quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

BUDISMO

É uma das mais antigas religiões não-cristãs que, séculos após séculos, continua fazendo discípulos muito além das terras orientais. Trata-se do sistema ético, religioso e filosófico criado na região da Índia pelo príncipe hindu Sidartha Gautama, o Buda, que viveu entre 563 e 483 a.C., aproximadamente. A veneração que repousa sobre o Buda, oriunda dos seguidores dessa seita, reputa-o como um guia espiritual e não um Deus. A importância desta distinção repousa sobre a possibilidade de seus seguidores aderirem a outras profissões de fé e continuarem em seguindo os preceitos budistas. A origem do budismo está no hinduísmo, religião na qual Buda é considerado a nona encarnação ou avatar de Vishnu.


A invasão muçulmana, no século 7°, tornou-se um entrave ao desenvolvimento da religião budista em todo o território indiano, por promover um estrondoso crescimento do islamismo nessa região, o que não impediu o budismo de multiplicar seus seguidores no continente asiático. O budismo se subdividiu em várias escolas, ganhando diversidade sempre que é incorporado a novas culturas.
O NASCIMENTO DO BUDA


O pequeno Sidartha nasceu em uma família nobre do Nepal, gozando, desde a natividade, do título de príncipe, sendo criado em confinamento no palácio até os 29 anos, quando, após desabrochar para o mundo e conhecendo suas fragilidades, fica chocado ao descobrir as doenças, a velhice e a morte. A partir daí, esmera-se por conseguir respostas que expliquem as causas do sofrimento humano, juntando-se a um grupo de ascetas, indivíduos que praticavam o exercício que levava à efetiva realização da virtude e à plenitude da vida moral; iniciando um período monástico de seis anos, no qual apenas jejuou e meditou.

Essa autoflagelação, entretanto, não proporcionou a Sidartha à elucidação de seus questionamentos, frustração que o levou a se afastar do grupo originário, quando, numa oportunidade solitário, sentado sob uma figueira, teve a revelação das “quatro verdades nobres” do budismo. São elas:

A REALIDADE DO SOFRIMENTO – Todo sofrimento humano é resultado do carma passado. As ações de uma pessoa determinarão o ciclo de reencarnações pelo qual ela terá de passar até chegar ao nirvana.


A CAUSA DO SOFRIMENTO – A causa do sofrimento é o desejo: gratificação, o desejo da existência e também o da não-existência.


O FIM DO SOFRIMENTO – O sofrimento pode e deve ser totalmente eliminado. O objetivo central do budismo é dar ao homem a eterna libertação do sofrimento, por meio da libertação de todo o desejo, o que equivale a ser liberto do ciclo interminável de reencarnações e entrar no bem-aventurado estado do nirvana.


O CAMINHO PARA A ELIMINAÇÃO DO SOFRIMENTO – Trata-se de oito passos básicos destinados a suprimir o desejo e, dessa maneira, abrir o caminho para a iluminação, conhecido como “os oito caminhos nobres”.


A concepção de Buda sobre Deus era semelhante à do ateísmo, divergindo apenas quanto à existência de Deus, posto que era possível. Todavia, para Sidartha, essa concepção era inútil, pois a confiança em divindades ou demônios não ajuda nem, atrapalha. O homem deveria sempre depositar sua confiança em si mesmo.

É nessa oportunidade que recebe o título de Buda de seus seguidores, isto é, “o iluminado”, na linguagem do sânscrito, língua indo-européia, do ramo indo-ariano, na qual foram escritos, também, os Vedas, entre 1200 e 900 a.C., e que, entre os séculos 6° a.C. e 11 d.C., tornou-se a língua da literatura e da ciência hindus.

Decide, então, pregar seus preceitos pela região da Índia. Não tarda para que seus ensinamentos ganhem adeptos e atinjam toda a Ásia, incorporando novas diversidades e rituais em diversas culturas, dentro das três grandes escolas da filosofia budista, a Hinayana, a Mahayana e a Vajrayana.


BUDISMO HINAYANA


Compõe a forma mais remota dessa religião, também conhecida como Theravada, que significa “pequeno veículo”, uma expressão que explica o fato de só os monges terem acesso a essa corrente, que possui maior expressividade nos países do sul da Ásia, como Sri Lanka, Mianmar, Camboja, Laos e Tailândia. Seus seguidores acreditam que a única forma de se chegar ao nirvana, o estado de ausência total de sofrimento, é detendo a paz e a plenitude a que se chega por uma evasão de si na expansão da sabedoria, resignando-se à vida dentro de uma ordem monástica e rejeitando o conceito de bodhisattva do budismo mahayana.

A sociedade dos monges está dividida em duas partes, cada qual para o respectivo sexo. A dos Bhiksu (monges) e das Bhiksuni (monjas). Ambas as classes são, acima de tudo, uma casta elevada de mendicantes que renunciam à possessão de qualquer bem material e ao exercício de qualquer profissão remunerada. Só pode receber doações em espécie animais ou vegetais, sem jamais tocar em dinheiro.

