quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O ANIMISMO

Podemos entender por animismo a modalidade religiosa que implanta espíritos em toda a natureza, sendo esses espíritos semelhantes ao espírito do homem.


Essa profissão religiosa também já foi conhecida pelo nome de fetichismo, palavra inserida na história religiosa no século 18 pelo grande líder republicano De Brosses (1709-1777), também autor da obra Du Culte dês Diêx Fetiches, editado em 1760.

“Fetiche” é, curiosamente, um termo que procede do português “feitiço”, e que, por sua vez, deriva do latim factícius, tudo significando “coisa feiticeira” ou “coisa encantada”, dando a idéia de algo que seja dotado de força mágica. Esta expressão foi popularizada pelos navegadores portugueses, que a empregava para designar objetos que estivessem relacionados a cultos e a instrumentos de magia utilizados pelos negros.

Para De Brosses, o ritual dos fetiches estaria necessariamente ligado à origem de todas as religiões. Foi também com base nesse conceito e palavra que o filósofo Augusto Comte (11798-1857) formulou, em seu primeiro ensaio do curso de Philosophie Positive, a conceituada Lei dos três estados.

Segundo essa tese, a inteligência humana teria passado por três estados básicos sucessivos:

a) O primeiro seria o estado teológico, no qual o homem explica os fenômenos por desejos equivalentes aos seus, todavia, mais potentes;

b) O segundo, o metafísico, quando os mesmos fenômenos são elucidados a partir de abstrações, com a força da natureza;

c) E, finalmente, o terceiro seria o estado positivo, no qual fenômenos explicam fenômenos.

Registrou-se evolução no estado teológico quando o homem, ingressando posteriormente no politeísmo, promoveu a intervenção de deuses, espíritos em número menor, mas detentores de maior poder, condensando, numa próxima etapa, esses deuses, como se fossem apenas um, aderindo à prática monoteísta.

Considerando a etnia, depreendeu-se, de forma cada vez mais clara, que os negros, mais do que os objetos materiais cultuavam forças espirituais comparadas a entidades e, assim, ao invés do termo “fetichismo”, adotou-se imediatamente o termo julgado mais apropriado à questão, o “animismo”.

A etnologia de Taylor, exposta na segunda metade do século 19, teorizou o animismo, alcançando o acatamento de boa parte de seus conceitos pelo evolucionista Herbert Spencer (1820-1903), numa mostra de que a matéria e a prática eram de tal forma expressivas que despertavam o interesse da ciência e da antropologia.
PECULIARIDADES
O aprofundamento na teoria animista exige que se reconheça a impossibilidade de se distinguir nitidamente o animismo das concepções religiosas que dele se aproximam, posto que nele podemos encontrar elementos oriundos do totemismo (o conjunto de práticas sociais, crenças religiosas e ritos relacionados aos totens).

Esses elementos relacionados aos totens incluem a crença em forças sobrenaturais provenientes dos espíritos que operam num objeto ou numa pessoa; idéias de tabus; idéias de ancestrais míticos, semi-animais e semi-humanos. Todos os aspectos citados acabam encontrando indícios práticos em todas as religiões de todos os meios.

É possível, entretanto, definir o animismo como religião de numerosas sociedades, obviamente mais evoluídas que a sociedade de praticantes australianos, mas de ritualística rudimentar, quando comparada com as demais civilizações antigas, como, por exemplo, as sociedades negras da África não-mulçumana, as sociedades animistas da Polinésia, os Índios encontrados nas duas Américas, os esquimós, etc.

Isso provoca a necessidade do conhecimento das crenças desses povos primitivos, no que concerne à alma, à natureza, às práticas mágicas e a toda a sua liturgia cerimonial.
CRENÇAS
Para os primitivos, a alma está ligada estreitamente ao corpo ou a alguma parte dele enquanto que os australianos já associam à gordura e aos rins.

Ainda segundo essa crença, a alma pode deixar o corpo momentaneamente sem que haja falecimento, inferindo-se daí que a alma guarde certa distância do corpo, ocorrendo, então, quando unidos, uma ação de presença. Alguns estudiosos, como Frazer, autor da obra Rameal d’Or, estudaram particularmente este conceito de alma exterior.

