quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

ISLAMISMO

Trata-se de uma religião monoteísta, a exemplo do judaísmo, e que se baseia nos ensinamentos de Maomé (Muhammad), seu profeta maior. Esses ensinamentos se acham contidos no livro sagrado islâmico, o Corão. A palavra islã significa, originalmente, “submissão”, retratando a aceitação à lei de Alláh (“deus” em árabe) e sua vontade. Seus adeptos são chamados de islâmicos ou muçulmanos, termo que deriva da raiz “muslim”, que em árabe, significa “aquele que se subordina a Deus”. Estabelecido na região da Arábia Saudita, o islamismo possui hoje o segundo maior regimento de seguidores do mundo, sendo superado apenas pelo cristianismo em numero de adeptos. Seus fiéis se concentram, sobretudo, no Norte da África e na Ásia.


O mundo islâmico propriamente dito, isto é, os países em que a maioria – quando não a totalidade – da população professa a religião muçulmana, cobre um território muito amplo; todo o Norte da África, incluindo o Sudão, a Mauritânia, além do Oriente Médio, a Ásia Central, parte da região indiana e, sobretudo, a Indonésia, que, apenas em seus termos, reúne, aproximadamente, cento e sessenta milhões de fiéis muçulmanos, acrescentando-se a esses territórios, atualmente, a América do Norte e a Europa, onde o número de convertidos vem aumentando.

Em qualquer dessas localidades, segue-se o preceito islâmico da veneração a Maomé, aquele que, segundo seus adeptos, recebeu e divulgou a revelação divina definitiva. Meca é para todos a cidade santa, para qual se voltam em cada momento de oração, além da observação da norma que pede, ao menos uma vez na vida, uma peregrinação do muçulmano de qualquer parte do globo à cidade sagrada.


O PROFETA


Seu principal profeta é Muhammad ibn Abdallah (Maomé – tradução não aceita pelos muçulmanos conservadores), cujo prenome significa “digno de louvor”.

Maomé nasceu, aproximadamente, em 572 d.C., em Meca, filho de Abdallah e Amina, numa importante família de mercadores, ficando órfão quando ainda era muito jovem. Seu pai faleceu durante a gravidez de sua mãe, e ela, por sua vez, quando Maomé era apenas um menino de seis anos de idade. A partir daí, o menino passou a estar sob os cuidados de um tio e um avô, que, da mesma forma que os demais familiares, pertenciam à tribo dos Coraixitas, do clã dos Beni Hashemitas.

O nome Maomé é uma corruptela da nomenclatura árabe, de origem hispânica, com o mesmo significado do termo original. Seu tio, Abu Talib, foi pai de Ali ibn Talib, e teria sido um dos primeiros discípulos do “profeta” e, posteriormente, o quarto califa. Maomé se tornou mercador quando atingiu a maioridade e, devido à sua honestidade, acabou granjeando o apelido de al-Amin, “o confiável”.

Seu constante contato com os mercadores fez que se tornasse instruído nas tradições religiosas, oportunidade em que, como comerciante e condutor de caravanas, teve contato com o judaísmo e cristianismo.

Nesse período, as religiões da península arábica eram politeístas e prestavam adoração a um panteão de deuses tribais. Por causa disso, a proposta de Maomé, acerca da adoração de um único “deus”, encontrou forte rejeição entre o povo local, que, embora fosse formado pelos compatriotas de Maomé, manteve seu apego aos antigos deuses, forçando o profeta e seus poços seguidores a migrarem para Yatub, posteriormente rebatizada como Medina, que distava de Meca 400 Km.

Essa migração, chamada Hégira (fuga), ocorreu em 622, data que marca o início do calendário islâmico, cuja contagem do tempo se baseia no período lunar, proporcionando um ano de 354 dias. O califa Omar usou a data precisa de 16 de julho de 622 para marcar o início do calendário mulçumano, necessitando, portanto, de aproximadamente 103 anos lunar para cada 100 anos solares do calendário gregoriano que nós observamos. Assim, o ano do retorno de Maomé a Meca foi grafado como ano 8 d.H. (depois da Hégira).

Em Medinat al Nabi (cidade do profeta) – Medina, Maomé encontra quatro tribos pagãs, três judaicas e duas cristãs, mas consegue dirimir a questão da discórdia entre essas facções urbanas, o que lhe permite a livre pregação.

