer essas proposições", não variou no curso de sua obra e constitui um paradigma central de toda a filosofia analítica, herdeira da tradição empírica.



Entre os movimentos filosóficos mais especulativos, merece destaque a fenomenologia de Edmund Husserl, voltada para a determinação da "essência" das coisas mediante a análise descritiva de sua apresentação à consciência. O propósito último do método fenomenológico seria, portanto, indagar as estruturas essenciais sobre as quais se erigem as noções científicas e os critérios de valor. O existencialismo, que estabeleceu a existência humana como eixo de toda a reflexão filosófica e influiu sobre a renovação do pensamento cristão, usou elementos da fenomenologia e das concepções irracionalistas do século anterior, enquanto diversas filosofias intuicionistas e vitalistas -- Henri Bergson, José Ortega y Gasset -- tentaram encontrar princípios comuns que pudessem explicar tanto a consciência quanto a natureza. A influência do marxismo, com sua proposta de transformação social, e da psicanálise, que revelou facetas insuspeitadas da natureza humana, foi profunda e recorrente no pensamento filosófico do século XX.



Além de persistirem as tendências citadas, na segunda metade do século XX surgiram diversas doutrinas baseadas na integração de elementos extraídos de diferentes escolas e disciplinas. Assim, Jean-Paul Sartre conciliou marxismo e existencialismo, os pensadores da escola de Frankfurt tentaram uma síntese de marxismo e psicanálise e o estruturalismo elaborou uma visão abrangente das estruturas da realidade sobre dados proporcionados pela lingüística, pela antropologia e pela psicanálise. Dentro de sua extrema variedade, em resumo, caberia definir como traços característicos da filosofia contemporânea seu interesse pelos problemas da linguagem, o simbolismo e a comunicação, e sua busca de novos instrumentos conceituais capazes de levar a reflexão sobre a natureza humana a uma dimensão aberta às transformações sociais e às novas concepções científicas.



FILOSOFIA DA CIÊNCIA



Identificada na origem com o saber em geral, a filosofia deu origem a grande número de outras disciplinas que, embora tenham se constituído como saberes independentes, mantiveram com a filosofia uma estreita vinculação. Esse processo trilhou caminhos diversos no que se refere às ciências positivas, por um lado, e às ciências sociais, por outro. Isso foi determinante para a relação que a filosofia contemporânea mantém com os distintos ramos do saber.



No que diz respeito às ciências positivas - Matemática, Física, Química, Biologia - Aristóteles foi o primeiro a definir claramente sua condição de disciplinas autônomas, embora dependentes em última instância da filosofia como ciência dos princípios primeiros. Assim, no próprio sistema filosófico, Aristóteles empregou elementos extraídos das ciências para estabelecer a teoria da alma ou do intelecto agente, fundindo harmoniosamente esses elementos em sua concepção geral da realidade e do universo.



Essa ordenação, que favoreceu o progresso individual das diferentes disciplinas, mas estabeleceu o caráter prioritário da filosofia, manteve-se até praticamente o Renascimento, quando os novos descobrimentos científicos romperam de modo definitivo a imagem aristotélica do cosmo. Durante os séculos XVII e XVIII, no entanto, ciência e filosofia mantiveram um curso paralelo e eminentes pensadores, como Descartes e Leibniz, foram ao mesmo tempo filósofos e cientistas.



Só no século XIX, com a progressiva especialização da ciência, aliada ao pensamento idealista e irracionalista que se firmava e às polêmicas em torno da validade da metafísica, começaram a se multiplicar as barreiras entre ciência e filosofia. Assim, embora a lógica e a epistemologia fossem instrumentos úteis para ambas, as escolas de tradição empirista e positivista passaram a considerar a filosofia como mera disciplina auxiliar ou, no máximo, organizadora dos dados proporcionados pelas ciências.



No pensamento contemporâneo, as relações entre filosofia e ciência são abordadas de acordo com duas grandes linhas. De um lado, as escolas como o vitalismo, o intuicionismo, e evolucionismos de diversos tipos, aspiram a coligir os descobrimentos científicos e, mediante reflexão sobre suas implicações, enquadrá-los em concepções gerais da realidade. De outro, a filosofia da ciência, disciplina de caráter essencialmente epistemológico, preocupa-se com questões como a análise crítica da metodologia, a estrutura lógica dos sistemas científicos, a elucidação e o esclarecimento dos conceitos e pressupostos básicos das ciências e a determinação dos limites e inter-relações das ciências entre si.



Ambas se guiam, de todo modo, por um interesse comum: o de estabelecer o ponto de união entre o pensamento científico e outras áreas do pensamento. Sabe-se que as atividades da ciência tendiam a ser consideradas como inabordáveis, tanto do ponto de vista metodológico como moral, a partir de critérios não-científicos. No entanto, a repercussão direta que muitas das conquistas da ciência tiveram sobre a vida das pessoas, radicalmente transformada por algumas delas, levou ao debate extra-científico de questões como o direito de fazer certas experiências.



O uso dado a algumas descobertas da física nuclear, da química e da biologia, e os progressos da engenharia genética são exemplos de problemas que sensibilizaram a opinião pública. Nasceu assim uma corrente de opinião fortemente arraigada que não considera os cientistas totalmente inocentes das aplicações perniciosas dadas a seus trabalhos. Exige-se deles uma atitude comprometida, inclusive de denúncia naqueles casos em que seu trabalho serve para objetivos bem distintos dos que os motivaram.



FILOSOFIA DA HISTÓRIA


Se a organização como ciências sociais independentes, no final do século XIX, de uma série de disciplinas até então integradas à filosofia, como psicologia, sociologia e antropologia, e o extraordinário progresso de outras, como lingüística e filosofia da linguagem, motivaram uma crescente especialização e fragmentação nos estudos sobre o homem, também permitiram, com os novos métodos estabelecidos por essas ciências, a reorganização de um extraordinário caudal de conhecimentos.



A psicanálise, a filosofia da linguagem comum, a antropologia cultural, a gramática gerativo-transformacional - que reavivou o problema filosófico tradicional da existência das idéias inatas - são, entre muitas outras, áreas de pesquisa que proporcionaram novos enfoques sobre a natureza humana e deram lugar a uma profunda reformulação da concepção clássica do homem. Fruto disso tem sido o surgimento de uma série de disciplinas - antropologia filosófica, semiótica ou teoria geral dos signos, pedagogia moderna - e de escolas - estruturalismo, escola de Frankfurt - que, de uma forma ou outra, estabelecem como objeto prioritário a integração dos dados proporcionados pelas diferentes ciências sociais numa visão unitária do homem e suas relações com o meio. Nesse aspecto, portanto, justifica-se mais uma vez a afirmação tradicional de que é precisamente a diversidade de seus interesses que garante a unidade do espírito filosófico.


FILOSOFIA DA LINGUAGEM



Filosofia da linguagem é o ramo da filosofia que estuda a essência e natureza dos fenômenos lingüísticos. Ela trata, de um ponto de vista filosófico, da natureza do significado lingüístico, da referência, do uso da linguagem, do aprendizado da linguagem, da criatividade dos falantes, da compreensão da linguagem, da interpretação, da tradução, de aspectos lingüísticos do pensamento e da experiência. Trata também do estudo da sintaxe, da semântica, da pragmática e da referência. As principais questões investigadas pela disciplina são:



Como as frases compõem um todo signiticativo? O que é o significado das "partes" (palavras) das frases? Qual a natureza do significado? O que é o significado? O que fazemos com a linguagem? Como a usamos socialmente? Qual sua finalidade? Como a linguagem se relaciona com a mente do falante e do intérprete? Como a linguagem se relaciona com o mundo?



Os filósofos da linguagem não se ocupam muito do que significam palavras ou frases individuais. Qualquer dicionário ou enciclopédia pode resolver o problema do significado das palavras. O mais interessante é o que significa para uma palavra ou frase significar alguma coisa. Por que as expressões têm os significados que têm? Como uma expressão pode ter o mesmo significado de outra? E, principalmente: qual o significado de "significado"?



A pergunta "qual o significado do 'significado'?" não tem uma resposta óbvia. A tradição empirista tratou o significado do "significado" como uma idéia provocada por um signo. Teorias da condição de verdade tratam os significados como condições sob as quais uma frase envolvendo uma expressão pode ser verdadeira ou falsa. Teorias do significado como uso entendem o significado como algo relacionado a atos de fala e frases particulares. Teorias pragmatistas tratam o significado como conseqüência. Teorias referenciais do significado tratam o significado como algo equivalente às coisas no mundo conectadas às palavras que as designam.


A filosofia da linguagem também investiga a relação entre o significado e a verdade. Frases sem significado podem ser verdadeiras ou falsas? E as frases sobre coisas que não existem, como o Papai Noel? Quando dizemos que algo é verdade, o que é verdadeiro? A frase?



A questão do aprendizado da linguagem levanta questões interessantes. É possível haver pensamento sem linguagem? O quanto a linguagem influencia o conhecimento do mundo. É possível raciocinar sem linguagem?



História



A investigação filosófica da linguagem pode ser encontrada já nos textos de Platão, Aristóteles e autores estóicos. No Crátilo (uma obra em forma de diálogo) Platão trata de questões relativas à relação entre os nomes e as coisas que os mesmos designam. Tal relação é natural ou convencional? No final do diálogo ele admite que convenções sociais estão envolvidas na fixação dos nomes às coisas e que há problemas na idéia que palavras e fonemas têm significados naturais.



Platão também é responsável pela explicação da possibilidade do discurso sobre a falsidade e o não-ser. É fácil explicar como falamos sobre o que é, existe ou acontece. Se o céu está azul, e dizemos "o céu está azul", o que dizemos é verdadeiro, pois se relaciona de maneira adequada com a cor do céu, o estado de coisas. Mas se o céu está azul, e dizemos "o céu não está azul", o que dizemos é falso, e aqui temos um problema, pois o que dizemos não se relacionada a nada. Se não se relaciona a nada, então não se relaciona, pois o nada não é nada, e não pode ser o elemento de uma relação. E, no entanto, falamos muitas coisas que não são, ou são falsas. Isso é possível, segundo Platão, porque as frases são complexas, ao contrário dos nomes, os quais são simples. Um nome designa a coisa que designa se a coisa existe, ou não designa nada se a coisa não existe. A frase não nomeia nada. Nela se atribui um predicado a um sujeito gramatical, e é nessa atribuição que há espaço para que se diga, de uma coisa, algo que não cabe a ela. Eis onde nasce a possibilidade do discurso sobre a falsidade e o não-ser.


Aristóteles ocupou-se de questões de lógica, das categorias e do significado. Ele separou todas as coisas nas noções de gênero e espécie. Ele defendeu que o significado de um predicado é estabelecido através da abstração das similaridades entre várias coisas individuais. Tal teoria deu origem ao nominalismo, na Idade Média, mas há influência aristotélica também na posição oposta, o realismo sobre os universais. Dentre os medievais, Pedro Abelardo é notável pela antecipação de muitas idéias modernas sobre a linguagem.


O debate sobre o significado dos universais interessou a vários filósofos. Qual o significado de "pedra", por exemplo? Para os realistas a palavra refere-se a uma entidade abstrata. (A teoria das formas ou idéias de Platão é um exemplo de realismo.) Para os nominalistas a palavra é um som comum que utilizamos para designar cada pedra.


A filosofia da linguagem foi considerada importante por vários filósofos modernos, incluindo John Austin, Ferdinand de Saussure, Umberto Eco, Hegel, Herder, Wilhelm von Humboldt, Kant Leibniz, Locke, Nietzsche, Charles Sanders Peirce, John Searle, Vico e Wittgenstein.


Embora os filósofos sempre tenham discutido a linguagem, ela começou a desempenhar um papel central na filosofia no final do século XIX. No século XX a filosofia da linguagem tornou-se tão central que em alguns círculos de filosofia analítica que os problemas da filosofia em geral foram tratados como problemas de filosofia da linguagem.



Linguagem e mundo


As teorias da referência investigam como a linguagem interage com o mundo. Frege defendeu uma teoria da referência na qual uma expressão tem sua referência determinada pelo sentido ou modo de apresentação, isto é, pela maneira como o referente é apresentado ao falante. Em contraste, e em resposta ao idealismo de Bradley, Bertrand Russell criou uma teoria da referência direta.A teoria da referência mediada de Frege difere da teoria da referência direta de Russell no tratamento dos nomes logicamente próprios. Na explicação de Russell, o único significado dos mesmos são seus respectivos referentes. Na explicação de Frege, qualquer expressão referencial tem um sentido e uma referência. Nomes correferenciais, como "Samuel Clemens" e Mark Twain", causam problemas para a visão diretamente referencial em geral (embora não causem problemas especificamente para a teoria da referência direta de Russell, pois na mesma nem todos os nomes próprios gramaticais são nomes logicamente próprios). A teoria de Frege, por sua vez, encontra dificuldades na articulação e especificação das características dos sentidos.


Interação social e linguagem


Os campos que examinam as condições sociais nas quais os significados e as linguagens emergem são chamados de metassemântica. A etimologia e a estilística são exemplos de áreas de investigação metassemânticas.


Na sociologia, o interacionismo simbólico é baseado na intuição que a organização social humana é baseada quase inteiramente sobre o uso de significados. Em conseqüência, qualquer explicação de uma estrutura social, como uma instituição, precisaria explicar os significados partilhados que criam e sustentam a estrutura.


Outra questão importante sobre mente e linguagem é em que medida a linguagem influencia o pensamento, e vice versa. Há várias perspectivas e sugestões. Por exemplo, a hipótese de Sapir-Whorf sugere que a linguagem limita a extensão na qual os membros de uma comunidade lingüística podem pensar sobre temas. (Há um paralelo dessa hipótese em 1984, romance de George Orwell.)


FILOSOFIA DA HISTÓRIA DA ARTE


Criação eminentemente alemã, a filosofia da história da arte ocupa um lugar intermediário entre a estética, a teoria geral da arte e a história da arte. Com a estética, participa da investigação filosófica da criação artística. Ao contrário do que faz a história descritiva da arte, procura investigar as leis do desenvolvimento artístico, considerando-as sob o ângulo historicista. Ao procurar fixar o ritmo desse desenvolvimento, visa estabelecer o sentido da história da arte. É assim uma ciência-síntese e integra as chamadas ciências do espírito.


O fundador dessa ciência foi Wilhelm Dilthey que, em Das Erlebnis und die Dichtung (1905; A experiência e a poesia), apresentou os critérios gnosiológicos de sua abordagem. Ao determinismo causalístico das ciências exatas, Dilthey preferiu a compreensão psicológica. Dessa maneira, as ciências do espírito livraram-se do naturalismo mediante um retorno radical a Hegel. Um dos fatores dessa tônica hegeliana foi a influência de Benedetto Croce, para quem o que continuava vivo na filosofia de Hegel era a supremacia do pensamento na compreensão da realidade.


No campo da historiografia das artes, essa mudança de perspectiva mostrou-se bem característica na oposição entre os métodos de Karl Schnaase e Jacob Burckhardt, o primeiro voltado para o problema das relações da arte com o conjunto da vida social e espiritual, particularmente o povo e a raça, e o último preocupado com o estudo do objeto artístico, seu valor intrínseco e suas peculiaridades. Fundou, assim, a historiografia formal da arte, cujo objetivo primordial é a crítica do estilo. Essa orientação fez de sua obra Die Kultur der Renaissance in Italien (1860; A cultura do Renascimento na Itália) um marco literário em que o Renascimento é definido como o berço da civilização moderna.


As questões da forma também atraíram a atenção de Konrad Fiedler, que trabalhou com os conceitos de Gestaltung (configuração) e Formung (conformação). Mas a síntese entre as posições historicistas e analítico-formais foi alcançada por Alois Riegl, que chegou a uma filosofia transcendental da arte e opôs-se às teorias materialistas, que faziam derivar, geneticamente, todas as formas artísticas das propriedades do material e da técnica empregados em sua elaboração.


Com seu conceito de vontade artística, Riegl contestou a concepção mecanicista que via na obra de arte um produto como outro qualquer, de fins utilitários. Vários teóricos aperfeiçoaram a visão de Riegl, entre os quais Max Dvorák, Hans Tietze, Richard Hamann, Erwin Panofsky e Fritz Saxl, que ressaltaram o caráter humano e individual da criação artística, assim como suas implicações na participação dos sentidos de quem cria e na formação dos estilos.


A forma voltou a ser o centro das atenções na obra de Heinrich Wölfflin, Kunstgeschichtliche Grundbegriffe (1915; Conceitos fundamentais da história das artes), em que ganhou especial relevo a descrição fenomenológica da arte clássica e da arte barroca. Wölfflin situa-se como mediador entre a obra de arte e o espectador: quer ensinar a ver e educar os olhos para que saibam interpretar a obra de arte.


Outra importante contribuição é a de Wilhelm Worringer, que interpretou a arte como uma espécie de história psicológica do homem. Na verdade, amplia a metodologia histórica ao assentá-la numa "psicologia do estilo", como expressão do espírito de uma época e atitude existencial do ser humano diante do mundo. O estilo, para Worringer, não se distingue como forma expressional do artista, mas como signo de um contexto histórico-cultural.


O idealismo retornou à cena com os estudos de Max Dvorák sobre os irmãos van Eyck, mas Frederick Antal tomou o caminho inverso, ao tratar da pintura florentina dos séculos XIV e XV com rigoroso realismo histórico. Já a visão sociológica foi iniciada por Michael Haberlandt, mas uma e outra perspectivas, de realismo histórico e social, ganharam vasta contribuição nas obras de Arnold Hauser, Sozialgeschichte der Kunst (1953; História social da arte) e Philosophie der Kunstgeschichte (1958; Filosofia da história da arte). Sua interpretação do maneirismo em Der Manierismus; die Krise der Renaissance und der Ursprung der modernen Kunst (1964; O maneirismo; a crise do Renascimento e a origem da arte moderna) é um dos pilares da filosofia da história da arte contemporânea.


Na atualidade, o caminho de Hauser foi enriquecido pelos estudos de Moritz Geiger (fenomenologia), do austríaco Hans Sedlmayr e do inglês Herbert Read, assim como pela participação da psicanálise -- desde os estudos do próprio Freud sobre Leonardo da Vinci e Michelangelo -- e do marxismo de Ernst Fischer, Georg Lukács, Lucien Goldman, Karel Kosik, Galvano della Volpe. O pensamento dos alemães Theodor Adorno e Walter Benjamin trouxe novas luzes para a interpretação do fenômeno da criação estética e, nos Estados Unidos, a reflexão de Fredric Jameson demonstra claramente como, na visão de Adorno, "a obra de arte reflete a sociedade e é histórica na medida em que recusa o social e representa o último refúgio da subjetividade individual em relação às forças históricas que ameaçam esmagá-la".


FILOSOFIA INDIANA


Ao contrário dos gregos, os hindus desprezaram a física e a cosmologia em favor da ontologia e podem ser considerados os verdadeiros fundadores da lógica e da metafísica. Para tanto narra a visita de um filósofo hindu a Sócrates, e o Timeu de Platão é de nítida inspiração hinduísta.


Filosofia indiana é a denominação genérica que se dá ao conjunto de concepções, teorias e sistemas desenvolvidos pelas civilizações do subcontinente indiano. Três conceitos fundamentam o pensamento filosófico indiano: o eu, ou alma (atman), as ações (karma), e a libertação (moksha). Exceto pelo charvaka (materialismo radical), todas as filosofias indianas lidam com esses três conceitos e suas inter-relações, embora isso não signifique que aceitem sua validade objetiva precisamente da mesma maneira.


Dos três conceitos, o karma, que representa a eficácia moral das ações humanas, parece ser o mais tipicamente indiano. O conceito de atman corresponde, de certa maneira, ao conceito ocidental do eu espiritual transcendental ou absoluto. O conceito de moksha como o mais alto ideal igualmente aparece no pensamento ocidental, especialmente durante a era cristã, embora talvez nunca tenha sido tão importante quanto o é para a mente hindu. A maioria das filosofias indianas aceita o moksha como algo possível, e a "impossibilidade do moksha" (anirmoksha) é tida como uma falácia material que pode tornar viciosa uma teoria filosófica.


Textos Sagrados


Os escritos sagrados da cultura hindu, sobretudo os Vedas (os mais antigos textos sagrados da Índia), os Upanishads e o Mahabharata, há muito influenciam o pensamento filosófico indiano. Os hinos védicos, escrituras hindus datadas do segundo milênio antes da era cristã, são os mais antigos registros remanescentes, na Índia, do processo pelo qual a mente humana produz seus deuses, bem como do processo psicológico da produção de mitos, que leva a profundos conceitos cosmológicos.


Os Upanishads (tratados filosóficos indianos) contêm uma das primeiras concepções da realidade universal, onipresente e espiritual que conduzem ao monismo radical (absoluto não-dualismo, ou unidade essencial da matéria e do espírito). Também contêm antigas especulações dos filósofos indianos sobre a natureza, a vida, a mente e o corpo humanos, além de ética e filosofia social.


Sistemas Ortodoxos


Os sistemas clássicos, ou ortodoxos, chamados darsanas, discutem questões como o status do indivíduo finito; a distinção, assim como a relação, entre corpo, mente e indivíduo; a natureza do conhecimento e os tipos de conhecimento válidos; a natureza e a origem da verdade; os tipos de entidades que se pode dizer que existem; a relação entre realismo e idealismo; a questão sobre se os universos ou as relações são básicos; e o importantíssimo problema do moksha, ou libertação, sua natureza e os caminhos que a ela conduzem.


As várias filosofias indianas apresentam, no entanto, tal diversidade de visões, teorias e sistemas, que se torna quase impossível distinguir características comuns a todas. A aceitação da autoridade dos Vedas caracteriza todos os sistemas ortodoxos (astika): Nyaya, Vaisesika, Samkhya, Ioga, Purva Mimansa e Vedanta. Os sistemas não-ortodoxos (nastika) entre eles o charvaka, o budismo e o jainismo, rejeitam a autoridade védica. Mesmo entre os filósofos ortodoxos, porém, a fidelidade aos Vedas limitou muito pouco a liberdade das especulações, e os Vedas podiam ser citados para legitimar uma vasta diversidade de idéias, fossem monistas ou atomistas.


Mimansa, ou Purva Mimansa, é o sistema que fornece regras para a interpretação dos Vedas e oferece uma justificativa filosófica para a observância do ritual védico. O Vedanta forma a base da maioria das escolas modernas do hinduísmo e seus principais textos são os Upanishads e o Bhagavad-Gita. Ao contrário do Mimansa, é um sistema interessado na interpretação filosófica dos Vedas, mais que com seus aspectos ritualísticos.


Em sânscrito, Vedanta significa a "conclusão" (anta) dos Vedas. Como eram muitas as interpretações, desenvolveram-se várias escolas de Vedanta que, no entanto, têm muitas crenças em comum: transmigração do eu e o desejo de libertar-se do ciclo de renascimentos (samsara); a autoridade dos Vedas como meio para essa libertação; Brahma como motivo da existência do mundo; e o atman como agente de seus próprios atos e, portanto, receptor das conseqüências da ação (phala). Todas as escolas de Vedanta rejeitam tanto as filosofias heterodoxas do budismo e do jainismo como as conclusões das outras escolas ortodoxas. Sua influência no pensamento indiano é tão profunda que se pode dizer que, em qualquer de suas formas, a filosofia hindu se tornou Vedanta.


A Nyaya examina em profundidade o método de raciocínio conhecido como inferência. Essa escola é importante por sua análise da lógica e da epistemologia. Já o Vaisesika sobressai por suas tentativas de identificar, inventariar e classificar as entidades da realidade que se apresentam à percepção humana. A Samkhya adota um dualismo coerente entre as ordens da matéria e as do eu, ou alma. Nessa escola, o conhecimento correto consiste na habilidade do eu de se distinguir da matéria. A Ioga influenciou muitas outras escolas por sua descrição da disciplina prática para realizar intuitivamente o conhecimento metafísico proposto pelo sistema Samkhya, a que a Ioga está intimamente relacionada.


Cada uma dessas escolas de pensamento foi sistematizada por meio dos conjuntos de sutras. Ao reunir um determinado número de aforismas, fórmulas ou regras breves e de fácil memorização, os sutras resumem cada uma das doutrinas.



Filosofia Indiana e Pensamento Ocidental


Entre os temas considerados pelo pensamento indiano e ignorados pelo ocidental estão a origem (utpatti) e a apreensão (jnapti) da verdade (pramanya). Os problemas que os filósofos indianos na maioria ignoraram, mas que ajudaram a dar forma à filosofia ocidental, incluem a questão se o conhecimento surge da experiência ou da razão, além das distinções entre o juízo analítico e sintético e entre verdades contingentes e necessárias.


A filosofia indiana começou a interessar o Ocidente no século XVIII, quando foi feita a tradução do Bhagavad-Gita. No século seguinte, Anquetil-Duperron traduziu do persa, em latim, cinqüenta dos Upanishads. Foi também no século XIX que a Índia entrou em contato com o pensamento ocidental, especialmente com as filosofias empiristas, utilitaristas e agnósticas da Grã-Bretanha. No fim do século, John Stuart Mill, Jeremy Bentham e Herbert Spencer eram os pensadores mais influentes nas universidades indianas.


As idéias influenciadas pelo pensamento ocidental serviram para criar uma vertente de orientação secular e racional, ao mesmo tempo em que estimularam movimentos sociais e religiosos, entre os quais o movimento Brahmo (Brahma) Samaj, fundado por Rammohan Ray. No fim do século XIX, o grande santo Ramakrishna Paramahamsa de Calcutá renovou o interesse pelo misticismo, e muitos jovens racionalistas e céticos se converteram à fé que ele representava. Ramakrishna pregava uma diversidade essencial de caminhos que levam à mesma meta. Seus ensinamentos ganharam forma intelectual no trabalho de Swami Vivekananda, seu famoso discípulo.


Século XX


A primeira faculdade de filosofia da Índia surgiu na Universidade de Calcutá, no início do século XX, e o primeiro catedrático da matéria foi Sir Brajendranath Seal, acadêmico versátil que dominava diversas disciplinas científicas e humanísticas. Sua principal obra publicada é As ciências positivas dos antigos hindus, que discorre sobre a história da ciência e relaciona os conceitos filosóficos hindus a suas teorias científicas.


Em pouco tempo, porém, os filósofos mais estudados nas universidades indianas passaram a ser os alemães Kant e Hegel, e os sistemas filosóficos antigos foram avaliados à luz do idealismo alemão. A noção hegeliana do espírito absoluto encontrou ressonância na antiga noção vedanta de Brahma. O mais eminente estudioso hindu hegeliano é Hiralal Haldar, que abordou o problema da relação da personalidade humana com o absoluto, como se evidencia em seu livro Neo-hegelianismo. O acadêmico kantiano que se tornou mais conhecido foi K. C. Bhattacharyya.


Alguns indianos que viveram na primeira metade do século XX merecem menção por suas contribuições originais ao pensamento filosófico. Sri Aurobindo, ativista político que mais tarde se tornou yogin, vê a ioga como uma técnica não apenas de libertação pessoal, mas também de cooperação com a necessidade cósmica de evolução que levará o homem a um estado de consciência supramental. Rabindranath Tagore caracterizou o absoluto como a pessoa suprema e colocou o amor acima do conhecimento.


Para Mahatma Gandhi, líder social e político, a unidade da existência, que ele chamou de "verdade", pode realizar-se pela prática da não-violência (ahimsa), em que a pessoa atinge o limite máximo da humildade. Sob a influência do idealismo hegeliano e da filosofia da mudança, de Henri Bergson, o poeta e filósofo Mohamed Iqbal concebeu uma realidade criativa e essencialmente espiritual.


FILOSOFIA ISLÂMICA


O pensamento árabe representou, em suas mais remotas origens, uma dinâmica projeção dos grandes sistemas filosóficos gregos, ainda que vazado em língua semítica e fundamente modificado sob a influência oriental. A dimensão desse fato torna-se imensa quando se considera que o Ocidente deve aos filósofos árabes quase toda a preservação, já em nível crítico, do platonismo e, sobretudo, do aristotelismo.


Filosofia islâmica é o pensamento expresso em língua árabe e intimamente relacionado à religião muçulmana que floresceu entre os séculos VII e XV. Excluem-se dessa denominação as tendências modernas e contemporâneas da filosofia árabe, analisadas apenas como floração do Oriente dentro e fora dos limites da Idade Média latina.


Na origem e, a rigor, ao longo de toda a sua evolução, a filosofia árabe transmite ao mundo ocidental os fundamentos de quase todo o pensamento filosófico do Renascimento, em particular na Espanha e na Itália. Sem a contribuição dos comentadores árabes, o Renascimento seria depositário apenas do monólogo cristão da Idade Média. Seria correto dizer que os próprios pensadores medievais, em particular os tomistas, pagaram pesado tributo a esses ousados "heréticos" orientais.


Seitas e Escolas Teológicas


Em seus primórdios, a filosofia árabe foi principalmente uma filosofia de teólogos, que devem tudo às crenças e tradições religiosas muçulmanas. Até o século IX, as especulações filosóficas do mundo árabe restringiam-se às discussões teológicas das primeiras seitas e escolas ascéticas, cuja suprema preocupação residia no exame de questões éticas e morais. O primeiro grande representante dessa época e notável cultor da reflexão moral de índole teórica foi Hasan al-Basri, que integrou o grupo chamado Companheiros do Profeta, responsável pelo início da maioria das discussões teológicas que logo se cristalizariam na constituição de seitas e escolas teológicas, como as de Antioquia (século III), de Nasibim, em comunidade de fala síria, e de Nasibim-Edessa, a principal delas, que floresceu entre os séculos IV e V e reuniu os nestorianos condenados como heréticos pelo Concílio de Éfeso (431). A esses nestorianos somaram-se depois outras seitas igualmente heréticas, como as dos monofisistas (responsáveis pela introdução do misticismo e dos ideais neoplatônicos), dos zoroastrista persas, dos pagãos de Harran e até mesmo dos judeus.


Tais seitas e escolas - no interior das quais se destacavam os nomes de Alfarabi, Avicena, Avempace, Abubaker e Averroés, os três últimos já na Espanha - dedicaram-se inicialmente a debates de questões como os atributos divinos e os conflitos entre a predestinação e o livre-arbítrio. Contribuíram consideravelmente para a concretização de uma reflexão filosófica que já se poderia dizer autônoma, cujo expoente supremo foi Alkindi, que viveu no século IX. Toda essa estratificação orgânica da filosofia árabe tornou-se possível, em grande parte, graças à transmissão ao universo muçulmano de consideráveis vertentes dos sistemas gregos, sobretudo o aristotelismo e o neoplatonismo, o que se deve à versão síria do helenismo, à atividade filosófico-religiosa dos nestorianos, ao misticismo dos teólogos monofisistas egípcios, e finalmente, às traduções muçulmanas das versões sírias dos textos gregos.


De Avicena e Algazali


Herdeiro das tradições aristotélico-platônicas de Alkindi e, principalmente, de Alfarabi, Avicena foi o mais ilustre dentre todos os muçulmanos orientais. Segundo ele, o conhecimento forma-se a partir da realidade dos objetos conhecidos, desde a consciência dos princípios primordiais até a revelação escatológica, passando pelos princípios universais ou ideais. Sua sistematização da especulação interior é de capital importância para a filosofia escolástica, que absorveu de Avicena pelo menos três noções básicas: a da existência enquanto acidente que se associa à essência; a que se relaciona ao conceito da unidade do intelecto agente, constituída à custa da ascensão da potência no ato do entendimento; e a da distinção entre a essência e a existência nos seres criados, equivalente à união destes em Deus. Além da contribuição de ordem metafísica, o avicenismo proporcionou ainda significativas modificações no campo da lógica, em que conciliou diversos aspectos dos modelos aristotélicos e estóicos.


Como os predecessores, Avicena tentou harmonizar, em suas várias obras, as formas abstratas da filosofia com as tradições religiosas do islamismo. Tal pretensão, porém, falhou em muitos pontos, o que deu origem às críticas movidas contra ele por Algazali, cujo ceticismo racionalista, particularmente visível em sua Tahafut al-falasifa (Autodestruição dos filósofos), opõe-se tanto ao aristotelismo avicenista quanto ao neoplatonismo dos demais filósofos árabes. Em outras palavras, Algazali não admite racionalização helenizante das crenças religiosas. Seu Deus é o Deus do homem religioso, e não o do intelectualismo avicenista.


Filosofia Árabe na Espanha


Paralelamente às doutrinas desenvolvidas por Avicena e Algazali, destacam-se aquelas que, a partir do século XI, foram disseminadas pelos pensadores muçulmanos na Espanha, onde sobressai o nome de Averroés, o maior dentre todos os filósofos árabes. Antes dele, distinguiram-se o filósofo judeu Avicebron, Abubaker (autor de um curioso romance filosófico) e, sobretudo, Avempace, que descreveu o itinerário seguido pelo homem para reunir-se ao intelecto agente, substância una e comum a todos os entendimentos possíveis. É essa, ainda que obscuramente expressa, a doutrina da unidade do intelecto, cujo maior nome foi Averrois.


A obra de Averrois - que, como seus predecessores, procurou conciliar filosofia e dogma - representa a maturidade e a culminância da tradição aristotélica no pensamento muçulmano da Idade Média latina. Esse trabalho teve grande influência sobre a escolástica. Em essência, o averroísmo sustentava a eternidade do mundo, que, por haver sido criado por Deus, não tinha na eternidade uma contradição. Esse mundo criado e eterno teria surgido por emanação do primeiro princípio criador, mas sua eternidade exige também a eternidade da matéria, na qual subsistiriam, desde sempre e enquanto possibilidades, as formas extraídas por Deus para formar as coisas, e não introduzidas na matéria. A essa eternidade da matéria reagiram Tomás de Aquino e os antiaverroístas. A doutrina de Averroés, no entanto, iria marcar ainda três outros momentos históricos: no princípio do século XIII (com o averroísmo latino de Siger de Brabante), no final desse mesmo século (por meio de Duns Scotus, Pietro d'Abano, Marsílio de Pádua e outros) e na segunda metade do século XV (com os averroístas da Universidade de Pádua). Ao século XV pertence também o último valor expressivo da filosofia árabe, Aben-jaldun, de tendência neoplatônica.