O patrimônio desses resignados adeptos se resume numa vestimenta amarela e nos países de relevo montanhoso, acresce-se um par de sapatos. Não possuem residência fixa e o ambiente do mosteiro pode ser usado apenas para encontros nos dias de retiro e, por períodos limitados, para abrigo da chuva.

Seguem uma rotina bastante rígida e sistemática. Levantam cedo, buscam a esmola antes do meio-dia e, num ato contínuo, realizam uma única refeição. À tarde, entregam-se à meditação e ao repouso, até a hora estabelecida para a leitura das escrituras, durante a reunião pública.

A noite é reservada para o banho purificador e, depois, emprega-se um longo período noturno para o diálogo, que desenrola entre grupos de dois ou mais irmãos da casta monástica. Além do costumeiro jejum praticado entre os monges e as monjas, também se reúnem para a celebração do uposatha (observância), ritual que se constitui num retiro de rigorosos jejuns, realizados a cada quarto de lua.

Há, ainda, a cada mês, o ritual da confissão pública, que é conduzido pelo bhika (mestre de cerimônia) mais velho, o qual, após a leitura dos 227 preceitos da disciplina monástica, solicita a manifestação dos presentes quanto aos erros praticados naquele período. A falta dessa confissão implica em culpa por falsidade, o que rende severas penalidades.


BUDISMO MAHAYANA


Essa ramificação do budismo é traduzida do sânscrito por “grande veículo”, por permitir que um grande número de pessoas alcance a salvação. Surgiu no século 2° a.C., em meio a uma insurreição na escola hinayana.

O mahayana define que, ainda que a aspiração final do ser humano seja o nirvana, o sábio que já o tenha alcançado, chamado de bodhisttva, ou futuro Buda, tem o poder e o dever de adiar sua morte e libertação do sâmsara, para ensinar seus semelhantes os meios para se chegar ao nirvana. Essa atitude prioriza a compaixão para com os demais seres humanos. Duas correntes budistas se projetam com destaque dentro dessa filosofia bastante conhecida no Ocidente: o budismo tibetano e o zen-budismo.

O budismo tibetano desponta no final do século 8°, surgindo da fusão das tradições do budismo e do hinduísmo. É reconhecido como a primeira religião do Tibet.

É nessa ramificação budista que se encontra o representante de uma famosa ordem monástica, o chefe espiritual dalai-lama, considerado um bodhisatta.

Já o zen-budismo nasceu na China, no século 6°, onde foi introduzido pelo mestre indiano Bodhidarma, difundindo-se principalmente no Japão, a partir do final do século 12, quando passou a influenciar a cultura e as artes marciais, além do modo de pensar do povo japonês.

Está alicerçado no exercício da meditação e na prática da postura e da respiração, como meios de se atingir os ápices desejados durante a reflexão, dando muito mais ênfase sobre essa nuança da seita do que os exercícios teóricos e aos estudos das escrituras. Acreditam os praticantes dessa modalidade do budismo que o corpo é dotado de sabedoria própria, que deve ser empregada para fins de ordenamento da vida cotidiana.

O budismo mahayana se qualifica como sendo o ensinamento que parte do mestre diretamente ao seu discípulo; de coração para coração, espécie de budismo que tem atraído muitas pessoas em todo mundo. O fukan-zazenzi é uma série de conselhos para a meditação zen e se acha inserido num texto escrito pelo mestre zen Dogen, em 1227, logo após ter retornado a China, país no qual tomou aulas e adquiriu o conhecimento com os mestres locais. O fukan-zazenzi é avaliado como texto indispensável para o aprendizado zen.

Carrega em sua matéria escrita, os sutras, que, na literatura da Índia, são tratados em que se reúnem, sob a forma de breves aforismos, as regras do rito, da moral e da vida cotidiana. Esta modalidade literária se difundiu fora da velha tradição do tripitaka, conhecida como coleção canônica budista, traduzida no sânscrito para “coleção tripla”. Os sutras do rito mahayana são quatro: da sabedoria; da flor de lótus; do lótus sublime; e do Buda Amina.


O SUTRA DA SABEDORIA – Ensina que todo o corpo material ou imaterial existente não é solidamente estável, mas relativo. Aquilo que é percebido pelo sentido da visão nada mais é do que o acúmulo de energias que acabaram por se tornar a causa daquela existência. Mesmo tangíveis, todas as coisas são transitórias e a verdadeira sabedoria consiste em que se reconheça essa verdade.


O SUTRA DA FLOR DE LÓTUS – É talvez, o sutra mais importante do rito mahayana. Propaga que o budismo é o único caminho, ainda que se apresente numa vasta gama de correntes, por meio do qual toda a humanidade pode chegar à salvação. Seu estilo literário é simples, resumindo-se em belas parábolas de fácil compreensão.