Nessa oportunidade, ele gera a primeira grande comunidade, podendo, então, reunir para si muitos seguidores, os quais o fizeram se sentir fortalecido o suficiente para retornar a Meca e se impor sobre aqueles que o haviam desterrado.

Em 630, Maomé entra triunfante em sua cidade natal, onde iniciou a anunciação do absoluto monoteísmo, o que para o Islã fora revelado aos judeus e confirmado por Jesus, mas não na qualidade de Cristo. Segundo os muçulmanos, Jesus o fez na qualidade de um dos 124 mil profetas enviados por Allah, mas, segundo Maomé, tal revelação teria sido corrompida pela concepção do cristianismo sobre a trindade divina, doutrina que trazia a mesma conotação de politeísmo de seus antepassados, o que levou o “profeta” a extinguir suas relações com os cristãos.

Casou-se, antes dos 30 anos de idade (entre 25 e 29), com Cadidja, uma viúva rica com aproximadamente 40 anos e para quem Maomé trabalhava como mercador, ofício que deixou, após se casar, para dedicar seu tempo à solidão e à meditação.

Foi numa dessas oportunidades de retiro solitário que Maomé, segundo a tradição islâmica, recebeu a ilustre visita do arcanjo Gabriel, que o abraçou com força constrangendo-o com a ordem: “Recita em nome de Allah, o único deus!”.

Segundo a crença islâmica, Maomé, no início, permaneceu hesitante quanto a tudo que ocorria com ele, mas, com o passar do tempo, e considerando o apoio que sua esposa lhe dava, quando o encorajava a crer que ele realmente era o “mensageiro de Allah”, resolveu dar crédito às revelações, passando a crer, juntamente com Cadidja, que era realmente o escolhido de Allah.

Após ter recebido muitas dessas revelações, Maomé passou a meditá-las, iniciando, a partir daí, uma oposição a todas as religiões já existentes: o judaísmo, o cristianismo e uma forma de politeísmo que imperava também na tribo da qual ele era oriundo, onde se veneravam vários deuses, entre eles “Allah”, o deus da revelação islâmica.

Maomé morreu em Medina (632) pouco tempo depois de seu retorno a Meca, enquanto a comunidade dos fiéis de Allah crescia vertiginosamente em toda Arábia. Nasce, a partir daí, uma nova religião, o Islã.


AS REVELAÇÕES


As mensagens recebidas por Maomé tornar-se-iam, segundo o pensamento islâmico, superiores àquelas recebidas pelos judeus, por Moisés, e pelos cristãos, por Jesus.

Moisés rompeu com os judeus porque não aceitaram o título que ele atribuiu a si mesmo, ou seja, a qualidade de “profeta”, pois cria estar anunciando exatamente o que os israelitas receberam de Moisés.

Em Meca, Maomé purifica a Caaba dos cultos politeístas, permitindo apenas a permanência da pedra negra que ele consagrou ao culto de Allah, a qual, segundo a tradição, foi entregue a Ismael pelo arcanjo Miguel como sinal para selar a eterna aliança de Deus com os homens.


O CORÃO


O nome deriva do árabe qur’am (leitura/recitação), pelo fato de Maomé ter sido constrangido pelo arcanjo Gabriel para que recitasse os textos sagrados que lhe foram revelados. Por esse mesmo motivo, os muçulmanos têm apenas por autêntico o Corão escrito na língua de origem, o árabe.

O Corão é considerado a revelação divina expressa na Bíblia. Segundo os historiadores, os versículos do Corão eram pregados por Maomé, enquanto seus seguidores tomavam nota, o que culminou com algumas variantes, até que o terceiro califa, Otiman ibn Affan, ordenou que fosse considerada como oficial apenas a redação de Zayd – um dos companheiros do profeta, determinando a destruição de todas as demais traduções que trouxeram discrepância ao texto.

O Corão é dividido por capítulos chamados suras ou suratas, num total de 114, os quais somam 6.326 versículos.


