quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O JAINISMO

Foi fundado entre 599 e 537 a.C., pelo nobre indiano Nataputa Verdamana, que, posteriormente, recebeu o título honorífico de Verdamana Mahavira, ou “o Grande Herói”. Assim como ocorre no budismo e no hinduísmo, o jainismo também encontra a origem de sua nomenclatura no sânscrito, derivando do termo “jaina”, o qual se traduz por “vitorioso”.


Essa filosofia, tal como o materialismo charvacan, é considerado um dos principais sistemas heterodoxos que podem ser observados nas dissidências hinduístas, tendo sido a primeira a emergir de diferenças surgidas dentro do hinduísmo. Toda a sua estrutura religiosa veio da Índia, posto que, da mesma forma que ocorreu com o budismo, o jainismo traz um histórico de herança religiosa hindu, fato que ocorreu por volta do século 6° a.C., e que, á época, ganhou a justa conotação de corrente filosófica diversa de sua crença mãe, período no qual Mahavira era contemporâneo de Buda, sendo casado e pai de uma filha.

As diversidades que acabaram promovendo o cisma e o conseqüente surgimento dessa ramificação versavam sobre os conceitos até então usuais que se referiam às divindades, revelando uma tendência que apontava para rejeição ao teísmo.

O jainismo comunga do conceito budista que vislumbra a possibilidade de salvação com base apenas nas virtudes do indivíduo, dispensando a intervenção de quaisquer divindades para esse fim.

A antiguidade dessa seita é atestada pela história, que aponta atividades do jainismo na região Norte da Índia, em Magadá, desde os séculos 5° e 6° da era Cristã.

Mahavira foi o maior difusor dos conceitos doutrinários desta religião. Esse, após a morte de seus pais, tornou-se um fervoroso perseguidor da iluminação espiritual, objetivo que alcançou após doze anos de vida ascética (Kaiulya), abstendo-se das vestes corporais e vagueando nu por toda a Índia, deixando o cuidado corporal e permanecendo mudo durante todo esse período, quando já contava 43 anos de vida, segundo a tradição.

Nesse tempo, iniciou a ministração de seus ensinos, os quais estavam baseados em quatro pontos básicos. São eles:
AHINSA – O princípio da não-violência em quaisquer circunstancias e no seu mais amplo significado.
ANEKANTWAD – O conceito que se refere não a uma, mais a muitas verdades, e cada qual baseada num ponto de vista.
APARIGRAHA – A renúncia a toda possessão material.
CARMA – A responsabilidade moral de cada pessoa perante seus atos, visíveis e invisíveis. Essa responsabilidade também determina o destino da pessoa.


O MONASTÉRIO JAINISTA


Vardhamana fundou a primeira ordem monástica jainista, exigindo de seus candidatos a realização de quatro votos básicos, alguns deles extraídos de seus primeiros ensinos. Vejamos:

- Não causar dano a qualquer ser vivo;

- Ter caráter incondicionalmente verdadeiro;

- Jamais furtar;

- Eximir-se de possessões materiais.

Esses votos, posteriormente, Mahavira acrescentou o celibato, além de requerer dos aspirantes ao monastério uma vida de intensos exercícios espirituais de mortificação, devoção e meditação religiosa.

Baseado nessa vida de resignação, o termo “jaina” parece retratar o significado paralelo ao da palavra “santo”, empregada pelos que seguem o cristianismo, uma vez que sua definição está diretamente relacionada a “vitória”. Entretanto, também no conceito jainista, “vitória” sobre as mazelas e vicissitudes cotidianas e, neste sentido, a devoção dos jainistas equivaleria à devoção que os católicos prestam às personalidades do panteão romanista.

Mahavira e Parshva são considerados pelos fiéis como os últimos dos 24 grandes líderes religiosos do mundo, motivo pelo qual teriam galgado o título de Tirthankara, que significa “atravessador do vale”, no caso, aquele que auxilia seu semelhante a atravessar “o mar” de dificuldades terrenas cotidianas.
OS ESCRITOS SAGRADOS