FILOSOFIA MEDIEVAL


A concepção cristã de Deus, do homem e da natureza dominou por completo o Ocidente medieval. Apesar disso, seria errôneo considerar o pensamento da época como um conjunto monolítico. A filosofia foi, sem dúvida, o principal instrumento a serviço da teologia, mas o problema sobre o grau de autonomia dessas áreas, tomadas uma em relação à outra, foi motivo de contínuas polêmicas entre as diferentes escolas e de numerosas condenações eclesiásticas. Particular importância assumiu a questão sobre a possibilidade de demonstração racional das verdades reveladas, que para alguns só eram acessíveis pela graça divina da fé. A proliferação dos movimentos heréticos foi outro indicador importante da inquietação espiritual que se escondia sob o manto da ortodoxia medieval.


Dominados os primeiros séculos da Idade Média pela influência da patrística e do neoplatonismo, que conheceu singular reorganização na obra de Escoto Erígena, a partir do século XI começou a crescer o número de escolas que funcionavam em conventos e catedrais, núcleos das futuras universidades. Passou a predominar assim a escolástica, que se centralizou inicialmente em temas agostinianos e platônicos. A partir do final do século XII, manifestou-se um interesse crescente pela lógica e pela metafísica de Aristóteles, graças principalmente aos comentários e traduções de autores árabes, como Avicena e Averroés, e judeus, como Maimônides.


Essa tendência atingiu o ponto máximo no século seguinte, com pensadores como santo Alberto Magno e sobretudo santo Tomás de Aquino, principal artífice da adaptação dos conceitos aristotélicos à teologia cristã. O intelectualismo tomista, que preconizava a harmonia entre filosofia e teologia, se impôs, em linhas gerais e depois de grandes dificuldades, como doutrina dominante. Ao lado dele sobreviveram, profundamente arraigadas, tendências voluntaristas -- Duns Scotus, são Boaventura -- e místicas, que rejeitavam o tomismo pelo excessivo racionalismo.


Nos séculos XIV e XV surgiram as primeiras fendas na filosofia escolástica, que viu brotarem em seu interior as sementes que propiciariam a ascensão dos ideais renascentistas. Figuras paradigmáticas nesse sentido foram Guilherme de Occam e Nicolau de Cusa. O nominalismo de Occam, dirigido a demonstrar que as verdades reveladas pertenciam ao terreno da fé e careciam de demonstração racional, propiciou de fato uma renovação científica que terminaria com o abandono da física aristotélica. Cusa, ligando a Idade Média ao Renascimento, demonstrou como o estudo da natureza e do mundo pode servir de instrumento para a intuição da divindade.


FILOSOFIA MODERNA


Assim como o pensamento renascentista se caracterizou pela decidida ruptura com as convenções medievais e a assimilação de um vasto conjunto de novos conhecimentos e inquietações, o período da filosofia moderna, que se iniciou no meado do século XVII com o avanço do racionalismo e do empirismo e chegou ao ponto culminante com Immanuel Kant, foi marcado pela disposição crítica e o desejo de estabelecer critérios de certeza que validassem o conhecimento.


Essa preocupação pela epistemologia, comum às principais escolas da época, levou a concepções filosóficas muito diferentes, de acordo com as mais diversas considerações sobre as relações entre razão e experiência. O racionalismo, que teve seu fundador em René Descartes e destacados representantes em Baruch de Spinoza e Gottfried Wilhelm Leibniz, destacou a primazia da razão e do método matemático-dedutivo como forma de conhecimento do mundo sensível, enquanto o empirismo britânico, iniciado por Francis Bacon e formulado por Thomas Hobbes e John Locke, fundamentou-se na observação, experimentação e indução -- princípios da "filosofia experimental" newtoniana -- e considerou a razão prioritariamente como organizadora das informações proporcionadas pelos sentidos. O racionalismo foi, dessa forma, a fonte de criação de grandes sistemas metafísicos, enquanto o empirismo chegou, por meio de David Hume, a uma postura próxima do ceticismo epistemológico.


Deve-se assinalar, porém, que a oposição entre racionalistas e empiristas não foi tão radical como geralmente se pretende, já que ambas as escolas destacaram o papel da razão como a mais alta faculdade humana -- embora divergissem sobre suas limitações -- e instrumento essencial para o progresso da sociedade. Essa confiança na razão e no progresso foi a marca dos pensadores do século XVIII, conhecido como Século das Luzes ou do Iluminismo, que não buscaram tanto o surgimento de novas idéias filosóficas mas a sistematização e organização das idéias já formuladas.


A publicação na França da Encyclopédie (1751-1772) dirigida por Diderot, as teorias da igualdade dos cidadãos, enunciadas por pensadores sociais como Jean-Jacques Rousseau e Montesquieu, e os ataques de Voltaire a todo fanatismo e intolerância são exemplares das atitudes dos iluministas. Outro ponto a ressaltar é que, embora autores como o italiano Giambattista Vico tentassem conciliar as novas idéias com uma visão cristã da história, o século XVIII conheceu também as primeiras doutrinas filosóficas declaradamente atéias e materialistas.


O idealismo crítico de Kant, que considerou o conhecimento como produto da aplicação de certos princípios a priori da razão sobre os dados da experiência, afirmou que não se pode conhecer a "coisa em si", mas apenas o fenômeno tal como se apresenta ao entendimento humano. Essa concepção tem sido considerada uma "revolução copernicana" na história da filosofia, por refutar a possibilidade de racionalismo e empirismo radicais e negar a validade de toda metafísica baseada na razão teórica. Pelo contrário, postulou que os objetos da metafísica, como Deus e a alma, pertencem ao terreno da moral ou razão prática e só nela podem encontrar justificação.


FILOSOFIA MORAL


Já que a quase totalidade dos sistemas filosóficos tem tradicionalmente aspirado não só à compreensão geral da realidade mas também ao estabelecimento de princípios éticos que regulassem a organização da sociedade, as teorias da política e do direito acham-se vinculadas de forma indissolúvel ao progresso da filosofia. Os dois grandes mestres do pensamento ocidental, Platão e Aristóteles, estabeleceram em seus respectivos tratados - República e Política - o conceito da filosofia política como análise da origem, essência e valor do estado e, se o primeiro criou o modelo de todas as "utopias" ou descrições do estado ideal, o segundo, que definiu o homem como "animal político", estabeleceu, mediante a classificação e ponderação das diferentes formas de governo, os fundamentos da moderna teoria política.


Durante a Idade Média, a doutrina política centralizou-se fundamentalmente no debate sobre as relações entre o poder temporal - o estado - e o poder espiritual - a igreja. A partir do Renascimento, sob novas condições sociais, a filosofia política ligou-se profundamente à filosofia do direito. Isso se deu em conseqüência da contraposição entre razão de estado e lei natural, que ganhou atualidade, ou por estímulo do surgimento das diversas concepções de estado - direito divino dos reis, contrato social etc. - que culminaram no século XIX com a teoria jurídica do estado como fonte única do direito.


Todo modelo de organização social, em suma, todo sistema político, repousa sobre a escolha de certos princípios baseados no exercício da razão filosófica. A Filosofia da História, formulada fundamentalmente a partir do século XIX graças a autores como Wilhelm Dilthey e Max Weber, constitui instrumento indispensável para a compreensão da evolução das idéias políticas e dos sistemas de valores e concepções de mundo que caracterizaram as diferentes épocas.


A pretensão de todas essas correntes de pensamento era apreender o conjunto da realidade social e oferecer um modelo global segundo o qual essa realidade deveria organizar-se no futuro. No entanto, a crescente complexidade da sociedade das últimas décadas do século XX, a profusão de forças que surgiram no meio social com influências diversas e o fracasso da tentativa de implantar alguns dos modelos sociais com raízes mais firmes, provocaram uma situação nova. Os filósofos, incapazes de captar uma realidade tão rica e cambiante, parecem ter renunciado ao objetivo de estabelecer sistemas globais.


Surgiram assim escolas que buscavam averiguar os valores que se escondiam atrás das muitas correntes ideológicas que se tornavam populares a cada momento dado. Num sentido mais geral, o filósofo atuava como observador social capaz de situar qualquer acontecimento, fosse ele de ordem política, social ou estética, num contexto no qual se tornavam evidentes suas relações com outras características da realidade.


FILOSOFIA RENASCENTISTA


A filosofia do Renascimento, marcada pelos extraordinários descobrimentos científicos e o auge do humanismo, revelou em sua riqueza e variedade as grandes transformações culturais, econômicas e sociais da época. Sua gradual autonomia em relação à teologia, favorecida pelas guerras de religião e a consolidação dos estados nacionais, propiciou o surgimento de uma nova atmosfera ideológica que se caracterizou pela crescente secularização e autonomia do saber. O mundo renascentista, que não elaborou grandes sistemas metafísicos, estabeleceu as novas questões e conceitos que determinariam o progresso da filosofia moderna mediante a indagação de três temas fundamentais: a natureza, o homem e a sociedade.


A revolução científica foi sem dúvida o eixo central das novas concepções. Ao substituir o rígido geocentrismo aristotélico-escolástico pela idéia de um universo aberto e plural, regido pelas leis da mecânica e presidido pela ordem matemática, abriu a passagem "do mundo fechado para o universo infinito" e abriu vastas possibilidades para o conhecimento. A síntese da observação e da experimentação com a dedução matemática caracterizou a atitude científica do Renascimento, que teve figuras geniais em Copérnico e Galileu, e alcançou seu ponto máximo no século XVII graças ao "sistema do mundo" proposto por Isaac Newton. Uma postura mais especulativa, baseada na idéia de homem como "microcosmo" e ponto de união entre Deus e a realidade física, distinguiu os chamados filósofos da natureza, que sofreram influência de doutrinas esotéricas como a alquimia e a cabala.


A reflexão sobre o homem e seu lugar no novo mundo descrito pela ciência foi o ponto central do heterogêneo grupo de pensadores chamados tradicionalmente de humanistas. Partilharam a rejeição aos preceitos da escolástica, o desejo de recuperar e reorganizar os valores culturais da antiguidade clássica e o interesse pela estética e a retórica. Dentro desses amplos limites ideológicos, no entanto, os autores adotaram posturas muito diversas. Em linhas gerais prevaleceram o humanismo cristão e a tendência à revalorização de Platão frente a Aristóteles, mas prosperou também um pujante neo-aristotelismo, livre já de seus lastros medievais. No domínio da moral, revitalizaram-se as escolas helenísticas inspiradas no estoicismo, no ceticismo e no epicurismo.


A ruptura da ordem feudal criou a necessidade de estabelecer critérios adequados para a organização das novas sociedades, o que encorajou um progresso extraordinário do pensamento político e social. A dicotomia básica entre práxis e ética, exemplificada pela oposição entre Nicolau Maquiavel, defensor da primazia da razão de estado, e Thomas More, cujo universalismo ético viu na virtude a base do "estado ótimo", prolongou-se no século XVII em Hugo Grotius, criador do direito natural, e Thomas Hobbes, que justificou o absolutismo como garantia única da ordem social. A difícil conciliação entre necessidade política e lei moral constituiu desde o Renascimento uma questão central na teoria política.


DOUTRINAS FILOSÓFICAS


ARISTOTELISMO


Mais do que qualquer outro pensador, Aristóteles determinou a orientação e o conteúdo da história intelectual do Ocidente. Durante séculos seu sistema filosófico e científico mediou o pensamento cristão e islâmico, e até o fim do século XVII o mundo ocidental foi aristotélico.


Dá-se o nome de aristotelismo à atividade e ao pensamento das escolas filosóficas que se inspiraram na obra de Aristóteles. O Estagirita desenvolveu uma forma de raciocinar baseada no silogismo, pelo qual duas premissas básicas (a maior e a menor) levam a uma conclusão. Para definir essas premissas básicas, usou o raciociacutenio indutivo. Dominou um enorme volume de dados empíricos nas ciências naturais, e grande parte de seus textos são descritivos.


Aristóteles criou uma vastíssima ontologia, ou teoria da natureza e relações do ser, na qual as substâncias interagem de várias maneiras para produzir objetos que diferem em propriedades como quantidade, qualidade, tempo, posição e condição de ação. A partir dessa ontologia, Aristóteles desenvolveu uma filosofia da natureza em que a matéria sofre processos de mudança dinâmica e espontânea que são, por sua vez, mediados por princípios preexistentes de forma e estrutura. Elaborou então uma hierarquia de existências que começam com os quatro corpos primários (terra, água, fogo, ar), os quais formam substâncias inorgânicas e, depois, os seres vivos: as plantas apresentam as funções de crescimento, nutrição e reprodução; os animais possuem, além dessas, as de sensação, desejo e locomoção; e os seres humanos, a faculdade da razão. Com sua alma racional, o homem pode exercer a suprema atividade, a obtenção do conhecimento.


Após a morte de Aristóteles, a escola peripatética dedicou-se a investigações científicas. A filosofia do Liceu foi retomada por discípulos como Teofrasto de Eresso e Eudemo de Rodes, que editou os escritos éticos do Corpus aristotelicum. Depois da redescoberta e exegese das obras de Aristóteles por Andronico de Rodes, por volta do ano 50 a.C., o pensamento aristotélico foi objeto de muitas exposições e comentários no mundo greco-romano. Com a queda do Império Romano, as obras de Aristóteles se perderam no Ocidente, mas foram preservadas por sábios e exegetas árabes, siríacos e judeus, entre os quais há que destacar Avicena e Averroés. Com efeito, entre os séculos IX e XIII, a filosofia islâmica fundou-se em várias interpretações do pensamento aristotélico. Os muçulmanos mantiveram vivo o legado de Aristóteles e o devolveram à Europa nos séculos XII e XIII, quando santo Tomás de Aquino faria do aristotelismo o alicerce filosófico da teologia cristã. A força do aristotelismo declinou com a afirmação da ciência moderna, mas ainda afeta de modo sutil a orientação do pensamento ocidental. Modernamente, por exemplo, serviu de ponto de partida para a "psicologia descritiva" de Franz Brentano e contribuiu para a fenomenologia de Edmund Husserl. Reponta ainda no neotomismo.


ATOMISMO


Entre as teorias dos filósofos gregos sobre a composição da matéria, o atomismo foi aquela cujas intuições mais se aproximaram das modernas concepções científicas.


Atomismo, no sentido lato, é qualquer doutrina que explique fenômenos complexos em termos de partículas indivisíveis. Enquanto as chamadas teorias holísticas explicam as partes em relação ao todo, o atomismo se apresenta como uma teoria analítica, pois considera as formas observáveis na natureza como um agregado de entidades menores. Os objetos e relações do mundo real diferem, pois, dos objetos do mundo que conhecemos com os nossos sentidos.


Atomismo Clássico


A teoria atomista foi desenvolvida no século V a.C. por Leucipo de Mileto e seu discípulo Demócrito de Abdera. Com extraordinária simplicidade e rigor, Demócrito conciliou as constantes mudanças postuladas por Heráclito com a unidade e imutabilidade do ser propostas por Parmênides.


Segundo Demócrito, o todo, a realidade, se compõe não só de partículas indivisíveis ou "átomos" de natureza idêntica, respeitando nisso o ente de Parmênides em sua unidade, mas também de vácuo, tese que entra em aberta contradição com a ontologia parmenídea. Ambos, ente e não-ente ou vácuo, existem desde a eternidade em mútua interação e, assim, deram origem ao movimento, o que justifica o pensamento de Heráclito. Os átomos por si só apresentam as propriedades de tamanho, forma, impenetrabilidade e movimento, dando lugar, por meio de choques entre si, a corpos visíveis. Além disso, ao contrário dos corpos macroscópicos, os átomos não podem interpenetrar-se nem dividir-se, sendo as mudanças observadas em certos fenômenos químicos e físicos atribuídas pelos atomistas gregos a associações e dissociações de átomos. Nesse sentido, o sabor salgado dos alimentos era explicado pela disposição irregular de átomos grandes e pontiagudos.


Filosoficamente, o atomismo de Demócrito pode ser considerado como o ápice da filosofia da natureza desenvolvida pelos pensadores jônios. O filósofo ateniense Epicuro, criador do epicurismo, entre os séculos IV e III a.C. e o poeta romano Lucrécio, dois séculos depois, enriqueceram o atomismo de Leucipo e Demócrito, atribuindo aos átomos à propriedade do peso e postulando sua divisão em "partes mínimas", além de uma "espontaneidade interna", no desvio ou declinação atômica que rompia a trajetória vertical do movimento dos átomos, o que, em termos morais, explicava a liberdade do indivíduo.


Desenvolvimentos Posteriores


A doutrina atomista teve pouca repercussão na Idade Média, devido à predominância das idéias de Platão e Aristóteles. No século XVII, porém, essa doutrina foi recuperada por diversos autores, como o francês Pierre Gassendi, em sua interpretação mecanicista da realidade física, e pelo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz, que lhe deu um sentido mais metafísico em sua obra Monadologia. Também os ingleses Robert Boyle e Isaac Newton aceitaram algumas idéias da doutrina atomística, ao sustentarem que as variações macroscópicas se deviam a mudanças ocorridas na escala submacroscópica. No século XX, com base no modelo da teoria atômica, o inglês Bertrand Russell postulou o chamado "atomismo lógico", em que transpôs para a lógica os conceitos analíticos subjacentes ao atomismo clássico.


Atomismo e Teoria Atômica


Ao comparar-se o atomismo grego com a ciência atual, é necessário destacar que o primeiro dada a unidade de filosofia e ciência, pretendia tanto solucionar os problemas da mutabilidade e pluralidade na natureza quanto encontrar explicações para fenômenos específicos. Já a moderna teoria atômica tem seu interesse centrado na relação entre as propriedades dos átomos e o comportamento exibido por eles nos diversos fenômenos em que estão envolvidos. Através do controle das reações nucleares, alcançou-se um novo nível, no qual os átomos são descritos como constituídos por partículas elementares, as quais podem transformar-se em energia e esta, por sua vez, em partículas.


CETICISMO


A verdade não existe; se existisse, seria impossível conhecê-la; e ainda que se pudesse conhecê-la, seria impossível comunicá-la. Essa fórmula resume os princípios do ceticismo e orienta a reflexão sobre os fundamentos e limites do conhecimento.


Ceticismo é uma doutrina filosófica segundo a qual, do ponto de vista teórico, não se pode conhecer a verdade e, do ponto de vista prático, só se chega à felicidade, entendida como ausência de inquietação (ataraxia), pela suspensão de todo juízo. Caracterizado por uma atitude que repele os dogmas, o ceticismo busca demonstrar a inconsistência de qualquer afirmação. A única posição justa é a recusa em assumir qualquer posição. A atitude cética, no entanto, não deve ser interpretada como indiferença: ela representa um esforço ativo por manter no espírito o equilíbrio entre as representações da realidade e as opiniões sobre essas representações.


O fundador do ceticismo antigo foi o filósofo grego Pirro de Élida, no século III a.C. Aceitando a distinção entre o que é verdadeiro por natureza e o que é verdadeiro por convenção, Pirro admite que as coisas existam por si mesmas e que tenham uma natureza, mas não que elas sejam acessíveis ao conhecimento. Não existem, portanto, coisas belas ou feias, boas ou más, verdadeiras ou falsas por natureza, mas somente por convenção ou costume. Nossos juízos sobre a realidade dependem de sensações, que são instáveis e ilusórias. O autêntico sábio, portanto, deve praticar a suspensão do juízo (epokhe), estado de repouso mental em que predomina a insensibilidade (apathia), em que nada se afirma e nada se nega (aphasia), de modo a atingir a felicidade pelo equilíbrio e pela tranqüilidade (ataraksia).


Partindo do princípio platônico de que não há ciência possível no mundo sensível, os filósofos gregos Arcesilau (século III a.C.) e Carnéades (século II a.C.) praticaram uma forma moderada de ceticismo. Ambos admitem a hipótese de que há opiniões mais ou menos prováveis e contestam a doutrina dos estóicos, para quem a verdade é evidência direta, ou seja, existe harmonia entre as representações e as coisas representadas.


No século I a.C., Enesidemo sistematizou as teses céticas sobre o caráter efêmero e a não-confiabilidade dos juízos e empreendeu uma crítica dos poderes limitados da razão. Organizou em dez tropos os argumentos céticos que recomendam a suspensão de todo juízo. A instabilidade dos juízos deve-se a diferenças entre


(1) espécies de seres animados;

(2) classes de homens;

(3) sensações;

(4) disposições humanas;

(5) posições no espaço;

(6) diversos meios interpostos entre os sentidos humanos e os objetos;

(7) estados mutáveis do próprio objeto;

(8) relações das coisas entre si e entre o sujeito e as coisas que ele julga;

(9) número de encontros entre o sujeito e os objetos que ele julga; e

(10) tipos de educação, costumes, leis, crenças e opiniões dogmáticas do sujeito.


A principal fonte de informação a respeito do ceticismo antigo são os escritos do astrônomo e médico grego Sexto Empírico, que viveu nos séculos II e III da era cristã. Sua formação levou-o a valorizar a observação prática e a busca de juízos com maior probabilidade de validade. Segundo Sexto, os argumentos do ceticismo contra os dogmáticos são:


(1) o caráter relativo das opiniões;

(2) a necessidade de uma regressão ao infinito para encontrar-se o primeiro princípio, no qual todos os outros se sustentam;

(3) o caráter relativo das percepções;

(4) toda demonstração se funda em princípios que não se demonstram, mas se admitem por convenção; e

(5) demonstrar algo supõe no homem a faculdade de demonstrar e a validade da demonstração.


Fora da antiguidade greco-romana, a identificação de elementos céticos em outras doutrinas filosóficas é uma questão sutil e controversa. De modo geral, pode-se dizer que a filosofia medieval, marcada pela teologia, permaneceu praticamente fechada à dúvida cética. Posteriormente, a influência do ceticismo pode ser apontada em pensadores tão diversos como o humanista cristão Pico della Mirandola, o matemático Gassendi e o pré-iluminista Pierre Bayle.


Montaigne, no século XVI, voltou-se inquisitiva e reflexivamente contra o antropocentrismo religioso e humanístico, que constituía a base da aspiração renascentista ao conhecimento racional universal. No século XVIII, David Hume criticou as noções metafísicas de existência e substância e o princípio racional da causalidade, sustentando que as relações de causa e efeito são indemonstráveis. Segundo Hume, todo o conhecimento provém de percepções da experiência, que podem ser impressões -- dados diretos dos sentidos ou da consciência -- ou idéias, que são combinações de impressões. No pensamento de Immanuel Kant, contemporâneo de Hume, a influência dos argumentos céticos se manifesta, por exemplo, na distinção entre fenômeno, que é objeto de conhecimento, e a "coisa em si", sempre inacessível à razão.


No século XIX, o dinamarquês Søren Kierkegaard criticou a teoria do conhecimento de Hegel, amplamente difundida e acatada, argumentando que não se pode conhecer de modo absoluto e sistemático uma realidade que é incompleta e mutável, e que a primeira das verdades é a incerteza. Suas idéias constituíram o fundamento do existencialismo, uma das correntes filosóficas mais importantes do século XX.


CINISMO


Embora o termo cinismo tenha adquirido conotações pejorativas, os cínicos gregos constituíram uma escola filosófica que adotou posturas éticas radicais.


Em 399 a.C., Antístenes, discípulo de Sócrates, abriu uma academia num ginásio que dava para a praça ateniense de Cinosargo (o cão ágil). Daí a designação de cínicos dada aos membros dessa escola. Em relação ao conhecimento, Antístenes, ao contrário de Platão, rejeitava os universais, afirmando que só existem essências individuais das coisas, e cada uma delas se conhece por meio de uma intuição indivisível. É possível comparar as coisas, mas não estabelecer julgamentos ou definir atributos a seu respeito, pois isso corresponderia a misturar essências distintas. O resultado é uma renúncia ao saber: só é necessário conhecer aquilo de que se precisa para viver.


A conseqüência ética desse pragmatismo é que a virtude, que reside na inteligência, constitui o único bem. O homem deve buscar em si mesmo a verdade e para isso deve renunciar às paixões e aos desejos e rejeitar as convenções impostas pela sociedade. Este código moral foi levado ao extremo por Diógenes de Sinope, que viveu no século IV e defendeu a idéia de uma recusa à civilização e de uma volta à natureza. Concepções mais moderadas surgiram com Crates de Tebas e Diodoro de Aspendo.


CRISTIANISMO


Entre as numerosas seitas messiânicas surgidas no mundo judeu no início do primeiro milênio, incluíam-se os discípulos de Jesus de Nazaré, antigos seguidores de João Batista. A comunidade cristã foi aceita no seio do judaísmo até o ano 65, aproximadamente, quando se consumou a inevitável ruptura entre as duas facções religiosas, motivada pela condição de Messias atribuída a Jesus por seus seguidores.


Antecedentes Históricos


Por ocasião do aparecimento do cristianismo, toda a região do mar Mediterrâneo estava sob o poder de Roma. A Palestina, desde a divisão entre o reino do norte (Israel) e o do sul (Judá), ocorrida após a morte do rei Salomão, vinha se enfraquecendo política e socialmente, num processo que culminou com a queda de Samaria, capital do reino do norte, em 722 a.C. O reino de Judá permaneceu independente até a conquista babilônica, em 605 a.C. De 586 a 539, os judeus permaneceram em cativeiro na Babilônia, mas ao ascenderem ao poder os persas promoveram a restauração, permitiram a manutenção dos costumes religiosos e culturais dos judeus e autorizaram a volta de muitos deles para Judá. Depois do cativeiro na Babilônia a região de Judá passou a ser chamada de Judéia.


Em 333 a.C., os gregos, com Alexandre o Grande, subjugaram os persas e incluíram a Palestina nos domínios macedônicos. Após a morte de Alexandre, em 323, o vasto império foi dividido entre seus generais e surgiram, após vários anos de luta, quatro grandes reinos ou impérios, dos quais os mais importantes eram o Egito e a Síria. A Palestina, situada entre os dois, servia como passagem estratégica durante as freqüentes campanhas militares. A Judéia, cuja existência social, política e religiosa se concentrava na cidade de Jerusalém, pagava tributos ao Egito e à Síria. No ano 198 a.C., o rei selêucida Antíoco III tomou toda a região, passando a Judéia ao domínio da Síria.


Em 175 a.C., subiu ao trono sírio Antíoco Epífanes, filho de Antíoco III, que se envolveu quase de imediato numa guerra com o Egito, da qual nunca saiu completamente vitorioso, sobretudo pelo apoio que os líderes religiosos judeus, principalmente os escribas, davam aos egípcios. Religião e política estavam unidas na Judéia, onde o sumo sacerdote presidia tanto os sacerdotes no grande templo quanto os anciãos no sinédrio, tribunal que julgava as questões criminais ou administrativas. Resolvido a castigar os judeus, Antíoco avançou sobre Jerusalém, derrubou seus muros e saqueou o templo, levando os vasos sagrados. Para acabar com a religião judaica, um obstáculo à submissão dos judeus, proibiu todas as formas de culto a Iavé e deu início a perseguições. O templo de Jerusalém foi profanado com a construção de um altar pagão sobre o altar dos holocaustos.


Contra essa profanação revoltaram-se os macabeus (ou asmoneus), assim como todos os judeus devotos, que se reuniram nas montanhas para organizar a luta contra os sírios. O movimento se generalizou e a guerra religiosa se transformou rapidamente numa série de triunfos. Jerusalém foi retomada e o templo reconsagrado em dezembro de 165 a.C. Quatro anos mais tarde, no entanto, um poderoso exército sírio derrotou os macabeus, que apenas puderam manter-se, como pequeno grupo rebelde, em Micmash.


Esse grupo aos poucos recuperou a confiança dos judeus e estendeu sua influência e poder, principalmente sob João Hircano, e chegou a dominar quase toda a Palestina, exceto o norte da Galiléia, conquistada mais tarde por Aristóbulo, filho de Hircano. Os saduceus apoiavam os rebeldes, mas os fariseus, ou separatistas, desaprovavam a política de Hircano por causa dos acordos que fez com Roma. Contra a ascensão de Alexandre Janeu, que acumulou os cargos de rei e sumo sacerdote, os fariseus se revoltaram, provocando violenta guerra civil, que durou vários anos, ora com a supremacia destes, ora dos saduceus. A luta somente terminou com a tomada de Jerusalém por Pompeu, em 63 a.C., o que tornou os judeus súditos de Roma.


Pompeu nomeou o edomita (descendente de Esaú) Antípatro procurador da Judéia. Sucedeu-lhe o filho Herodes o Grande (47 a.C.), que, para conquistar a simpatia do povo, reconstruiu com grande esplendor o templo de Jerusalém. Jesus teria nascido durante seu reinado, provavelmente no ano 6 da era cristã. O massacre dos inocentes, em Belém, ocorreu sob Herodes.


O reino de Herodes foi dividido, em testamento, entre três de seus filhos: Arquelau (Judéia e Samaria), Herodes Antipas (Galiléia e Peréia) e Filipe (Ituréia e Traconítides). Arquelau exilou-se no ano 6 de nossa era e seu território passou a ser administrado por procuradores romanos, dos quais o quinto seria Pilatos. Herodes Antipas governou até o ano 39, quando foi destituído e desterrado, e Filipe morreu sem herdeiros em 34. Herodes Agripa I, neto de Herodes o Grande e protegido de Calígula, conseguiu reunificar o reino do avô.


Situação Religiosa


Para o súdito romano comum, as fronteiras do império coincidiam com as do mundo civilizado. Não tinha conhecimento das civilizações indiana ou chinesa, admirava as grandes obras e orgulhava-se de seu império. A comunicação era facilitada pelas ótimas estradas e pelos navios. Uma língua comum, o grego, favorecia o intercâmbio cultural e a grande mescla de interesses religiosos, cujas fontes eram o judaísmo, outras religiões orientais, a religiosidade popular e o pensamento grego.


Judaísmo


Apesar da dominação política da Judéia pelos estrangeiros, o judaísmo manteve quase sempre intactas suas instituições religiosas. Um clero altamente organizado e politicamente influente controlava a vida religiosa e, principalmente por intermédio do sinédrio, determinava as posições políticas. Em geral os judeus mantinham a esperança messiânica, mas estavam divididos em facções e em partidos, cujas motivações eram a maior ou menor fidelidade às convicções religiosas do passado ou a atuação meramente política.

Os principais grupos organizados entre os judeus eram o dos saduceus e o dos fariseus. O primeiro, integrado por sacerdotes e aristocratas, exercia grande influência política e econômica e mantinha boas relações com Roma. Embora seguissem estritamente a lei mosaica, os saduceus, fortemente impregnados da cultura helênica, negavam a vida após a morte e o messianismo. Os fariseus, ao contrário, tinham mais preocupações religiosas do que políticas. Sua origem remonta à época dos macabeus, por volta de 130 a.C., e seu nome significa "separados", em vista do esforço que faziam para manter a fé judaica longe de todo contato com o paganismo. Acreditavam na vida eterna e eram ardorosos em sua esperança messiânica. Sua atividade dirigia-se principalmente às massas, nas quais procuravam incutir o espírito de santidade pela divulgação dos ensinamentos religiosos tradicionais.

Havia também pequenos grupos de vida mística, reunidos em comunidades de fé e trabalho, de uma das quais provavelmente se originou João Batista. Um dos mais importantes desses grupos era a comunidade de Qumran, radicada à margem do mar Morto, sem dúvida vinculada aos essênios. Sua existência só veio a ser revelada pelos manuscritos do mar Morto, descobertos em 1948. Tais comunidades consideravam a si mesmas como o remanescente fiel da história judaica. Guardavam a lei, mantinham rituais de purificação periódica, renovavam constantemente sua adesão à aliança com Deus e participavam de uma refeição sagrada de pão e vinho. Acreditavam no estabelecimento próximo de um reino trazido por um novo profeta.

Os essênios, outro grupo de tipo monástico, existiram, segundo o historiador Flávio Josefo, desde o ano 150 a.C. Suas comunidades se distribuíam por várias vilas da Palestina e exerciam grande influência na vida judaica. Apoiavam os fariseus, contra os saduceus, embora diferissem dos primeiros por praticarem o celibato, rejeitarem o sacrifício de animais e negarem a ressurreição do corpo. Aceitavam a imortalidade da alma e o castigo ou recompensa após a morte. Alguns estudiosos afirmam que tanto João Batista quanto Jesus pertenceram à comunidade dos essênios.

Sincretismo e Religiosidade Popular

Muitos outros cultos e seitas disputavam seguidores dentro do quadro geral de grandes expectativas religiosas. Entre os movimentos de maior êxito estavam os cultos orientais de mistério, de enorme popularidade, favorecidos pela vinda de escravos do Oriente, adotados até mesmo por soldados romanos de ocupação. Entre esses cultos destacam-se o de Ísis e Serápis, do Egito; Cibele e Átis, da Síria, e Mitras, da Pérsia. Essas religiões, ao lado de outras expressões do próprio judaísmo, favoreceram um notável sincretismo, talvez o maior movimento de amálgama de religiões diversas registrado pela história, que incluiu sínteses de crenças radicalmente opostas. Exemplo disso é a fusão de cultos naturalistas com o deus adorado por Israel (Dioniso Sabázio, da Frígia, e o Kyrios Sabaoth).

Entre o povo se praticava grande número de superstições. Todos os atos da vida, as profissões, as estações do ano e os acontecimentos mais importantes tinham seus deuses, que futuramente apareceriam, transmudados em santos, na história da igreja cristã e em seu calendário. Muitos pregadores se tornaram populares e freqüentemente abusavam das crenças do povo. Também os governadores criaram cultos do estado e para si próprios. O culto da deusa Roma já se encontrava em Esmirna em 195 a.C.; em Pérgamo, no ano 29 a.C., havia um templo dedicado a Roma e a Augusto.