Mostrou-se, a partir daí, alguns raros conceitos que derivaram da crença animista, como os que consideram a possibilidade de a alma ser comida, roubada, transportada e, em determinados casos, substituída, concertada ou até reformada.

A crença primitiva do animismo ensina que a individualidade não se detém na periferia da pessoa, devido ao entendimento de que a mentalidade se funde ao próprio corpo, com o que cresce sobre ele e, ainda, com aquilo que sai dele, notadamente unhas, cabelos, secreções, urina, excrementos, lágrimas, esperma, etc.

Semelhantemente a outras práticas de feitiço africanas, também aqui se aceita a realidade do dano que pode ser causado a uma pessoa, bastando, para tanto, que um desses elementos integrantes seja empregado em ritual de magia.

Dessa crença nasce uma escravidão supersticiosa, na qual todos os indivíduos da sociedade se aprisionam no excessivo cuidado com seus particulares fragmentos humanos, para que os mesmos não caiam em mãos de terceiros que possam efetivamente empregá-los para fins ritualísticos maléficos.

Numa concepção cultural mais abrangente, para eles, dispor desses elementos de forma irresponsável é dispor da própria vida, já que compreendem ser esses resíduos a própria pessoa ou partes dela, como pés, mãos, cabeça ou qualquer outro órgão interno, como pertences estritamente íntimos.

Não sendo suficiente este cuidado, resta ainda cuidar das marcas deixadas no chão, em assentos e, em especial, as pegadas. Nesta noção, repousa a certeza de que, caso uma criança seja colocada sobre as marcas deixadas por um grande feiticeiro, também o pequeno poderá ter impregnado em si os poderes do mago.

Avançam mais em suas crendices quando cuidam para não se exporem de forma a projetar sombras ou reflexos na água, dos quais o feiticeiro inimigo pode suscitar um desenho, pintura ou outra espécie de retratação, outro artifício de tradicional emprego mágico. Para estes elementos extremamente pessoais, dá-se o nome de pertenças.

Em contraposição à crença teológica cristã, explica Rasmussen (estudioso da cultura esquimó animista) que, para os esquimós animistas, um homem é composto de corpo, alma e nome, e não de corpo, alma e espírito.

Há testemunhos de pessoas que contemplaram noutra etnia animista, os Fidjianos, moribundos que gritavam desesperadamente seus próprios nomes, na esperança de que, por esta prática, não sucumbisse à morte. Ainda segundo a crença desta etnia, a roupa de um homem, achando-se impregnada de sua transpiração, caso posta sobre uma mulher, pode lhe causar gravidez. A vestimenta se torna, portanto, outra forma de pertença. A morte do indivíduo, dado este conglomerado de possibilidades, impele seus familiares à queima de todos os utensílios que lhes pertenciam.

Com relação à constituição humana, diferente dos esquimós, entre os Fidjianos prevalece a crença numa tricotomia (corpo, alma e espírito), esclarecendo-se que, no ato da morte, a alma se desprende do corpo, mas o espírito não. Ele permanece no cadáver e, por isso, propaga-se que é necessário ter cuidado, pois o falecido, tomado de um surto de ciúme dos vivos, pode se vingar deles.

Os mortos animistas são apegados à comida, bebida e homenagens. A mentalidade primitiva, embora não excludente de contradição, é convicta de que os mortos podem estar presentes ou ausentes, considerando ainda a possibilidade de que eles possam estar em vários lugares ao mesmo tempo. A poli presença dos mortos, como definido, admite que por vezes, possam, aparecer aos vivos, muito embora habitem outros mundos. Sobre a pós-morte, ainda se define, paradoxalmente, que os mortos vivem.

Essa sociedade de extintos está dividida em clãs, num contexto semelhante ao dos vivos. Da mesma forma que é possível uma reencarnação, também é aceita a tese de que alguns deles desapareceram definitivamente. Compreende-se que, caso tratasse de almas puramente espirituais, estas seriam imortais, mas esse conceito não é aceito nas sociedades animistas primitivas, posto que em nenhuma delas se vislumbre consenso quanto à imortalidade. O que existia em algumas sociedades religiosas era a crença na sobrevida, mas nunca numa vida pós-morte sem-fim.
RIUALÍSTICA
Como é aceito por todos que forças místicas podem ser comparadas a espíritos, animando a natureza, logo, o homem poderá exercer ação sobre essa mesma natureza tal como age sobre os seres espirituais, por meio de palavras e gestos apropriados ao ritual. A consideração séria dessa influência é essencial para que se produzam os efeitos esperados da denominada magia.