O SUTRA DO LÓTUS SUBLIME – Adota a tese de que, dentro de cada ser, há uma porção da natureza do Buda. Então, tudo o que existe e acontece está misteriosamente relacionado, não havendo na atmosfera qualquer existência absorta, que exista esparsamente e sem uma interdependência.


O SUTRA DO BUDA AMIDA – Muda os conceitos anteriores, apresentando uma nova concepção de Buda e da salvação. O Buda nessa escola é chamado de Amida, aquele que revela a “vida infinita” e a “luz infinita”, uma divindade infinitamente misericordiosa. Segundo seus adeptos, qualquer pessoa, por mais miserável, fraca ou pecadora que seja, se, de forma devotada, invocar seu nome com fé, alcançará salvação segundo a misericórdia de Amida, para que, após a morte, possa renascer em seu paraíso.


BUDISMO VAJRAYANA


Também traduzido por “veículo do diamante”, é a corrente menos difundida e que mais aponta diversidade com as origens do budismo, perseverando em aspectos que mereceram apenas a crítica de Buda, ou seja, o ritualismo, a mística e a magia. Reclamou espaço como corrente budista no século 6°, propagando-se, posteriormente, pela Mongólia e pelo Tibet, onde é conhecido como Lamanismo, do budismo tibetano.


A MORTE DE BUDA


Por estar atrelado a remotos períodos da antiguidade, é pela tradição que se observa a história da morte do Buda, com oitenta anos de idade. É parte do enredo deste “iluminado” que, em sua última peregrinação, deteve-se num bosque nos termos de Kusíngara, atual Nepal. Ananda, seu principal discípulo, preparou-lhe um modesto aposento entre as árvores para que repousasse, momento em que Sidharta teria pronunciado suas últimas palavras, que foram: “Eu vos exorto: todas as coisas perecem. Lutar sem tréguas”.

Segundo a tradição, Buda teria sido cremado e suas cinzas espalhadas pelo território, para serem guardadas como relíquias sagradas. Tem início, a partir daí, a veneração budista.


BUDISMO PÓS-BUDA


Embora os preceitos budistas não tenham a pretensão de possuir uma validade absoluta, contempla-se, entre seus adeptos, um ardor missionário bastante expressivo. Esta filosofia propaga o próprio Buda, de que seu conhecimento seja transmitido ao mundo e não restrito a um grupo específico no meio budista. Duzentos anos após a morte de Buda, o grupo religioso passou a se alastrar em regiões bastante além de suas origens. A Índia para todas as nações, apresentando um discurso que versa sobre a libertação de todos os homens, interpretação que ele havia desenvolvido do mundo, além de seus princípios morais.

Esta filosofia explica, ainda, a luta de Buda para vencer os obstáculos criados pelas inúmeras e férteis civilizações que compunham a Ásia dentro da contemporaneidade de sua existência; entre elas, a dos próprios indianos, dos chineses e dos japoneses, formando, no transcorrer de um ano, uma estruturada comunidade espiritual, o atual mundo budista.


A FIDELIDADE BUDISTA


Embora encontremos diferenças nos objetivos dos leigos budistas, os chamados upassakas, muito inferiores ao ideal dos monges (bongos), Sidharta deixou para eles recomendações específicas que vão além da lição primeira da fraternidade que se resume no sustento dos monges; ou seja, que o bom leigo deve esmerar-se por exercitar três grandes virtudes: fé, moral e benevolência.

A fé, na concepção budista é uma predisposição interior que propicia ao homem abrir o coração para a chamada “tríplice pedra preciosa”: o Buda; o Dharma, a lei budista e o Sangha, sua comunidade.

Esta fé, entretanto, permite ao budista acumular a prática de antigas religiões nas quais desenvolveram suas crenças, podendo decidir, entre quantas desejar, a qual divindade se devotará.

A parte moral consiste em respeitar cinco proibições, além da prática mensal de, pelo menos, um dia de jejum. Considerando uma fusão entre a fé e a moral, alcança-se uma estrutura sólida para pôr em prática a terceira virtude: o sentimento de bondade, que desperta a compaixão para com todos os seres vivos.

Soberanos e governantes praticam a benevolência se valendo da facilidade oferecida pelo cargo, realizando, por exemplo, obras públicas, como estradas, pontes, represas e plantações, enquanto que os monges se preocupam exclusivamente com o objetivo eterno de alcançar a perfeição pessoal, o que os torna, aos olhos dos não budistas, em indivíduos anti-sociais, que ignoram todos os seus semelhantes.

Já o bom leigo se exercita nas chamadas virtudes ativas, servindo como voluntários em instituições de caridade, hospitais, doando esmolas, prestando assistência a doentes terminais e a velhos moribundos. É dessa classe de leigos que surge o “grande veículo”, já impregnado de idéias altruístas e de profunda consciência religiosa.

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