Pensamento Grego

A influência predominante entre as camadas mais cultas da população era, contudo, a do pensamento filosófico grego, que teria grande importância na posterior formação da teologia cristã. As "virtudes naturais" ensinadas por Sócrates, a idéia da imortalidade da alma, de Platão, a fagulha divina e o logos de Aristóteles foram algumas das idéias que moldaram o pensamento cristão. Entre o estoicismo e o cristianismo houve mesmo alguns elementos comuns. A noção de uma fonte universal e modeladora de tudo o que existe, uma alma inteligente que se expressava na razão humana -- isto é, o próprio Deus dentro de cada um -- influenciou decisivamente na formação da teologia cristã. Fílon, filósofo judeu de Alexandria, contemporâneo de Jesus, tentou refundir a fé judaica em Deus por meio de conceitos estóicos e platônicos, fornecendo outra fonte para a teologia dos pais da igreja.

Outras Influências

A reconstrução do templo, que recuperou um dos símbolos mais importantes da história do povo judeu, ressaltou o contraste com a informalidade e a simplicidade do cristianismo primitivo e foi uma das imagens que Jesus usou para afirmar sua concepção sobre um novo relacionamento com o Deus de Israel. A tradução grega do Antigo Testamento, a dos Setenta, outro estímulo ao pensamento da época, favoreceu a universalização do cristianismo. Os autores do Novo Testamento usaram esse texto para comparar as novas doutrinas às antigas.

Doutrinas

A política de Roma em toda a extensão de seus domínios caracterizou-se pelo respeito aos costumes e às línguas dos diferentes povos conquistados, o que favoreceu a variedade de idéias religiosas, tanto as de caráter popular como as de natureza mais racional. O cristianismo surgiu, portanto, numa época de intensa fermentação religiosa; sua doutrina e teoria sofreram, ao longo de seu período de formação, o impacto dessas várias fontes. As concepções cristãs se resumiam, no início, a um acento original conferido ao cenário religioso da época. As primeiras revelações, manifestadas por João Batista, confirmadas e ilustradas abundantemente por Jesus, se referiam a alguns elementos religiosos conhecidos e a outros cuja originalidade constituiu a força dinâmica da expansão do cristianismo.

À idéia de um Deus único e justo, enfatizada pelos últimos profetas do judaísmo no Antigo Testamento, Jesus acrescentou uma revelação pessoal, que não teve o conteúdo que os judeus esperavam -- um reino político --, mas o do Messias sofredor, que daria a vida pela remissão dos pecados e pela salvação de todos os homens que o aceitassem. À rigidez da revelação definitiva e consumada, motivo de orgulho e convicção de alguns partidos religiosos e estatuto civil em muitos casos, Jesus opunha a liberdade do poder de Deus. Embora não rejeitasse a Lei e os profetas, quebrou princípios enraizados nas interpretações oficiais.

A negação do mundo, uma vida de recompensas ou de castigos, novos ritos de iniciação (batismo em vez de circuncisão), igualdade entre todos os homens, uma vida moral e justa baseada na soberania de Deus eram os ensinamentos que Jesus transmitia, levando uma vida de pobreza e sacrifício, seguida, conforme os relatos do Novo Testamento, de muitos milagres. A afirmação de Jesus sobre sua própria morte, da qual ressuscitaria, tornou-se uma convicção comum entre seus primeiros discípulos e se incorporou às doutrinas fundamentais estabelecidas pelo apóstolo Paulo.

Ensino de Jesus

A atividade pública de Jesus, segundo o evangelho de Lucas, iniciou-se no 15o ano do reinado de Tibério, correspondente ao ano 28, quando Jesus teria 32 anos de idade. Sua pregação foi antecipada por João Batista, homem de vida ascética, que muitos iam ouvir no deserto, sendo batizados quando confessavam arrependimento e o desejo de vida nova. Jesus não somente fez muitas referências a João, mas foi também por ele batizado. O ensino de Jesus está narrado nos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, chamados sinópticos, e também no de João.

Saber se Jesus se considerava o Messias (Khristós, em grego) constitui um problema. Os evangelhos em geral a ele se referem como tal, uma vez que, quando foram escritos (mais ou menos entre os anos 70 e 98), tal crença já estava sedimentada entre os discípulos de Jesus. Não obstante, textos como os de Mc 9:41 e 14:61, nos quais o nome Cristo aparece, são de autenticidade duvidosa, segundo a opinião de exegetas conservadores, que consideram o emprego do vocábulo grego Khristós, sem artigo, próprio da linguagem de Paulo e não dos evangelhos sinópticos.

Assim, Jesus se manifestava como a revelação do Pai, de quem viera e para quem retornaria -- o que constituía uma blasfêmia para os judeus -- e como o Caminho, a Verdade e a Vida. Em seu método de ensino predominavam as parábolas, das quais aproximadamente 35 constam dos evangelhos. Não havia em sua pregação, contudo, o caráter formal de toda teologia elaborada, mas apenas um esquema geral de doutrina. Na primeira fase de seu ministério, Jesus fala sobre o Reino, sua realidade, caráter e significação, mas não o relaciona com sua pessoa. Somente em Cesaréia de Filipe (Mc 8:29) dirige a Pedro uma pergunta que induz o apóstolo a responder que Jesus era o Messias.

Elaboração da Teologia

A pregação dos primeiros apóstolos, dirigida aos judeus, ainda não constituía uma cristologia definida, que começaria a ser elaborada mais tarde, com os capítulos iniciais dos Atos e as epístolas de Tiago. Reiterava-se a afirmação de que Jesus era o Senhor e o Cristo, aquele de quem os profetas falaram, que veio para o julgamento e a salvação.

Coube a Paulo, convertido em torno do ano 35, a tarefa principal na expansão do cristianismo além das fronteiras da Palestina e na sistematização de suas doutrinas. As polêmicas de Paulo com os judeus, levantadas pelo número cada vez maior de conversões, foram determinantes na caracterização do cristianismo como religião universal e não como seita judaica.

A questão sobre a permissão para os judeus comerem juntos com gentios e o rito da circuncisão foram elementos preponderantes nesse debate e temas principais do Concílio de Jerusalém, reunido no ano 49. As epístolas de Paulo, dirigidas às comunidades fundadas por ele ou por outros missionários, forneceram as bases para as doutrinas da encarnação, da Trindade, da expiação, do Espírito Santo, da organização da igreja e da mais completa igualdade dos homens, a começar entre judeus e gentios.

O quarto evangelho, atribuído a João, que apareceu entre os anos 95 e 98 (segundo outros, em 110), talvez em Éfeso, deu outra importante contribuição para a sistematização das doutrinas cristãs. Não se sabe ao certo, porém, se a peculiaridade de suas idéias pode ser atribuída ao conhecimento efetivo do ensino e da vida de Jesus ou à influência do pensamento grego ou gnóstico. O uso da palavra grega logos, no prefácio do livro, explica a seleção das narrativas e sua profundidade, já que o autor conhecia o mundo judaico e o grego. O quarto evangelho parece, muitas vezes, uma continuação do pensamento paulino (Paulo esteve demoradamente em Éfeso), sobretudo os textos sobre a preexistência de Cristo e a universalidade de sua mensagem.

Concílios e Escolas

O livro dos Atos dos Apóstolos, escrito por volta do ano 90 sobre fatos ocorridos provavelmente entre os anos 29 e 63, constitui o primeiro esforço de organização do cristianismo. Em At 15 se registra a realização do primeiro concílio, o de Jerusalém, no ano 49. A partir de meados do século II realizaram-se concílios, ou sínodos, com a finalidade de resolver questões relativas às heresias da época. No final desse século, estabeleceu-se em Alexandria, grande centro de cultura do Império Romano, a Escola de Catecúmenos, instituição onde se ensinava a filosofia grega e a doutrina cristã.

A partir de 325, com o Concílio de Nicéia, começaram a celebrar-se concílios maiores, chamados ecumênicos, convocados também com a finalidade de estabelecer a posição da igreja em relação às doutrinas consideradas heréticas.

No século XIX, multiplicaram-se os estudos que examinam a doutrina cristã dentro do contexto das situações históricas e sociais, em oposição às formas monolíticas e estáticas que consideravam as doutrinas como um conjunto de verdades imutáveis.

Expansão

A perseguição à igreja, movida por Saulo de Tarso, antes de sua conversão, quando adotou o nome Paulo, e a morte do primeiro mártir, Estêvão, tiveram como conseqüência a expansão do cristianismo para além das fronteiras da Palestina, quando fugitivos da perseguição alcançaram a Fenícia, Chipre e Antioquia. A conversão de Paulo, que antes perseguia os cristãos, contribuiu enormemente para a divulgação da nova fé.

Depois do final da era apostólica, um período de cerca de quarenta anos permaneceu obscuro na história do cristianismo. Há indicações de que essa época, em que foram escritos os evangelhos e as epístolas, conheceu muitas mudanças e intenso trabalho missionário. Por volta do ano 100, o cristianismo já se havia estabelecido na Macedônia, na Anatólia, na Síria, na Grécia, em Roma e, possivelmente, no Egito. Apesar das diferenças entre as igrejas nas várias localidades onde se firmou o cristianismo, sua organização se deu em meados do século II e foi um dos meios usados pela igreja nascente para combater mais efetivamente as heresias da época.

No final do século II a igreja cristã já se denominava católica (universal), termo usado pela primeira vez por santo Inácio de Antioquia. A primeira tentativa de estabelecer o cânon do Novo Testamento é também desse período. Ao redor do ano 150, a Bíblia grega foi traduzida para o latim, para uso na África. A partir do ano 300, quando o cristianismo já estava presente em todos os pontos do império -- incluindo agora o norte da África, a Itália central, a Gália meridional e a Espanha --, vários oficiais do governo e funcionários imperiais se converteram, levando o cristianismo para as classes mais altas da sociedade e também a membros do exército romano.

No século IV a situação mudou radicalmente, em especial no Ocidente, primeiro com o afastamento voluntário de Diocleciano, em 305, e depois com um edito de tolerância para com os cristãos, de Galério, "sob a condição de que nada pratiquem que seja contrário à disciplina". Constantino, aclamado imperador no Oriente, partiu para a conquista do Ocidente. Durante o sono, imaginou ter visto as iniciais do nome de Cristo, com a inscrição "in hoc signo vinces" ("com este sinal vencerás"). Ao triunfar na batalha contra Maxêncio, em 312, aderiu ao cristianismo e, em 313, concedeu plena liberdade aos cristãos. Em 323, com a derrota de Licínio, que ainda controlava parte do império, foram abolidas totalmente as perseguições ao cristianismo. Iniciou-se assim uma nova fase de sua história: a união com o poder político, que culminou sob o governo de Teodósio I, em 380, quando foi proclamado religião oficial do estado.

DEÍSMO

Segundo Louis de Bonald, pensador francês que se opôs à revolução de 1789, deísta é quem não teve tempo de chegar a ser ateu; mais de um século depois, seu compatriota Paul Hazard afirmaria que é quem não quis chegar a ser ateu. As duas opiniões ilustram a controvérsia em torno do deísmo.

Deísmo é a denominação genérica dada às doutrinas filosóficas e religiosas, surgidas sobretudo no fim do século XVII, que afirmavam a existência de Deus como exigência da razão, independentemente de qualquer revelação, histórica e positiva, e a partir da identificação da razão com a natureza. O conceito coincide com o teísmo no fato de admitir a existência de um Ser Supremo, criador do mundo e diferente dele; mas difere do teísmo ao considerar que a responsabilidade desse deus em relação ao mundo é unicamente a de lhe haver dado leis: uma vez realizado o ato de criação, não se ocupa do mundo - abandonado a suas próprias leis físicas - nem pede nenhum culto por parte dos homens. Tais formulações, contudo, não são comuns a todos os pensadores que foram chamados deístas. Nem se pode dizer que estes elaboraram um corpo doutrinário específico.

Raízes do Deísmo

De uma perspectiva histórica, o deísmo é um fenômeno cultural típico dos séculos XVII e XVIII, que se enraíza no humanismo antropocentrista do Renascimento - o qual deslocou de Deus para o homem o interesse cultural -, no cientificismo então nascente, no racionalismo e no empirismo.

Os representantes dessa tendência compartilhavam tanto a confiança na capacidade da razão como a suspeita quanto a tudo o que pretendesse superá-la. De igual modo, acreditavam numa forma de religião natural, isto é, aceitavam a existência de um substrato religioso que podia ser captado racionalmente, mas negavam qualquer fator sobrenatural e consideravam que tudo o que se podia conhecer desse Ser Supremo era sua própria criação, a natureza, na qual o homem devia buscar suas normas de conduta.

Nem todos os pensadores deístas, contudo, coincidiam nas posturas filosóficas e religiosas, nem chegavam ao postulado extremo de que Deus carecesse totalmente de relações com o mundo. Em muitos aspectos, portanto, o deísmo era uma forma de justificação racional do sentimento religioso, que se opunha ao recurso à fé e à revelação.

Histórico. O termo "deísmo" foi cunhado na França no século XVIII, mas as teses deístas já haviam sido expostas na primeira metade do século anterior por Lord Herbert Cherbury, considerado o pai do deísmo britânico. A difusão do deísmo na Inglaterra se deveu em boa parte à oposição tanto à Igreja Anglicana como ao fanatismo puritano. Assim, o livre-pensador John Toland, autor do célebre tratado Christianity not Mysterious (1696; Cristianismo sem mistérios), afirmou que "a autêntica religião não é senão o exercício da moralidade considerada como obediência a Deus".

Voltaire divulgou na França as obras dos deístas ingleses. Contudo, a base empirista britânica foi substituída por um fundamento mais próprio do racionalismo francês: à defesa do "grande arquiteto" do universo acrescentou-se o anticlericalismo dos enciclopedistas. Assim, embora o próprio Voltaire acreditasse numa forma de providência divina, outros pensadores franceses - como Diderot, que considerava "teístas" os deístas ingleses - prontamente evoluíram para o ateísmo.

Na Alemanha, terceiro grande foco do Iluminismo europeu, o deísmo adquiriu matizes mais acadêmicos. H. S. Reimarus considerava que a religião revelada nada pode acrescentar à religião natural, caso contrário Deus estaria corrigindo sua própria obra. Kant, o mais importante filósofo alemão do século XVIII, acentuou os aspectos éticos da religião natural e afirmou que os princípios morais não são produtos da revelação, mas inatos à razão humana.

Em linhas gerais, portanto, o deísmo é menos uma doutrina estrita que uma tendência filosófica que realça, em maior ou menor grau, a liberdade humana dentro do conjunto da criação.

DETERMINISMO

"E a primeira manhã da criação escreveu / o que a última alvorada do dia do juízo lerá." Com esses versos, o poeta persa do século XII Omar Khayyam expressou um conceito determinista do universo.

Chama-se determinismo a teoria filosófica segundo a qual todos os acontecimentos do universo obedecem a leis naturais de tipo causal, ou seja, a natureza, a sociedade e a história se subordinam a leis e causas necessárias. As concepções deterministas podem ser rastreadas no atomismo grego do século V a.C., mas no sentido moderno só se estabeleceram no século XIX.

As doutrinas deterministas, em geral, se encontram vinculadas a explicações mecanicistas da realidade. A formulação determinista clássica foi feita pelo físico francês Pierre-Simon Laplace na Théorie analytique des probabilités (1812; Teoria analítica das probabilidades), em que afirma que, se num momento dado fossem conhecidas todas as forças da natureza e o estado de cada um de seus componentes, seria possível determinar tanto o passado quanto o futuro mediante análise matemática.

O que distingue essencialmente o determinismo de outras teorias não é a aplicação da relação de causalidade, mas o uso extremado desta, ao supor que as mesmas causas, em circunstâncias iguais, produziriam sempre os mesmos efeitos. Teses como o princípio de incerteza, de Werner Heisenberg -- segundo o qual é impossível conhecer ao mesmo tempo a posição e a energia de uma partícula subatômica -- e a teoria quântica mantêm a noção de causalidade, mas negam a noção de previsibilidade própria do modelo clássico da física mecanicista.

Os deterministas radicais estendem o determinismo da natureza às ações humanas, que seriam tão condicionadas e inevitáveis como os fenômenos naturais. A essa postura moral se opôs Kant, no fim do século XVIII, para quem o determinismo se aplica aos fenômenos, mas no campo ético existe o livre-arbítrio.

A conseqüência mais importante do determinismo radical é a negação da possibilidade de agir livremente, o que, segundo os defensores dessa teoria, não exime o homem da responsabilidade sobre seus atos, porquanto sempre será possível prever os resultados destes. Esse conhecimento se transforma em nova causa da ação. A concepção determinista foi combatida por filósofos existencialistas, para quem a liberdade é fator indissociável da condição humana.

DUALISMO

Coube a René Descartes estabelecer a doutrina dualista no campo da filosofia, e foi Christian von Wolff quem primeiro utilizou o conceito em sua concepção moderna.

Dualismo é o sistema filosófico ou doutrina que admite, como explicação primeira do mundo e da vida, a existência de dois princípios, de duas substâncias ou duas realidades irredutíveis entre si, inconciliáveis, incapazes de síntese final ou de recíproca subordinação. Na acepção filosófica moderna, refere-se à dualidade de corpo e espírito como entidades inconfundíveis e irredutíveis, em oposição ao monismo.

No sentido religioso e ético, são classificadas como dualistas as religiões ou doutrinas que admitem uma divindade criadora positiva, princípio de todo bem, e outra, que se lhe opõe, destruidora, negativa, princípio do mal, sempre em luta com o bem. Incluem-se aí o masdeísmo, os escritos morais de Plutarco (45-127), o gnosticismo e o maniqueísmo. Ainda em sentido religioso, e metafísico, é dualista a filosofia pitagórica, com suas dicotomias entre o perfeito e o imperfeito, o limitado e o ilimitado, o masculino e o feminino etc., como elementos de explicação da criação do mundo e de seu movimento.

Na teoria do conhecimento, são dualistas as doutrinas que distinguem, como irredutíveis, o sujeito e o objeto (como no kantismo), a consciência e o ser, o eu e o não-eu, como realidades irredutíveis. Do ponto de vista ético, são dualistas as teorias que distinguem como inconciliáveis o bem e o mal, a liberdade e a necessidade, o dever e a inclinação, como acontece com o estoicismo e com a moral kantiana.

A oposição entre dualismo e monismo não pode ser tomada como marco definitivo e radical nas concepções filosóficas. Não só há os sistemas ecléticos, e os que admitem mais de dois princípios, como ainda os que superam a oposição, sem lhe reconhecer a irredutibilidade radical.

ECLETISMO

Por ocasião de crises históricas e culturais, é comum que o pensamento se volte para sínteses de partes heterogêneas das várias doutrinas do passado.

Dá-se genericamente o nome de ecletismo a posições filosóficas, metodológicas ou doutrinárias caracterizadas pela justaposição crítica e pela síntese de teses conciliáveis de sistemas filosóficos diversos, conforme determinados critérios de verdade. O ecletismo manifestou-se freqüentemente na filosofia greco-romana e no Renascimento. Em sentido estrito, o ecletismo foi uma fase da filosofia moderna, da primeira metade do século XIX, que ocorreu principalmente na França e se caracterizou pelo uso do método introspectivo, com o propósito de fundamentar na consciência e na vida espiritual a tradição religiosa e política.

O ecletismo francês foi influenciado pela filosofia do senso comum de Thomas Reid e da chamada escola escocesa, que retomou a reflexão ou experiência interna empregada por Montaigne, Pascal, Descartes e Malebranche, desvalorizada depois pelo Iluminismo. Seu primeiro representante foi Maine de Biran, que fundamentou a vida psíquica na percepção que o eu tem de si mesmo. Esta realidade primordial é a consciência, fonte de todas as faculdades, mesmo as intelectuais.

Victor Cousin foi chefe da escola eclética francesa, filosofia oficial do período situado entre julho de 1830 e a queda da monarquia constitucional, em 1848. Para justificar os testemunhos da consciência, Cousin recorre a Deus, princípio que garante a fundamentação das verdades eternas, dos princípios imutáveis e dos valores absolutos.

EMPIRISMO

Na história do pensamento, o racionalismo fundou-se sobre a crença na capacidade do intelecto humano para compreender a realidade. Incorreu, todavia, em excessos metafísicos que fizeram dele um sistema filosófico fechado. Diante disso, surgiria na Inglaterra o empirismo, segundo o qual nenhuma certeza é possível, nenhuma verdade é absoluta, já que não existem idéias inatas e o pensamento só existe como fruto da experiência sensível.

Empirismo é a doutrina que reconhece a experiência como única fonte válida de conhecimento, em oposição à crença racionalista, que se baseia, em grande medida, na razão. O empirismo deu início a uma nova e transcendental etapa na história da filosofia, tornando possível o surgimento da moderna metodologia científica. Do ponto de vista psicológico, identifica-se com "sensualismo" ou "sensismo", pelo menos em seus representantes mais radicais. Comparado ao positivismo, designa principalmente o método, enquanto o positivismo designa a doutrina a que esse método conduz. Em termos estritamente gnosiológicos, o que o caracteriza e define é a afirmação de que a validade das proposições depende exclusivamente da experiência sensível. Na perspectiva metafísica, identifica-se o empirismo com a doutrina que nega qualquer outra espécie de realidade além da que se atinge pelos sentidos.

Caracterização

Nem sempre é fácil distinguir empirismo e ceticismo. Considerado o fato de que o empirismo não participa da dúvida universal, muitos entendem válida sua conceituação como forma expressiva de dogmatismo. Todavia a dificuldade de caracterizá-lo decorre do número elevado de suas ramificações. O fenomenismo de David Hume e o imaterialismo de George Berkeley são duas de suas ramificações mais significativas, às quais convém ainda acrescentar o próprio positivismo. Apesar dessas diversificações, alguns autores pretendem caracterizá-lo mediante seis afirmações básicas, algumas delas essencialmente expressivas de suas formas mais radicais.

São elas:

(1) não há idéias inatas, nem conceitos abstratos;

(2) o conhecimento se reduz a impressões sensíveis e a idéias definidas como cópias enfraquecidas das impressões sensoriais;

(3) as qualidades sensíveis são subjetivas;

(4) as relações entre as idéias reduzem-se a associações;

(5) os primeiros princípios, e em particular o da causalidade, reduzem-se a associações de idéias convertidas e generalizadas sob forma de associações habituais;

(6) o conhecimento é limitado aos fenômenos e toda a metafísica, conceituada em seus termos convencionais, é impossível.

Histórico

O empirismo revelou-se na filosofia grega sob a forma sensualista, citando-se como seus representantes Heráclito, Protágoras e Epicuro. Na Idade Média seu mais significativo adepto foi Guilherme de Occam; expressou-se então por meio do nominalismo, cuja tese central é a não-existência de conceitos abstratos e universais, mas apenas de termos ou nomes cujo sentido seria o de designar indivíduos revelados pela experiência.

O empirismo moderno tem como seus principais representantes John Locke, Thomas Hobbes, George Berkeley e David Hume. Mas não se esgota aí o movimento. Sem dúvida, Jeremy Bentham, John Stuart Mill (em que o empirismo se converte em associacionismo) e Herbert Spencer podem ser citados como figuras representativas do fenomenismo nos domínios da ética, da lógica e da filosofia da natureza.

Esse empirismo enfrentou uma série de dificuldades, sendo a principal e mais profunda a que Immanuel Kant reconheceu, ao proceder, em sua Kritik der reinem Vernunft (1781; Crítica da razão pura), à distinção entre a experiência enquanto passo inicial do conhecimento e enquanto dado absoluto do conhecimento.

O significado do empirismo pode ser examinado considerando a validade de suas afirmações centrais. Tais afirmações são:

1. a rejeição da tese das idéias inatas;

2. a negação das idéias abstratas;

3. a rejeição do princípio da causalidade e, por decorrência e generalização, dos primeiros princípios da razão.

A argumentação contra o inatismo foi esgotada por Locke. Negadas as idéias inatas enquanto idéias explicitadas, elas não poderiam deixar de estar presentes nas crianças e nos selvagens. A possibilidade de sua preexistência, meramente virtualizada ou implícita, desde logo é prejudicada, por se revelar contraditória com a conceituação da consciência tal como a formulou Descartes e tal como a admitiu Locke. A argumentação contra a validade da teoria da abstração é da autoria de Berkeley. Hume considera-a definitiva e irrespondível.

Segundo Berkeley, não se poderia conceber isoladamente qualidades que não podem existir em separado, como cor e superfície. Nenhuma condição existe para se pensar em cor, senão em termos de extensão ou superfície; a vinculação de uma à outra é essencial. De resto esse foi um dos caminhos explorados por Edmund Husserl, em função da técnica das variações imaginárias, para atingir o reino das essências. Ainda segundo Berkeley, qualquer representação será individual. Não se representa o homem, mas Pedro ou José. O triângulo conceituado nunca deixará de ser isósceles ou escaleno.

A crítica ao princípio da causalidade foi feita por Hume e constitui um dos pontos centrais de sua contribuição à epistemologia. A causalidade, entendida como poder de determinação e como relação necessária, é recusada. Nenhuma fundamentação sensorial se lhe poderia oferecer. Apenas se admitem seqüências de eventos reforçadas em termos de hábitos. Aceita e ampliada sua validade, a crítica invalida todos os chamados primeiros princípios. Precisamente assim procederam Stuart Mill, Spencer e, mais modernamente, L. Rougier, Charles Serrus e todo o Círculo de Viena.

EPICURISMO

Os princípios enunciados por Epicuro e praticados pela comunidade epicurista resumem-se em evitar a dor e procurar os prazeres moderados, para alcançar a sabedoria e a felicidade. Cultivar a amizade, satisfazer as necessidades imediatas, manter-se longe da vida pública e rejeitar o medo da morte e dos deuses são algumas das fórmulas práticas recomendadas por Epicuro para atingir a ataraxia, estado que consiste em conservar o espírito imperturbável diante das vicissitudes da vida.

Epicuro nasceu na ilha grega de Samos, no ano 341 a.C., e desde muito jovem interessou-se pela filosofia. Assistiu às lições do filósofo platônico Pânfilo, em Samos, e às de Nausífanes, discípulo de Demócrito, em Teos. Aos 18 anos viajou para Atenas, onde provavelmente ouviu os ensinamentos de Xenócrates, sucessor de Platão na Academia. Após diversas viagens, ensinou em Mitilene e em Lâmpsaco e amadureceu suas concepções filosóficas. Em 306 a.C. voltou a Atenas e comprou uma propriedade que se tornou conhecida como Jardim, onde formou uma comunidade em que conviveu com amigos e discípulos, entre os quais Metrodoro, Polieno e a hetaira Temista, até o fim de seus dias.

Segundo Diógenes Laércio, principal fonte de informações sobre Epicuro, o mestre desenvolveu sua filosofia em mais de 300 volumes, mas esse legado escrito se perdeu. Epicuro elaborou estudos sobre física, astronomia, meteorologia, psicologia, teologia e ética, mas do que escreveu só se conhecem três cartas e uma coleção de sentenças morais e aforismos. A física epicurista inspirou-se na doutrina de Demócrito e propõe um universo, infinito e vazio, que contém corpos constituídos de átomos, elementos indivisíveis que se acham em constante movimento. Contrapõe ao determinismo de Demócrito a tese segundo a qual esses átomos experimentam em seu movimento um desvio (clinamen) espontâneo, que explica a maior ou menor densidade da matéria que forma os corpos a partir das colisões e rejeições entre os átomos. Segundo Epicuro, a alma é uma entidade física, distribuída por todo o corpo. Quando o indivíduo morre, ela se desintegra nos átomos que a constituem. A percepção sensorial, por meio da alma, é a única fonte de conhecimento e, por isso, os epicuristas recomendavam o estudo da natureza para alcançar a sabedoria.

Para chegar à ataraxia, o homem deve perder o medo da morte. Como corpo e alma são entidades materiais, não existem sensações boas ou más depois da morte; assim, o temor da morte não se justifica. Epicuro aceitava a existência dos deuses, mas acreditava que eles estavam muito afastados do mundo humano para preocupar-se com este. Logo, o homem não tem porque temer os deuses, embora possa imitar sua existência serena e beatífica.

De seus estudos científicos, Epicuro derivou uma filosofia essencialmente moral. À semelhança de outras correntes filosóficas da época, como o estoicismo e o ceticismo, suas concepções vieram ao encontro das necessidades espirituais de seus contemporâneos, preocupados com a desintegração da polis (cidade) grega. O prazer sensorial converteu-se na única via de acesso à ataraxia. Esse prazer, porém, não consiste numa busca ativa da sensualidade e do gozo corporal desenfreado, como interpretaram erroneamente outras escolas filosóficas e também o cristianismo, mas baseia-se no afastamento das dores físicas e das perturbações da alma. O maior prazer, segundo Epicuro, é comer quando se tem fome e beber quando se tem sede. O "tetrafármaco", receita do mestre para a vida tranqüila, tem o seguinte teor: "O bem é fácil de conseguir, o mal é fácil de suportar, a morte não deve ser temida, os deuses não são temíveis."

No ano 270 a.C., Epicuro morreu e tornou-se objeto de culto para os epicuristas, o que contribuiu para aumentar a coesão da seita e para conservar e propagar a doutrina. O epicurismo foi a primeira filosofia grega difundida em Roma, não apenas entre os humildes, mas também entre figuras importantes como Pisão, Cássio, Pompônio Ático e outros. O epicurismo romano contou com autores como Lucrécio e se manteve vivo até o princípio do século IV da era cristã, como poderoso rival do cristianismo.

ESCOLA DE FRANKFURT

A escola de Frankfurt recebeu esse nome porque seus principais representantes integravam o Instituto de Pesquisas Sociais de Frankfurt, na década de 1930. O exame crítico que esse grupo fez das sociedades desenvolvidas exerceu poderosa influência sobre os movimentos de contestação da segunda metade do século XX, particularmente as manifestações estudantis de maio de 1968 na França.

O mentor do Instituto de Pesquisas Sociais foi seu diretor, Max Horkheimer. A sua volta reuniram-se professores de diversas disciplinas: filósofos, sociólogos, psicólogos e economistas. Partidário de uma filosofia crítica baseada no marxismo e na psicanálise, Horkheimer expôs em diversos ensaios um pensamento multidisciplinar, que em filosofia era antimetafísico e antipositivista e, sob o aspecto social, anticapitalista. Para ele, o progresso econômico tinha como contrapartida a massificação e a perda da individualidade. Horkheimer propunha a transformação da sociedade capitalista num socialismo fundado na razão e na liberdade, que assegurasse o bem-estar de todos os cidadãos.

Uma segunda fase desse pensamento, mais pessimista, veio depois da segunda guerra mundial. Com a ascensão do nazismo, os principais representantes da escola refugiaram-se nos Estados Unidos, entre eles Horkheimer, que lecionou na Universidade de Colúmbia, em Nova York, até 1949, quando regressou a Frankfurt. Para derrotar o fascismo não bastou uma revolução: foi preciso uma guerra, e o terror stalinista deixara profundas marcas no pensamento marxista. O capitalismo demonstrava uma notável capacidade para assumir suas próprias contradições, mas também, graças a sua "indústria cultural", para anular todo o pensamento crítico e todo movimento de transformação do regime.

O principal representante da terceira fase da escola foi Theodor W. Adorno, que, inicialmente influenciado por Hegel e Husserl, evoluiu para o marxismo. O pensamento de Adorno, cujas bases se acham expostas na Negative Dialektik (1966; Dialética negativa), foge a toda afirmação positiva. Toda solução fica em aberto, inconclusa diante da realidade histórica. Com o progresso e o avanço da razão, o homem conseguiu emancipar-se da natureza, mas teve de pagar um preço muito alto: ficou subordinado a uma situação para a qual não havia saída. Para Adorno, o progresso traz em seu bojo uma regressão, pois conduz a um "mundo administrado". A única solução é a reconciliação com a natureza, mediante uma ruptura total que torne possível a utopia e permita uma abertura para algo totalmente diverso. A alternativa proposta por Adorno era a defesa do individual e do particular, que escapam à violência da dominação, e a arte, que, em seu hermetismo, permite escapar à uniformização e aos convencionalismos sociais.

A tese de Adorno opõe-se à de Jürgen Habermas, que junto com Herbert Marcuse é outro dos principais membros da escola de Frankfurt. Habermas criticou a "ortodoxia latente" de seus mestres e recusou, como saída para o misticismo, a reconciliação com a natureza proposta por Adorno. Buscou também renovar o pensamento da escola à luz da epistemologia contemporânea e considerou necessária uma renovação do marxismo.

Herbert Marcuse veio a ser a figura mais conhecida da escola de Frankfurt. No capitalismo avançado, segundo ele, a sociedade é decerto capaz de assegurar o bem-estar e a plena realização de todos os seus membros ou, em termos freudianos, de substituir o princípio da realidade pelo princípio do prazer. Não obstante, a sociedade capitalista anularia o indivíduo, sua criatividade e sua capacidade para transformar o meio.

ESCOLÁSTICA

Com a Idade Média e as invasões bárbaras, a filosofia cristã centrou-se no ensino e na manutenção do legado clássico nas escolas monacais. A cultura, representada especialmente pelos livros, refugiou-se nos mosteiros e conventos, motivo pelo qual costuma-se dizer que a igreja, sobretudo pela ação de seus monges copistas, salvou a cultura e acabou por absorver os bárbaros da mesma maneira que Roma absorvera culturalmente a Grécia.

Entende-se em geral por escolástica o ensino teológico-filosófico da doutrina aristotélico-tomista ministrado nas escolas de conventos e catedrais e também nas universidades européias da Idade Média e do Renascimento. Como sistema filosófico e teológico, a escolástica tentou resolver, a partir do dogma religioso e mediante um método especulativo, problemas como a relação entre fé e razão, desejo e pensamento; a oposição entre realismo e nominalismo; e a probabilidade da existência de Deus.