Salomon Reinach (1858-1932), estudioso da matéria em questão, propôs uma fórmula espantosa, na qual a “magia é a técnica e a matéria do animismo”, basta-nos pronunciar as palavras apropriadas em voz alta ou cantadas, para que se produzam efeitos como curas, por exemplo: “o papagaio voou; o cuco voou; a codorna voou e, enfim, a doença voou...”

Imita-se um acontecimento, para que possa depois ser produzido.

Desse modo, antes que se lance uma expedição, planejam-na em suas minúcias, ensaiando inclusive as danças guerreiras, o que garantiria aos adeptos dessa fé vitoriosa segura. O derramamento de água que acompanha a observância de várias normas e rituais é elemento correto para a produção de chuvas. Essa modalidade de feitiço é chamada apropriadamente de magia imitativa.

A cultura determina aos praticantes que produzam ou adquiram imagens que lhes sejam como suas próprias almas. Esses fetiches propiciam outras formas de magia dessa sociedade, a magia simpática.

Nesse modelo de ritual, presume-se uma participação do homem e da matéria na formação de um só elemento. Então, a quebra ou a completa destruição dessa imagem prejudica severamente o indivíduo a ela associado. Esse princípio é evidenciado em muitas outras sociedades dedicadas à prática de bruxaria. Essa imensa variedade de possibilidades de acesso à pessoa que se deseja lesar admite ainda outra nomenclatura bastante sugestiva, ou seja, a de magia contagiosa.

Os animistas são avivados estimuladores do uso de talismãs, amuletos e objetos de feitiço, todos com inquestionável poder mágico. Os adornos, tanto masculinos como femininos, só podem ser empregados como artefatos exclusivamente de enfeite se antes já tiverem produzido seus efeitos como agentes de rituais de magia.

Quanto à variedade mágica, esta pode ser definida em mais de uma forma. Existe a boa magia, praticada pelos chefes e pelos sacerdotes ou mesmo pelos feiticeiros, enquanto a magia má é praticada pelos nigromantes (necromantes). Por seus encantamentos, podem provocar enfermidade e até a morte, além do que, dão-se ao exercício do canibalismo, que é executado após a magia, quando a vítima sequer se apercebe do que lhe ocorre, entretanto, não servem de alimento depois de morta, antes, morrem por causa do consumo que os nigromantes lhes impingem à carne viva.

O meio de anular este ato é o contra feitiço, como bem observou a pesquisadora dos negros congueses, Mary Kingsley, que esclarece: “invoca-se o espírito do remédio para que anule o espírito da doença, agindo sobre ele”.

O animismo forneceu aos homens uma primeira hipótese que permite estudar o mundo encorajando os primitivos de outrora e os primitivos de hoje, numa contínua tentativa de agir sobre os fenômenos naturais, os quais habitam numa natureza carregada de espíritos semelhantes ao espírito que possuem.

Augusto Comte afirmou que o animista primitivo conseguiu tirar o espírito humano de sua inércia imoral, característica comum na criação irracional.

Conclui-se, assim, a verificação de que a magia animista pode estar embutida na própria origem do desenho, da pintura, da escultura, da dança ou, ainda, da música. Logo, direta ou indiretamente, o animismo se compõe dos mais variados elementos das artes.

Se refletirmos sobre os benefícios promovidos pela arte em todos os segmentos da sociedade, depreenderemos que tudo o que o animismo pode proporcionar à humanidade são benfeitorias.

Um comentário:

  1. Sou um filósofo animista, apenas que nos vãos dos pensamentos em ação, somente a verdade permito que à vida ouse me alegrar, pois meus amigos espirituais, são sagrados e apaixonados, assim como eu, em uma incessante procura, pela verdade e pela honra ao amor, dando no toque da mão, a cura que por conhecimentos à paz e a felicidade ouso a nós, eu e nós, como saberei quantos, apenas sei que pertencendo a uma verdade realidade de amor... todo o conhecimento hei e haverei de conhecer, pois uma verdade é como a luz, conheça-te e a ti pertencerás.
    Nelson Teixeira

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