quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

CONFUCIONISMO

O confucionismo é uma religião de humanismo otimista, grande representatividade e imensa expressão social na filosofia política da China. Seu fundador Confúcio (551-479 a.C.; grafia latina do nome Koung Fou Tseu, ou mestre Kung),fundou esta norma religiosa por volta do século 5° a.C.


Embora esse personagem histórico seja reconhecido como grande vulto dentro da tradição chinesa, existem poucas informações sobre sua vida e obra. O documento de maior circulação que pode informar a história a seu respeito se chama Analectos, coletânea que enumera suas declarações, produzida pelos seus seguidores.

Informações adicionais sobre a vida desse líder chinês emergem um período posterior, revelando pontos ainda não conhecidos sobre sua biografia. Todavia, esse mesmo material acabou não sendo reputado como totalmente verdadeiro. Mesmo assim, alguns elementos históricos desse material pareciam ter coesão com os fatos ocorridos, já que demonstravam aspectos peculiares ao pensador que deu vida as suas muitas idéias, que reunidas num conjunto de normas, ganharam o nome de confucionismo.

O princípio básico do confucionismo é conhecido pelos chineses como junchaio (ensinamentos dos sábios), que define a busca de um caminho superior (tão) como forma de viver bem e em equilíbrio entre as vontades da terra e do céu.

Confúcio foi mais um filósofo do que um pregador religioso. Suas idéias sobre como as pessoas devem se comportar e conduzir sua espiritualidade se fundem aos cultos religiosos mais antigos da China, que incluem centenas de imortais, considerados deuses, criando um forte sincretismo religioso.

O confucionismo foi à doutrina oficial da China durante quase dois mil anos, ou seja, do século 2° até o início do século 10°. Fora da China, a maioria dos confucionistas se encontra na Ásia, principalmente no Japão, Coréia do Sul e Cingapura.


A VIDA DE CONFÚCIO


O mais novo dos onze irmãos, Confúcio nasceu com Chiu King, na região de Lu, atualmente Xantung. Teria sido contemporâneo de Buda, muito embora a história não registre um encontro pessoal entre esses dois personagens, que existiram num período imediatamente anterior ao dos filósofos gregos Sócrates e Platão.

Pouco se sabe a respeito de sua família e do seu modo de vida na infância, a não ser o fato de que teria vivido numa comunidade humilde, o que ele mesmo declara em suas obras, afirmando: “Quando eu era jovem, não tinha posição social e vivia em circunstancias humildes”.

O pai de Koung Fou Tseu morreu logo após o seu nascimento, então, ele passou a ser criado apenas por sua mãe, sendo introduzido, na juventude, em várias atividades sociais de sua comunidade, como a caça e a pesca, mas, dizia ele: “Quando cheguei aos quinze anos, voltei minha mente para erudição”.

Foi admitido numa repartição pública, aos moldes de sua época, sendo-lhe atribuída a função de coletor de impostos, quando ainda não havia atingido duas décadas de vida. Ainda nesse período, casou-se, mas foi um relacionamento de curta duração, culminando com o divórcio. Esta rápida relação gerou um casal de filhos a Confúcio.

Aos trinta anos, ingressou no corpo docente, lecionando filosofia e política social, atividade que revelou seu potencial como mestre, rendendo-lhe fama e provendo o surgimento de um primeiro grupo de seguidores.

Preso a certa presunção, acreditava ser necessário ocupar um cargo de maior expressão social, sem o qual jamais se observaria uma mudança significativa na sociedade em que habitava. Confúcio reconhecia que esta seria a única forma de pôr em prática seus objetivos. Apesar de sua ambição, teve de amargar cargos secundários no serviço público por cerca de quinze ou vinte anos, até que, após meio século de vida, conquistou um alto cargo de oficial do governo de Lu.

Embora o cargo o habilitasse à exposição de suas idéias, defrontou-se com severa oposição de seus superiores, resignando-se, após esta experiência, ás tarefas concernentes ao seu posto. Passou, então, a peregrinar pelas províncias adjacentes com o intuito de difundir suas idéias na sociedade, realidade que ocupou sua vida por treze anos.

A falta de êxito nesse objetivo fez que se enclausurasse durante os cinco últimos anos de sua vida, para que pudesse expressar suas idéias por escrito, tratado de conceitos que se tornaria a sua mais clássica e conhecida obra literária: Os analectos.

Confúcio morreu em Chufou, província de Xantung, em 479 a.C., mas não antes de ter se consagrar o mais importante mestre da cultura chinesa.



DOUTRINA


No confucionismo não existe um Deus criador do mundo, nem uma igreja organizada ou sacerdotes. O alicerce místico de sua doutrina é a busca do Tao, conceito herdado de pensadores religiosos anteriores a Confúcio.