A noção de filosofia cristã, embora constantemente empregada, a rigor representa uma contradição em termos, pois o cristianismo é religião e a filosofia é conhecimento racional. Historicamente, porém, a escolástica consiste nesse paradoxo de uma filosofia que é, ao mesmo tempo, racional e religiosa, motivo pelo qual seu problema mais grave é o das relações entre a razão e a fé. Que liberdade terá a razão, se o dogma limita a priori seus movimentos? Há, entretanto, um conteúdo filosófico na obra dos doutores da igreja e dos escolásticos levado em conta na história da filosofia. Esse conteúdo encontra sua última justificativa na doutrina da igreja. O pensamento devia demonstrar que a igreja, por seu método próprio, já havia estabelecido a Verdade.

Surgindo em um mundo cristão, seus pressupostos eram as crenças básicas em que o mundo então se fundamentava, radicalmente distintas das que configuravam o mundo antigo, greco-romano. Os problemas que se apresentavam à filosofia eram suscitados pela Revelação. A idéia de Deus, uno e trino ao mesmo tempo, da criação do mundo a partir do nada, da imortalidade pessoal, do homem à imagem e semelhança de Deus, a noção de história, implícita no relato bíblico, criação, pecado original, redenção e juízo final são idéias religiosas que provocavam especulação tipicamente metafísica ou filosófica.

Filosofia Cristã

A filosofia dita cristã compreende a escolástica, mas não se confunde com ela e apresenta três fases: a patrística; a medieval, que é escolástica; e a escolástica pós-medieval. A patrística é a filosofia dos primeiros doutores da igreja, que, em luta com o paganismo e as heresias, se utilizaram da filosofia grega, especialmente do platonismo e do neoplatonismo, na formulação, elucidação e defesa do dogma. No mundo moderno romano, até a conversão de Constantino, no século IV, os cristãos representavam à oposição, com a negação do status quo, do politeísmo tradicional e da escravidão. Perseguidos e martirizados, eram compelidos, no trabalho de catequese, a fazer do pensamento uma arma de defesa e propagação da fé. Embora contenha elementos filosóficos, a patrística é essencialmente apologética, sendo a primeira reflexão sobre o dogma em um mundo ainda não cristão.

Na Idade Média, a situação histórica se alterou radicalmente, pois o mundo no qual pensavam os cristãos era um mundo cristão, quer dizer, determinado pelo cristianismo na totalidade de suas manifestações. Havia uma crença vigente, ponto de referência para o pensamento e critério da verdade. As divergências ocorriam num mesmo contexto espiritual e não punha em dúvida o fundamento desse mundo, o conteúdo da revelação, o dogma. As exigências que se apresentavam aos filósofos cristãos já não eram as mesmas, pois o pressuposto de que partiam não era o paganismo, mas o próprio cristianismo. Tratava-se então de pensar em um mundo convertido, configurado em função das crenças e dos valores cristãos. A filosofia pôde, assim, deixar de ser apologética, para tornar-se docente, magistral ou escolástica.

Ensino Cristão

Após o longo interregno que se seguiu à morte de santo Agostinho, no ano 430, o chamado renascimento carolíngio assinalou o advento de nova época na história do pensamento cristão. As capitulares do ano 787 recomendavam, em todo o império, a restauração das antigas escolas e a fundação de novas. As que então se inauguraram podiam ser monacais, junto aos mosteiros, interiores para religiosos, exteriores para leigos; as catedrais, junto à sede dos bispados, umas para clérigos e outras para seculares; e as palatinas, junto às cortes, religiosas, mas abertas a clérigos e leigos.

O programa de ensino compreendia as artes chamadas liberais, que se desdobravam em trivium (gramática, retórica e dialética) e quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música). A escola, assim como a corporação, era uma comunidade de trabalho, que funcionava em estreita colaboração com a igreja, o que lhe assegurava organização estável e continuidade de pensamento. A escolástica tornou-se, assim, um patrimônio comum, um saber tradicional, que se transmitia e enriquecia de geração em geração.

O ensino era, em geral, ministrado na forma de leitura, lectio, e comentário dos textos. Além das Sagradas Escrituras, entre os livros mais estudados estavam o Organon, de Aristóteles, traduzido em parte, o Timeu, de Platão, os comentários de Porfírio e Boécio às obras desses filósofos, as obras de Cícero e de Sêneca; e os textos dos Padres: Orígenes, Clemente de Alexandria, santo Ambrósio, Pedro Lombardo e, de modo especial, santo Agostinho, que, até o século XIII, dominou o pensamento medieval. À simples leitura comentada dos textos, acrescentou-se, com o tempo, a discussão, questio, e a elaboração de trabalhos e composições pessoais.

Tal modalidade de prática docente suscitou diversos gêneros literários, característicos da escolástica: os commentaria (comentários), exegese dos textos; as quaestiones (questões), que incluíam as quaestiones disputatae (questões discutidas) e as quaestiones quodlibetales (questões abertas), compilação de debates, registrando os argumentos apresentados e as soluções encontradas; os trabalhos individuais, dissertações e monografias, opuscula (opúsculos); e finalmente, as grandes sínteses, que procuravam sistematizar a totalidade do saber, as summae (sumas), teológicas e filosóficas, entre as quais devem ser mencionadas, por sua excepcional importância, a Summa Theologica e a Summa contra gentiles (Suma contra os pagãos), de santo Tomás de Aquino.

Evolução Histórica

Às etapas da evolução da filosofia no interior do cristianismo correspondem, historicamente, as fases: de formação, do século IX ao XII; de apogeu, no século XIII; e decadência, do século XIV ao XVII, da filosofia escolástica. Da submissão à fé, representada esta pela igreja, instância heterônoma em face da razão e da posição de compromisso, a filosofia evoluiu, acompanhando a desintegração do feudalismo e o advento do mundo burguês, até alcançar, com Descartes e o idealismo alemão, sua plena autonomia.

A história da escolástica apresenta-se, assim, como a história da razão humana em determinado momento de sua evolução, exprimindo inicialmente a alienação, na sujeição ao dogma; em seguida, a consciência da alienação, na doutrina das duas verdades; e finalmente a negação da alienação (da negação), na ruptura definitiva entre razão e fé, e na afirmação de que o real, em sua totalidade, natureza e história, é racional.

A decadência da escolástica, a partir do século XIII, exacerbou seus caracteres formais. Desde que, com Guilherme de Ockham, as verdades da fé são consideradas inacessíveis à razão, a filosofia, que procura compreender e explicar essas verdades, converteu-se numa discussão de textos e temas que perderam vigência histórica. O ensino fez emprego abusivo do silogismo, no verbalismo das fórmulas abstratas. A complacência no debate e o dogmatismo levaram a que a palavra escolástica passasse a ter conotação pejorativa.

ESPIRITUALISMO

Para os espiritualistas, existem motivos, necessidades e interesses propriamente espirituais, que nada têm a ver com os da vida animal ou corporal.

Espiritualismo é a denominação genérica de doutrinas religiosas ou filosóficas para as quais a essência da realidade é o espírito, entendido quer como substância psíquica, consciência universal, pensamento puro, liberdade irrestrita, vontade absoluta ou divindade todo-poderosa. O espírito é então a realidade primordial, o bem supremo, a fonte de todos os valores e o unificador das consciências finitas. Transcende a natureza material, que se reduz à aparência sensível ou manifestação da substância imaterial, infinita.

O espiritualismo passou assim a designar as correntes de pensamento que afirmam a existência de uma realidade imaterial. O dualismo e o monismo, o teísmo e até certos tipos de ateísmo, o panteísmo, o idealismo e outras tendências filosóficas são consideradas compatíveis com o espiritualismo, pois admitem uma realidade independente da matéria e superior a ela. Foram espiritualistas Platão, por seu conceito de alma, e Aristóteles, por distinguir o intelecto ativo do passivo e por conceber Deus como realidade pura. Em sentido mais amplo, podem ser considerados espiritualistas o neoplatônico Plotino e os racionalistas Descartes, Malebranche e Leibniz, entre outros.

Espiritualismo Contemporâneo

A partir do século XIX surgiu na Alemanha, na França, no Reino Unido e na Itália várias doutrinas monistas, dualistas, pluralistas, teístas, panteístas e agnósticas com o objetivo comum de superar o positivismo, materialismo e naturalismo predominantes na época, opondo o mundo dos valores espirituais ao mundo da natureza.

As doutrinas espiritualistas contemporâneas partiram do método introspectivo de Montaigne, Maine de Biran e outros, e caracterizaram-se pela concepção finalista e religiosa do mundo. Como estas, diversos sistemas esotéricos e ocultistas, que remontam aos pitagóricos, também se difundiram como modalidades de espiritualismo. As chamadas "necessidades da alma", "exigências do coração" e "esperanças humanas" eram tomadas por guias e objetivos da investigação filosófica, definida como recolhimento interior e atenção ao testemunho interior da consciência.

Na ética e na sociologia, espiritualismo significa a existência, para o indivíduo e para a sociedade, de duas forças opostas: a alma e o corpo. Na perspectiva psicológica, o espiritualismo afirma que as representações, as operações intelectuais e os atos volitivos não podem ser totalmente explicados pelo mecanismo fisiológico e exigem a participação de um princípio superior, o da alma.

ESTOICISMO

A necessidade de um guia moral na época de transição da Grécia clássica para a helênica explica por que o estoicismo ganhou rapidamente adeptos no mundo antigo e também porque renasceu todas as vezes em que os valores de uma sociedade entraram em crise profunda.

O estoicismo foi criado pelo cipriota Zenão de Cício por volta do ano 300 a.C. O termo tem origem em Stoà poikilé, espécie de pórtico adornado com quadros de várias cores, onde Zenão se reunia com seus discípulos. Cleantes e Crisipo, entre os discípulos oriundos da Anatólia, tiveram papel relevante na escola estóica.

Os estóicos se vangloriavam da coerência de seu sistema filosófico. Afirmavam que o universo pode ser reduzido a uma explicação racional e que ele próprio é uma estrutura racionalmente organizada. A capacidade do homem de pensar, projetar e falar (logos) está plenamente incorporada ao universo. A natureza cósmica -- ou Deus, pois os termos são sinônimos para o estoicismo -- e o homem se relacionam um com o outro, intimamente, como agentes racionais. O homem pode alcançar a sabedoria se harmonizar sua racionalidade com a natureza. Lógica e filosofia natural estão, portanto, em íntima e essencial relação. Na história do estoicismo, apontam-se três períodos básicos: antigo, helenístico-romano e imperial romano.

Período Antigo

A doutrina ética, como forma de ajudar o indivíduo a aceitar a adversidade, representou o principal apelo do estoicismo nesse período. O homem deve viver de acordo com a razão e ser indiferente a desejos e paixões. A verdadeira felicidade não está no sucesso material, mas na busca da virtude. Alegrias e infortúnios devem ser igualmente aceitos, porque seguem o ritmo natural do universo. Os mais importantes filósofos desse período são Zenão, Cleantes e Crisipo.

Período Helenístico-Romano

Com assimilação de elementos ecléticos e adaptações adequadas, o estoicismo adquiriu uma nova função, como sistema ético sobre o qual a república romana pretendia assentar-se. Destacaram-se no período Panécio de Rodes, Posidônio de Apaméia e Cícero. O homem político, segundo Cícero, só atinge a virtude suprema se sua atuação estiver voltada para o bem de seu povo.

Período Imperial Romano

O império oferecia a pax romana, mas, ao mesmo tempo, o fastio e a dissolução dos princípios morais da sociedade. Musônio Rufo, Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio criaram os alicerces teóricos que deveriam dignificar o poder imperial. Alguns preceitos de sua poderosa doutrina moral foram adotados pela igreja cristã.

ESTRUTURALISMO

A abordagem estruturalista dos fenômenos se baseia em duas relações principais de oposição: a primeira delas se dá entre o histórico e o atemporal; a outra, entre o voluntário e o contingente.

Corrente de pensamento que se caracteriza pela oposição à compartimentação do conhecimento em capítulos heterogêneos, o estruturalismo surgiu no começo do século XX e foi incorporado ao método de diversas disciplinas humanísticas, como a lingüística, crítica literária, antropologia, psicologia e teoria dos sistemas. O antropólogo funcionalista Bronislaw Malinowski expressou com clareza a abordagem estruturalista da antropologia: uma cultura se estuda tal como é numa determinada época, e não segundo seu desenvolvimento ou sua evolução histórica. O funcionalismo foi decerto uma reação contra o evolucionismo e afirmava o primado da ação recíproca entre os diversos elementos e instituições de dada sociedade, mas o estruturalismo veio enfatizar ainda mais a concepção de sociedade como todo indivisível.

Como método científico, o estruturalismo estuda seu objeto, trate-se de cultura, linguagem, psiquismo humano ou outro qualquer, como um sistema em que os elementos constituintes mantêm entre si relações estruturais. Ao tomar este ou aquele objeto, o estruturalismo se propõe transcender a organização primária dos fatos, observável na pesquisa, para descrever a hierarquia e os nexos existentes entre os elementos de cada nível, para depois chegar a um modelo teórico do objeto. A abordagem estruturalista foi aplicada a várias disciplinas. Destacaram-se Ferdinand de Saussure e Leonard Bloomfield na lingüística; Claude Lévi-Strauss na antropologia; Jean Piaget na psicologia e Louis Althusser na filosofia.

O termo "estrutura", do qual provém o conceito de estruturalismo, designa um conjunto de elementos solidários entre si, ou cujas partes são funções umas das outras. Cada um dos componentes se acha relacionado com os demais e com a totalidade. Daí pode-se dizer que uma estrutura se compõe mais propriamente de membros que de partes, é mais um todo que uma soma. Os membros desse todo se acham entrelaçados de tal forma que não existe independência de uns em relação aos outros, mas antes uma interpenetração. Exemplos de estruturas seriam, pois, os organismos biológicos, as coletividades humanas, as formas do psiquismo, as configurações de objetos em determinado contexto etc.

O estruturalismo foi entendido também como o corpo teórico que marcou o início da decadência das ideologias nas ciências sociais, já que a abordagem estrutural excluiria a praxis (a ação, a prática), que o marxismo, por exemplo, estabelece como critério supremo de verdade. É a estrutura (do latim struere, construir) que explica os processos. Em contraposição, Althusser pretendeu conferir forma estrutural ao marxismo, afirmando que o pensamento é uma "produção", espécie de "prática teórica" exercida não apenas por sujeitos individuais, mas na qual intervêm fatores sociais e históricos.

Em toda estrutura se distinguem três características básicas:

(1) sistema ou totalidade;

(2) leis de transformação que conservam ou enriquecem o sistema; e

(3) auto-regulação, pois as transformações se efetuam sem que na estrutura intervenham elementos exteriores. Uma vez descoberta a estrutura, deve ser possível sua "formalização". Cabe ressaltar que a formalização é uma criação teórica e que a estrutura é anterior ao modelo teórico e independe dele.

Quanto ao caráter de totalidade que a estrutura reveste, todos os estruturalistas concordam em que as leis que afetam os elementos de um sistema não se reduzem a associações cumulativas, mas se formam por composição, isto é, conferem ao todo propriedades de conjunto distintas dos atributos dos elementos. As leis de composição das totalidades estruturadas são estruturantes por natureza e é precisamente essa atividade estruturante que assegura a existência de um sistema de transformações. Um sistema, mesmo do ponto de vista exclusivamente sincrônico (plano temporal concreto, em oposição ao enfoque diacrônico, ou estudo histórico), não é imutável, pois aceita ou rejeita inovações em função das necessidades impostas pelas uniões e oposições existentes no próprio sistema.

Entende-se a auto-regulação das estruturas como sua capacidade de ajustar-se a fim de garantir a conservação. Nesse sentido a estrutura se fecha sobre si mesma, embora possa integrar, como subestrutura, uma estrutura mais ampla. A modificação das fronteiras gerais não dá lugar à abolição das fronteiras já existentes, pois o que se produz é uma confederação e não uma anexação. As leis da subestrutura não sofrem alteração, mas se conservam, de modo que a mudança representa um enriquecimento.

Algumas obras fundamentais do estruturalismo são Cours de linguistique générale (1916; Curso de lingüística geral), de Saussure; Language (1933; A linguagem), de Leonard Bloomfield; A Textbook of Psychology (1910; Manual de psicologia), de Edward Bradford Titchener; e as obras de Lévi-Strauss Les Structures élémentaires de la parenté (1967; As estruturas elementares do parentesco), Race et histoire (1952; Raça e história), La Pensée sauvage (1962; O pensamento selvagem) e Anthropologie structurale (1973; Antropologia estrutural).

EXISTENCIALISMO

O existencialismo surgiu numa Europa dilacerada por interesses antagônicos, onde o homem se sentia ameaçado em sua individualidade e em sua realidade concreta. Daí sua ênfase na solidão do indivíduo, na impossibilidade de encontrar a verdade por meio de uma decisão intelectual e no caráter irremediavelmente pessoal e subjetivo da vida humana.

Denomina-se existencialismo uma série de doutrinas filosóficas que, mesmo diferindo radicalmente em muitos pontos, coincidem na idéia de que é a existência do ser humano, como ser livre, que define sua essência, e não a essência ou natureza humana que determina sua existência.

Existencialismo na Filosofia

Embora represente uma corrente específica do pensamento moderno, o existencialismo não deixa de ser uma tendência que se faz sentir ao longo de toda a história da filosofia. Assim sucede, por exemplo, com o imperativo socrático "conhece-te a ti mesmo"; com a angustiada exclamação de Pascal, situando o homem entre o ser e o nada; ou com a formulação do idealista alemão Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling, segundo o qual a existência humana não pode ser reduzida à razão.

Se Hegel abraça o conceito da necessidade incoercível, afirmando que a liberdade é a consciência da necessidade, o dinamarquês Søren Kierkegaard, profundamente religioso e considerado o pai do existencialismo, interpreta a existência em termos de possibilidade. A existência humana é, para todas as formas de existencialismo, a projeção do futuro sobre a base das possibilidades que o constituem.

Para alguns pensadores dessa corrente - os alemães Martin Heidegger e Karl Jaspers, por exemplo - as possibilidades existenciais, na medida em que ancoradas no passado, conduzem todo projeto de futuro para o passado. Para outros, como o francês Jean-Paul Sartre, as possibilidades de escolha existencial são infinitas e equivalentes, e a opção entre elas é, pois, indiferente. Outros, enfim, como o italiano Nicola Abbagnano e o francês Maurice Merleau-Ponty, consideram que as possibilidades existenciais são limitadas pelas circunstâncias, mas nem determinam a escolha nem fazem com que ela seja indiferente. Sejam quais forem suas posições particulares, todos os existencialistas afirmam, porém, que a escolha entre as diferentes possibilidades implica riscos, renúncia e limitação, salvo o francês Gabriel Marcel, principal representante do existencialismo cristão, que acha possível a transcendência do homem mediante seu encontro com Deus na fé.

Traços Fundamentais do Existencialismo

Embora não seja possível dar uma definição precisa do existencialismo - pois não existe um existencialismo único - ainda assim há uma série de traços que ajudam a descrever a índole e o espírito desse movimento filosófico. O existencialismo introduz a experiência pessoal na reflexão filosófica. Opondo-se à tradição de que o filósofo deve manter certa distância entre ele próprio, como sujeito pensante, e o objeto que examina, o existencialista submerge apaixonadamente no objeto que contempla, a ponto de tornar sua filosofia basicamente autobiográfica (Kierkegaard).

Os temas de reflexão do existencialista giram em torno do homem e da realidade humana (homem, liberdade, realidade individual, existência cotidiana). Heidegger, ao que parece, é o filósofo mais alheio a essa perspectiva, pois para ele o problema fundamental da filosofia é o ontológico, isto é, o problema do ser e, assim, o problema do homem fica subordinado a esse problema. Ao descrever o existente que é o homem, Heidegger observa que sua essência consiste em existir, pois esta é a determinação fundamental do que ele chama Dasein (das in-der-Welt-Sein, "o estar-no-mundo"). O homem não é para os existencialistas um mero objeto. É um sujeito-no-mundo e aberto para este. Em termos sartrianos, o homem cria a si mesmo.

A liberdade é também um tema básico para os existencialistas. Mas esta não é para eles uma liberdade acadêmica, como pressuposto do ato moral, mas sim a liberdade que permite a escolha e, portanto, a realização do indivíduo. Na Europa oprimida pelo nazismo e pelas ditaduras totalitárias, o existencialismo significou a reafirmação da liberdade política e cultural do indivíduo. Historicamente milita a favor do existencialismo a dura batalha que travou contra a ditadura da razão formalizada, já antes denunciada por Max Weber.

Tema impossível de ser posto de lado, a morte é também objeto de atenção para os existencialistas. O homem vive para morrer; cada um morre só. Para Heidegger, a morte é a última possibilidade do homem; para Sartre, o fim de todas as possibilidades; para todos os existencialistas, a suprema realidade transcendente. O ser-para-a-morte é o verdadeiro destino e objetivo da existência humana.

O tempo transcorre unicamente entre o nascimento e a morte; é a experiência que o indivíduo tem de sua limitação, de sua finitude. Assim, seria uma extrapolação arbitrária representar o tempo que precede o começo da existência e continua correndo depois que esta acabou.

A consciência é sempre consciência de alguma coisa. O dado básico do eu é a intencionalidade da consciência. A consciência é do mundo, mas não se acha no mundo como as coisas. Se a consciência é consciência de algo, ela própria não pode ser esse algo. É inerente à consciência a negação da identidade entre consciência e algo. A consciência se aproxima do ser, pois é consciência dele, mas se reconhece ao mesmo tempo distanciada do ser. À distância entre o ser e a consciência Sartre chama "nada".

FENOMENISMO

A palavra fenomenismo surgiu na segunda metade do século XIX, embora a idéia por ela representada remonte à antiguidade clássica e à Idade Média.

Doutrina filosófica segundo a qual só é dado ao homem conhecer fenômenos, ou seja, manifestações fenomênicas da realidade, sem atingir uma possível coisa em si (essência) porventura situada além da realidade sensível. Para o fenomenismo, a percepção sensorial é a única forma segura de apreensão da realidade, ou seja, só é possível apreender o que se apresenta à percepção humana sob a forma de aparência sensível. O fenomenismo radical nega a existência da coisa em si, ou do número, objeto inteligível que para essa doutrina é impossível. As doutrinas gnosiológicas são menos radicais. Persistem num fenomenismo relativo, mas desinteressam-se igualmente do conhecimento da essência inacessível.

Foi nos séculos XVII e XVIII, com os filósofos ingleses Thomas Hobbes, George Berkeley e David Hume, mais o francês Étienne Bonnot de Condillac, que o fenomenismo se desenvolveu. Adquiriu forma própria com a filosofia de Kant, que construiu seu idealismo transcendental com base no fenomenismo. No século XIX, Auguste Comte e os positivistas em geral, além do filósofo inglês John Stuart Mill sustentaram posições compatíveis com o fenomenismo.

FINALISMO

Os filósofos em geral recomendam o máximo cuidado no uso do termo finalismo, devido à possibilidade de mal-entendidos, suscitada pela multiplicidade de sentidos das palavras fim e finalidade.

Doutrina que admite a causa final, ou finalidade, como explicadora e ordenadora dos acontecimentos naturais ou culturais. Para o finalismo todo o universo, na multiplicidade de seus fenômenos, humanos ou não humanos, tende para um fim imediato ou mediato, próximo ou longínquo, subjacente às manifestações concretas e isoladas de necessidade e de causalidade. Dessa forma, os finalistas vêem na finalidade a explicação do mundo e da vida, e admitem um plano do universo, originado por uma força, causa, princípio ou personalidade superior, arquiteto e criador, que é a causa suprema, exterior à natureza.

Anaxágoras foi o primeiro a elaborar uma doutrina finalista do mundo, ordenado segundo a melhor disposição para o homem. Platão, no diálogo Fédon, admite que, segundo Anaxágoras, o nous, ou espírito, é o organizador e a causa de todas as coisas, lugar de todas as verdadeiras causas; as demais, naturais e concretas, são simples causas secundárias.

Aristóteles, na Metafísica, reconhece Anaxágoras como o criador da doutrina, porém dá a esta uma elaboração mais sistemática e coerente. A questão é por ele tratada no conjunto de sua obra (Física, Da alma, Metafísica e Ética a Nicômaco). Os estóicos colocam o homem no centro da doutrina finalista e vêem a ordenação das coisas como a melhor forma de satisfazer a vida humana na terra. Os homens e os deuses, únicos seres dotados de razão, seriam superiores aos demais, e para eles foram criados o mundo e tudo o que nele existe.

Santo Tomás de Aquino retomou a doutrina de Aristóteles e levou até as últimas conseqüências as diversas possibilidades de conceituação do fim e da finalidade, na natureza, na moral e na teologia. Os fins ou finalidades na filosofia tomista são:

(1) limite ou terminação;

(2) definição;

(3) perfeição;

(4) finalidade, de uma ação inteligente ou de uma tendência cega. É o fim que explica o "para quê" de todas as coisas, é a verdadeira causa da causa eficiente, a causa causarum (causa das causas).

Na história da filosofia, o finalismo ou teleologismo opõe-se ao causalismo defendido por Demócrito, Descartes e Spinoza, entre outros. Os sistemas de Leibniz, Schopenhauer e Rudolf Hermann Lotze procuraram, de certa forma, conciliar as duas correntes de pensamento, de forma a distinguir um finalismo interno e um finalismo externo. O primeiro seria inerente e imanente aos próprios fatos, à maneira de um encadeamento causalista autônomo, numa espécie de harmonia independente.

Na filosofia contemporânea, sem acrescentar nada de novo à conceituação histórica do finalismo, Bergson opinou que tanto essa conceituação quanto o mecanismo causalista devem ser rejeitados pelo que apresentam de rigidamente determinantes da realidade, que neles se encontra previamente disposta, segundo um plano ou programa traçado de antemão. O pensamento científico moderno e contemporâneo rejeita a explicação finalista da natureza, desde as primeiras manifestações de Francis Bacon, mas também com Descartes, Spinoza, os iluministas, o positivismo e o empirismo lógico.

O finalismo deixou de ser uma hipótese de trabalho válida como explicação científica, quer nas ciências naturais, quer na psicologia, que substituiu a noção de causa final pela de motivação e de comportamento. Nessa acepção, o finalismo prestigia a anterioridade e a superioridade da tendência (necessidade, desejo, vontade) em relação à ação mecânica.

FORMALISMO

O sentido comum do termo formalismo - importância desmedida concedida às formalidades, ao exterior - ajusta-se ao sentido filosófico, que consiste em negar a existência real da matéria e reconhecer-lhe somente a forma.

O termo formalismo é utilizado com sentidos diferentes, segundo o contexto de aplicação seja a lógica, a filosofia da matemática, a gnosiologia, a ética ou a estética, mas sempre com a idéia de preponderância da forma sobre a matéria.

Formalismo Lógico

Parcialmente inspirado em Immannuel Kant, o formalismo lógico atribui um caráter puramente formal aos princípios e leis da lógica, e portanto tende a tomá-los como meras convenções. O conjunto dos enlaces lógicos formaria uma totalidade autônoma, radicalmente separada das conexões reais entre seres ou partes do ser. Representado inicialmente, no século XIX, pelo filósofo e educador alemão Johann Friedrich Herbart, o formalismo nasceu em oposição à lógica metafísica dos escolásticos, inspirada em Aristóteles, para a qual os princípios lógicos têm intrinsecamente um alcance ontológico - não valem só para as conexões de idéias, mas também para as coisas reais. Mais tarde essas correntes sofreram oposição do psicologismo de John Stuart Mill, segundo o qual os princípios lógicos não são nem puras formas convencionais nem verdades ontológicas, mas leis naturais que regem o pensamento humano em seu exercício concreto. No século XX, Edmund Husserl combateu o psicologismo com uma síntese do formalismo e da lógica metafísica.

HEDONISMO

A ambigüidade do conceito de prazer permitiu agrupar, sob a classificação geral de hedonismo, várias linhas filosóficas claramente distintas.

Hedonismo é definido como a doutrina que considera o prazer (hedoné em grego) o objetivo supremo da vida. Apareceu muito cedo na história da filosofia, em duas modalidades: a primeira toma o prazer como critério das ações humanas; a segunda considera o prazer como único valor supremo.

Manifestações Históricas

O primeiro pensador que formulou uma tese explicitamente hedonista foi, provavelmente, Eudoxo de Cnido. No início do século IV a.C, ele considerava o prazer o bem supremo de todos os seres. Fundada na mesma época por Aristipo de Cirene, a escola cirenaica se manifestou de maneira semelhante. Aristipo entendia por prazer uma qualidade positiva, uma forma de satisfação tranqüila regida pelos sentidos. Julgava também o prazer como algo fugaz. Dizia que o homem deve desfrutar do presente, pois só o presente pertence a ele realmente.

A escola de Epicuro propunha um prazer moderado, único capaz de evitar a dor. Ele seria aplicável tanto ao momento presente quanto às recordações ou à esperança. O prazer maior, de natureza negativa, seria a ataraxia, a imperturbabilidade absoluta.

Como fundamento do comportamento humano, o hedonismo esteve sempre presente na história do pensamento. Foi incorporado à filosofia dos empiristas britânicos Thomas Hobbes, John Locke e David Hume, ainda que de forma matizada. O também britânico Jeremy Bentham, criador do hedonismo moderno ou utilitarismo, foi mais radical e pregou "a maior felicidade para o maior número". Mas quase todos os grandes filósofos, como Platão, Aristóteles, Kant e Hegel se opuseram frontalmente às teses hedonistas.

Tipos de Hedonismo

Distingüem-se basicamente duas formas de hedonismo, o ético e o psicológico. Segundo Richard B. Brandt, um dos filósofos modernos que mais se dedicaram ao hedonismo ético, "uma coisa é intrinsecamente desejável (ou indesejável) se e somente se, e na medida que, é prazerosa (ou não prazerosa)".

Quanto ao hedonismo psicológico, existem várias doutrinas classificadas de acordo com a determinação temporal do prazer. A teoria do prazer dos fins ou "hedonismo psicológico do futuro" sustenta que o prazer pessoal é o objetivo final de um indivíduo. Bentham, representante desse tipo de hedonismo, afirmou que todo homem se sente inclinado a perseguir a linha de conduta que, acredita, o levará à máxima felicidade. O chamado "hedonismo psicológico do presente", baseado na motivação prazerosa por meio do pensamento, considera que um indivíduo se sente motivado a produzir um determinado estado de coisas se o fato de pensar nelas for prazeroso. O "hedonismo psicológico do passado" defende que a intensidade do interesse de uma pessoa por um tipo de acontecimento é resultado de satisfações passadas.

HERMENÊUTICA

O valor excepcional atribuído à Bíblia por judeus e cristãos trouxe como conseqüência o desejo de aprofundar os estudos sobre ela e desentranhar o sentido de sua mensagem. Foi esse o ponto de partida e o fundamento da hermenêutica.

Hermenêutica é o estudo dos princípios gerais da interpretação bíblica, em cujos métodos se inclui a exegese ou interpretação crítica dos textos. Por extensão, passou-se a chamar hermenêutica à interpretação de escritos importantes em geral. Os principais campos de interesse hermenêutico são a religião, o direito, a filosofia e a história.

Hermenêutica Religiosa

O caráter sagrado da Bíblia para o judaísmo, no que se refere ao Antigo Testamento, e para o cristianismo baseia-se na convicção de que contém a revelação divina. Essa aceitação da Bíblia como palavra de Deus, no entanto, não ensejou um princípio hermenêutico uniforme. Para alguns, a interpretação da Bíblia deve ser sempre empreendida literalmente, uma vez que a palavra de Deus é explícita e completa. Outros afirmam que as palavras bíblicas encerram um significado profundamente espiritual, já que a mensagem de Deus não pode ser captada por uma leitura superficial. Uma terceira posição, enfim, sustenta que certas partes da Bíblia devem ser compreendidas literalmente e outras de maneira simbólica. Por isso, a história da interpretação bíblica apresenta quatro tipos principais de hermenêutica: literal, moral, alegórica e anagógica (ou puramente espiritual).

A interpretação literal associa-se com a convicção segundo a qual não só a mensagem divina, como também cada uma das palavras que constituem a Bíblia são de plena inspiração divina. Como crítica à forma extrema desse tipo de hermenêutica, pode-se dizer que ignora as evidentes diversidades de estilos e vocabulário dos diversos autores bíblicos. Santo Tomás de Aquino, Martinho Lutero e Calvino foram partidários da hermenêutica literal.

A interpretação moral busca estabelecer os princípios exegéticos mediante os quais se podem extrair as lições éticas da Bíblia. Associa-se, com freqüência, à alegórica. Assim, por exemplo, a Carta de Barnabé, escrita aproximadamente no ano 100 da era cristã, considerava que a proibição bíblica de comer a carne de certos animais referia-se principalmente aos vícios simbolicamente representados por eles.

A interpretação alegórica busca na narração bíblica um segundo nível de referência, além das pessoas, coisas e acontecimentos explicitamente narrados no texto. O grande impulsor desse tipo de interpretação foi o teólogo cristão Orígenes (século III), que elaborou um sistema teológico e filosófico a partir das palavras da Bíblia.

A interpretação anagógica ou mística, essencialmente espiritual, pretende explicar os acontecimentos bíblicos como signos prefiguradores dos últimos fins da criação. Exemplo característico seria a cabala judia, que procurava descobrir o significado místico das letras e palavras hebraicas.