OS SEIS PILARES DO ISLAMISMO


Os seis pilares da fé islâmica são instituições básicas da lei. Eles compõem a chamada Shari’a, sendo que, a partir dela, todos os mulçumanos sadios, do sexo masculino, estariam incumbidos, obrigatoriamente, de administrar suas vidas. Esse procedimento se inicia na vida do adepto na época da puberdade, ou por volta dos quinze anos de idade. São elas:

SHAHADA – A profissão de fé islâmica, a qual se pronuncia na forma: “Não há outro Deus além de Allah e Muhammad é o seu profeta”. No entendimento islâmico, basta pronunciar esta fórmula em local público para que o indivíduo consagre sua adesão ao Islã.

A profissão de fé se reflete ainda na chamada para a oração, a qual é pronunciada nas mesquitas pelo muezin, funcionário do templo responsável por esse ato e, neste caso, chamado de Azan, que significa “chamado para a oração”, seguindo a ordem das declarações como seguem abaixo:

Deus é maior (4x)

Testemunho que não há outra divindade além de Allah (2x)

Testemunho que Muhammad é o mensageiro de Allah (2x)

Vinde à oração (2x)

Vinde à salvação (2x)

Deus é maior (2x)

Não há outra divindade além de Allah (1x)


SALAT – Orações praticadas cinco vezes ao dia, as quais formam um elo direito entre o adorador e Allah. Quando realizadas nas mesquitas de predominância sunita, a oração é dirigida pelo imã, ou seja, alguém com cabedal de conhecimento corânico suficiente para proceder à direção.

As orações contêm versículos de Corão e são recitadas sempre em árabe, a língua da revelação. Elas ocorrem ao amanhecer, ao meio-dia, ao meio da tarde, ao anoitecer e à noite, sendo sua realização preferivelmente na mesquita e em grupo.


ZAKAT – Significa tanto “purificação” como “crescimento”. Um significado paralelo citado na doutrina islâmica é “poda das árvores”, ou seja, o zakat proporciona equilíbrio e oportunidade para novos crescimentos. A responsabilidade do cumprimento dessa determinação básica cabe apenas ao fiel, que faz o cálculo do rendimento de seu capital anual e daí extrai 2,5%, que serão empregados no patrocínio de obras sociais e auxílio aos mulçumanos menos favorecidos.

Existe, ainda, o sadaca, outra contribuição voluntária que o fiel deve fazer em segredo, também com o significado de caridade voluntária.


SAWN – Todos os anos, no mês do Ramadan (o nono mês do ano mulçumano, considerado sagrado), os mulçumanos jejuam por 30 dias desde o amanhecer até o pôr-do-sol, período em que se abstêm de comida, bebida e relações sexuais.

Para enfermos, idosos e gestantes, existe a permissão de jejuar em outra época do ano, observando, contudo, um período de 30 dias ininterruptos. Os que não puderem jejuar deverão alimentar um necessitado por dia não jejuado. As crianças começam a jejuar na puberdade, mas algumas iniciam essa prática ainda cedo.


HAJJ – Trata-se da peregrinação à cidade sagrada de Makka (Meca), que deve ser feita pelo menos uma vez na vida e deve ser empreendida por todos os fiéis que possuem condições físicas e financeiras para fazê-lo.

Esse ritual leva cerca de 200 milhões de mulçumanos a Meca todos os anos. Nessa oportunidade, todos trajam túnicas brancas, leves e simples, com o sentido de que todos pareçam também iguais diante de Allah, sem distinção de poder econômico ou etnia.

A tradição islâmica afirma que os ritos do Hajj foram instituídos por Hibrahin (Abraão), incluindo, ainda, circungiro da Caaba por sete vezes, além de percorrer pelo mesmo número de vezes à distância entre os montes de al-Saffa e al-Marwa, que, segundo ensina o Islã, fora o caminho percorrido por Hagar quando procurava água para si e para Ismail (Ismael). Também por ocasião do Hajj, durante esse percurso entre os montes, os peregrinos se colocam de pé no vale de Arafat e levantam um clamor a Allah, pedindo perdão.

O encerramento dessa peregrinação acontece com um festival chamado Eid al-Adha, celebrado com orações e troca de presentes entre as comunidades islâmicas. Outro ritual de encerramento é o Eid el-Fitr, festa em que se comemora o final do Ramadan. Essas são as principais festas do islamismo.