A relação dos livros sagrados do jainismo, originalmente, é composta do idioma ardhamagadhi, cuja transmissão oral se assemelha a forma como se observa no hinduísmo. Essa coleção de escritos foi vitimada por extravio aparente desde o século 3° d.C. seus adeptos afirmaram que esta mesma tradição oral teria sido reescrita por volta do ano 454 d.C. uma peculiaridade dessa dissidência hindu, talvez a maior, é a rejeição dos Vedas, incluindo seu panteão de divindades e suas muitas cerimônias, além de reputar como supérfluo o sacerdócio brâmane. Essa compleição crítico-literária se constitui na estrutura heterodoxa do jainismo. Também consta dessa época (séc. 3° d.C.) que a comunidade jainista que habitava a Índia oriental, lugar a residência de Mahavira, migrou para Guzerate e Rajasthan, na Índia ocidental. Foi durante essa migração que surgiu um cisma na seita formando duas correntes de pensamento sobre até que deveria evoluir o caráter. Uma das correntes entendia que o correto era a abstenção até mesmo das vestes. Esse grupo recebeu o título de digambaras, termo que se traduz por “vestidos de céu” ou “nus”. Os contadizentes contraíram um nome oposto: shvetambaras (“vestidos de branco”), por causa de sua indumentária branca.

Os digambaras, com o passar do tempo, também se moldaram aos trajes, empregando túnicas quando surgiam em público, mais jamais deixando de apresentar a diversidade existente com os shvetambaras.

Cada uma delas desenvolveu sua própria literatura, mas sempre explorando as questões do carma, preservando-se dentro dos territórios da Índia e resistindo ao tempo, mantendo seus costumes, crenças e práticas.

Esses ensinos adquiriram tal força entre os povos dessa religião que até mesmo Mahatma Ghandi, também natural de Guzerate, sofreu influencias do jainismo.

Após a morte de Mahavira, essa seita passou a ser liderada por um povo chamado “ganadharas” (líderes da assembléia”, que continuou propagando suas crenças pelos territórios da Índia, entretanto, por dispensar a modernidade dos transportes motorizados, viajando sempre a pé, essa lenta e difícil divulgação impediu uma maior expansão de suas crenças.

Acha-se, ainda, dentro das sagradas escrituras jainistas, como portadoras de seus princípios, as doze angas, que possuem posição suprema, mas é no segundo volume dessa coleção que encontramos as bases para a compreensão da natureza desse grupo religioso.

Ela fala sobre o reconhecimento daquilo que escraviza a alma, para que, uma vez reconhecido, seja removido. Todas as coisas são eternas por sua própria natureza. Esses escritos também ensinam que o ignorante independente de sua opinião, é prisioneiro tal como um pássaro na gaiola. Aponta para três formas de pecado: aquele que se comete pelos atos, aquele que é autorizado e aquele que é aprovado, esclarecendo, em contrapartida, que o sábio se afasta, na mesma intensidade, do amor e do ódio.

Por odiarem a dor, logo, todos os seres vivos devem ser poupados da morte provocada, o que, na literatura jainista, é o princípio de toda a sabedoria, além do abandono do orgulho, da ira, do engano e da cobiça, sabendo que os homens, na verdade, sofrem, cada qual, as conseqüências de suas práticas pecaminosas.

Também deve fazer parte da consciência do sábio a verdade de que todos os seres vivos sofrem, posto que é esse pensamento que impede o homem de mergulhar na presunção, uma espécie de chaga do caráter defeituoso.

As boas ações, segundo rezam os angas, não devem ser utilizadas para autopromoção, mas, sim, para atender às necessidades de todas as coisas vivas, colaborando com tudo aquilo que gostaria de receber ajuda.

A meditação, segundo a norma, é o exercício mais importante. É apresentada ao fiel por meio de uma modalidade filosófica e comparada à embarcação que, estando na água, evita os perigos e se desvia, com sabedoria, dos obstáculos, para então, conseguir chegar à praia.
CRENÇAS


A esperança de salvação dentro do entendimento jainista esta presa a três normas principais: o conhecimento, a fé e uma conduta correta, ou seja, condizente com o que se acha na sagrada escritura da seita, editada no idioma ardhamagadhi, a exemplo do islamismo, que só confere autoridade ao Corão grafado em árabe.

O empenho de cada indivíduo, neste aspecto, acaba determinando um ascetismo intenso, por meio do qual se alcança a plena libertação do espírito humano. O renascimento e o carma são as doutrinas básicas mais importantes do código sacro do jainismo. Esboçando similaridade às profissões de fé que aplicam os ensinos reencarnacionistas, também aqui se reconhece que é na salvação que opera a libertação definitiva dos ciclos de renascimento, cuja situação seus adeptos atribuem o nome de “conhecimento perfeito” e, para os quais, todavia, o conhecimento temporal está associado ao princípio de syadvada. O termo ardhamagadhi se traduz por “talvez”, significando que todo o conhecimento humano se limita à probabilidade e à parcialidade, não podendo exaurir o todo de qualquer disciplina social, científica ou religiosa.