A exegese e a hermenêutica bíblicas tomaram novo rumo no século XX, com William Wrede e Albert Schweitzer, que deram ênfase à escatologia do Novo Testamento. C. H. Dodd promoveu o movimento conhecido como "teologia bíblica". Karl Barth, com seus comentários a Paulo, lançou uma interpretação existencial do Novo Testamento, radicalizada depois por Rudolf Bultmann, sob influência de Wilhelm Dilthey e de Martin Heidegger.

Bultmann e Dibelius são, talvez, os principais responsáveis pelo moderno estudo crítico do texto dos Evangelhos, aplicado, com o mesmo êxito, ao Antigo Testamento, por Hermann Gunkel e Sigmund Morwinckel. Na França, os estudos da hermenêutica receberam grande impulso por parte do cardeal Jean Danielou e dos dominicanos da Escola Bíblica e Arqueológica. O Concílio Vaticano II incentivou vigorosamente a hermenêutica católica, recomendando que se fizesse em associação com os "irmãos separados", o que abre novo horizonte à exegese e hermenêutica bíblicas.

Hermenêutica jurídica. F. K. von Savigny recomendava que se usassem juntos os vários critérios de interpretação da lei: gramatical, histórico, lógico e sistemático. Rudolf von Ihering foi mais além, e acentuou a finalidade da lei. Cumpre, antes de qualquer providência, definir-lhe os termos. Assim, o exame da letra da lei é o primeiro passo para seu bom entendimento. Feita a interpretação lógica, busca-se o alcance efetivo da proposição.

A interpretação sistemática, defendida pela escola de Hans Kelsen, deriva da unidade da ordem jurídica: não há norma isolada ou solta, e uma norma não pode estar em contradição com outra. A pesquisa histórica não busca a vontade histórica do legislador, mas sua última vontade notória, que é a lei. A lei aplicar-se-á segundo as novas circunstâncias. Enfim, como a regra se define pelos fins colimados, há que descobrir o espírito da lei. O componente teológico, ou seja, aquele que diz respeito ao argumento, conhecimento ou explicação que relaciona um fato com sua causa final, completa a hermenêutica.

Hermenêutica Filosófica

A partir do método compreensivo inaugurado em história e sociologia por Wilhelm Dilthey e Max Weber, deu-se uma intensa discussão sobre o problema da compreensão em geral, seja como base para a pesquisa em história e ciências humanas, seja como problema filosófico. Para Dilthey, a hermenêutica não é apenas uma técnica auxiliar para o estudo da história da literatura, mas um método de interpretação baseado no conhecimento prévio dos dados históricos, filológicos e de outras índoles da realidade que se tenta compreender. A hermenêutica, baseada na consciência histórica, permitiria compreender um autor melhor que ele próprio se compreendia, e uma época histórica melhor que os que nela viveram.

HUMANISMO

Como primeira tentativa coerente de elaborar uma concepção do mundo cujo centro fosse o próprio homem, pode-se considerar o humanismo a origem de todo o pensamento moderno.

Conhece-se por humanismo o movimento intelectual que germinou durante o século XIV, no final da Idade Média, e alcançou plena maturidade no Renascimento, orientado no sentido de reviver os modelos artísticos da antiguidade clássica, tidos como exemplos de afirmação da independência do espírito humano.

Nos últimos séculos da Idade Média, sobretudo nas cidades da Itália, ocorrera um notável crescimento da burguesia urbana. Os nobres e burgueses enriquecidos adquiriram condições de dar à cultura um apoio antes exclusivo da igreja e dos grandes soberanos. A necessidade de conhecimentos que habilitassem os burgueses a gerir e multiplicar suas fortunas também os impelia na direção da cultura. Juntaram-se portanto duas linhas com um mesmo fim: maior valorização da cultura e necessidade de uma educação mais prática do que a teologia medieval podia oferecer.

Retornou-se assim à fonte do saber, a antiguidade greco-romana, despojada dos acréscimos teológicos medievais, e adaptaram-se seus ensinamentos à nova época. O programa de estudos, orientado para facilitar conhecimentos profissionais e atitudes mundanas, compreendia a leitura de autores antigos e o estudo da gramática, da retórica, da história e da filosofia moral. A partir do século XV deu-se a esses cursos o nome de studia humanitatis ou "humanidades", e os que os ministravam ficaram conhecidos como humanistas. No Renascimento, o humanismo representou também uma ideologia que, sem deixar de aceitar a existência de Deus, partilhava muitas das atitudes intelectuais e existenciais do mundo antigo, integradas com as contínuas descobertas sobre a natureza e as novas condições de vida geradas pelo auge do comércio e da burguesia mercantil. Os mestres deram as costas à idealização medieval da pobreza, do celibato e da solidão, e em seu lugar destacaram a vida familiar e o uso judicioso da riqueza.

Gênese do Humanismo Italiano

Enquanto reflexão sobre o homem, o humanismo sempre existiu. Como movimento cultural coerente e programático, ocorreu num lugar e numa época histórica determinados: as cidades-estado italianas do século XV, de onde logo se estenderia por toda a Europa. Esse movimento, iniciado já no século XIV por autores como Petrarca e Boccaccio, defendia a capacidade do homem de pensar por si mesmo, sem entraves nem tutelas, e admitir diferentes soluções para qualquer problema, entre eles os filosóficos, ainda quando tivessem caráter "pagão". Assim, frente ao pensamento teocêntrico medieval, a religiosidade humanista quis chegar a Deus por meio do exercício da razão.

Produziu-se, além disso, uma inversão de valores fundamental, que logo seria denominada "giro copernicano", em alusão ao sistema heliocêntrico desenvolvido por Nicolau Copérnico. Inicialmente era o celeste que dava sentido ao terrestre; para os humanistas, ao contrário, seria o terrestre que daria sentido -- um sentido novo e reprovável, na visão da ortodoxia oficial -- ao celeste. Na Terra seria o homem, destronado do centro do universo junto com seu planeta, que mediria o celeste; e o faria segundo sua própria proporção. Isso ficou muito patente na arte renascentista (Leone Battista Alberti, Leonardo da Vinci). O corpo humano passou a ser a unidade com que se comparavam as coisas naturais, e assim se tornou certa a máxima do sofista grego Protágoras: "O homem é a medida de todas as coisas."

O humanismo atacou vigorosamente a divisão aristotélica estática entre mundo lunar e mundo sublunar, que subordinava o homem. Aristóteles, pelo menos na interpretação que dele fizera a escolástica medieval, foi o grande perdedor na renovação clássica realizada pelo humanismo, já que surgiram escolas neo-aristotélicas que tentaram reelaborar seu pensamento. Galileu, uma das grandes figuras do Renascimento, deu combate sem trégua a Aristóteles por sua ignorância em matemática e sua incapacidade para compreendê-la. Em oposição a ele glorificou-se Platão, que em seu sistema idealista dera à matemática um lugar destacado, e exaltou-se a concepção neoplatônica do universo como um todo harmônico em que o homem constitui o traço de união entre Deus e o mundo sensível. Não só renascia a filosofia de Platão, mas toda a física -- Demócrito, Epicuro, Lucrécio -- que os intérpretes de Aristóteles haviam considerado ultrapassada. A revalorização desses filósofos contribuiu para evidenciar que a teoria de Aristóteles não constituía a única hipótese da realidade e que seus livros não eram "a física", mas uma física entre outras. A discussão científica pôde prosseguir, não nos limites da obra aristotélica, mas à margem dela. E nesse sentido, a tarefa dos humanistas revelou-se decisiva.

A ruptura com o mito de um livro humano depositário privilegiado da "verdade" deu também lugar ao desenvolvimento das disciplinas que se ocupavam do Homo faber, construtor de seu mundo e de sua felicidade, que encarava a ética como norma para construir a si mesmo, a economia como instrumento para administrar seus bens e a política como a arte de gerir sua cidade-estado. Esse novo enfoque reativou a discussão sobre as artes e as técnicas. Vivendo entre pintores, arquitetos e engenheiros, os pensadores humanistas abriram caminho para uma revisão fundamental das relações entre o plano prático e o teórico.

Chegou-se, em suma, a uma concepção integradora do saber humano, que espelhava a harmonia do mundo. Assim, Leonardo da Vinci, que afirmou que "nenhuma pesquisa humana pode denominar-se ciência verdadeira se não passa pelas demonstrações matemáticas", não hesitou em considerar que a pintura era "ciência e filha legítima da natureza, porque esta natureza a gerara". A exaltação do homem foi característica comum a todos os humanistas italianos. Para Marsilio Ficino, o homem era vicário de Deus, imagem de Deus, nascida para reger o mundo, e podia pretender todas as coisas. Pico della Mirandola, com expressão dramática, pôs na boca de Deus a seguinte imprecação: "Tu, que não estás sujeito a nenhum limite, determinarás por ti mesmo tua própria natureza, segundo tua livre vontade."

Traços básicos do programa humanista. Pode-se sintetizar o programa humanista em três pontos fundamentais:

1. o objetivo básico do conhecimento é o homem e o significado da vida, e em função dele devem-se estabelecer as questões cosmológicas;

2. nenhum filósofo detém o monopólio da verdade; e

3. existe uma afinidade entre a cultura clássica pagã e o cristianismo, já que o ensinamento sobre o homem, a vida e a virtude ministrado pelos autores clássicos pode ser integrado ao cristianismo.

Nem todos os humanistas, no entanto, acataram a doutrina cristã. O italiano Giordano Bruno, queimado pela Inquisição, negou o cristianismo que separava Deus do mundo e refutou toda espécie de hierarquia ontológica e cosmológica, pois para ele o universo constituía um único nível de ser. Outro pensador italiano, Pietro Pomponazzi, não hesitou em refutar a imortalidade da alma individual.

Enquanto na Itália o humanismo foi antes de tudo artístico e filosófico, no centro e norte da Europa apresentou um matiz religioso muito acentuado. Seu principal representante, o holandês Erasmo de Rotterdam, uniu a sua devoção pela antiguidade uma dura crítica à escolástica e a formulação de uma reforma da espiritualidade cristã. Destacados humanistas não italianos, além dos citados, foram os franceses Jacques Lefèvre d'Étaples e François Rabelais e os ingleses Thomas More e Francis Bacon.

Agonia do Humanismo

Com o tempo o humanismo degenerou num culto puramente lingüístico e formal da antiguidade, voltado para uma erudição que carecia de vitalidade criadora. Desde meados do século XVI, se tornara pedante e livresco. As teses do reformador Martinho Lutero, com ênfase na especificidade do cristão em oposição à cultura pagã, bem como o retorno à ortodoxia estrita encarnada pelos teólogos contra-reformistas, representaram um golpe de misericórdia para o humanismo.

As guerras que assolaram a Europa após a Reforma contribuíram igualmente para quebrantar os ideais humanistas de harmonia natural e social. Contudo, a noção de racionalidade e a nova visão do mundo difundidas pelo humanismo sobreviveram nos pensadores racionalistas e empiristas e formaram a base do pensamento iluminista.

IDEALISMO

Na linguagem cotidiana, o termo idealismo se emprega para designar o apreço por valores e ideais. Filosoficamente, no entanto, refere-se ao conjunto de doutrinas que, por caminhos diversos, afirmam a precedência da consciência sobre o ser, ou da realidade ideal sobre a realidade material.

Em sentido amplo, o idealismo constitui uma das duas correntes filosóficas básicas. Contrapõe-se ao materialismo, para o qual toda realidade tem sempre caráter material ou corporal. Seu traço característico é tomar como ponto de partida para a reflexão filosófica o "eu", encarado sob o aspecto de alma, espírito ou mente. A maneira de entender tais conceitos determina diferentes correntes idealistas.

A teoria das idéias de Platão é historicamente o primeiro dos idealismos. Para ele, o ser em sua pureza e perfeição não está na realidade, que é o reino das aparências. Os objetos captados pelos sentidos são cópia imperfeita das idéias puras. A verdadeira realidade está no mundo das idéias, das formas inteligíveis, acessíveis apenas à razão.

O termo idealismo, na verdade, surgiu apenas no século XVII para designar o platonismo, seus derivados medievais - doutrina dos universais - e alguns aspectos das filosofias de Descartes e John Locke. Embora o primeiro fosse racionalista e o segundo empirista, ambos apontaram, em momentos de sua reflexão metodológica, a possibilidade de que o homem só pudesse conhecer "idéias", objetos subjetivos e exclusivos da mente humana. Caberia, assim, pôr em dúvida a própria existência de um mundo sensível.

Para o idealista inglês George Berkeley, a única existência dos objetos é a idéia que se tem deles: "existir é ser percebido". As coisas só existem como objetos da consciência. A existência do mundo como realidade coerente e regular estaria garantida por Deus, mente suprema onde tudo se produz e ordena.

No idealismo transcendental de Kant, a experiência sensorial só se torna inteligível por meio de estruturas conceituais preexistentes no espírito humano. Assim, a realidade é apreendida por formas de sensibilidade, como as noções de espaço e tempo, e certas categorias universais do entendimento, como a unidade, a totalidade, a causalidade etc. A partir da filosofia de Kant, desenvolveu-se o idealismo metafísico alemão, em que Johann Gottlieb Fichte identificou o espírito universal com o eu, e Friedrich Schelling elaborou uma forma de idealismo próximo do panteísmo religioso.

Hegel formulou um sistema filosófico que representa uma síntese do idealismo alemão e é comumente chamada de idealismo absoluto. As formas de pensar seriam também as formas do ser: "o que é racional é real e o que é real, é racional". O espírito se realiza a si mesmo, no mundo externo, num processo dialético de superação de contradições, integrado por três fases: tese, antítese ou negação, e síntese, ou negação da negação. Os sucessivos processos dialéticos conduziriam o espírito à perfeição.

Todas as doutrinas idealistas coincidem num postulado básico: a existência de uma realidade última - quer se chame espírito, Deus ou energia vital - que transcende o mundo físico e lhe dá sua razão de ser.

ILUMINISMO

No decorrer do século XVIII, as idéias do Iluminismo sobre Deus, a razão, a natureza e o homem cristalizaram-se numa cosmovisão que deitou raízes e acabou por produzir avanços revolucionários na arte, na filosofia e na política.

Iluminismo foi o movimento cultural e intelectual europeu que, herdeiro do humanismo do Renascimento e originado do racionalismo e do empirismo do século XVII, fundava-se no uso e na exaltação da razão, vista como o atributo pelo qual o homem apreende o universo e aperfeiçoa sua própria condição. Considerava que os objetivos do homem eram o conhecimento, a liberdade e a felicidade. O Iluminismo foi chamado pelos franceses de Siècle des Lumières, ou apenas Lumières, pelos ingleses e americanos de Enlightenment e pelos alemães de Aufklärung.

Características Gerais

O Iluminismo avaliou com otimismo o poder e as realizações da razão humana, e a crença na possibilidade de reorganizar a sociedade segundo princípios racionais. Não ignorou a história, mas a encarou de modo crítico, sem aceitar a idéia de que a evolução da humanidade fosse inexoravelmente determinada pelo passado. Esse enfoque retirou do otimismo dos pensadores iluministas qualquer caráter metafísico. Ao contrário, a visão iluminista tinha por base a possibilidade, aberta a cada ser humano, de ter consciência de si mesmo e de seus erros e acertos, e de ser dono de seu destino: a confiança nos efeitos moralizadores e enobrecedores da instrução se completava na exortação a todas as pessoas para que pensassem e julgassem por si próprias, sem orientação alheia. A crítica iluminista dirigiu-se contra a tradição e a autoridade daqueles que se arrogavam a tarefa de guiar o pensamento, e contra o dogmatismo que os justificava.

Essa luta contra as verdades dogmáticas deu-se, na esfera política, com a oposição ao absolutismo monárquico. É certo que houve alguns casos em que monarcas apoiaram e estimularam as novas idéias, atitude que ficou conhecida como "despotismo esclarecido". Esse apoio não configurava uma aliança, pois era quase sempre superficial e ditado por conveniências políticas ou estratégicas.

A riqueza e complexidade do movimento iluminista teve como base alguns pontos gerais: em primeiro lugar, a influência que os empreendimentos científicos do século XVII e início do século XVIII tiveram sobre as novas idéias. Na astronomia e na física, por exemplo, Galileu Galilei, Johannes Kepler e Isaac Newton levaram a conceber o universo como "natureza", ou seja, como um domínio ou realidade dinâmica, regida por leis gerais que a razão sempre poderia acabar por descobrir. Em segundo lugar, e como conseqüência, a substituição da idéia de um Deus pessoal, responsável pelos acontecimentos humanos e eventos naturais, por um deísmo, que valorizava a idéia abstrata de Deus como princípio ordenador da natureza, "arquiteto do mundo" e criador de suas leis, mas que não intervém diretamente nele. Embora a idéia do deísmo não tenha sido compartilhada por todos os pensadores iluministas -- alguns mantiveram a crença em um Deus transcendente ao qual a humanidade concernia diretamente, enquanto outros radicalizaram suas opiniões e chegaram ao ateísmo --, essa foi a tendência dominante do pensamento da época.

Tudo isso levou à crença no "progresso histórico" da humanidade, concebido não como produto de um plano divino, mas como resultado da razão e dos esforços humanos. Formou-se assim pela primeira vez a idéia de "humanidade" como integração de todos os povos, acima de circunstanciais diferenças étnicas ou situações temporais ou espaciais.

Como resultado lógico, a atividade e tarefa que os pensadores iluministas se atribuíam não ficou centrada na criação de grandes sistemas especulativos, e sim na difusão da cultura e na abertura de novas perspectivas para a compreensão da realidade. Os gêneros literários se diversificaram, surgiram inúmeras publicações, e a diversidade de temas de estudo e de reflexão firmou-se como um dos traços que permaneceram na cultura contemporânea.

Para avaliar globalmente o Iluminismo, deve-se levar em conta que, embora houvesse uma atmosfera cultural comum em quase toda a Europa, as diferenças nacionais e a existência de sistemas políticos distintos determinaram condições e pontos de vista diversos. O Iluminismo francês, por exemplo, foi mais anticlerical e de orientação política do que o Iluminismo britânico, o qual se desenvolveu em um país onde já havia se estabelecido uma monarquia liberal; já na Alemanha, o debate intelectual se concentrou em questões metafísicas e religiosas.

Desenvolvimento e Principais Tendências

O Iluminismo produziu as primeiras teorias modernas seculares sobre a psicologia e a ética. O filósofo empirista inglês John Locke foi, de certo modo, o primeiro iluminista. Em seu Essay Concerning Human Understanding (1689; Ensaio acerca do entendimento humano), Locke rejeitou a escolástica, que baseava a explicação do mundo em conceitos, e recusou também o apriorismo cartesiano: para Locke, os objetos do entendimento ou conhecimento não poderiam ser entidades constituídas prévia e independentemente dele, nem tampouco idéias inatas. Assim, considerou que, na ocasião do nascimento, a mente humana é como uma página em branco, uma tabula rasa na qual a experiência vai formando o caráter individual. Essas idéias, radicalizadas por David Hume, ensejaram uma nova visão da ética e da sociedade. As ações corretas e a organização social justa dependeriam do exercício da faculdade da razão.

Na França, a organização política não tinha a flexibilidade e funcionalidade do sistema inglês, de modo que a reação contra a rigidez hierárquica e a desigualdade levou quase forçosamente a ideais revolucionários, que apareceram de modo bem definido em obras como a do barão de Montesquieu, L'Esprit des lois (1748; O espírito das leis). Nela, o autor postulava um liberalismo de tipo britânico, assegurado -- e essa foi sua grande contribuição à filosofia política -- pela separação dos poderes executivo, legislativo e judiciário. Voltaire foi, em grande medida, o símbolo do "século das luzes" francês; atacou com dureza o absolutismo e a igreja, exaltou a razão e advogou um deísmo que assumiu algumas vezes formas quase místicas e irracionais.

Denis Diderot e Jean Le Rond d'Alembert produziram o grande monumento intelectual do Iluminismo: a Encyclopédie, obra portentosa que consistia numa série de artigos e ensaios de vários pensadores e especialistas, que versavam sobre o homem e suas "ciências, artes e ofícios". A Encyclopédie, que se estendeu por 35 volumes e teve notável influência intelectual na França e em outros países, deu grande importância ao progresso e à ciência.

Jean-Jacques Rousseau foi uma das grandes figuras das Luzes. Para ele, a moral surge com a sociedade, pressupõe o princípio da ordem e exige a liberdade. A única sociedade política aceitável para o homem é a que está fundada no consentimento geral. Rousseau não preconizou a revolução nem incitou a ela, mas suas idéias influenciaram os revolucionários franceses. Por sua riqueza e originalidade, são também um marco inaugural do romantismo e uma das referências do pensamento moderno.

Na Aufklärung, destacou-se Christian Wolff. Diferente das Lumières, o Iluminismo germânico sofreu influência da reforma luterana e do empirismo de Locke, e apresentou grande atração pelas matemáticas. Todas essas tendências se incorporaram a um núcleo central representado pela problemática metafísica. A estética foi estudada principalmente por Gotthold Ephraim Lessing. Immanuel Kant é o resumo por excelência do Iluminismo e iniciou uma nova forma de pensamento.

Em outros lugares da Europa, as idéias iluministas penetraram menos. Na Itália, Giambattista Vico propôs uma definição e um projeto racionais da história, na qual distinguia três idades: a dos deuses, a dos heróis e a dos homens. Na península ibérica, o predomínio da teologia cristã tradicional tolheu as novas idéias, que encontraram maior difusão nas colônias hispano-americanas e no Brasil, e contribuíram para a formação do pensamento social e político dos líderes do movimento de independência.

Significado histórico. O Iluminismo extinguiu-se, ao menos em parte, pelos excessos de algumas de suas idéias. A oposição às idéias religiosas e a usurpação da figura de Deus tornaram-no estéril e sem atrativos aos olhos de muitos para quem a religião era fonte de consolo, esperança e sentimento de comunhão. O culto quase ritualístico à razão abstrata, elevada à categoria de autêntica divindade, levou também a cultos de tipo esotérico ou obscurantista. E o período do "Terror", que se seguiu à revolução francesa foi um golpe para a convicção iluminista de uma sociedade justa e pacífica, fundada em princípios racionais partilhados por todos os cidadãos.

Os pensadores iluministas deixaram como legado a definição e desenvolvimento de muitos dos conceitos e termos empregados ainda hoje no tratamento de temas estéticos, éticos, sociais e políticos. E o mundo contemporâneo herdou deles a convicção, rica de esperanças e projetos, de que a história humana é uma crônica de contínuo progresso.

INDIVIDUALISMO

Como atitude geral, o individualismo valoriza a liberdade pessoal, a autoconfiança, a privacidade e o respeito pelos outros indivíduos e opõe-se à tradição, à autoridade e a todas as formas de controle sobre o indivíduo, especialmente quando exercidas pelo estado.

Teoria filosófica segundo a qual cada pessoa deve usufruir da máxima liberdade e responsabilidade para determinar seus objetivos, escolher os meios de alcançá-los e agir de acordo com tais pressupostos, o individualismo sustenta a autodeterminação, a auto-suficiência e a liberdade irrestrita do indivíduo.

Como filosofia, o individualismo compreende um sistema de valores, uma teoria sobre a natureza humana e a aceitação de certas configurações econômicas, políticas, sociais e religiosas. Seu sistema de valores pode ser sintetizado em três proposições: (1) todos os valores são antropocêntricos, isto é, experimentados -- embora não necessariamente criados -- por seres humanos; (2) o indivíduo é um fim em si mesmo e tem valor supremo, sendo a sociedade apenas um meio para a realização dos fins individuais; e (3) todos os indivíduos são, em certo sentido, moralmente iguais, expressando-se essa igualdade na assertiva de que nenhum indivíduo pode ser tratado apenas como meio para o bem-estar de outrem.

Desses princípios deriva a configuração institucional proposta pelo individualismo. A democracia liberal é a melhor forma de governo e o laissez faire a melhor política: o papel do estado está em maximizar a liberdade e as oportunidades individuais. Somente os individualistas mais extremados acreditam no anarquismo, mas todos acham que o governo deve interferir minimamente sobre os indivíduos e limitar-se a manter a lei e a ordem, evitando que os indivíduos entrem em conflito e garantindo os acordos (contratos) voluntariamente ajustados. O estado tende a ser visto como um mal necessário e "o melhor governo é o que governa menos". Além disso, todos os indivíduos devem ter oportunidades iguais de, por meio do voto, determinar a forma e atividade do estado e, pela liberdade de expressão e associação, influenciar as crenças e o comportamento dos outros.

Em teoria política, o individualismo afirma a superioridade ontológica do indivíduo sobre a comunidade: o indivíduo não existe para engrandecer ou enriquecer o estado e a sociedade; mas o estado e a sociedade é que existem para promover a felicidade de cada um de seus integrantes. O individualismo opõe-se a todas as doutrinas políticas que dão prioridade às questões sociais: a sociedade não passa de um conjunto de indivíduos e cada um deles é uma entidade autônoma praticamente auto-suficiente.

O individualismo político é doutrina moderna, pois as democracias da antiguidade, na Grécia e em Roma, mantinham a prioridade respectivamente da polis e da res publica. No século XVII, filósofos como Spinoza e Locke lançaram os fundamentos de um individualismo que entrou, depois, no credo político de todas as espécies de liberalismo. As idéias liberais ganharam corpo na América do Norte britânica e na França do século XVIII. A revolução francesa, entretanto, caracterizou-se mais pelo sentimento nacional do que pelo individualismo.

No século XIX, o individualismo ganhou força no Reino Unido graças às idéias dos seguidores de Adam Smith e Jeremy Bentham, no campo econômico e político respectivamente. A doutrina smithiana do laissez faire, baseada numa profunda confiança -- herdada dos fisiocratas franceses -- na harmonia natural das vontades individuais, e o utilitarismo hedonista de Bentham, com sua regra básica ("cada um vale como um e ninguém vale mais que um"), prepararam terreno para essa evolução. Na área econômica, "o simples e óbvio sistema da liberdade natural" de Smith apresentava a troca de bens e serviços em mercados livres e competitivos como o sistema ideal de cooperação para benefício mútuo.

Uma forma moderna de individualismo é a doutrina do welfare state, que pretende adotar reformas de índole socialista para promover o bem-estar dos indivíduos. Trata-se de um conceito de governo no qual o estado desempenha um papel primordial na promoção e proteção do bem-estar econômico e social de seus cidadãos.

IRRACIONALISMO

Corrente filosófica que surgiu em contraposição à chamada idade da razão, o irracionalismo sustenta que a capacidade humana para apreender a realidade é maior quando supera os limites do racional. A negação da racionalidade exclui em geral o campo das ciências naturais e matemáticas, bem como o da indústria e da técnica, para concentrar-se no das realidades propriamente humanas, sociais e históricas.

O termo irracionalismo designa uma corrente de pensamento muito difundida no fim do século XIX e início do século XX, principalmente entre os filósofos europeus. Com raízes na metafísica, o irracionalismo enfatiza o papel do instinto, do sentimento e da vontade, em oposição à razão. Para a ontologia, implica que o mundo não tem estrutura racional, sentido ou propósito. Para a epistemologia, que a razão é incapaz de apreender o universo sem distorções. Para a antropologia, que o componente irracional é dominante na natureza humana.

Embora a formulação desses conceitos seja relativamente recente, traços de irracionalismo são encontrados em culturas muito antigas. A tendência irracionalista e instintiva que Nietzsche chamou dionisíaca se observa na dramaturgia grega e mesmo na obra filosófica de muitos pensadores gregos, como Pitágoras e Empédocles.

Sob a influência de Darwin e, mais tarde, de Freud, o irracionalismo começou por explorar as raízes biológicas e inconscientes da experiência humana. Assim, o pragmatismo, o existencialismo e o vitalismo surgiram para expressar uma visão mais ampla e aberta da vida e do pensamento humanos. Para Schopenhauer, típico irracionalista do século XIX, o voluntarismo -- vontade cega e sem sentido a permear a existência -- expressava a essência da realidade. Charles Sanders Peirce e William James acreditavam que as idéias deveriam ser consideradas não em termos lógicos, mas segundo seus resultados práticos, ao serem transformadas em ação.

O irracionalismo está presente no historicismo e relativismo de Wilhelm Dilthey, que condicionava todo conhecimento à perspectiva histórica do indivíduo. Friedrich Heinrich Jacobi exaltava a clareza e a precisão da fé, em detrimento do conhecimento intelectual. Friedrich Schelling e Henri Bergson voltaram-se para a intuição como única força capaz de "enxergar o que é invisível para a ciência". A razão, em si, não era repudiada, mas perdia o papel de comando. Para Nietzsche, os códigos morais eram mentiras e fraudes, criadas com o objetivo de mascarar as forças interiores e influenciar o comportamento humano.

Os filósofos existencialistas Søren Kierkegaard, Jean-Paul Sartre e Albert Camus desistiram de encontrar sentido num mundo incoerente, e cada um deles escolheu sua alternativa à razão: o abandono da fé, a liberdade radical e a revolta heróica, respectivamente.

JANSENISMO

O jansenismo, surgido no seio da Igreja Católica no século XVII e condenado em várias bulas papais, já foi definido como "a doutrina de santo Agostinho vista com olhos calvinistas".

Conhece-se como jansenismo a doutrina dos seguidores de Cornelius Jansen, teólogo holandês que se tornou bispo católico de Ypres e faleceu em 1638. Baseado na tradicionalmente aceita doutrina de santo Agostinho, reafirmada por santo Tomás de Aquino, o jansenismo atribuía à salvação da alma ao juízo prévio e insondável do Criador, e não às "boas obras" ou à disposição da criatura. A teoria jansenista se acompanhava de uma ética severa e rigoroso ascetismo. Seus principais adversários eram os teólogos da Companhia de Jesus que, influenciados pelo humanismo renascentista, passaram a pregar a importância do livre-arbítrio e da colaboração da vontade humana na salvação. A revisão doutrinária humanística empreendida pelos jesuítas obedecia à idéia segundo a qual a persistência na tradição agostiniana favoreceria o calvinismo emergente.

As idéias jansenistas foram acolhidas com especial fervor na França por Jean Duvergier de Hauranne, abade de Saint-Cyran e diretor espiritual da abadia de Port-Royal. Preso em 1638 por se opor à política de Richelieu, foi sucedido por seu discípulo Antoine Arnauld, que popularizou a doutrina numa série de eloqüentes textos.

Cinco teses supostamente extraídas do Augustinus, obra de Jansen publicada postumamente em 1640, foram apresentadas pelos jesuítas ao papa Inocêncio X, em 1653, que as condenou por heréticas. Sucederam-se as condenações papais ao movimento, o que não impediu a criação de um influente grupo de intelectuais jansenistas em Port-Royal. Entre eles destacaram-se o filósofo Blaise Pascal, que em suas Provinciales (1656; Cartas provinciais) atacou duramente os jesuítas, e Pasquier Quesnel, cujas obras foram condenadas pelo papa e que morreu no exílio, pedindo um concílio para dirimir a questão.

Depois da destruição de Port-Royal em 1710, o partido jansenista adotou uma tendência de teor mais político, oposta ao absolutismo monárquico, e sofreu freqüentes investidas repressivas até a revolução francesa. Posteriormente, o movimento desapareceu como tal, mas pequenos grupos católicos reformadores sobrevivem nos Países Baixos até a atualidade. O desempenho histórico-social dos jansenistas tem causado controvérsia entre os estudiosos. Por muito tempo, os adeptos de Jansen foram encarados como porta-vozes do progresso, da liberdade religiosa, da insurreição burguesa contra o absolutismo decadente. Em contraposição, seus adversários, os jesuítas, representariam o imobilismo político e as forças conservadoras.

Trabalhos como o de Bernard Groethuysen, Les Origines d'esprit bourgeois en France (1927; As origens do espírito burguês na França) levam a uma conclusão oposta. Os jansenistas teriam recrutado seus aliados na burguesia imobilista, não empenhada na atividade revolucionária. O ascetismo místico e a ênfase na predestinação teriam representado, principalmente, a fuga sistemática às mudanças, em que o homem e a vontade humana desempenham papel central.

LIBERALISMO

Surgido em conseqüência da luta histórica da burguesia para superar os obstáculos que a ordem jurídica feudal opunha ao livre desenvolvimento da economia, o liberalismo tornou-se uma corrente doutrinária de importância capital na vida política, econômica e social dos estados modernos.

Liberalismo é uma doutrina política e econômica que, em suas formulações originais, postulava a limitação do poder estatal em benefício da liberdade individual. Fundamentado nas teorias racionalistas e empiristas do Iluminismo e na expansão econômica gerada pela industrialização, o liberalismo converteu-se, desde o final do século XVIII, na ideologia da burguesia em sua luta contra as estruturas que se opunham ao livre jogo das forças econômicas e à participação da sociedade na direção do estado.

Antecedentes

Na Idade Média feudal, a sociedade se compunha basicamente de três classes sociais: a nobreza proprietária da terra, os servos da gleba, a ela submetidos, e os artesãos urbanos organizados em corporações. As responsabilidades públicas se dividiam entre os nobres e a igreja. A partir do século XIII, no entanto, o desenvolvimento da atividade comercial das cidades e o aparecimento do capitalismo mercantilista representaram o início de uma transformação radical das sociedades européias.

A burguesia, concentrada nas cidades, foi a principal protagonista desse processo histórico. Apesar da importância econômica que conquistavam, os burgueses continuavam excluídos do poder político. Um movimento crítico da sociedade surgiu então, contrário à ordem feudal e aos estados centralizadores. Assim se gerou, num processo que durou séculos, um movimento filosófico, político e econômico que afirmou a liberdade total do indivíduo e propugnou a limitação radical dos poderes do estado. As características fundamentais desse movimento, além da restrição das atribuições do estado, foram a defesa da livre concorrência na área econômica e a definição dos direitos fundamentais do indivíduo, entre os quais a liberdade de idéias e de crenças e a sua livre expressão.

O movimento, que adquiriria sua mais acabada expressão no liberalismo, converteu-se na ideologia em que a burguesia se apoiou para assumir o controle do estado a partir das últimas décadas do século XVIII, e depois impregnou profundamente os princípios políticos das sociedades modernas.

