quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

JUDAÍSMO

O termo “judaísmo”, assim como o termo “judeu”, provém da raiz “Judá”. A história dessa profissão de fé remonta a 722 a.C., quando o cativeiro assírio marcou o fim do reino do Norte, Israel, proporcionando a ascensão do reino do Sul (Judá), que se preservou dos efeitos das invasões por mais de cento e cinqüenta anos. Em 586 a.C., entretanto, tem início o cativeiro babilônico, que pôs fim à resistência do reino do sul por determinado período.


Um grupo de remanescentes, formado apenas por poucos membros da tribo de Judá, retorna à sua terra após setenta anos, com o propósito de realizar seus objetivos primordiais, empenho que culminou com o restabelecimento da nação de Israel. “Judá” e “judeu” tornaram-se, então, expressões que sempre estariam relacionadas, promovendo uma ligação intrínseca à nomenclatura religiosa e do nome da descendência da qual são oriundos. Dessa forma, a história, a sociedade, a religião e o governo (teocrático) predominantes em Israel são partes de um todo chamado judaísmo.

No que concerne à fé, o judaísmo se tornou o berço do cristianismo e também a base da qual os muçulmanos extraíram inúmeros elementos para preencher o islamismo, não sendo alheio ao nosso conhecimento que no seio do próprio judaísmo se formaram várias correntes filosóficas, como os ultra-ortodoxos, os ortodoxos, os liberais e os ultraliberais, muito embora o âmago do judaísmo não acomode filosofias.


TRADIÇÃO JUDAICA


Segundo a tradição histórica, as origens do judaísmo têm seu alicerce firmado no pacto de Abraão. Na religião judaica sempre se observou um código de normas baseado exclusivamente na revelação, não demonstrando princípios que pudessem ser identificados como filosofias. Essa mesma revelação possui uma estrutura que se firma no misticismo, isto é, em práticas que, aos olhos humanos, são envoltas de muito mistério, tal como ocorre no cristianismo. Foi com base nesses mistérios que se documentaram as batalhas nas quais teve parte o povo israelita, posto que o êxito ou o fracasso de seus guerreiros estava sempre relacionado à sua espiritualidade e a lealdade ao Deus que admitiram para si, cujo nome deriva de um grupo de quatro letras hebraicas, identificadas no alfabeto por “YHWH”, com tradução para algumas variantes, uma delas, Yahweh.

Tudo o que se relaciona com Israel durante a história se mede pelo exercício da fé e pela obediência às normas constantes de seus escritos sagrados. Também seus monarcas foram homens de grande expressão, mas não expressão ligada à temporalidade, ou à força militar, mas, sim, à conduta que tiveram diante de seu Deus, pela anuência ou renitência aos seus desígnios.

Essa postura milenar que tem lugar até hoje entre o povo lhes granjeou o título de povo do livro (Bíblia), uma vez que a Bíblia é o padrão de leis e de conduta social, embora não seja exclusiva. Com base nessa estrutura, é possível enumerar vários conceitos que foram se desenvolvendo com o passar do tempo.


MONOTEÍSMO


A história parece revelar que esse povo progrediu de certa forma, de um primeiro politeísmo para um henoteísmo (crença num só “Deus” sem descartar a existência de outros), até chegarem a um definitivo monoteísmo exclusivista, tornando-se um conceito central desse grupo.

Segundo essa crença, não há Deus fora de Yahweh; um Deus que se revela a si mesmo, sendo também Ele que forma o conhecimento espiritual e as normas éticas, traçando aos seus seguidores uma possibilidade de salvação que se acha intimamente ligada à justiça pessoal. O crescimento virtuoso das questões espirituais, como o pós-morte e a imortalidade da alma, não achou espaço no modelo original, sendo posteriormente alcançado de forma progressiva.

Paralelamente às religiões orientais e às filosofias ocidentais, o judaísmo pareceu se manter estagnado em fases, uma vez que a revelação era dada a seus profetas apenas de tempos em tempos, pra, posteriormente, serem escritas no livro sagrado dos judeus.


OS ESCRITOS SAGRADOS


O cânon judaico se constitui numa relação de normas que regem tanto a vida espiritual como a social, proporcionando aos seguidores um sólido padrão de conduta, mesmo nos casos em que a fé judaica passou a enumerar paralelos filosóficos. Com o passar do tempo, outras obras foram produzidas com o intuito de cooperar coma interpretação das escrituras Sagradas.

Com o surgimento do cristianismo, o judaísmo sentiu a necessidade de fixar, em definitivo, a relação de livros que identificariam seu código de fé, mas isso não ocorreu com a esperada praticidade, uma vez que grupos diversos, dentro do judaísmo, apontavam padrões diversos de literatura. Entre os saduceus e os samaritanos, porém, estabeleceu-se como definitivo o Pentateuco: relação dos cinco primeiros livros da Bíblia, escritos por Moisés. Já entre os fariseus palestinos, e os adeptos do judaísmo, prevaleceu o cânon que hoje se observa também entre os protestantes, ou seja, o que contém trinta e nove livros, indo de Gênesis (princípio d todas as coisas) a Malaquias, o último dos profetas menores. Há, ainda, o cânon chamado “alexandrino”, que aderiu a versão da LXX (septuaginta), que incorpora os livros tidos apócrifos e que se acham na Bíblia empregada pela igreja romana, versão que, a princípio, foi utilizada pelos judeus da diáspora.