As questões atinentes ao conhecimento ainda são mais abrangentes. E essa parte da liturgia jainista está dividida em classes, que são:
CONHECIMENTO ORDINÁRIO – É identificado por meio da memória, do reconhecimento e da indução.
CONHECIMENTO PELOS SINAIS E SIMBOLOS – Abrange a associação de idéias, a compreensão e algumas questões relacionadas ao verdadeiro sentido das coisas.
CONHECIMENTO A DISTANCIA – Mescla de clarividência e meios psíquicos.
CONHECIMENTO DOS PENSAMENTOS ALHEIOS – Telepatia.
CONHECIMENTO PERFEITO – Só alcança esse nível de conhecimento aquele que possui a salvação. Esse estágio anula o conhecimento temporal, limitado pela parcialidade que proporciona, além do vínculo indissolúvel com o “talvez”.
O CONCEITO DO NÃO-TEÍSMO

O jainismo, como forma filosófica e religiosa, não possui vínculo específico de servidão com qualquer Deus formal, muito embora consideram que aqueles que alcançaram a definitiva libertação espiritual pelo conhecimento perfeito adquiriram status de divindade, mas por uma compreensão distinta daquela observada no cristianismo, por exemplo.

Não podemos omitir, entretanto, que, embora Mahavira tivesse abominado o reconhecimento de deuses por parte de seus seguidores, ele mesmo passou a ser uma divindade após a morte, tornando-se um ídolo de adoração para os jainistas. É nessa oportunidade que recebe o título de vigésimo quarto Tirthankara; o último e maior dos seres salvadores, sendo considerado alguém que tivesse descido do céu sem pecados e portador da plenitude do conhecimento.
FÉ E CRONOLOGIA CÓSMICA


Acreditam na eternidade universal, entendendo que o universo se move por meio de ciclos contínuos de ascensão e queda, movimento do qual acreditam advir o estado ideal. O universo não conta, segundo eles, com qualquer Deus supremo que o tenha criado e promova sua substância, possuindo, porém, divindades secundárias, sendo certo aos seguidores que todas as ocorrências terrenas seguem uma ordem previsível, por serem originárias de meras forças mecânicas do cosmos.
CLASSIFICAÇÃO DAS ESSÊNCIAS


Independente do espaço ou posição que a matéria viva ocupa no globo, é classificada por alma e, cada uma delas, num incondicional estado de transmigração. Essas essências são divididas em cinco classes:
NÍGODAS – São seres que não possuem qualquer percepção que provenha dos sentidos, o que os colocaria nas classes inferiores, até mesmo, na classe dos minerais e das pedras, provavelmente numa alusão aos elementos do átomo, nos quais se observa, efetivamente, qualquer qualidade inerente ao ser.
SERES COM UM ÚNICO SENTIDO – O tato seria o único ponto de contato com o todo, e nessa classe aparece a água, as pedras, o fogo e os demais minerais, além das raízes vegetais consumíveis.
SERES COM DOIS SENTIDOS – Nessa classe estão o tato e o paladar, além da possibilidade de desenvolverem alguma forma de comunicação. São os vermes.


SERES COM TRÊS SENTIDOS – Dotados de tato, olfato e paladar, esses seres abrangem os insetos, os escorpiões e os mosquitos.
SERES COM CINCO SENTIDOS – Não importando o lugar ou “estado” no qual se encontra o indivíduo dessa classe, celestial ou infernal, ela envolve os animais superiores, o homem e os habitantes de outros mundos. A mente seria um sentido adicional que alguns desses seres possuiriam.
O DESTINO DA ALMA


Para o jainismo, a alma, uma vez liberta do ciclo constante de renascimentos, atinge a verdadeira imortalidade, sendo, neste ponto, que o indivíduo adquire atributos e posição de divindade, como o da onisciência, por exemplo. Esse estágio é atingido por poucos indivíduos, segundo essa doutrina. Mas os poucos que alcançam esse estágio passam a receber a veneração dos vivos, têm templos construídos em sua homenagem, tornando-se exemplos para as futuras gerações de jainistas. O jainismo contabiliza, hoje, três milhões e quinhentos mil seguidores, aproximadamente.

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