Idéias liberais. As armas decisivas que a burguesia utilizou em sua luta intelectual contra a nobreza e a igreja foram o Iluminismo - que opôs razão à tradição, e o direito natural aos privilégios de classe - e as análises econômicas da escola clássica, cujos principais representantes foram os economistas Adam Smith e David Ricardo.

A célebre máxima da escola fisiocrata francesa do século XVIII "Laissez faire, laissez passer: le monde va de lui même" ("deixa fazer, deixa passar: o mundo anda por si mesmo") é a que melhor expressa a natureza da economia liberal. Efetivamente, a escola liberal acredita que a economia possui seus próprios mecanismos de auto-regulamentação, que atuam com eficácia sempre que o estado não dificulte seu funcionamento espontâneo.

Ainda antes que Smith, Ricardo e demais intelectuais da escola clássica estudassem a nova estrutura econômica da sociedade, iniciara-se a crítica política do absolutismo e dos remanescentes da velha sociedade feudal. Já no século XVII, o filósofo britânico Thomas Hobbes tentara fundamentar a legitimidade da monarquia na relação contratual dela com seus súditos. Foi depois o barão de Montesquieu quem, em De l'esprit des lois (1748; Sobre o espírito das leis), formulou o princípio da separação de poderes, dificuldade fundamental na gestação de novos estados democráticos. Coube a Jean-Jacques Rousseau a afirmação do princípio da soberania do povo, que continha os instrumentos teóricos para iniciar o assalto à monarquia absoluta.

Instauração política do liberalismo. Na Grã-Bretanha, graças a uma precoce aliança com a nobreza, a burguesia colheu os primeiros frutos de sua luta política. Durante o século XVIII, as cortes britânicas converteram-se paulatinamente num Parlamento moderno, logo proposto como modelo no continente. Essa liberalização foi, no entanto, limitada, uma vez que teve que esperar o século XIX para que o direito ao voto se estendesse à pequena burguesia, e as primeiras décadas do século XX para que se estabelecesse o sufrágio universal.

A instauração da nova ordem política foi desigual nos demais países europeus e americanos. Nos Estados Unidos, os direitos do homem foram proclamados em 1776. Na França, foi preciso esperar a revolução de 1789 para que se desse um passo semelhante e se proclamassem constituições populares em 1791 e 1793. Na Espanha, o estado liberal impôs-se nas primeiras décadas do século XIX. Os países americanos que fizeram parte de seu império colonial forjaram, ao contrário, sua independência sob a bandeira do liberalismo político e econômico. Na Alemanha, só em 1918 instituiu-se um Parlamento.

Estado liberal. Se o objetivo primeiro da burguesia foi o controle do poder legislativo, o fim último da idéia liberal foi a submissão do poder executivo aos representantes populares e, conseqüentemente, a eliminação do poder monárquico.

A tarefa do Parlamento devia ser o controle do executivo, para evitar, assim, as ingerências arbitrárias deste no âmbito privado e na vida econômica. Os representantes parlamentares eram, formalmente, porta-vozes populares que buscavam o bem comum, ainda que, na prática, procedessem da classe dos proprietários. A progressiva extensão do voto e a permeabilidade cada vez maior entre os diferentes setores sociais fez com que, pouco a pouco, aquela representatividade se tornasse efetiva.

De início, o sistema liberal não previa partidos políticos, entendidos como na atualidade, dadas as afinidades básicas que existiam entre os representantes parlamentares. Observou-se, a princípio, a necessidade de apresentar candidatos e de agrupar aqueles de maior proximidade ideológica, ao mesmo tempo que se instalava entre eles um forte componente de influências pessoais. A irrupção das massas operárias na política representou uma grande mudança daquela concepção inicial. O mesmo aconteceu com o apogeu da imprensa como órgão de expressão da opinião pública, fonte última de legitimidade nos sistemas liberais-democráticos.

Liberalismo e Justiça

A desigualdade dos indivíduos segundo seu nascimento e camada social a que pertencessem era consubstancial ao ordenamento jurídico do velho regime feudal. A própria coerência do liberalismo exigia, no entanto, a igualdade de oportunidades entre os indivíduos e, conseqüentemente, a igualdade última de todos perante a lei, cujo império se afirmava também diante dos próprios poderes públicos.

A concretização jurídica do triunfo do liberalismo nos diversos estados expressou-se na promulgação de constituições, leis fundamentais que sancionaram a divisão de poderes, os direitos e obrigações dos indivíduos e os demais princípios da nova ordem social.

MANIQUEÍSMO

Considerado durante muito tempo uma heresia cristã, possivelmente por sua influência sobre algumas delas, o maniqueísmo foi uma religião que, pela coerência da doutrina e a rigidez das instituições, manteve firme unidade e identidade ao longo de sua história.

Denomina-se maniqueísmo a doutrina religiosa pregada por Maniqueu - também chamado Mani ou Manes - na Pérsia, no século III da era cristã. Sua principal característica é a concepção dualista do mundo como fusão de espírito e matéria, que representam respectivamente o bem e o mal.

Maniqueu e sua Doutrina

Maniqueu nasceu em 14 de abril do ano 216, no sul da Babilônia, região atualmente situada no Iraque, e na juventude sentiu-se chamado por um anjo para pregar uma nova religião. Pregou na Índia e em todo o império persa, sob a proteção do soberano sassânida Sapor (Shapur) I. Durante o reinado de Bahram I, porém, foi perseguido pelos sacerdotes do zoroastrismo e morreu em cativeiro entre os anos 274 e 277, na cidade de Gundeshapur.

Maniqueu se acreditava o último de uma longa sucessão de profetas, que começara com Adão e incluía Buda, Zoroastro e Jesus, e portador de uma mensagem universal destinada a substituir todas as religiões. Para garantir a unidade de sua doutrina, registrou-a por escrito e deu-lhe forma canônica. Pretendia fundar uma religião ecumênica e universal, que integrasse as verdades parciais de todas as revelações anteriores, especialmente as do zoroastrismo, budismo e cristianismo.

O maniqueísmo é fundamentalmente um tipo de gnosticismo, filosofia dualista segundo a qual a salvação depende do conhecimento (gnose) da verdade espiritual. Como todas as formas de gnosticismo, ensina que a vida terrena é dolorosa e radicalmente perversa. A iluminação interior, ou gnose, revela que a alma, a qual participa da natureza de Deus, desceu ao mundo maligno da matéria e deve ser salva pelo espírito e pela inteligência.

O conhecimento salvador da verdadeira natureza e do destino da humanidade, de Deus e do universo é expresso no maniqueísmo por uma mitologia segundo a qual a alma, enredada pela matéria maligna, se liberta pelo espírito. O mito se desdobra em três estágios: o passado, quando estavam radicalmente separadas as duas substâncias, que são espírito e matéria, bem e mal, luz e trevas; um período intermediário (que corresponde ao presente) no qual as duas substâncias se misturam; e um período futuro no qual a dualidade original se restabeleceria. Na morte, a alma do homem que houvesse superado a matéria iria para o paraíso, e a do que continuasse ligado à matéria pelos pecados da carne seria condenada a renascer em novos corpos.

Maniqueísmo como Religião

A ética maniqueísta justifica a gradação hierárquica da comunidade religiosa, uma vez que varia o grau de compreensão da verdade entre os homens, fato inerente à fase de interpenetração entre luz e trevas. Distinguiam-se os eleitos, ou perfeitos, que levavam vida ascética em conformidade com os mais estritos princípios da doutrina. Os demais fiéis, chamados ouvintes, contribuíam com trabalho e doações. Por rejeitar tudo o que era material, o maniqueísmo não admitia nenhum tipo de rito nem símbolos materiais externos. Os elementos essenciais do culto eram o conhecimento, o jejum, a oração, a confissão, os hinos espirituais e a esmola.

Por sua própria concepção da luta entre o bem e o mal e sua vocação universalista, o maniqueísmo dedicou-se a intensa atividade missionária. Como religião organizada, expandiu-se rapidamente pelo Império Romano. Do Egito, disseminou-se pelo norte da África, onde atraiu um jovem pagão que mais tarde, convertido ao cristianismo, seria doutor da igreja cristã e inimigo ferrenho da doutrina maniqueísta: santo Agostinho. No início do século IV, já havia chegado a Roma.

Enquanto Maniqueu foi vivo, o maniqueísmo se expandiu para as províncias ocidentais do império persa. Na Pérsia, apesar da intensa perseguição, a comunidade maniqueísta se manteve coesa até a repressão dos muçulmanos, no século X, que levou à transferência da sede do culto para Samarcanda. Missionários maniqueístas chegaram no fim do século VII à China, onde foram reconhecidos oficialmente até o século IX. Depois foram perseguidos, mas persistiram comunidades de adeptos no país até o século XIV. No Turquestão oriental, o maniqueísmo foi reconhecido como religião oficial durante o reino Uighur -- séculos VIII e IX -- e perdurou até a invasão dos mongóis, no século XIII.

Posteridade do Maniqueísmo

Embora não haja dados que permitam estabelecer uma vinculação histórica direta, o pensamento maniqueísta inspirou na Europa medieval diversas seitas ou heresias dualistas surgidas no seio do cristianismo. Entre elas, cabe citar a dos bogomilos, na Bulgária (século X) e, sobretudo, a dos cátaros ou albigenses, que se propagou no sul da França no século XII. Este último movimento foi uma das mais poderosas heresias da Europa, sufocada de modo sangrento no início do século seguinte.

MARXISMO

Fruto de décadas de colaboração entre Karl Marx e Friedrich Engels, o marxismo influenciou os mais diversos setores da atividade humana ao longo do século XX, desde a política e a prática sindical até a análise e interpretação de fatos sociais, morais, artísticos, históricos e econômicos, e se tornou doutrina oficial dos países de regime comunista.

Marxismo é o conjunto das idéias filosóficas, econômicas, políticas e sociais que Marx e Engels elaboraram e que mais tarde foram desenvolvidas por seguidores. Interpreta a vida social conforme a dinâmica da luta de classes e prevê a transformação das sociedades de acordo com as leis do desenvolvimento histórico de seu sistema produtivo.

Os pontos de partida do marxismo são a dialética de Hegel, a filosofia materialista de Feuerbach e dos enciclopedistas franceses e as teorias econômicas dos ingleses Adam Smith e David Ricardo. Mais do que uma filosofia, o marxismo é a crítica radical da filosofia, principalmente do sistema filosófico idealista de Hegel. Enquanto para Hegel a realidade se faz filosofia, para Marx a filosofia precisa incidir sobre a realidade. O núcleo do pensamento de Marx é sua interpretação do homem, que começa com a necessidade humana. A história se inicia com o próprio homem que, na busca da satisfação de necessidades, luta contra a natureza. À medida que luta, o homem se descobre como ser produtivo e passa a ter consciência de si e do mundo. Percebe então que "a história é o processo de criação do homem pelo trabalho humano".

As duas vertentes do marxismo são o materialismo dialético, para o qual a natureza, a vida e a consciência se constituem de matéria em movimento e evolução permanente, e o materialismo histórico, para o qual o fato econômico é base e causa determinante dos fenômenos históricos e sociais, inclusive as instituições jurídicas e políticas, a moralidade, a religião e as artes.

A teoria marxista desenvolve-se em quatro níveis de análise - filosófico, econômico, político e sociológico - em torno da idéia central de mudança. Em suas Thesen über Feuerbach (1845, publicadas em 1888; Teses sobre Feuerbach), Marx escreveu: "Até o momento, os filósofos apenas interpretaram o mundo; o fundamental agora é transformá-lo." Para transformar o mundo é necessário vincular o pensamento à prática revolucionária. Interpretada por diversos seguidores, a teoria tornou-se uma ideologia que se estendeu a regiões de todo o mundo e foi acrescida de características nacionais. Surgiram assim versões como as dos partidos comunistas francês e italiano, o marxismo-leninismo na União Soviética, as experiências no leste europeu, o maoísmo na China e Albânia e as interpretações da Coréia do Norte, de Cuba e dos partidos únicos africanos, em que se mistura até com ritos tribais.

Materialismo Dialético

De uma perspectiva idealista, Hegel, filósofo alemão do século XIX, englobava a natureza, a história e o espírito no processo dialético de movimento das idéias, determinado pela oposição de elementos contrários (tese e antítese) que progridem em direção a formas mais aperfeiçoadas (síntese). Assim, no devir da história, o processo dialético impulsiona o desenvolvimento da idéia absoluta pela sucessão de momentos de afirmação (tese), de negação (antítese) e de negação da negação (síntese).

Marx adotou a dialética hegeliana e substituiu o devir das idéias, ou do espírito humano, pelo progresso material e econômico. Em Zur Kritik der Politischen Ökonomie (1859; Contribuição à crítica da economia política), resume o que mais tarde foi chamado materialismo dialético: "Não é a consciência do homem que determina seu ser, mas o ser social que determina sua consciência." Pelo método dialético, sustentou que o capitalismo industrial (afirmação) engendra o proletariado (negação) e essa contradição é superada, no futuro, pela negação da negação, isto é, pela sociedade sem classes.

Outra chave do marxismo está no pensamento do filósofo alemão Ludwig Feuerbach. Discípulo de Hegel, Feuerbach inverteu na dialética os lugares ocupados pela idéia e pela matéria e formulou a teoria da alienação do homem, entendendo Deus como ilusão humana ditada por necessidades da realidade material. Marx detectou certa inconsistência no materialismo de Feuerbach, pois este considerava o homem como ser puramente biológico. Tomando uma noção criada por Moses Hess, também hegeliano, Marx definiu o homem em sua relação com a natureza e a sociedade, isto é, em sua dimensão econômica e produtiva, e viu no estado, na propriedade e no capital a fonte da alienação humana. Para Marx, as relações materiais de produção de uma sociedade determinam a alienação política, religiosa e ideológica, como conseqüências inequívocas das condições de dominação econômica.

Materialismo Histórico

Também chamado concepção materialista da história, o materialismo histórico é a aplicação do marxismo ao estudo da evolução histórica das sociedades humanas. Essa evolução se explica pela análise dos acontecimentos materiais, essencialmente econômicos e tecnológicos. Na atividade econômica e social, os homens estabelecem relações necessárias e independentes de sua vontade. São as relações de produção, que correspondem a um determinado grau de desenvolvimento das forças produtivas (trabalho humano, instrumentos, máquinas). O conjunto das relações de produção forma a infra-estrutura econômica da sociedade, base material sobre a qual se eleva uma superestrutura política, jurídica e ideológica, o que engloba as idéias morais, estéticas e religiosas. Assim, o modo de produção dos bens materiais condiciona a vida social, política e intelectual que, por sua vez, interage com a base material. Para contrabalançar o determinismo econômico da teoria, Marx afirmou a existência de uma constante interação e interdependência entre a infra-estrutura e a superestrutura, embora, em última instância, os fatores econômicos sejam os determinantes.

No curso de seu desenvolvimento, as forças produtivas da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes e estas convertem-se em obstáculos à continuidade do processo produtivo. Inicia-se então uma era de revolução social que afeta a fundo a estrutura ideológica, de modo que os homens adquirem consciência do conflito de que participam.

As relações capitalistas de produção seriam a forma final de antagonismo no processo histórico. O modo de produção do capitalismo industrial conduz de modo inevitável à superação da propriedade privada, não só pela rebelião dos oprimidos como pela própria evolução do sistema, em que a progressiva acumulação de capital determina a necessidade de novas relações de produção baseadas na propriedade coletiva dos meios de produção. Superado o regime de propriedade privada, o homem venceria a alienação econômica e, em seguida, todas as outras formas de alienação de si mesmo.

No decorrer do processo histórico, as relações econômicas evoluíram segundo uma contínua luta dialética entre os proprietários dos meios de produção e os trabalhadores espoliados e explorados. No primeiro capítulo do Manifest der Kommunistischen Partei (1848; Manifesto comunista), Marx e Engels afirmam que a "história de todas as sociedades do passado é a história da luta de classes". Segundo o materialismo histórico, o comunismo primitivo seria a tese oposta à antítese expressa pelas sociedades de classe (escravistas, feudais e capitalistas). A sociedade sem classes, alcançada mediante a práxis (isto é, a teoria posta em prática) revolucionária, seria a síntese final das organizações sociais.

Crítica do Sistema Capitalista

Marx rejeitou o idealismo dos socialistas utópicos, sobretudo Charles Fourier e Henri de Saint-Simon, que criticaram o capitalismo de um ponto de vista humanitário e defenderam a mudança gradual para um regime social baseado na propriedade e no trabalho coletivos. Marx formulou então a doutrina do socialismo científico, em que a crítica à estrutura econômica do capitalismo permite reconhecer as leis dialéticas de sua evolução e decomposição.

Para Marx, o trabalho é a essência do homem, pois é o meio pelo qual ele se relaciona com a natureza e a transforma em bens a que se confere valor. A desqualificação moral do capitalismo ocorre por ser um modo de produção que converte a força de trabalho em mercadoria e, desse modo, aliena o trabalhador como ser humano.

Marx concordou com os economistas clássicos britânicos, para quem o trabalho é a medida de todas as coisas. A força de trabalho do operário, vendida ao capitalista, incorpora-se a um produto que se vende no mercado por um valor superior a seu custo de produção. A diferença entre o valor final do produto e o custo de produção constitui a mais-valia, o excedente ou valor acrescentado pelo trabalho. O custo de produção é a soma do valor dos meios de produção (maquinaria e matérias-primas) e do valor da força de trabalho, este expresso em bens indispensáveis à subsistência do operário e sua família. A mais-valia, portanto, converte-se em lucro para o capitalista.

Marx distingue dois tipos de mais-valia, a absoluta e a relativa, que se definem pela maneira como são aumentadas. A mais-valia absoluta aumenta proporcionalmente ao aumento do número de horas da jornada de trabalho, conservando-se constante o salário. O valor produzido pelo trabalho nesse tempo adicional corresponde à mais-valia absoluta. Assim, quanto mais horas o operário trabalhar, maior será o lucro do capital, isto é, a mais-valia absoluta, e sua acumulação. A mais-valia relativa aumenta com o aumento da produtividade, com a racionalização do processo produtivo e com o aperfeiçoamento tecnológico. O trabalhador passa a produzir mais no mesmo tempo de trabalho, e isso aumenta relativamente a mais-valia.

A obtenção de mais-valia conduz à acumulação do capital expressa na concentração fabril e empresarial e no progresso tecnológico incorporado à maquinaria das grandes indústrias. O uso de máquinas cada vez mais produtivas elimina periodicamente parte da força de trabalho. Os operários dispensados engrossam o "exército industrial de reserva" (os desempregados) em situação de concorrência que favorece a redução dos salários e a pauperização da classe operária.

A formação de cartéis e monopólios, em conseqüência da concentração de capital, diminui o número de capitalistas e provoca uma crise de superprodução, manifestação típica das contradições do capitalismo, já que, em busca de lucro máximo, o capitalista adota novos instrumentos de trabalho que geram produção maior do que o mercado é capaz de absorver. As crises periódicas fazem aumentar o desemprego, proletarizam as classes intermediárias e empobrecem a classe operária. O sistema capitalista desaparecerá em conseqüência das próprias contradições e da oposição entre o caráter coletivo da produção e o caráter privado da apropriação. A ação revolucionária dos oprimidos, ou seja, da classe operária, deve incidir sobre o sistema capitalista. A tomada do poder por essa classe implicaria a instauração de um estado socialista transitório, a ditadura do proletariado, que se dissolveria após cumprir sua missão de organizar o sistema coletivista e liquidar as antigas classes sociais. Depois dessa fase se chegaria finalmente ao comunismo, sociedade sem classes e sem exploração do homem pelo homem.

Revisionismo e Marxismo-Leninismo

No final do século XIX, o marxismo passou a atrair cada vez mais o movimento operário mundial, embora o anarquismo e o pensamento social-cristão mantivessem sua influência. O desenvolvimento industrial em alguns países, porém, contribuiu para melhorar o padrão de vida da classe trabalhadora, ao contrário das previsões de Marx, e reforçou os sistemas políticos social-democratas.

Nas primeiras décadas do século XX, os alemães Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo ratificaram o caráter revolucionário do marxismo e adaptaram a doutrina às novas condições do capitalismo. Na mesma direção seguiu Lenin, personagem decisivo da revolução russa de 1917. Sua contribuição originou o marxismo-leninismo, com novas abordagens da doutrina e do movimento comunista, como a análise do imperialismo, a possibilidade da revolução em países não industrializados, a participação do campesinato na ação revolucionária e a organização do partido comunista como vanguarda da classe operária.

O marxismo-leninismo foi interpretado de maneiras diversas após a morte de Lenin. Nikolai Ivanovitch Bukharin preconizou uma concepção revisionista e Trotski desenvolveu os aspectos revolucionários da doutrina. Stalin simplificou os postulados do marxismo-leninismo, formulou a teoria do socialismo em um só país, contra a tese trotskista, que preconizava a internacionalização da revolução, e defendeu a possibilidade de um desenvolvimento auto-suficiente da economia soviética, sem relação com o mundo capitalista.

A partir do marxismo-leninismo, o líder comunista chinês Mao Zedong elaborou uma doutrina original, o maoísmo, adaptada ao desenvolvimento da revolução na China e às características milenares da cultura chinesa: é maoísta, por exemplo, o princípio segundo o qual os estudantes jamais devem ser orientados para a competição, mas exclusivamente para a cooperação.

O marxismo teve teóricos de grande expressão no mundo das idéias, como Antonio Gramsci, György Lukács, Theodor W. Adorno, Karl Korsch e Louis Althusser. Depois da segunda guerra mundial, surgiram interpretações não dogmáticas do marxismo, com a incorporação de filosofias como as de Edmund Husserl e Martin Heidegger e de idéias de teóricos de outras áreas, como Sigmund Freud. Economistas, historiadores antropólogos, sociólogos, psicólogos, estudiosos da moral e das artes, incorporaram a metodologia marxista sem necessariamente aderir à filosofia política e à prática revolucionária do marxismo.

A queda dos regimes comunistas nos países do leste europeu e a dissolução da União Soviética levaram ao questionamento dos postulados doutrinários marxistas. Permaneceram, porém, o respeito e a admiração pelo rigor científico, originalidade, coerência interna e abrangência da obra de Marx e Engels.

MATERIALISMO

A crescente sofisticação do conhecimento levou o homem a duvidar da milenar explicação mágica do mundo e a tentar compreendê-lo com teorias que, baseadas na experiência objetiva, abrangessem desde a natureza e a origem da vida e do universo até a relação do próprio ser humano com essa realidade. Essas teorias dividiram-se de modo esquemático em duas grandes tendências: materialismo e idealismo.

Materialismo é toda concepção filosófica que aponta a matéria como substância primeira e última de qualquer ser, coisa ou fenômeno do universo. Para os materialistas, a única realidade é a matéria em movimento, que, por sua riqueza e complexidade, pode compor tanto a pedra quanto os extremamente variados reinos animal e vegetal, e produzir efeitos surpreendentes como a luz, o som, a emoção e a consciência. O materialismo contrapõe-se ao idealismo, cujo elemento primordial é a idéia, o pensamento ou o espírito.

Evolução Histórica

Tales de Mileto e outros filósofos pré-socráticos, já no século VI a.C., argumentavam que a filosofia devia explicar os fenômenos pela observação da realidade e não pelos mitos religiosos. Todos os fenômenos da natureza consistiriam em transformações do mesmo princípio material, sem intervenção divina. Empédocles apontou a existência de quatro elementos substanciais: a terra, a água, o fogo e o ar.

A tradição materialista na filosofia ocidental, porém, começou com Demócrito, no século V a.C., que afirmou que tudo que existe compõe-se de átomos (partículas invisíveis de matéria) em constante movimento no espaço vazio. Esses átomos se associam ou se separam de acordo com seu formato. Conhecida como atomismo, a teoria explicou as mudanças nas coisas como conseqüência de mudanças na configuração de átomos imutáveis. A diversidade quantitativa dos átomos (forma, dimensão e ordem) determinaria os diferentes fenômenos da natureza.

Epicuro, o mais influente dos materialistas gregos, confirmou a teoria de Demócrito mas atribuiu aos átomos a propriedade de se desviarem de suas rotas, o que explicaria o encontro entre eles. Com essa hipótese, Epicuro procurou demonstrar que a origem do movimento está na própria natureza, é inerente a ela e prescinde de intervenção divina.

Na sistematização que fez do conhecimento da época, Aristóteles pretendeu conciliar as vertentes materialista e idealista da filosofia grega. Seu pensamento representou um compromisso entre a ciência e a teologia a tal ponto que foi utilizado, no final da Idade Média, como instrumento de defesa da fé cristã.

Desenvolvimento Posterior

Ao longo da Idade Média, o idealismo platônico e depois o aristotelismo dominaram o pensamento ocidental. Com o Renascimento, e sob a influência do progresso das ciências naturais e da técnica, o materialismo ressurgiu em suas diversas concepções. Nos séculos XVI e XVII, na Inglaterra, Francis Bacon defendeu o materialismo naturalista; Thomas Hobbes criou um sistema materialista baseado nas concepções de Descartes; e Locke investigou a origem, a essência e o alcance das idéias por meio das quais o conhecimento se constitui. Na França, Descartes lançou os fundamentos do materialismo mecanicista com sua teoria dualista, que separa radicalmente espírito e matéria. Na Itália, Tommaso Campanella e Giordano Bruno defenderam o pampsiquismo, segundo o qual toda matéria tem um ímpeto interior que adquire qualidade anímica ou consciente. A integração dos átomos em moléculas gigantes e matéria viva propicia o surgimento da memória e, no homem, a consciência.

A idéia atingiu plena maturidade com Spinoza, filósofo judeu-holandês que assegurou que matéria e alma constituem os aspectos externo e interno de uma mesma coisa, a natureza, que se confunde com Deus. No século XVIII, as teorias materialistas mecanicistas mais consistentes surgiram na França com os iluministas, sobretudo Condillac e Diderot. No século XIX, com os avanços científicos em diversas áreas, em particular a teoria evolucionista de Darwin, as concepções materialistas tiveram grande impulso. Destaca-se o epifenomenismo, defendido pelo britânico Thomas Huxley, que sustentou que os processos mentais prescindem de relevância causal e só os processos físicos dão causa a outros.

Em meados do século XX, Karl Popper, filósofo britânico de origem austríaca, distinguiu quatro tendências materialistas na filosofia ocidental: o epifenomenismo de Huxley, a teoria da identidade, o pampsiquismo e o materialismo ou fisicalismo radical. A figura principal da teoria da identidade é o filósofo alemão Herbert Feigl, para quem os processos mentais não passam de processos físicos. O pampsiquismo espinozista foi retomado pelo britânico Conrad Hal Waddington e o alemão Berhard Rensch. O materialismo radical foi representado pelo americano Willard von Ormar Quine, que sustentou a inexistência dos processos conscientes e mentais. O problema da dualidade entre o corpo e o espírito desaparece, uma vez que só a matéria existe. Logo, no homem, só o corpo existe.

Na era contemporânea, o novo saber científico que inclui a teoria da relatividade e a mecânica ondulatória parecia ameaçar a base do materialismo, mas outras descobertas no domínio da bioquímica, da física e da psicologia fisiológica, assim como tecnologias como a informática tornaram mais plausíveis as concepções do materialismo e levaram ao ressurgimento do interesse em torno de suas teorias centrais. A física constatou, por exemplo, que a matéria é formada não de átomos, mas de elétrons, prótons, mésons e outras partículas subatômicas e que não há distinção entre matéria e energia. O fisicalismo, portanto, admite que matéria é tudo aquilo que a física afirma que existe.

O progresso na tecnologia de computadores, que substituem o homem em muitas atividades intelectuais rotineiras como o cálculo, renovou a discussão sobre a natureza da inteligência e levou a reiteradas tentativas de criar inteligência artificial, que substituiria a mente humana e provaria que, como o cérebro, ela se compõe de matéria.

Materialismo Dialético

A doutrina marxista é uma ciência à qual o pensador alemão Karl Marx deu o nome de materialismo histórico e cujo objeto são as transformações econômicas e sociais, determinadas pela evolução dos meios de produção. O materialismo dialético pode ser definido como a filosofia do materialismo histórico, ou o corpo teórico que pensa a ciência da história. Os princípios fundamentais do materialismo dialético são quatro:

(1) a história da filosofia, que aparece como uma sucessão de doutrinas filosóficas contraditórias, dissimula um processo em que se enfrentam o princípio idealista e o princípio materialista;

(2) o ser determina a consciência e não inversamente;

(3) toda a matéria é essencialmente dialética, e o contrário da dialética é a metafísica, que entende a matéria como estática e anistórica;

(4) a dialética é o estudo da contradição na essência mesma das coisas.

Baseado na dialética de Hegel, segundo a qual o progresso das idéias se dá pela sucessão de três momentos - tese, antítese e síntese -, o materialismo dialético pretende ser, ao mesmo tempo, o fim da filosofia e o início de uma nova filosofia, que não se limita a pensar o mundo, mas pretende transformá-lo.

MECANICISMO

Enunciado por Descartes e Leibniz no século XVIII, o mecanicismo clássico entrou em crise principalmente depois que as noções de estrutura, campo e função demonstraram a insuficiência das explicações baseadas na idéia da causalidade linear.

No sentido cartesiano, mecanicismo é a teoria filosófica segundo a qual os corpos se explicam por dois princípios: a matéria homogênea e o movimento local. Sendo a matéria definida como inerte, um dos problemas do mecanicismo seria explicar como nela se instala o movimento, problema que remete à questão da causalidade. Revelou-se nessa análise uma incompatibilidade entre a concepção mecanicista da matéria e a idéia de causas finais.

Leibniz, ainda no século XVIII, e Bergson, no século XX, tentaram resolver essa contradição. Evidenciaram-se nesse processo as duas grandes dificuldades do mecanicismo: determinar o modo de operar das causas eficientes e definir as leis do movimento.

Friedrich Lipsius e Karl Sapper enunciaram, com esse propósito em vista, quatro princípios:

(1) a evolução da natureza não obedece a finalidades;

(2) a evolução da natureza é uma evolução passiva;

(3) os fenômenos naturais são compreendidos como fenômenos cumulativos; e

(4) os últimos elementos da realidade apresentam-se como grandezas meramente quantitativas.

Em biologia, o mecanicismo encontrou oposição no vitalismo, no neovitalismo e no organicismo. Sua tese central estabelece que o organismo se assemelha a uma máquina de grande complexidade. Assim, para o mecanicismo radical, a biologia não passa de um capítulo da mecânica. No final do século XX já se admitia que essa posição extrema não se deve propriamente a Descartes, mas a uma interpretação de seus princípios por parte dos que se afastaram da concepção dualista do homem, segundo a qual o processo vital estaria subordinado às leis da mecânica, enquanto a alma seria um princípio superior expresso pelo pensamento.

As concepções mecanicistas influenciaram consideravelmente a psicologia moderna, em especial a corrente denominada behaviorismo, ou estudo experimental do comportamento. Foram, no entanto, alvo de crítica especialmente dos psicólogos de formação fenomenológica, como Carl Rogers.

MISTICISMO

O misticismo nasce do esforço do indivíduo para alcançar uma realidade absoluta ou divina que estaria em íntima conexão com as coisas. Envolve um conjunto de disposições afetivas, intelectuais e morais, cuja meta final é a comunhão com Deus.

Misticismo é a atitude espiritual que objetiva realizar a união da alma com a divindade, por diversos meios, como o ascetismo, a devoção, o amor, a contemplação etc. Forma com a teologia os dois pólos do conhecimento religioso. Se o misticismo é intuitivo, emocional, subjetivo e particular, apreendido por contato direto e incomunicável, a teologia é uma explicação analítica, de tipo racional, dos mistérios da religião. Nas religiões primitivas, em que a doutrina não constitui domínio específico, a distinção não é tão clara. Elementos místicos já estão presentes no xamanismo e na magia, que valorizam o conhecimento e o poder derivados de uma experiência singular, fora da esfera do senso comum.

Principais Tipos

O misticismo pode ser de liberação, de identidade e teísta. O primeiro é próprio do budismo e objetiva libertar o ser humano das condições inerentes à existência; o segundo, característico do hinduísmo e do neoplatonismo, tenta a identificação do indivíduo com o Todo ou o Um universais; e o teísta, presente no judaísmo, cristianismo e islamismo, busca realizar a união do indivíduo com um Deus pessoal e transcendente.

Para o misticismo teísta, o indivíduo não se dissolve nem se anula no encontro com a divindade transcendente; a união das pessoas humana e divina resulta de um dom gratuito concedido por Deus. A libertação e a identidade buscadas pelos outros dois tipos decorre de técnicas de autocontrole físico e psíquico (ioga, danças, meditação etc.). Todos três evitam as limitações da racionalidade e realizam a purificação ascética por meio de jejum, penitência, pobreza e celibato, em busca de independência em relação ao mundo material, às demandas do corpo.

Judaísmo e Islã

O misticismo judaico se manifesta nas visões dos profetas do Antigo Testamento e nas visões apocalípticas do judaísmo pós-bíblico. A cabala se desenvolveu numa direção mais próxima do ocultismo. Sua obra maior, o Zohar (Livro do esplendor), do século XIII, descreve a vida íntima de Deus e transmite conhecimentos ocultos que permitem "aderir" a ele.

O sufismo, crença e prática mística do islamismo, prega a união pessoal com Deus por meio de vários caminhos místicos, capazes de proporcionar uma avaliação da natureza do homem e de Deus e facilitar a experiência da presença do amor e da sabedoria divina no mundo.

Misticismo Cristão

Os elementos místicos do cristianismo já aparecem na teologia do apóstolo Paulo, em sua aspiração a uma relação direta com o Cristo. Essa tendência mística tomou, no cristianismo oriental (como em Orígenes e outros religiosos), a forma de comunicação com o Verbo -- princípio único inteligível, organizador de todas as coisas. Alguns místicos, como são Bernardo de Claraval (1090-1153) e os religiosos do mosteiro de Saint Victor, sentiam-se como "noivas" do Redentor; outros, como são Boaventura, identificaram a própria vida com a Paixão de Cristo.