Mesmo considerando todos esses casos, sempre se atribuiu autoridade indiscutível, por todas as ramificações judaicas, a Tannach, o Antigo Testamento para os protestantes, dividido pelos escribas em três partes, que são:


PENTATEUCO (TORAH) – Cinco livros que levam a Lei (guia ou ensinamento).


PROFETAS (NEBIIN) – Subdivididos em profetas anteriores (Josué, Juízes, Samuel e Reis) e profetas posteriores (Isaías, Jeremias e Ezequiel), chamados também pela teologia cristã de profetas maiores, e os livros dos doze profetas, chamados “menores”.


ESCRITOS (KETUBIM) – Compostos pelos livros de Salmos, Jó, Provérbios, Daniel, Esdras, Crônicas e, ainda, pelos “cinco volumes festivos”, lidos em diferentes oportunidades, os quais são: Cantares, Rute, Lamentações, Eclesiastes e Ester.


A Torah é o livro sagrado; é a Palavra de Deus. Ela compreende a história da criação do mundo e do nascimento do povo judeu, mas, sobretudo, fala das leis, práticas ou morais, que todo povo deve seguir, para ser digno da missão de difusão dessas palavras a toda a humanidade.


O TALMUDE


O texto da Lei requeria uma norma de interpretação e essa realidade trouxe à tona publicações paralelas aos escritos: o Talmude e a Midrash.

O Talmude inclui as determinações civis e religiosas que não estão arroladas na Torah, além de apresentar explicações que esclarecem questões da Torah e do próprio Talmude. Há uma escritura incluída no Talmude, a Mishnah, uma espécie de sumário da lei oral que havia entre os séculos 5° a.C. e 2° d.C. A própria Mishnah se acha ligada à Gemara, uma espécie de literatura de apoio que explica a amplia a Mishnah. O Talmude pode ser subdividido em duas partes; o Talmude palestino, concluído no século 5° d.C. e o babilônico terminado dois séculos mais tarde.

A Midrash, literatura cujo conteúdo se destina à exegese da doutrina judaica, foi desenvolvida entre os séculos 4° e 12 d.C., e também possui duas subdivisões: o Halakha e o Haggadah. O primeiro traz as leis judaicas tradicionais, acompanhadas de preceitos mais detalhados sobre a lei e que aparecem no texto original escrito. O segundo é composto pelas interpretações livres e inclusão de determinado número de parábolas ilustrativas, totalmente baseado nos ensinamentos das Escrituras.


AS FESTAS SOLENES


ROSH HÁ-SHANAH – É a primeira festa do ano celebrada pelos judeus e acontece no outono. Foi instituída com a finalidade de lembrar o momento em que teve início a criação do mundo. Nessa data, os judeus participantes são convidados a rememorar o ano que se passou, a corrigir faltas e a voltar-se para Deus, que também é Criador e Juiz, mas, sobretudo, Pai. É Ele quem acolhe os que fazem o teshuvah, isto é, os que retornam a Ele. No culto da sinagoga, os fiéis trajam branco, como símbolo da penitência e da pureza. Um instrumento musical, feito com chifre de carneiro, o shofar, é tocado repetidas vezes para estimular o arrependimento. Nessa festividade, crêem, Deus julga todos os atos cometidos pelas pessoas no ano que passou e decide, por conseqüência, qual será o destino de cada indivíduo para o ano que se inicia. Todavia, manda a norma que, nos dez dias de penitência, que vão do ano novo ao Kippur, o arrependimento de cada homem pode modificar a sentença do soberano magistrado.


KIPPUR – É conhecida também como a festa da expiação e ocorre dez dias após a festa do ano novo. O seu dia de realização é chamado Dia do Kippur. Na sinagoga, adota-se uma liturgia que dura o dia todo, na qual se entoam, repetidas vezes, a confissão dos pecados e as conseqüentes súplicas para a obtenção da misericórdia divina. Também acontece uma narrativa em estilo poético que rememora os ritos que o sumo sacerdote celebrava no templo durante esse dia.

Observa-se, durante 25 horas, um rigoroso jejum. Durante o ritual das confissões, todos os erros que podem ser cometidos pelos homens são confessados.


AS FESTAS MENORES


HANUKKAH – Festa das luzes ou da dedicação. Celebra-se esse evento em dezembro, para relembrar a purificação do templo de Jerusalém, ocorrida após a vitória dos Macabeus sobre os Assírios no século 2° a.C.