JIHAD – Literalmente, o termo não significa “guerra santa”, como muitos entendem, antes, é traduzido por “esforço”, esforço que está relacionado à defesa própria e da religião, ou daqueles que foram expulsos de seus lares. A tradição ensina, contudo, que civis inocentes, árvores e gados devem ser poupados. A cultura mulçumana explica que se pessoas de bem não se preocuparem em estar preparadas para arriscarem suas próprias vidas em defesa da causa do Islã, logo, a injustiça triunfará no mundo, iniciativa denominada Jihad al-Asghar.

Outro significado para a expressão Jihad é a luta interior de cada um para se desvencilhar de seus desejos egoístas, o que proporciona paz interior, denominada Jihad al-Akbar.

Muitas obras que versam sobre o Islã não fazem menção da Jihad como sendo um dos pilares doutrinários, todavia, essa rejeição deriva do desconhecimento de muitos sobre o posicionamento do califa Otman ibn Affan (644-656), o terceiro após a morte de Maomé, que reconheceu na Jihad uma forte expressão de devoção e fé que deveria fazer parte da vida muçulmana.


DIVISÕES DO ISLAMISMO


Logo após a morte de Maomé, houve um cisma no cerne do islamismo. Vejamos os grupos que resultaram dessa “separação”:



XIITAS – O quarto califa depois de Maomé foi um membro há muito convertido e que também possuía íntimo grau de parentesco com o profeta, sendo marido de Fátima, filha do profeta co Cadidja. A história parece revelar um fim violento para esse califa, vitimado pela cobiça de um certo Muawiya, que reivindicava para si o califado.

A tragédia que sobreveio à casa do quarto califa, com seu assassinato, e que registrou ainda a morte de seus dois filhos, netos de Maomé, começou a trazer problemas para o partido Shi’a Ali, expressão da qual derivou o termo que designa essa facção muçulmana.

Os partidários de Ali apresentavam suas pretensões de forma gradual, tal qual eram reivindicadas por outras ramificações xiitas já em exercício à época. Essas primeiras apresentações iam ganhando cada vez mais opositores. A principal delas determinava que somente os descendentes diretos do profeta poderiam almejar o califado, excluindo toda a possibilidade de uma liderança que não fosse representada por essa estirpe.

Essa reivindicação parecia ser a única coisa que realmente interessava aos seus proclamadores, mas não para os que se achavam em terras iraquianas, os quais, além das reivindicações do califado excluído, alegavam que um legítimo partidário de Ali, começando pelo próprio Ali, era um guia espiritualmente nomeado, agraciado por Allah com conhecimentos especiais, o que é considerado pelos maiorais das sociedades islâmicas como exagero, mas não uma heresia.

Essa facção do Islã representa não mais de 10% ou 15% de toda a comunidade islâmica no mundo, estando presente, sobretudo, no Irã, cujo líder mais expressivo, até a década passada, foi o aiatolá Khomeini.


SUNITAS – O crescimento acelerado da fé islâmica confrontou seus adeptos com outras questões cruciais e mais complexas que aquelas que já eram aplicadas e praticadas entre os fiéis. Essa dificuldade proporcionou o levantamento de questões acerca da conduta em áreas que iam além dos limites da Arábia, nas quais as imposições corânicas se mostram insuficientes ou inaplicáveis.

Quando da manifestação desses problemas, os líderes espirituais apelavam para a sunna (conduta ou prática) de Maomé em Medina, empregada para o exercício do Hadith (tradições), em que se achavam suas decisões e julgamentos de caráter social. os mulçumanos que passaram a adotar esse método para dirimir problemas dentro da comunidade islâmica foram chamados sunitas. E constituem 90% da população islâmica no mundo.


SUFITAS – Criada no século 9° é uma das correntes mais antigas e místicas do islamismo. Os sufistas enfatizam a relação pessoal com Deus e praticam rituais que incluem danças e exercícios de respiração para que possam atingir um estado místico. São membros praticantes do sufismo os faquires, da Índia e de outras regiões da Ásia, e os dervixes, da Turquia. Historicamente, o islamismo tem sido marcado pelo surgimento de movimentos, grupos e correntes de maior ou menor envolvimento político, de linhas fundamentalistas (conservadoras) ou modernas.

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