O misticismo dos dominicanos alemães medievais, sobretudo do mestre Eckhart (c.1260-1327), contém elementos teológicos e especulativos. O principal tema da mística de Eckhart é o nascimento do Cristo na alma humana, sinal da união com Deus. Segue a filosofia aristotélica tomista com influências do neoplatonismo de Plotino (século III) e do teólogo e filósofo britânico João Escoto Erígena (século IX).

Outros grandes místicos católicos foram as visionárias medievais, como a sueca santa Brígida e a italiana santa Catarina de Siena. O flamengo Jan van Ruysbroeck, cujo misticismo está relacionado ao dos dominicanos, é um dos maiores escritores holandeses medievais. Do misticismo flamengo descende a devotio moderna (devoção moderna) -- religiosidade simples e piedosa das comunidades anteriores à Reforma, avessa ao intelectualismo da escolástica, e que adaptava as altas aspirações místicas à austera vida racional da nascente cultura citadina do século XIV. A devotio moderna influenciou homens tão diferentes como Erasmo de Rotterdam e Lutero. A obra que traduz seu espírito característico é a Imitatio Christi (Imitação de Cristo), atribuída a Tomás de Kempis (c.1380-1471), um dos livros mais lidos do cristianismo ocidental.

O misticismo católico combinou experiências extra-sensoriais (visões) com uma vida ativa de trabalho. Expressou-se na Espanha do século XVI em santa Teresa de Ávila, são João da Cruz e Juan de los Ángeles (1536-1609), grandes espíritos religiosos e também grandes escritores. Na França, a tendência mística foi precedida e preparada pelo humanismo cristão de são Francisco de Sales e do cardeal Pierre de Bérulle (1575-1629), fundador da ordem dos oratorianos. Os grandes místicos franceses do século XVII são Jean-Jacques Olier, da igreja de Saint Sulpice, a carmelita Marie de L'Incarnation e o abade de Saint-Cyran, da abadia de Port-Royal. No século XX houve debates dentro do catolicismo a respeito da natureza da mística: para uns, é uma graça especial concedida por Deus aos eleitos; para outros, seria o fruto natural da vida cristã.

Mística Cristã não-Católica

O protestantismo também desenvolveu várias tendências místicas, embora os iniciadores da Reforma não as tenham cultivado. Manifestam-se na filosofia de Jakob Böhme (1575-1624) e no pietismo dos séculos XVII e XVIII, como a seita dos irmãos morávios, sob a liderança de Nikolaus Ludwig Zinzendorf (século XVIII).

Nas igrejas orientais, uma das principais figuras da revivificação mística é Gregório Palamas (século XIV), para quem Deus se manifesta em pessoa no corpo do fiel. A mística bizantina difundiu-se no Oriente cristão e seus adeptos na Rússia dos séculos XVIII e XIX foram os startsy (plural de staretz) -- monges ascetas no modelo dos eremitas dos desertos do Egito, Síria e Palestina. O mais conhecido é o monge Serafim de Sarov (1759-1833). A figura do staretz foi difundida no mundo ocidental pelo livro Relato de um peregrino russo, editado a partir de manuscrito encontrado num mosteiro ortodoxo, de autor desconhecido, que conta experiências místicas ao longo de toda uma vida de ascese e busca de Deus.

NEOKANTISMO

Um princípio metodológico foi comum a todos os pensadores neokantianos: a filosofia não é apenas uma convicção ou visão pessoal do mundo, mas uma ciência cujas bases ainda estavam por ser lançadas.

Neokantismo é um movimento filosófico que inclui várias tendências, direções, escolas e orientações influenciadas pela filosofia crítica de Kant. Surgiu na Alemanha a partir da segunda metade do século XIX como reação ao idealismo alemão pós-kantiano e ao positivismo. Uma de suas principais características é fazer do estudo das possibilidades do conhecimento -- e principalmente do conhecimento científico -- a base crítica de toda investigação filosófica.

A formulação do neokantismo seguiu-se a uma fase de incentivo ao estudo de Kant, com exposições sobre sua obra, acrescidas de comentários, críticas e exegeses filológicas, com destaque para o trabalho de Kuno Fischer, que dedicou os dois últimos volumes de sua Geschichte der neueren Philosophie (1852-1877; História da filosofia moderna) à obra de Kant. Em seu sentido mais fecundo, porém, o retorno a Kant foi promovido por Otto Liebmann e Friedrich Albert Lange.

Filósofo de influência decisiva na formação do neokantismo, Liebmann questionou o dogmatismo metafísico e a especulação romântica e orientou sua obra filosófica no sentido do realismo crítico, ao enfatizar a independência do dado em relação ao sujeito transcendental. Sua principal obra foi Kant und die Epigonen, eine kritische Abhandlung (1865; Kant e seus epígonos; um ensaio crítico). Lange escreveu Geschichte des Materialismus und Kritik seiner Bedeutung in der Gegenwart (1866; História do materialismo e crítica de sua significação nos tempos presentes), considerada uma das grandes obras filosóficas em língua alemã, em que demonstra que Kant acabou não apenas com as metafísicas idealistas, mas sobretudo com o materialismo, que pretendia ser uma metafísica às avessas.

Também ligados às origens do neokantismo estão os nomes do cientista Hermann von Helmholtz e do filósofo Alois Riehl. Helmholtz, que defendia a interpretação psicofisiológica do sujeito transcendental, à maneira de Lange, tentou harmonizar a teoria da percepção espacial de Kant com pesquisas fisiológicas da percepção sensorial. Alois Riehl procurou sintetizar o kantismo com o positivismo; opôs-se a qualquer espécie de metafísica e reduziu a filosofia à crítica do conhecimento, entendido como a síntese das relações entre os fenômenos.

No início do século XX, o neokantismo atingiu seu ápice com a escola de Marburg, que incluía Hermann Cohen e Paul Natorp. Esses filósofos rejeitaram o naturalismo de Helmholtz e de outros e reafirmaram a importância do método transcendental. Cohen defendeu uma doutrina neokantiana que pode chamar-se de idealismo objetivo, segundo a qual o pensamento é idêntico ao ser e todo real é absolutamente racional. Entre os adeptos da escola destacaram-se ainda Rudolf Stammler, adepto de uma doutrina formalista do direito, e Franz Staudinger e Karl Vorländer, que tentaram aproximar o neokantismo do marxismo.

O racionalismo da escola de Marburg foi criticado pela escola de Baden, também chamada de Süddeutsche Schule (escola do sul da Alemanha), que elaborou a distinção entre as ciências da natureza e as ciências do espírito, entre a natureza e a cultura, entre o ser e o dever ser, e entre o método generalizador e o descritivo e individualizador. Seus expoentes incluem Wilhelm Windelband, Heinrich Rickert e Bruno Bauch.

A grande influência que essas duas escolas tiveram na Alemanha e em outros países estendeu-se até aproximadamente 1913. Seu declínio se deu com o advento da fenomenologia, do neopositivismo e das chamadas "filosofias de vida", mas também porque os adeptos do neokantismo inseriram gradualmente sua filosofia crítica em sistemas mais abrangentes e se filiaram a tendências diversas.

NEOPLATONISMO

Mais que simples retomada das idéias de Platão -- que sustentava existirem dois mundos: o visível, objeto dos sentidos, e o das idéias, objeto da inteligência -- e ao contrário do que o nome pode sugerir, o neoplatonismo foi uma verdadeira refundação da metafísica clássica.

Última grande corrente filosófica da Grécia antiga, o neoplatonismo é a doutrina que se definiu no século III da era cristã e predominou na filosofia pagã do período tardio da antiguidade, até o ano 529. Na época, três correntes ideológicas disputavam a primazia: o cristianismo, em ascensão; as religiões politeístas do paganismo; e as correntes filosóficas gregas e, em particular, o estoicismo.

O grande expoente do neoplatonismo foi Plotino, que elaborou a teoria da emanação ou panteísmo neoplatônico, segundo a qual o ser divino e o mundo são, em última análise, idênticos. Para Plotino, o mundo não foi produzido do nada, mas emanou do próprio Uno, Divindade e Bem Supremo do qual procedem por emanação todas as coisas.

Do Uno deriva, primeiramente, o nous ou espírito, explicação de todas as coisas ao nível ideal e que equivale claramente ao mundo das idéias platônico. Do nous emana a alma, nome genérico que abrange três níveis distintos e hierarquizados: a alma suprema, que permanece em estreita união com o nous; a alma do todo, criadora do universo físico; e as almas particulares, que animam os corpos, os astros e todos os seres vivos.

O mais inferior grau da emanação divina é a matéria, ou o mundo perceptível pelos sentidos. Plotino afirma que, ao chegar a esse nível extremo, a potência do Uno está enfraquecida a ponto de exaurir-se. A matéria sofre, pois, a privação do Bem Supremo e pode-se-lhe chamar de mal - não uma força negativa autônoma que se opõe ao bem, mas a ausência do bem.

Se der atenção apenas a seu corpo, o homem - alma (preexistente) que habita um corpo - se vincula ao mal e esquece suas origens. A alma precisa despojar-se da ilusão da matéria, e só o consegue por meio do êxtase místico, no qual é exaltada e preenchida pelo Uno. Esse êxtase não é um dom gratuito de Deus, mas fruto do esforço do homem para unir-se à Divindade.

Amônio Sacas, fundador da escola de Alexandria (em torno do ano 200), foi o mestre com quem Plotino estudou por 11 anos (de 232 a 243) e de quem recebeu influência decisiva. Em 244, Plotino mudou-se para Roma e fundou sua própria escola. Após ensinar por dez anos, escreveu 54 tratados, posteriormente dispostos em seis grupos de nove por seu discípulo Porfírio, que deu à obra o título de Enéadas.

Outras escolas neoplatônicas se formaram, como a da Síria, fundada por Jâmblico, pouco depois do ano 300; a de Pérgamo, fundada por Edésio, discípulo de Jâmblico; a de Atenas, iniciada por Plutarco entre os séculos IV e V, que teve em Proclo seu representante mais insigne. Com o célebre edito de 529, Justiniano proibiu o funcionamento das escolas filosóficas de Atenas. O neoplatonismo persistiu ainda na segunda escola de Alexandria, que renascera na mesma época da fundação da escola de Atenas e sobreviveu até princípios do século VII.

NEOTOMISMO

Para o neotomismo, toda a filosofia moderna a partir de Descartes se constituiria em erros e equívocos, responsáveis pela crise do mundo moderno. Entendida como um desvio metafísico e espiritual, essa crise só poderia ser superada com um retorno ao tomismo.

Neotomismo é uma corrente filosófica surgida no século XIX com o objetivo de reviver e atualizar a filosofia e a teologia de santo Tomás de Aquino -- o tomismo -- a fim de atender aos problemas contemporâneos. Baseia-se, como o tomismo, na filosofia aristotélica para esclarecer e justificar racionalmente a revelação divina do cristianismo.

As primeiras idéias neotomistas surgiram no Collegio Alberoni, de Piacenza, Itália, na segunda metade do século XVIII. O movimento, no entanto, afirmou-se com o grupo fundador da revista Civilitá Cattolica, publicada em Nápoles a partir de 1850 e posteriormente também em Roma. Destacaram-se nesse grupo Matteo Liberatore e Gaetano Sanseverino.

A consagração do neotomismo veio com a encíclica de Leão XIII Aeterni patris (1879) que, ao lembrar os ensinamentos dos doutores da igreja, afirma que a filosofia é a base da fé cristã. A partir dessa encíclica, multiplicaram-se os centros de estudo e difusão do tomismo, como o Instituto Superior de Filosofia, na Universidade de Louvain, os institutos católicos de Paris, Lyon, Madri e Washington, a Universidade de Friburgo, na Suíça, e outros.

Na encíclica Doctor Angelici (1914), sobre a escolástica, Pio XI declarou a inviolabilidade da doutrina de santo Tomás de Aquino, fundamento de toda ciência das coisas naturais e divinas. Em outra encíclica, Studiorum ducem (1925), o papa afirma que Tomás de Aquino é o guia a ser seguido pela juventude clerical e que esse gênio divino não é só o doutor Angélico, mas o doutor Comum ou Universal da igreja.

Entre os numerosos órgãos de divulgação do neotomismo incluem-se a Rivista di Filosofia Neo-Scolastica, de Milão, e a parisiense La Revue Thomiste. Como expoentes do movimento destacam-se Victor Cathrein, Désiré Mercier, os dominicanos Antonin Sertillanges e Réginald Garrigou-Lagrange, o franciscano Agostini Gemelli e o filósofo francês Jacques Maritain, cuja obra, quase toda traduzida para o espanhol e o português, tornou-se referência para os autores católicos da América Latina e Brasil. Alceu Amoroso Lima, conhecido como Tristão de Ataíde, e o padre Leonel Franca foram os mais destacados representantes do neotomismo no Brasil. O movimento neotomista perdeu força após a segunda guerra mundial.

NIILISMO

Expressão exacerbada do materialismo e do positivismo, o niilismo negou toda autoridade ao estado, à igreja e à família.

Niilismo (do latim nihil, "nada") é uma doutrina filosófica e política baseada na negação seja da ordem social estabelecida, seja de todas as formas de esteticismo, assim como na defesa do utilitarismo e do racionalismo científico. Influenciado pelas idéias de Feuerbach, Darwin, Nietzsche, Henry Buckle e Herbert Spencer, o niilismo surgiu na Rússia czarista do século XIX. Segundo Martin Heidegger, o termo foi empregado pela primeira vez em 1799, pelo filósofo alemão Friedrich Heinrich Jacobi. Mais tarde, o romancista russo Ivan Turgueniev o empregou para designar a concepção que, afirmando a existência apenas do que é perceptível pelos sentidos, negava tudo o que se fundamenta na tradição e na autoridade.

O niilismo russo, pregado por Dmitri I. Pisarev, Nikolai A. Dobroliubov, Nikolai G. Tchernitchevski e outros, negava Deus, o espírito, a alma, as idéias, as normas e valores supremos e, quanto a suas origens, deve ser visto como fenômeno religioso. É a negação dogmática do mundo mergulhado no mal e de tudo o que é luxo, arte, metafísica e religião. Tudo deveria concentrar-se na libertação da classe trabalhadora, na luta contra as superstições e preconceitos, idéias e convenções que oprimem o homem e o impedem de ser feliz. O niilismo também foi por muito tempo, no Ocidente, a designação de vários movimentos revolucionários na Rússia, mas estes não foram realmente niilistas -- nem mesmo o anarquismo de Bakunin -- porque sempre acreditaram em soluções futuras para os problemas da humanidade.

Niilismo nietzscheano. Tal como Nietzsche o entendeu, o niilismo tem significação muito mais ampla e profunda. O filósofo não se refere ao niilismo russo ou alemão, mas ao niilismo europeu, ou seja, ocidental. É um movimento ou processo histórico que, de raízes mergulhadas nos séculos anteriores, deverá determinar os séculos futuros. Sua essência consiste na morte de Deus e nas conseqüências dessa morte. O Deus morto é o Deus cristão que, para Nietzsche, representa não só a figura histórica do Cristo, mas o mundo supra-sensível em geral, e os ideais, as normas, os princípios, os fins, os valores que, colocados acima do mundo terreno, lhe davam orientação e sentido.

A negação do mundo supra-sensível e dos valores que o constituem acarreta o esvaziamento do mundo sensível, que se vê privado de consistência e de razão de ser. O niilismo não é, para Nietzsche, a interpretação deste ou daquele espírito, nem um acontecimento histórico semelhante ou comparável a qualquer outro, mas o advento da consciência de que todos os fins e todos os valores que até então davam sentido à vida humana se tornaram caducos.

A libertação, no que diz respeito aos valores até então vigentes, não somente torna possível mas exige o que Nietzsche chama de "transmutação de todos os valores", que não consiste apenas em sua modificação, mas no desaparecimento do "lugar" em que se situavam, quer dizer, do mundo supra-sensível. Concebendo o ser como valor, a metafísica, em Nietzsche, passa a ser uma axiologia, isto é, uma teoria dos valores. Não só os valores tradicionais decaem, como sua necessidade se desloca do mundo supra-sensível para o sensível, princípio a partir do qual se deve definir a nova tábua ou hierarquia de valores.

O niilismo, portanto, tal como Nietzsche o concebe, não consiste apenas na desvalorização dos valores supremos aceitos, pois a ruína desses valores torna urgente a criação de novos valores que os substituam. O niilismo seria a característica desse estádio intermediário, entre o crepúsculo dos deuses antigos e o anúncio do mundo novo, feito à imagem e semelhança do homem.

NOMINALISMO

Uma das principais tendências filosóficas da Idade Média, o nominalismo, contrário ao realismo e ao conceitualismo, rejeitou o pensamento alcançado por abstrações e abriu caminho para o espírito de observação e a vulgarização da pesquisa indutiva.

O nominalismo é uma doutrina segundo a qual as idéias gerais, como gêneros ou espécies, não passam de simples nomes, sem realidade fora do espírito ou da mente. A única realidade são os indivíduos e os objetos individualmente considerados. Desse modo, o universal não existe por si: é mero nome, vocábulo com significado geral, mas sem conteúdo concreto, que só reside no individual e no particular. Em seu retrospecto histórico da doutrina nominalista, Leibniz afirmava que, para os partidários do nominalismo, só existem, além das substâncias singulares, os nomes puros e, desse modo, a realidade das coisas abstratas e universais é eliminada.

Questão dos Universais

A controvérsia em torno da natureza das idéias dominou, de certo modo, a reflexão filosófica medieval. Principiou no século VII, quando Boécio traduziu para o latim o livro de Porfírio Eisagoge eistàs Aristotélis kategorías (Introdução às categorias de Aristóteles), em que se fixaram as bases da polêmica futura: "Não procurarei enunciar se os gêneros e as espécies existem por si mesmos ou na pura inteligência, nem, no caso de subsistir, se são corpóreos ou incorpóreos, nem se existem separados dos objetos sensíveis ou nestes objetos, formando parte deles."

Firmaram-se, a respeito do problema, três posições fundamentais: nominalismo, realismo e conceitualismo. Os realistas sustentavam que as idéias - ou os "universais", como as chamavam - possuem existência independente: existem ante res ("antes das coisas reais"), na mente divina ou em qualquer outro lugar. O realismo revelava-se, assim, de tradição claramente platônica. Os nominalistas, ao contrário, não atribuíam nenhuma existência às idéias: estas resumir-se-iam a seus símbolos, seus nomes ou palavras. Entre essas duas posições extremas situava-se a teoria conceitualista, para a qual as idéias teriam uma existência simbólica na mente, e outra, concreta, nas coisas.

As célebres discussões a respeito do problema, embora com aparência de sutileza inútil, ocultavam orientações mais profundas. O realismo representava uma visão do mundo mais espiritual, enquanto que o nominalismo nascia de uma visão mais concreta e antiespiritual das coisas. Por isso, o nominalismo, em toda a Idade Média, se apresentava como uma suspeita doutrina de céticos.

No segundo período da filosofia escolástica medieval, que começou no século XIII com santo Alberto Magno e santo Tomás de Aquino, prevaleceu a posição do realismo moderado. O nominalismo reviveu mais tarde, no século XIV, com o filósofo inglês Guilherme de Occam. Para este, todo conhecimento se baseia na experiência sensível, de que, por abstração, extraímos as idéias gerais, de que se servirá a ciência, sem necessidade alguma das antigas species dos realistas.

Occam também é chamado terminista. Ensinava que qualquer ciência é ciência só de proposições e de proposições enquanto são conhecidas. Todos os termos dessas proposições são só conceitos e não substâncias externas. O nominalismo dos séculos XIV e XV não é ortodoxo em relação à teoria escolástica mas, em compensação, favorece o estudo das ciências naturais.

Nominalismo Atual

Na filosofia moderna, são declaradamente nominalistas Thomas Hobbes, no século XVII, e, no século XVIII, Étienne Bonnot de Condillac, defensor da teoria sensualista do conhecimento. Já no século XX, Nelson Goodman e Willard van Orman Quine são defensores do que chamam "nominalismo construtivo". O primeiro não nega as entidades abstratas, mas somente as admite consideradas como indivíduos, pois o mundo é um mundo de indivíduos. Nega, assim, qualquer possibilidade de classes, nas quais se incluem indivíduos diversos.

Quine generaliza um argumento já proposto por Bertrand Russell sobre as chamadas descrições singulares. Ao estudar os possíveis usos ontológicos da linguagem, inclina-se para o nominalismo e contra o platonismo. Procura construir uma linguagem capaz de reduzir qualquer enunciado sobre entidades abstratas a um enunciado sobre entidades concretas. Só será possível admitir variáveis individuais, isto é, as que se referem a objetos concretos espaço-temporais, ou, pelo menos, temporais. São de resto nominalistas, ou apresentam afinidades com essa posição, nos tempos atuais, os neo-espinozistas, os neokantianos, os neopositivistas, os idealistas e pragmatistas.

PANTEÍSMO

Dos filósofos gregos à filosofia contemporânea, o panteísmo assumiu ao longo da história várias formas doutrinárias, sempre polêmicas.

Panteísmo (do grego pan, "tudo", "todas as coisas", e theós, "deus") é a doutrina que afirma a identidade substancial de Deus e do universo, os quais formariam uma unidade e constituiriam um todo indivisível. Para os panteístas, Deus não é transcendente ao universo e dele não se distingue nem se separa. Pelo contrário, é-lhe imanente, confunde-se com ele, manifesta-se nele e nele se realiza como uma só realidade, total e substancial.

O panteísmo é um monismo substancialista imanentista. Monismo porque pretende que o conjunto de todas as coisas pode ser reduzido à unidade; substancialista por entender que todo o real é de caráter substancial, ou seja, é substância; e imanentista porque sua afirmação de que Deus é imanente à natureza implica que a ação de Deus se confunde com a da natureza. As formas doutrinárias panteístas mais importantes e significativas se encontram no panteísmo clássico, que considera Deus a única realidade, e o universo uma mera manifestação de Deus. O panteísmo materialista ou naturalista parte do universo para Deus, e vê no universo a própria realidade de Deus, que nada mais seria do que a totalidade das coisas que existem, das quais depende para realizar-se.

Entre o panteísmo clássico e o naturalista existem muitas versões diferentes do panteísmo, desde o panpsiquismo, que atribui consciência à natureza como um todo, até o panteísmo acósmico, que vê o universo como mera aparência, irreal em última instância; e numa vasta gama que vai da corrente racional neoplatônica, ou emanacionística, à corrente mística e intuitiva. O panteísmo oriental acentua o caráter vivencialmente religioso: toda a natureza está animada pelo alento divino, e por isso é como se fosse o corpo da divindade, que como tal deve ser respeitada e venerada. As doutrinas hinduísta e budista combinam os diversos tipos de panteísmo em seus livros sagrados: no Upanishad, no Bhagavadgita e nos Vedas. Este último apresenta a imagem da divindade como um mar, em que os seres são as ondas que participam da totalidade.

Sistemas Clássicos

A forma assumida pelo panteísmo clássico vê no mundo simples emanação, revelação ou realização de Deus, sem realidade própria independente, nem substância permanente, que não sejam a própria substância e demais atributos de Deus. Para os estóicos, o universo é o próprio Deus, como qualidade de toda substância existente ou a existir, imortal e não gerado, criador da ordem universal, que em si consuma toda a realidade e a gera continuamente. Deus "impregna todo o universo e toma vários nomes conforme as matérias diferentes em que penetra". No século III da era cristã, o panteísmo assume sua forma mais elaborada no neoplatonismo de Plotino. O mundo emana necessariamente de Deus, tal como a luz emana necessariamente de sua fonte. O ser gerado existe junto com o gerador, dele não se separa e é meramente sua parte ou aspecto.

No século IX, no início da escolástica cristã, João Escoto Erígena defendeu a idéia de que Deus seria supersubstância, da qual emana o universo, como substância simples, como manifestação sua, como teofania. Na Renascença, Giordano Bruno retomou as idéias neoplatônicas e considerou Deus como natureza, como causa e princípio do universo.

Sistemas Modernos

Modernamente, foi Spinoza que concebeu a forma mais completa e elaborada do panteísmo. Deus e natureza são a mesma coisa, mas enquanto Deus é naturante, a natureza é naturata (gerada). O universo não só é a emanação e a manifestação de Deus, mas é sua própria realização, na ordem de todas as coisas.

Hegel denominou o panteísmo de Spinoza de "acosmismo" (negação da existência de um universo fora de Deus). Segundo ele, Spinoza não confunde Deus com a natureza e com o universo finito, nem considera Deus o universo. Pelo contrário, nega a realidade do universo, vendo em Deus a única realidade. Na filosofia contemporânea há exemplos de doutrinas panteístas e místicas, ainda que em pensadores voltados para outros campos do conhecimento, como Henri Bergson em Les Deux sources de la morale et de la religion (1932; As duas fontes da moral e da religião), embora tal panteísmo tenha sido negado por seus intérpretes católicos. Outro exemplo é Alfred North Whitehead, em Process and Reality, an Essay in Cosmology (1929; Processo e realidade, um ensaio de cosmologia). Os críticos do panteísmo acusam-no de ser uma espécie de ateísmo, que nega a pessoalidade de Deus, como anterior, superior e externo ao próprio universo.

PERSONALISMO

Admitem-se como personalistas, em geral, as doutrinas que situam a pessoa como centro da concepção do mundo e da vida, opondo-a como unidade autônoma e inconfundível diante da natureza e das coisas.

Personalismo, na acepção mais antiga, significa a crença num Deus pessoal, transcendente ao mundo, em oposição ao panteísmo, que o confunde com o mundo. Nesse sentido, o vocábulo foi usado pela primeira vez por Friedrich Schleiermacher em Reden an die Gebildeten (1799; Discursos aos homens cultos). No mesmo sentido empregou-o Ludwig Feuerbach em Das Wesen des Christentums (1841; A essência do cristianismo). Gustav Teichmüller adotou-o também, não só nesse sentido, como em outro mais amplo, dentro de um certo perspectivismo metafísico, no qual o "eu" era entendido como ponto de união e de convergência de todo o ser. Nos países de língua inglesa, atribui-se a John Grote, defensor do neo-idealismo, haver tomado o personalismo como sinônimo de idealismo ou espiritualismo. George Holmes Howison, nos Estados Unidos, defendeu um idealismo personalista contrário ao idealismo absoluto e ao impersonalismo em geral. A mesma posição metafísica foi assumida por Borden Parker Bowne em 1908.

Coube ao francês Charles-Bernard Renouvier desenvolver toda uma metafísica personalista e criar o primeiro grande sistema personalista da história da filosofia. Uma de suas últimas obras, publicada no ano de sua morte, teve por título Le Personnalisme (1903; O personalismo) e, a partir de então, o termo passou a constar do vocabulário filosófico. Renouvier sustentava que onde não há pessoa, só pode existir coisa, como oposição radical, mas a única realidade é a da consciência, não podendo o sujeito nem o objeto serem abstraídos da experiência. Para não cair num relativismo insuperável, ele socorreu-se de dois princípios: o negativo, da contradição, e o positivo, da crença. Uma crença justificável é aquela que satisfaz a personalidade total.

Emmanuel Mounier é o mais sistemático dos personalistas franceses. Para ele, o conceito de pessoa implica a inserção coletiva e cósmica e abarca um duplo movimento: de recolhimento e de exteriorização. Mounier repudia e supera o individualismo atomista, ou seja, a idéia segundo a qual os indivíduos independem, para ser o que são, do relacionamento com os demais. A liberdade se obtém mediante escolha e implica compromisso, que é condição de uma prática fecunda. Propõe um novo humanismo, baseado numa filosofia existencial em que o "despertar pessoal" coincide com o "despertar comunitário". Essa atitude filosófica encerra a negação do individualismo, a recusa do niilismo e a rejeição do espírito corporativista.

PERSPECTIVISMO

A realidade, como uma paisagem, pode ser vista a partir de inúmeras perspectivas, todas verdadeiras. A única perspectiva falsa, segundo a filosofia perspectivista, é exatamente a que pretende ser única. A ingenuidade das filosofias estáticas consistiria em ignorar que interpretam o mundo como se o filósofo não estivesse situado no tempo e no espaço, mas fosse "uma pupila anônima aberta para o universo".

O termo perspectivismo designa a corrente filosófica para a qual o conhecimento é, acima de tudo, apreensão do objeto a partir do ponto de vista, ou perspectiva, do sujeito. O termo foi empregado pela primeira vez por Gustav Teichmüller, em 1882, mas o conceito já transparecia na Monadologia (1714) de Leibniz. Ele observou que o ponto de vista de cada mônada finita -- entidade psíquica em que o corpóreo se baseia -- dá lugar a universos aparentemente distintos, que são perspectivas de um mesmo universo.

Também Nietzsche considera que a consciência, por estar condicionada ao lugar que ocupa no espaço e a certo momento no tempo, assimila um mundo aparente determinado pelas necessidades do sujeito, incapaz de apreender a objetividade. No pensamento contemporâneo, Georg Simmel, influenciado por Nietzsche, sustenta que, para os indivíduos e as espécies, a verdade corresponde a sua maneira de ser, pois suas representações do real constituem a resposta adequada as suas necessidades. Embora limitada ao ponto de vista do sujeito, cada verdade é válida nos limites de sua apreensão.

O espanhol Ortega y Gasset sustenta que o sujeito seleciona o que deseja conhecer, sem no entanto deformar a verdade. A realidade apresenta inúmeras perspectivas, todas elas verdadeiras e inerentes à condição humana, pois a superação da perspectiva sugeriria a possibilidade de considerar as coisas de um ponto de vista absoluto inexistente. A questão do perspectivismo foi retomada por Sartre, a propósito do imaginário, e por Merleau-Ponty, a respeito da fenomenologia da percepção.

PRAGMATISMO

"O que é a verdade e como se diferencia do erro?" Essa é a pergunta fundamental formulada pelo pragmatismo, que se propunha a elaborar uma atitude filosófica adaptada às sucessivas descobertas científicas surgidas ao longo do século XIX e às mudanças de uma sociedade em rápida transformação.

O pragmatismo é antes de tudo um método, do qual decorre uma teoria da verdade. Apesar de constituir um movimento aberto e antidogmático, e ainda que seus teóricos não tenham elaborado um sistema completo, há traços gerais comuns entre seus defensores. Para os pragmatistas, a vontade antecipa-se ao pensamento. O conhecimento é concebido como essencialmente modificador da realidade, portanto, a construção da verdade deve corresponder à construção da própria realidade. Conhecimento e ação se convertem em termos equivalentes. O eixo central da teoria pragmatista é a ênfase na utilidade "prática" da filosofia.

Centrado na análise do significado da experiência, o pragmatismo foi entendido como uma perspectiva em torno do conceito de verdade que, em seu processo de expansão, atingiu os setores representados pela ética e a religião. A teoria pragmática da verdade sustenta que o critério de verdade está nos efeitos e conseqüências de uma idéia, em sua eficácia, em seu êxito, no que depende, portanto, da concretização dos resultados que espera obter. Verdadeiro e falso são, portanto, sinônimos de bom e mau, valores lógicos que têm caráter prático e só na prática encontram significado.

O movimento pragmatista propriamente dito teve origem nos Estados Unidos, no final do século XIX, em torno de quatro figuras fundamentais: Charles Sanders Peirce, William James, Ferdinand Canning Scott Schiller e John Dewey. A orientação pragmatista, contudo, está presente em outras correntes filosóficas. Aparece como tendência no pensamento de Friedrich Nietzsche -- em sua teoria sobre a "utilidade e o prejuízo da história para a vida" e na concepção da verdade como "equivalente ao que é útil para a espécie e para sua conservação" -- e nos movimentos antiintelectualistas de Henri Bergson, Maurice Édouard Blondel e Oswald Spengler, já no século XX. A rigor, o pragmatismo americano começou a tomar forma nas reuniões do Clube Metafísico de Boston, que existiu entre 1872 e 1874 e ao qual pertenciam, entre outros, Peirce, James, F. E. Abbot e Chauncey Wright.

A primeira teoria pragmatista foi publicada por Charles Sanders Peirce no artigo "How to Make Our Ideas Clear" ("Como tornar claras nossas idéias"), no número de janeiro de 1878, da revista Popular Science Monthly. Seu objetivo era elaborar uma lógica da ciência que, mediante um estudo das relações entre os signos e seus objetos, possibilitasse a definição do significado preciso de um conceito, ou seja, suas conseqüências verificáveis na experiência. A partir da idéia segundo a qual "a função do pensamento é produzir hábitos de ação" e "o que dá sentido a uma determinada coisa é apenas o conjunto dos hábitos que a envolvem", Peirce desenvolveu a máxima pragmatista: "Para averiguar o significado de um conceito intelectual, é preciso considerar que conseqüências práticas podem ser inferidas como resultantes, necessariamente, da verdade desse conceito. A soma dessas conseqüências constituiria o significado do conceito."

Em outras palavras, postula que, para ter significado, um conceito ou idéia deve apresentar, em primeiro lugar, um correlato prático suscetível de comprovação experimental; segundo, que suas "conseqüências" se diferenciem claramente das de outro conceito. Dessa forma, a verdade de um conceito seria seu processo de verificação.

De acordo com essa tese, as idéias são concebidas como instrumentos e planos de ação, previsões acerca das prováveis conseqüências de determinada ação, hipóteses que, dependendo de sua eficácia, valor ou utilidade, permitem uma melhor organização da conduta do homem no mundo. No terreno metodológico, portanto, não rejeita a elaboração de hipóteses ou teorias, mas exige que estas partam dos dados da experiência e apresentem resultados práticos e verificáveis. Em suma, o critério adotado para a construção das teorias deve ser o da maior utilidade possível para as necessidades e interesses humanos. Mais tarde, Pierce proporia o nome "pragmaticismo" para sua teoria, no intuito de diferenciá-la das correntes surgidas posteriormente.