PURIN – A festa das sortes. É celebrada entre fevereiro e março, para relembrar a salvação do povo judeu que, uma vez morando quase que em sua totalidade no império persa, foi surpreendido por um edito de morte prolatado pelo rei. Nessa festa, prestam-se homenagens a Ester e a Mardoqueu, os grandes articuladores que, com a ajuda de Deus, desbancaram o plano do malvado Hamã.


AS FESTAS DE PEREGRINAÇÃO


Estão relacionadas ao cativeiro egípcio pelo qual passou o povo de Israel. Em Abraão, os judeus encontram a origem dessa estirpe, mas é José (bisneto de Abraão) quem conclama seus familiares para irem ao Egito, ao seu encontro, num tempo de seca e conseqüente carestia. A partir dessa família, forma-se o povo judeu no Egito, na escravidão, unidos apenas pela fé num Deus único e pela esperança de um retorno à sua terra, Canaã. Vejamos quais são as festas chamadas de “peregrinação”:


PESACH (PÁSCOA) – A história dessa festividade tem início quando Deus, com milagres e prodígios, tirou os judeus da terra onde se achavam escravizados. Igualmente conhecida como Páscoa, é um período de comemoração, quando o povo, finalmente livre, não tinha um local estabelecido para viver nem normas para dirigir sua vida.


SHAVUOTH (PENTECOSTES) – Essa comemoração relembra a entrega da Lei a Moisés – os Dez Mandamentos e a Torah – durante o tempo em que peregrinaram no deserto. Outro nome que se atribui a esse evento é Festa das Semanas, por ser celebrada sete semanas após o Pesach. Foi muito significativo para o povo judeu que a conquista da liberdade tivesse ocorrido quando da entrega da Lei a Moisés, já que, dentro do próprio conceito judeu, não poderia haver liberdade sem uma lei que impedisse essa mesma liberdade.


SUKKOTH (TABERNÁCULO) – Os judeus que deixaram o Egito deveriam peregrinar por quarenta anos no deserto e, durante todo esse período, habitar em tendas, até que tivessem chegado à terra que Deus lhes havia prometido. A peregrinação foi uma forma de preparar e ensinar o povo, para que, uma vez na terra, pudessem aplicar as leis que haviam recebido para cumpri-las. Também é conhecida como Festa das tendas.

Por causa dessa comemoração, o povo, hoje, constrói tendas com teto coberto com grandes folhas, sobrepostas, para permitir a visão do céu, cujo objetivo é trazer sempre à memória judaica a presença de Deus.

A liturgia da sinagoga compreende a leitura do Hallel, um grupo de salmos de louvor e agradecimentos. Nessa ocasião, as pessoas agitam um ramalhete de ramos de palmeira, chorão (salgueiro) e mirto, conhecido na liturgia com lulav. Trazem, ainda, um fruto do cedro.


A CABALA


Tradição judaico-mística que surgiu no século 12 da nossa era, a qual tentou interpretar a Torah de acordo com um conhecimento secreto e oculto. As raízes mais antigas da tradição cabalística datam do século 1° na Palestina, onde judeus místicos contemplavam o trono divino ou a “carruagem”, mencionada no primeiro capítulo de Ezequiel.

A raiz hebraica QBL (que dá origem à palavra Cabala), originalmente, significava tradição oral. Os segredos não escritos da Torah eram interpretados e transmitidos dos mestres para os alunos.

O maior texto da Cabala, que contém a maior parte da tradição, é o Sefer HaZohar (“O livro do esplendor”). O fato de ter sido escrito por volta de 1280 d.C. é significativo e demonstra a longevidade da tradição oral.

O cerne da Cabala está em desvendar os segredos da maravilha e majestade de Deus e de sua criação divina. A tradição também considera as reflexões sobre o mal, a alma, a salvação e o futuro. Aspectos da natureza divina são revelados em uma série de dez emanações. São elas: (1) Coroa, (2) Sabedoria, (3) Entendimento, (4) Misericórdia, (5) Poder, (6) Beleza, (7) Vitória, (8) Esplendor, (9) Fundamento e (10) Reino. A Cabala floresceu entre os séculos 16 e 18 e teve um grande impacto sobre o ocultismo. Cabalistas dignos de nota incluem Moses de Leon, Isaac Bem Solomon, Ashkenazi Luria e H. Vital.


O LEGADO DO JUDAÍSMO E DO CRISTIANISMO


O judaísmo e o cristianismo são religiões marcadas por traços distintivos salientes, todavia, ambas compartilham de uma herança intelectual e espiritual bastante próximas em muitos aspectos. É isso o que alista o judeu Lapide, em sua obra Israelis, Jews and Jesus. Vejamos:

- A fé em um Deus, nosso Pai;

- A esperança de sua salvação;

- A ignorância sobre os seus caminhos;

- A humildade diante de sua onipotência;

- O amor e a reverência;

- A dúvida quanto à nossa hesitante infidelidade;

- A convicção de que o amor de Deus é prejudicado pela falta de amor ao próximo;

- O conhecimento de que toda a fala acerca de Deus deve gaguejante, quando nos aproximamos dele;

-Entre outros.

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