O tao é a fonte de toda a vida, a harmonia do mundo. No confucionismo, a base da felicidade dos seres humanos é a família e uma sociedade harmônica. A família e a sociedade devem ser regidas pelos mesmos princípios: os governantes precisam ter amor e autoridade como os pais; os súditos devem cultivar a reverencia, a humildade e a obediência de filhos.

O fundador esclarecia que o ser humano deveria cultuar seus antepassados já extintos, numa representação que se exigia do prolongamento do respeito que se tinha pelos pais ainda vivos. O homem, de acordo com essa doutrina, é composto por quatro dimensões: o eu, a comunidade, a natureza e o céu – fonte da auto-realização definitiva.

Pregava também o que considerava “as cinco virtudes essenciais do ser humano”: amar o próximo, ser justo, comportar-se adequadamente, conscientizar-se da vontade do céu e cultivar a sabedoria e a sinceridade desinteressadas.



PRINCÍPIOS DOUTRINÁRIOS


É possível traçar um sumário referente às doutrinas do confucionismo, usando seus termos-chave ou caminhos. O Jen é reconhecido como regra áurea; o shung-tzu é o cavalheiro; o Cheng-ming é aquele que desempenha um papel; o Te é o poder da virtude; Li artes pacíficas.

Uma abordagem superficial sobre estes princípios é capaz de revelar a estrutura doutrinária básica da crença confucionista. Vejamos:

JEN. Discorre sobre os conceitos que abrangem a humanidade, bondade e a complacência do homem para o homem. Jen, neste aspecto, constitui-se na regra maior; a norma que reflete a reciprocidade, ou seja, que nos exorta a não atingirmos alguém da forma como não gostaríamos de ser atingidos.

Os analectos apresentam um diálogo entre Tzu-Kung e Confúcio, no qual o primeiro indaga do segundo: “Seria possível definir, numa só palavra, que conduta deve ter o homem durante sua vida?”. Ao que respondeu Confúcio: “Talvez, Shu, isto é, não imponhas aos outros o que tu mesmo não desejas” (15.24). Esta seria a virtude maior, segundo o confucionismo, que compreende o exercício desta regra como antídoto para a guerra e a intolerância mundiais.

CHUN-TZU. Pode ser traduzido por “homem gentil” ou “homem em seu melhor aspecto”. Os ensinamentos de Confúcio tinham por alvo o homem de virtudes, ao qual o mestre se referia como aquele que pudesse pôr em prática as “cinco normas”, por isso era digno de ser chamado de o “homem em seu melhor aspecto”. Estas cinco normas são: humildade, magnanimidade, sinceridade, diligência e cortesia.

A humildade livra do escárnio, a magnanimidade atrai os semelhantes, a sinceridade desenvolve confiança entre os que rodeiam e a cortesia o favorece diante de seus subalternos. O homem que baseia sua conduta nesses preceitos é aquele que pode mudar a sociedade.

CHENG-MING. Outro importante conceito que consiste na correção do nome. É necessário, segundo Confúcio, para que haja uma sociedade que habite na ordem, que cada integrante desse grupo desempenhe o papel que lhe cabe, para que, em conseqüência, um rei haja como um rei e um cavaleiro haja como cavaleiro.

Por causa disso, estabeleceu-se outra discussão, dessa vez entre o mestre e o duque Ching de Sh’i, que indagou de Confúcio sobre a questão do governo, obtendo, como resposta, “Que o governante governe, que o cidadão ocupe seu espaço, que o filho seja filho e o pai seja pai” (Os analectos). É do repertório temático de Confúcio, ainda, seguinte declaração: Disse Tzu-lu: “Se o senhor lhe deixasse a administração de seu Estado, o que reputaria como maior em importância?”. Resposta do mestre: “Se algo tiver de ser posto em primeiro lugar, seria a retificação dos nomes”. Os analectos (13.13).

TE. Este termo se traduz, literalmente, por “poder”, mas seu conceito no confucionismo é bem mais amplo. Trata, por exemplo, do poder para governar.

De acordo com Confúcio, esta expressão traduz muito mais do que mero poder físico e, talvez por isso, haja a necessidade de que os detentores deste poder sejam homens virtuosos (Chun-Tzun), com potencial para induzir seus súditos à obediência, por meio de um modelo irrepreensível de virtudes. Enquanto Confúcio atuava entre os homens, esse entendimento extraviou-se, posto que, em sua época, a força física era tida como a única forma eficaz de se ordenar à sociedade.

LI. Este era um dos vocábulos-chave de Confúcio. Seu significado vai além de uma mera tradução específica e cada uma de suas interpretações deve estar atrelada aos contextos de sua aplicação. Ele pode significar propriedade, reverencia, cortesia, ritual ou padrão ideal de conduta.

No livro de cerimônias do confucionismo, Li-Chi, discute-se o conceito sobre este vocábulo nos seguintes termos:

Diálogo de Ai, o duque, a Confúcio: “Qual é o grande Li?[...] Por que você fala sobre o Li como se fosse algo importante?”. Resposta: “Seu humilde servo não é capaz nem digno de compreender o Li”.