A partir da publicação de The Will to Believe (1897; A vontade de crer) e Pragmatism (1907; Pragmatismo), William James procurou transpor para o campo da ética e da religião o que havia sido pensado com sentido científico e metodológico.

Assim, estabeleceu três condições básicas para uma afirmação ser considerada verdadeira:

(1) estar de acordo com a realidade e com os objetos da experiência;

(2) estar de acordo com aquelas relações de índole puramente mental, que são verdades absolutas e incondicionais e que se conhecem como definição e princípios;

(3) finalmente, estar de acordo com o conjunto de outras verdades já verificadas.

Portanto, é verdade absoluta que um mais um somem dois, que dois mais dois somem quatro e que o branco se distinga do preto, pois a verdade dessas relações é óbvia e não necessita de verificação empírica, o que a torna eterna. Para James, quando uma verdade resiste a essas três condições, sua verificação está cumprida -- e ela passa do estado de pretensão ao de certeza.

No que se refere à religião, embora não acatasse a validade das provas convencionais da existência de Deus, admitiu a validade das experiências de conversão místico-religiosa, já que resultavam numa vantagem indiscutível para o indivíduo em termos de expansão vital e enriquecimento espiritual. Na mesma linha, Schiller postulava que, "se a hipótese da existência de Deus funciona de modo satisfatório, no sentido mais geral do termo, então é verdade". Para Schiller, a lógica e a verdade são meros instrumentos variáveis, a serviço do homem. É verdadeira aquela afirmação que tem êxito, cujo resultado prático é bom. E seu significado é definido pelo uso ou emprego que dela se faz.

O último grande teórico do pragmatismo foi o americano John Dewey, cujo instrumentalismo pretendia integrar a lógica de Peirce ao humanismo de Schiller. Para ele, a pesquisa científica seria, antes de tudo, um processo de avaliação e ordenação dos dados da experiência para, a partir deles, formular hipóteses submetidas ao critério de verificabilidade. No campo da ética, a pesquisa teria como finalidade elaborar um novo sistema de valores, baseado na consideração metódica da utilidade moral e social das várias alternativas possíveis.

O pragmatismo firmou-se como a filosofia dos resultados, da experiência humana em contato com as coisas, da ação positiva. Seu declínio veio com o advento das escolas neopositivistas e logicistas, que impuseram maior rigor e operatividade às análises do significado e da verdade de um conceito. De qualquer forma, o pragmatismo influenciou a origem dessas escolas ao abandonar o conceito tradicional de filosofia como síntese universal do conhecimento, para considerá-la como instrumento a serviço do esclarecimento de problemas reais.

RACIONALISMO

O desenvolvimento do método matemático, considerado como instrumento puramente teórico e dedutivo, que prescinde de dados empíricos, e sua aplicação às ciências físicas conduziram, no século XVII, a uma crescente fé na capacidade do intelecto humano para isolar a essência no real e ao surgimento de uma série de sistemas metafísicos fundados na convicção de que a razão constitui o instrumento fundamental para a compreensão do mundo, cuja ordem interna, aliás, teria um caráter racional. Essa era a idéia central comum ao conjunto de doutrinas conhecidas tradicionalmente como racionalismo, e cuja primeira manifestação aparece na obra de René Descartes.

O termo racionalismo pode aludir a diferentes posições filosóficas. Primeiro, a que sustenta a primazia, ou o primado da razão, da capacidade de pensar, de raciocinar, em relação ao sentimento e à vontade. Tal forma ou modalidade de racionalismo seria mais propriamente chamada intelectualismo, pressupondo uma hirarquia de valores entre as faculdades psíquicas. Em segundo lugar, racionalismo significa a posição segundo a qual só a razão é capaz de propiciar o conhecimento adequado do real. Por fim, o racionalismo ontológico ou metafísico consiste em considerar a razão como essência do real, tanto natural quanto histórico.

Respectivamente, essas posições correspondem ao racionalismo psicológico, racionalismo gnoseológico ou epistemológico e racionalismo metafísico. Em comum, existe a convicção de que a razão constitui o instrumento fundamental para compreensão do mundo, cuja ordem interna seria também racional. O sentido filosófico de razão, todavia, não pode ser fixado apenas a partir da linguagem corrente. O termo grego que a designa desde o nascimento da filosofia grega, logos, indica, embora não deixe de se referir à noção de cálculo, o discurso coerente, compreensível e universalmente válido. Caracteriza, além do discurso, o que ele revela, os princípios daquilo que "é" verdadeiramente. Em contraposição, os sofistas defenderam um pensamento "desse mundo", o da consciência comum.

Racionalismo Psicológico

O intelectualismo sustenta que as duas faculdades especificamente humanas são a vontade e a inteligência ou razão. A inteligência é vista como a mais importante sob a alegação de que a vontade ou a capacidade de querer, de decidir, é faculdade cega, cujas operações dependem da inteligência que, por definição, é a capacidade de iluminar e de ver. As filosofias intelectualistas opõem-se às filosofias voluntaristas e sensualistas.

Racionalismo Epistemológico

Posição filosófica que afirma a razão como única faculdade de propiciar o conhecimento adequado da realidade. A razão, por iluminar o real e perceber as conexões e relações que o constituem, é a capacidade de apreender ou de ver as coisas em suas articulações ou interdependência em que se encontram umas com as outras. Ao partir do pressuposto de que o pensamento coincide com o ser, a filosofia ocidental, desde suas origens, percebe que há concordância entre a estrutura da razão e a estrutura análoga do real, pois, caso houvesse total desacordo entre a razão e a realidade, o real seria incognoscível e nada se poderia dizer a respeito.

Racionalismo Metafísico

O racionalismo gnosiológico ou epistemológico é inseparável do racionalismo ontológico ou metafísico, que enfoca a questão do ser, pois o ser está implicado no pensamento do ser. Declarar que o real tem esta ou aquela estrutura implica em admitir, por parte da razão, enquanto faculdade cognitiva do ser humano, a capacidade de apreender o real e de revelar a sua estrutura. O conhecimento, ao se distinguir da produção e da criação de objetos, implica a possibilidade de reproduzir o real no pensamento, sem alterá-lo ou modificá-lo.

Racionalismo Clássico e Tendências Posteriores

Dois elementos marcariam o desenvolvimento da filosofia racionalista clássica no século XVII. De um lado, a confiança na capacidade do pensamento matemático, símbolo da autonomia da razão, para interpretar adequadamente o mundo; de outro, a necessidade de conferir ao conhecimento racional uma fundamentação metafísica que garantisse sua certeza. Ambas as questões conformaram a idéia basilar do Discours de la méthode (1637; Discurso sobre o método) de Descartes, texto central do racionalismo tanto metafísico quanto epistemológico.

Para Descartes, a realidade física coincide com o pensamento e pode ser traduzida por fórmulas e equações matemáticas. Descartes estava convicto também de que todo conhecimento procede de idéias inatas - postas na mente por Deus - que correspondem aos fundamentos racionais da realidade. A razão cartesiana, por julgar-se capaz de apreender a totalidade do real mediante "longas cadeias de razões", é a razão lógico-matemática e não a razão vital e, muito menos, a razão histórica e dialética.

O racionalismo clássico ou metafísico, no entanto, cujos paradigmas seriam o citado Descartes, Spinoza e Leibniz, não se limitava a assinalar a primazia da razão como instrumento do saber, mas entendia a totalidade do real como estrutura racional criada por Deus, o qual era concebido como "grande geômetra do mundo".

Spinoza é o mais radical dos cartesianos. Ao negar a diferença entre res cogitans - substância pensante - e res extensa - objetos corpóreos - e afirmar a existência de uma única substância estabeleceu um sistema metafísico aproximado do panteísmo. Reduziu as duas substâncias, res cogitans e res extensa, a uma só - da qual o pensamento e a extensão seriam atributos.

Leibniz, o último grande sucessor de Descartes, baseou sua doutrina na "harmonia preestabelecida" da realidade por obra da vontade divina. Distinguiu as verdades de fato - contingentes e particulares - das verdades de razão - necessárias e universais -, porém considerou as primeiras redutíveis às segundas. Desse modo, se conhecêssemos as coisas em seu conceito, como Deus as conhece, poder-se-ia prever os acontecimentos, uma vez que a estrutura do real é racional ou inteligível. Assim sendo, o método da ciência não poderia ser o da indução, mas a dedução.

Sob uma perspectiva contrária, os empiristas britânicos refutaram a existência das idéias inatas e postularam que a mente é uma tabula rasa ou página em branco, cujo material provém da experiência. A oposição tradicional entre racionalismo e empirismo, no entanto, está longe de ser absoluta, pois filósofos empiristas como John Locke e, com maior dose de ceticismo, David Hume, embora insistissem em que todo conhecimento deve provir de uma "sensação", não negaram o papel da razão como organizadora dos dados dos sentidos. O próprio fato de haver toda esta controvérsia em torno da problemática suscitada por Descartes revela a importância crucial das teses racionalistas.

O racionalismo cartesiano e o empirismo inglês desembocaram no Iluminismo do século XVIII. A razão e a experiência de que resulta o conhecimento científico do mundo e da sociedade bem como a possibilidade de transformá-los são instâncias em nome das quais se passou a criticar todos os valores do mundo medieval.

A nova interpretação dada à teoria do conhecimento pelo filósofo alemão Immanuel Kant, ao desenvolver seu idealismo crítico, representou uma tentativa de superar a controvérsia entre as propostas racionalistas e empiristas extremas.

Entendido como posição filosófica que sustenta a racionalidade do mundo natural e do mundo humano, o racionalismo corresponde a uma exigência fundamental da ciência: discursos lógicos, verificáveis, que pretendem apreender e enunciar a racionalidade ou inteligibilidade do real. Ao postular a identidade do pensamento e do ser, o racionalismo sustenta que a razão é a unidade não só do pensamento consigo mesmo, mas a unidade do mundo e do espírito, o fundamento substancial tanto da consciência quanto do exterior e da natureza, pressuposto que assegura a possibilidade do conhecimento e da ação humana coerente. Para além de seus possíveis elementos dogmáticos, a filosofia racionalista, ao ressaltar o problema da fundamentação do conhecimento como base da especulação filosófica, marcou os rumos do pensamento ocidental.

SILOGISMO

A doutrina do silogismo desenvolvida pelo filósofo grego Aristóteles no século IV a.C. constituiu até a era moderna o principal instrumento da lógica.

Silogismo, segundo a definição de Aristóteles, é uma expressão proposicional na qual, admitidas certas premissas, delas resultará, apenas por serem o que são, outra proposição diferente das estabelecidas anteriormente. O termo vem do grego syllogismós, que significa argumento ou raciocínio. Posteriormente, a terminologia tradicional passou a definir essa operação lógica como um argumento formado de três proposições -- duas premissas e uma conclusão -- que apresentam a forma "sujeito-predicado".

Indubitavelmente, o silogismo é a forma mais simples de demonstração ou de argumento inferencial. É sempre precedido de uma pergunta: quer-se saber se um dado predicado convém ou não, necessariamente, a um sujeito. A resposta, quando está de acordo com as regras do silogismo, é rigorosa e necessariamente certa. O exemplo mais clássico é o seguinte: "Todo animal é mortal; todo homem é animal; logo, todo homem é mortal."

As duas premissas, estruturadas segundo a fórmula "sujeito-predicado", são denominadas maior e menor. Por meio delas, dois termos (maior e menor) são postos em relação com um terceiro (médio). No exemplo citado, "mortal" é o termo de maior extensão, e portanto o termo maior. O termo de menor extensão, chamado termo menor, é "homem". O termo médio, que contém ambos, é "animal". Por ser afirmativo, esse tipo de silogismo é chamado categórico e se baseia na lei de generalização do universal para o particular.Os termos que compõem cada premissa são sempre os mesmos -- maior e médio na premissa maior, menor e médio na premissa menor -- mas sua ordem pode mudar. O termo médio pode assumir quatro posições diferentes, segundo as quais se definem as quatro "figuras" do silogismo. Tais figuras, em função do caráter e das combinações de suas proposições (universais ou particulares, afirmativas ou negativas) dão lugar aos 23 tipos de silogismo conhecidos como silogismos modais.

Os chamados silogismos hipotéticos são mais complexos que os categóricos e os modais, ainda que derivem das mesmas leis. A denominação se explica devido à ocorrência de premissas hipotéticas, que de acordo com sua forma podem ser condicionais ou disjuntivas. Uma formulação clássica de silogismo hipotético condicional seria, por exemplo: se P então Q; se Q então não R; logo, se P então não R.

A teoria silogística teve grande desenvolvimento durante a Idade Média. A distinção entre os termos maior, menor e médio foi elaborada pelos pensadores escolásticos, que distinguiam três espécies de silogismo: regulares, irregulares e compostos. Os regulares se constituem dos três termos clássicos. Os irregulares e os compostos se caracterizam por terem termos implícitos (ocultos), ou por terem mais de três proposições. Um exemplo de silogismo irregular, conhecido como entimema, expressa-se na frase "penso, logo existo", na qual está subentendida a premissa maior, que poderia ser "tudo o que pensa existe".

Os pensadores renascentistas, no entanto, assim como os racionalistas do século XVII, criticaram o silogismo como insuficiente e tautológico. Para eles, todas as conclusões se encontram implícitas nas premissas e portanto nada acrescentam ao conhecimento. A moderna lógica formal, contudo, reconheceu o valor histórico do silogismo como instrumento de formalização e integrou os antigos esquemas silogísticos à lógica quantificativa e à lógica de classes.

TOMISMO

O pensamento aristotélico, que se tornou conhecido no Ocidente no século XIII em traduções do árabe, serviu de fundamento ao pensamento racionalista e ameaçou a concepção cristã da realidade, tradicionalmente apoiada no platonismo. A filosofia de santo Tomás de Aquino compatibilizou o pensamento lógico e racional com a fé cristã. No Concílio de Trento, a doutrina tomista ocupou lugar de honra e, a partir do papa Leão~XIII, foi tomada como pensamento oficial da Igreja Católica.

Tomismo é a doutrina filosófico-cristã elaborada no século XIII pelo dominicano Tomás de Aquino, estudioso dos então polêmicos textos do filósofo grego Aristóteles, recém-chegados ao Ocidente. Tomás de Aquino dedicou-se ao esclarecimento das relações entre a verdade revelada e a filosofia, isto é, entre a fé e a razão. Segundo sua interpretação, tais conceitos não se chocam nem se confundem, mas são distintos e harmônicos. A teologia é a ciência suprema, fundada na revelação divina, e a filosofia, sua auxiliar. À filosofia cabe demonstrar a existência e a natureza de Deus, de acordo com a razão. Só pode haver conflito entre filosofia e teologia caso a primeira, num uso incorreto da razão, se proponha explicar o mistério do dogma religioso sem auxílio da fé.O pensamento de Tomás de Aquino foi alvo de muita polêmica e violentas críticas dos teólogos de seu tempo, que o consideravam "excessivamente filosófico". No entanto, o racionalismo da doutrina foi justamente o traço que fez com que ela promovesse a sobrevivência do cristianismo nos tempos em que o pensamento filosófico passou a ser o saber dominante. As grandes transformações contemporâneas de Tomás de Aquino - o surgimento do racionalismo, apoiado no pensamento aristotélico; o progresso tecnológico e a conseqüente transformação da estrutura social agrária em urbana; a nova organização comunitária, surgida nas cidades, vinculada à economia de mercado e às guildas de artesãos; a mudança de mentalidade, que levava as novas gerações a pretender controlar as forças naturais com o uso da razão -- devem ser levadas em conta para compreender as condições que propiciaram o surgimento do tomismo.

Doutrina Tomista

Segundo a doutrina neoplatônica de santo Agostinho, que dominou o pensamento cristão nos primeiros 12 séculos da era cristã, a alma é superior ao corpo, pois pode transcender a realidade imediata, percebida pelos sentidos, e alcançar as verdades universais. Essa capacidade demonstra o caráter extra-humano da alma -- que não poderia originar-se no homem ou no mundo exterior, ambos imperfeitos -- e atesta a existência de Deus. O conhecimento é decorrente da iluminação divina e só pode ser adquirido pela interiorização contemplativa: o mundo sensorial é mera aparência.

Tomás de Aquino, ao contrário, não partiu de Deus para explicar o mundo mas, sobre a experiência sensorial, empregou o conhecimento racional para demonstrar a existência do Criador. A partir da máxima aristotélica segundo a qual "nada está na inteligência sem antes ter estado nos sentidos", formulou as famosas "cinco vias", cinco argumentos que provariam a existência de Deus a partir dos efeitos por ele produzidos, e não da idéia -- no sentido platônico -- de Deus.

Ao atribuir à matéria conceitos positivos, relacionados ao grau de perfeição inerente às criaturas divinas, o tomismo alterou o equilíbrio de forças entre corpo e alma, admitindo ambos como princípios igualmente necessários da natureza humana. O homem situa-se no universo entre os anjos e os animais. Os anjos seriam substâncias espirituais e puras, isentas de matéria. Nesse sentido, a alma humana também seria pura, ou seja, apesar de unida ao corpo, independeria da matéria enquanto ser.

Provas da existência de Deus. Os cinco argumentos que para Tomás de Aquino demonstram a existência de Deus são:

(1) O "primeiro motor imóvel": o movimento existe, é evidente aos nossos sentidos. Ora, tudo aquilo que se move é movido por outra força, ou motor. Não é lógico que haja um motor, outro e outro, e assim indefinidamente; há de haver uma origem primeira do fenômeno do movimento, um motor que move sem ser movido, que seria Deus.

(2) A "causa primeira": toda causa é efeito de outra, mas é necessário que haja uma primeira, causa não causada, que seria Deus.

(3) O "ser necessário": todos os seres são finitos e contingentes ("são e deixam de ser"). Se tudo fosse assim, todos os seres deixariam de ser e, em determinado momento, nada existiria. Isto é absurdo; logo, a existência dos seres contingentes implica o ser necessário, ou Deus.

(4) O "ser perfeitíssimo": os seres finitos realizam todos determinados graus de perfeição, mas nenhum é a perfeição absoluta; logo, há um ser sumamente perfeito, causa de todas as perfeições, que seria Deus.

(5) A "inteligência ordenadora": todos os seres tendem para uma finalidade, não em virtude do acaso, mas segundo uma inteligência que os dirige. Logo, há um ser inteligente que ordena a natureza e a encaminha para seu fim; esse ser inteligente seria Deus.Aspectos gerais do tomismo. A originalidade do pensamento de Tomás de Aquino evidencia-se em sua concepção de existência, vista como ato supremo e como a perfeição de estar em Deus e, ao mesmo tempo, entre as coisas criadas; na atribuição do ato criativo unicamente a Deus; na negação da existência de matéria nos seres angelicais e, conseqüentemente, na distinção entre Deus e as criaturas, definidas como uma composição de existência e essência. Todas as criaturas teriam o amor a Deus como tendência natural.Na visão de Tomás de Aquino, o teólogo aceita a autoridade e a fé como pontos de partida e procede então a conclusões mediante o uso da razão. O filósofo é aquele que se atém à razão. Pela primeira vez, a teologia foi expressamente definida dessa maneira, o que ocasionou um sem-número de oposições, algumas das quais perduram ainda, sobretudo entre religiosos para os quais a razão é sempre vista como intrusa em questões de fé.

Embora afirmasse ao mesmo tempo a crença num Deus criador e a ordem imanente da natureza, Tomás de Aquino não considerava o mundo como mera sombra do sobrenatural. Para ele, a natureza criada é regida por leis necessárias -- o que autoriza a construção de uma ciência racional -- e, descoberta em sua realidade profana, acabaria por revelar seu valor religioso e levar até Deus por conclusões lógicas. A afirmação de um valor religioso imanente ao mundo natural era um dos pontos que escandalizava os agostinianos, para quem a natureza, feita em pedaços pelo pecado, dependia do poder e da graça divinas para se redimir.

Assim como Aristóteles, Tomás de Aquino sustentava que conhecer não é lembrar-se, como pretendia Platão, mas extrair, por meio de um intelecto agente, a forma universal que se acha contida nos objetos sensíveis e particulares. O conhecimento parte dos sentidos e chega ao inteligível pela abstração intelectual.

Segundo a concepção tomista de um processo contínuo de criação, a ordem do mundo manifesta a onipresente providência divina, da qual as criaturas são eternamente dependentes. Tal providência age de forma criativa e permite que cada criatura siga sua natureza intrínseca, o que se expressa no homem, ser racional, em sua forma máxima. Dependente da providência divina mas livre para seguir sua natureza, o homem, ao manter-se próximo a Deus, realiza mais plenamente sua liberdade, pois "afastar algo do estado de perfeição da criatura é afastá-lo da própria perfeição do poder criador". A graça sobrenatural eleva e torna perfeitas as habilidades naturais do ser.

Evolução do tomismo até o século XIX. O complexo e coerente corpo doutrinário tomista foi criticamente analisado e desenvolvido durante os séculos subseqüentes. A condenação de diversas teses tomistas pela Inquisição, em 1277, levou a uma febril produção, sobretudo pelos dominicanos durante o século XIII, de comentários "corretivos" à obra de Tomás de Aquino. A adoção oficial da doutrina tomista pela ordem dominicana, assim como a canonização de seu autor em 1323 e o destaque conferido à obra pelo Concílio de Trento, encorajaram um retorno aos textos originais. O francês Jean Capréolus, chamado o "príncipe dos tomistas", empreendeu os primeiros estudos sistemáticos da obra de santo Tomás de Aquino, trabalho que seria continuado, já no início do século~XVI, pelo italiano Tomaso de Vio, ou cardeal Cajetano.

No Renascimento, predominou a tendência a dar tratamento em separado a questões filosóficas e teológicas. A nova abordagem está presente na obra do dominicano português frei João de Santo Tomás, que publicou um Cursus philosophicus (Curso filosófico) e um Cursus theologicus (Curso teológico) segundo o ponto de vista tomista. Embora continuasse a merecer destaque entre os teólogos, o tomismo, assim como o pensamento cristão em geral, experimentou certo declínio durante o auge do racionalismo e do empirismo, representados por Descartes, Locke e Wolff.

As revoluções européias de 1848 tiveram influência preponderante, tanto junto à Santa Sé como à Sociedade de Jesus, para a recuperação de princípios ortodoxos quanto a Deus, o homem e a sociedade, o que trouxe novo apogeu aos textos de santo Tomás de Aquino. A partir da encíclica Aeterni patris, publicada em 1879 pelo papa Leão XIII, que enfatizava a importância da ortodoxia com especial destaque para os textos de santo Tomás de Aquino, o tomismo foi reconhecido como doutrina oficial da Igreja Católica.

UTOPIA

"Um mapa do mundo em que não aparece o país Utopia não merece ser guardado." Esta máxima de Oscar Wilde expressa o anseio permanente de criação de sociedade perfeita. Ideal irrealizável em sua plenitude, a utopia se materializa parcialmente, no entanto, graças ao progresso científico e tecnológico.

Utopia é toda proposta ideal de organização da sociedade em que, por meio de novas condições econômicas, políticas e sociais, se pretende alcançar um estado de satisfação geral. Nesse sentido, a utopia é a contrapartida para o futuro do mito de uma idade áurea, que teria existido em passado remoto. Comum a essas duas projeções é a oposição teórica às instituições sociais vigentes. Segundo Karl Mannheim, autor de Ideologie und Utopie (1929; Ideologia e utopia), "utopias são idéias inspiradoras das classes em rebelião e ascensão, em oposição às ideologias que racionalizam e estratificam o pensamento das classes dominantes".

A palavra "utopia", que em grego significa "em lugar nenhum", foi usada por Thomas More para designar a ilha imaginária descrita na obra De optimo reipublicae statu, deque nova insula Utopia (1516; Sobre o melhor estado de uma república e sobre a nova ilha Utopia). More faz severas críticas à sociedade inglesa e européia, ao mesmo tempo que apresenta a ilha de Utopia como um lugar em que a sabedoria e a felicidade do povo decorrem de um sistema social, legal e político perfeito, guiado pela razão. A Utopia fez muito sucesso na época e tornou-se modelo de todas as concepções posteriores do gênero.

A mais famosa utopia da antiguidade é a República, de Platão, em que o governo de um estado totalitário e parcialmente comunitário é confiado a filósofos. A mais radical, com traços socializantes, é do filósofo estóico Caio Blóssio, autor de Reino do Sol. Dentre as utopias posteriores à obra de Thomas More destacam-se as obras Cidade do Sol (1602), de Tommaso Campanella, em que esboça uma espécie de utopia à maneira platônica, e Nova Atlantis (1627), de Francis Bacon, em que ficam evidentes suas esperanças utópicas no futuro progresso da ciência.

Com o advento da revolução industrial, que a partir do fim do século XVIII contrapôs o progresso tecnológico à miséria amplos setores da população, surgiram vários projetos de reorganização da sociedade. A mais célebre utopia da primeira metade do século XIX foi a de Charles Fourier, cujas idéias encontraram adeptos na França e inspiraram reivindicações dos revolucionários de 1848. Os sonhos libertários de Fourier estão na obra Le Nouveau Monde industriel e sociétaire (1829; O novo mundo industrial e societário), na qual propõe a abolição da sociedade burguesa e sua substituição por "falanstérios", comunidades de organização ideal que excluíam a propriedade privada e a rígida divisão do trabalho, ao mesmo tempo em que admitia o amor livre e a dissolução dos laços familiares.

O utopista inglês Robert Owen, depois de dissipar sua fortuna na tentativa de assentar na América colônias fundadas no modelo comunitário, regressou ao Reino Unido e se pôs à frente de uma rede de cooperativas, depois de um sistema de bolsas de trabalho e, por fim, em 1834, de uma vasta união sindical. Pierre-Joseph Proudhon, no meado do século XIX, expôs na França seu projeto de uma sociedade mundial federalista, sem fronteiras nem estados nacionais, descentralizada em comunas e governada por autogestão.

Grupos políticos e religiosos tentaram pôr em prática outros projetos utópicos. Étienne Cabet, autor de Voyage en Icarie (1840; Viagem a Icária), tentou sem sucesso a fundação de colônias nos Estados Unidos, na época o país da liberdade e das possibilidades ilimitadas. Alguns de seus adeptos e outros utopistas fundaram, entre 1830 e 1860, várias colônias americanas, mas todas elas malograram. Por volta de 1860, o utopismo parecia desacreditado e o próprio termo "utopia" adquiriu a acepção pejorativa de sonho irrealizável, mas foi cultivado por adeptos de Bakunin e outros anarquistas. O grande adversário de todas as concepções utópicas foi Karl Marx, que refutou as idéias de Fourier e seus discípulos e substituiu o socialismo utópico pelo socialismo científico.

Socialistas não-marxistas nunca hesitaram em desenvolver sistemas utópicos. Nesse grupo inclui o poeta inglês William Morris, cujo livro News From Nowhere (1891; Notícias de parte alguma), renova a tradição iniciada por More na Utopia. Quase ao mesmo tempo, nos Estados Unidos, Edward Bellamy escreveu Looking Backward (1888; Olhando para trás), romance utópico de grande sucesso. Encontram-se traços do pensamento utópico tanto nos movimentos socialista e anarquista quanto em algumas realizações sociais, como na fundação dos kibutzim em Israel. A utopia renasceu na década de 1960, nos movimentos socialistas dos estudantes europeus e americanos inspirados nas teorias de Herbert Marcuse.

O surgimento dos estados totalitários e o avanço da técnica no século XX produziram as antiutopias, isto é, a projeção de um mundo futuro opressor que leva à mais absoluta desesperança. Entre os precursores da antiutopia destacam-se Jonathan Swift, com Gulliver's Travels (1726; Viagens de Gulliver), e Samuel Butler, que em 1872 publicou o romance fantástico Erewhon (anagrama de nowhere, "em parte alguma"). Entre as antiutopias contemporâneas figuram Brave New World (1932; Admirável mundo novo), de Aldous Huxley, e Nineteen Eighty-Four (1949; 1984), de George Orwell.

UTILITARISMO

Surgido a princípio como filosofia ética de caráter pragmático voltada para a reforma da sociedade e a distribuição de justiça equitativa para todos os homens, o utilitarismo converteu-se em princípio metodológico das ciências sociais.

Utilitarismo é a doutrina filosófica que admite a utilidade como valor supremo da ação moral, entendendo-se como útil tudo o que serve à vida e sua conservação, mediante acréscimo de felicidade e bem-estar. A partir da hierarquia dos prazeres mais elevados e espirituais, duradouros e nobres, o utilitarismo visa a atingir, em dada ação e determinada situação, o máximo possível de felicidade, não só para o agente, mas para o conjunto da humanidade.

O princípio de validade dessa doutrina é a identificação entre bem e felicidade, assim como a avaliação de uma ação não por sua natureza intrínseca, ou pelos propósitos de quem a realiza, mas por seus resultados. Desse modo, entre todos os atos possíveis para um indivíduo numa situação específica, o ato justo é o que proporciona o maior bem possível ao maior número de pessoas.

Muitas das idéias utilitaristas já apareciam prefiguradas no antigo hedonismo grego, no empirismo britânico e na obra de autores iluministas do século XVIII, como o italiano Cesare Beccaria e o francês Claude-Adrien Helvétius. A primeira formulação da doutrina, no entanto, foi elaborada pelo britânico Jeremy Bentham, no tratado An Introduction to the Principles of Morals and Legislation (1789; Introdução aos princípios da moral e da legislação), cujas idéias foram desenvolvidas por uma escola de pensadores do século XIX à qual, em sentido histórico, se restringe a designação "utilitarista".

Baseado numa psicologia simplista, Bentham convenceu-se de que a natureza dos homens é regida pelos princípios do prazer e da dor, e por aspirações ligadas aos desejos e necessidades naturais. Para unir a felicidade pessoal à felicidade geral há um critério moral -- pois o objetivo de toda moral é a felicidade -- que consiste em medir a qualidade de uma ação por suas conseqüências, próximas ou distantes, sobre o conjunto da vida individual e da vida em sociedade.

Bentham considerou que o princípio da utilidade podia proporcionar critério científico para a reforma da sociedade, já que o sumo bem seria a soma dos bens dos indivíduos. Estabeleceu um índice de valoração dos prazeres por meio de princípios quantitativos empíricos, como a densidade e o alcance, isto é, o número de pessoas afetadas.

Um dos principais seguidores de Bentham foi o pensador James Mill, cujo filho, John Stuart Mill, sintetizou a doutrina utilitarista no ensaio Utilitarianism (1863; Utilitarismo). J. S. Mill, no entanto, introduziu modificações no "radicalismo filosófico" de Bentham ao distinguir entre prazeres morais, mais elevados, e os meramente convenientes ou físicos, além de classificar hierarquicamente as utilidades em função de princípios morais intuitivos. A noção de liberdade individual como a primeira das utilidades sociais foi idéia fundamental de J. S. Mill no tratado que influenciou o liberalismo, On Liberty (1859; Sobre a liberdade).

Quando, em 1874, o filósofo britânico Henry Sidgwick publicou The Methods of Ethics (1874; O método da ética), o utilitarismo já se encontrava assentado como importante doutrina moral que deixou forte impressão no pragmatismo americano e em outras escolas caracterizadas pela atenção aos aspectos práticos da filosofia. As teses do utilitarismo foram retomadas também pela teoria econômica na doutrina subjetivista do valor, e economistas posteriores desenvolveram suas doutrinas em termos herdados dessa teoria. O utilitarismo proporcionou também base metodológica para o estabelecimento de critérios de decisão formal na matemática e na estatística e, de uma ou outra forma, permaneceu presente no conjunto das ciências sociais.

VITALISMO

Concepção metafísica da vida situada em posição intermediária entre materialismo e espiritualismo, o vitalismo remonta às origens mais remotas das doutrinas filosóficas gregas.

O vitalismo é uma doutrina que considera haver em cada indivíduo um princípio vital que, por energia própria, gera a vida. Não redutível à alma ou à mente, a força vital é peculiar aos organismos vivos e difere de todas as outras forças encontradas fora das coisas vivas. Controla o desenvolvimento, a forma do organismo e a direção de suas atividades. A doutrina opõe-se ao mecanicismo e ao organicismo; rejeita a possibilidade de reduzir o orgânico ao inorgânico, isto é, afirma que os processos biológicos ou orgânicos são irredutíveis aos simples fenômenos bioquímicos que neles ocorrem ou lhes são concomitantes. Esses processos explicam-se pela presença de um princípio vital ou enteléquia.

Para os gregos, o princípio vital seria distinto não só da alma pensante como das propriedades físico-químicas do organismo. Esse conceito expressa-se no dualismo de Pitágoras e Aristóteles, que distingue a psyché ou princípio vital, irracional e vegetativo, que rege os fenômenos da vida, e o nous, a alma, responsável pela razão e exclusivo da espécie humana.

As teorias vitalistas ressurgiram no Renascimento com Paracelso. Sob forma científica moderna, o vitalismo teve expressão na escola de Montpellier, no século XVIII, na qual se destacaram Théophile de Bordeu e Paul Joseph Barthez. Consideravam os fenômenos vitais como efeitos imediatos de uma força sem similar fora dos organismos vivos.

O vitalismo sofreu o primeiro grande impacto com a síntese da uréia em laboratório, em 1828, seguida de outras sínteses. Reduziu-se então à idéia de direção ao defender que a força vital apenas orienta as forças físico-químicas produtoras dos fenômenos vitais. Na epistemologia contemporânea, Claude Bernard defendeu a especificidade dos fenômenos vitais, pois a dimensão físico-química não é capaz "de harmonizar os fenômenos na ordem e na sucessão relativas especialmente aos seres vivos". A biologia tende a defender aspectos positivos do vitalismo no estudo da especificidade dos fenômenos bioquímicos.