A partir daí, prosseguiu Confúcio discorrendo sobre todo o seu aprendizado, esclarecendo que, a seu ver, de todas as coisas pelas quais as pessoas vivem, o Li é a maior. Sem o Li não saberíamos como adorar devidamente os espíritos do Universo, como especificar com exatidão qual seja a função que cabe ao monarca e seus ministros ou como definir diferentes graus de relação em famílias, por isso que um Chun-Tzu (“homem gentil”) dá tanto valor ao Li.

WEN. Este conceito está ligado às artes pacíficas, aquelas às quais Confúcio dava tanto valor. Neste ramo. Incluem-se a música, a poesia e as demais modalidades artísticas típicas da cultura chinesa.

Confúcio condenava a cultura contemporânea, por acreditar que ela não trazia qualquer virtude inerente aos seus ensinamentos. Quanto a isso, declarava: “Por certo, quando alguém diz: os ritos não devem estar destacados apenas em presentes de jade ou de seda, da mesma forma que quando alguém diz: a música, a música não pode estar presa ao pensamento de sinos e tambores...”.

Dada esta verdade confucionista, presumia-se que aqueles que desprezassem as artes pacíficas estariam desprezando os caminhos virtuosos do homem e o próprio céu.


ESCRITOS SAGRADOS

Durante o período em que atuou como docente, Confúcio reuniu, numa coleção, escritos antigos, os quais editou, adicionando-lhes comentários. Distribuiu esses manuscritos em quatro livros, nos quais inclui um quinto volume, escrito de próprio punho.

Esta coleção alcançou renome entre os confucionistas sob o título Os cincos clássicos, que não eram conforme os que existem a disposição atualmente, haja vista as inúmeras edições e alterações, consideradas cabíveis; distorções do original, promovidas pelos próprios seguidores de Confúcio. Muito dessas obras, entretanto, teve sua originalidade preservada, de acordo com aquilo que havia sido transmitido por Confúcio. A saber:


O LIVRO DAS MUDANÇAS – I CHING. Esse livro é composto por uma coletânea de oito triagramas e mais sessenta e quatro hexagramas de linhas unicamente quebradas ou não quebradas, as quais, para os seguidores originais, tinham um grande significado para aqueles que fossem capazes de desvendar a chave das mesmas.


O LIVRO DOS ANAIS – SHU K’ING. Traz a história das cinco dinastias anteriores, além do exemplo deixado pelos antigos, tidos como cruciais para a compreensão da mente de Confúcio quanto ao seu conceito sobre a conduta do homem superior.


O LIVRO DA POESIA – SHIH CHING. A poesia antiga foi montada numa coleção por Confúcio, por acreditar que a leitura de poemas colaborava com a construção de um caráter que formava homens virtuosos.


O LIVRO DAS CERIMÔNIAS – LI CHI. Dirigido exclusivamente ao homem superior, para ensiná-lo a agir de forma correta e respeito às tradições. Confúcio acreditava ser importante imitar o exemplo dos ancestrais.


OS ANAIS DA PRIMAVERA E DO OUTONO – CH’UM CH’IU. Sua autoria, segundo a tradição dos antigos, é atribuída a Confúcio, mas há divergências. Esse volume comentava os eventos ocorridos na província de Lu, contemporaneamente ao mestre.


ENSINAMENTOS DE CONFÚCIO


Nenhum dos escritos que compõem essa relação contém os ensinamentos tipicamente confucianos, mas constituem uma analogia com base na qual o mestre transmitiu seus preceitos na forma em que chegaram até nós, por meio das obras produzidas por seus discípulos, que são:


ANALECTOS. Forma a fonte mais importante dessa crença, de onde se podem extrair dados a respeito de Confúcio. A obra está composta de declarações tanto dele quanto de seus discípulos.


A GRANDE ERUDIÇÃO. Trata da educação e do treinamento que se aplicam àquele cujo plano da vida almeja o título Chun-Tzu, ou “homem gentil”. Essa obra, porém, não é atribuída ao fundador do confucionismo, o que se prova pelo fato de advir de um período posterior à sua existência (250 a.C).


A DOUTRINA DA MODERAÇÃO. Refere-se ao relacionamento existente entre a natureza humana e a ordem natural do Universo. Também forma uma coleção de escritos alheios a Confúcio e cuja escrituração não possui origem autoral específica, mas, entre os cogitados, acha-se um neto de Confúcio, Tzu-Ssu.


O LIVRO DE MÊNCIO. Mêncio era um aplicado discípulo e propagador dos ensinamentos de Confúcio, e teria redigido esse volume por volta de 300 a.C., colecionando ensinos da época confuciana e tentando acomodá-los, de forma ordenada, em sua publicação. Esse trabalho de grande impacto expõe uma visão idealista da vida, procurando ressaltar a bondade que, segundo Mêncio, é imprescindível à natureza humana.

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