quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O HINDUÍSMO

Na história da cultura indiana, encontra-se a inigualável força da religiosidade de seu povo, que vai desde a definição de uma casta, até os hábitos milenares adotados e que fazem parte do cotidiano social, numa mescla de religião e cultura.


Como uma adesão de mais de um bilhão de adeptos pelo mundo, e cuja esmagadora maioria se encontra no continente asiático, o hinduísmo se constitui num conjunto de princípios, doutrinas e práticas religiosas dominante na Índia, conhecido pelos seus seguidores pelo nome sânscrito Sanatana Dharma, traduzido por “ordem permanente”. Está fundamentado nos Vedas, entre 1200 e 900 a.C., e que, entre os séculos 10° a.C. e 6° d.C., tornou-se a língua da literatura e da ciência hindu.

É mantida, ainda hoje, por razões culturais, como língua constitucional da Índia e conjunto de textos sagrados compostos de música e descrições de rituais. Atrelado a um politeísmo que acomoda um panteão de mais de trinta mil divindades e à crença na reencarnação, o hinduísmo é a terceira religião do mundo em número de praticantes, e seus preceitos influenciam fortemente a organização desta classe social.
HISTÓRIA E DOUTRINA
A tradição dos Vedas nasceu com os arianos, grupo étnico das estepes da Ásia central, que a levaram para a região da Índia em 1500 a.C., quando da invasão e conquista dos vales dos rios Indo e Ganges. Está estribada na lembrança da comunidade hindu sobre deuses tribais e cósmicos, sendo repassada oralmente e, posteriormente, grafada em seus livros sagrados, os Vedas. Essa obra de quatro tomos foi juntada durante o século 10° a.C. e contêm, na crença hindu, as verdades eternas reveladas pelos deuses: a ordem do dharma universal que rege todas as coisas e os seres, classificando-os em categorias, por eles denominadas castas ou varnas.

Segundo os Vedas, o homem está preso à realidade cíclica e eterna que se resume em morte e renascimento, condição irrevogável chamada sâmsara, e segundo a qual o homem está fadado a reencarnar e a sofrer em infinitas vidas. As reencarnações alcançam tanto o ser humano como o animal e são regidas pelo carma, que é o preceito segundo o qual é traçada a forma como renascemos em nossa vida atual, todavia sendo definida na vida anterior, colocando tudo na dependência do estágio espiritual que alcançamos e os atos que praticamos numa vida póstuma. O hindu busca fundir-se a Brahman, a chamada verdade suprema; um espírito que rege o universo. Esta condição só pode ser conquistada libertando-se do sânsara pela purificação de seus infinitos carmas, atingindo o estágio conhecido como nirvana, a sabedoria resultante do conhecimento de si mesmo e do universo. A busca e o alcance do nirvana estão intrinsecamente ligada as práticas religiosas, as orações e a ioga, mas muitos hindus adotam também dietas vegetarianas e a renúncia aos bens e prazeres materiais, prática conhecida como ascetismo, e que muitos consideram imprescindível para que se possa alcançar o nirvana.

Do século 9° ao 14° tem início o tantrismo, linha de filosofia hindu que prega o aperfeiçoamento espiritual pelo domínio da mente e do corpo, excluindo, porém, o ascetismo, uma vez que se adota a prática sexual e hábitos atinentes a ela. Em reação à expansão do islamismo na Índia, a partir do século 7°, e ao domínio britânico, iniciado no século 13, surgem várias correntes no hinduísmo.
REVELAÇÃO E TRADIÇÃO
A filologia parece revelar que, a partir de inúmeros estudos e pesquisas realizados entre os povos da Índia, desde os tempos mais remotos, colonizações promovidas por povos que falavam diversos idiomas.

No ano 1500 a.C., grupos de colonizadores conhecidos como árias (nobres), portadores de uma língua indo-européia que achava similaridade com o latim e o grego, devastaram as regiões do vale do Indo, parte do continente asiático que parece ter sua existência vinculada a períodos que antecedem quatro milênios a.C.

Essa antiga civilização quase não comportava o meio rural, ou seja, o povo se aglomerava em sociedades urbanas e se concentrava principalmente no atual Paquistão e na região Noroeste da Índia. Subjugadas as civilizações do vale do Indo, exatamente por aqueles que traziam o idioma dos árias, observou-se então o surgimento de elementos que favoreceram a instituição de castas, tradições e crenças diversas, as quais, posteriormente, receberiam o nome de hinduísmo.

Com o passar dos anos, o idioma indo-europeu, trazido pelos colonizadores, foi sendo substituído pelo sânscrito, desenvolvido entre os indianos natos que, à semelhança do árabe, para os muçulmanos, é o idioma sagrado pelo qual se transmitem os textos do hinduísmo, além da filosofia e da cultura indiana, que se principiam nos Vedas, documentos hindus originários que alcançaram a nossa civilização e cujo nome advém da raiz Vid, que significa “conhecer”. Trata-se de uma imensa coletânea de escritos sagrados compostos por hinos e que, na sua maioria, são atribuídos a videntes e místicos.

É possível distinguir alguns dos textos que, naturalmente, foram transmitidos pela tradição oral, além daqueles que foram grafados e mundialmente conhecidos como fundamentos da religião hindu, formando a tradição e a revelação.
TRADIÇÃO
Também chamada de shruti, ou “audição”; aquilo que foi ouvido pelos videntes, chamados rishi, que receberam esses textos por meio da intuição mística peculiar a essa casta, compreendendo os três volumes (samhita) dos Vedas: o brahmana, o aranjakal e o upanishadi. Para a fé hindu, esses escritos possuem autoridade máxima, sendo proibido a qualquer pessoa contestá-los ou alterá-los, e teriam chegado até nós por meio de uma fidelíssima tradição oral.
REVELAÇÃO
Esse conceito da religião hindu é chamado de simriti, significando “lembrança” ou “memória”. Na revelação se acham agrupados os elementos que funcionam como uma complementação ao texto do Vedas e que possibilitam a perfeita execução da ritualística cotidiana e sacerdotal, o que, obviamente, impede seu emprego isolado quando da realização desses eventos.
TEXTOS SAGRADOS


O hinduísmo detém uma vasta relação literária que acomoda as normas referentes à vida cotidiana, além de formar a sociedade para uma correta observação dos ensinos. De toda essa literatura, a mais arcaica – 0s Vedas – traz um rol normativo que antecede o século 10 a.C.

Outras obras escritas também são destacadas entre os hindus, como os puranas, que formam a narrativa sobre a tríade divina do hinduísmo, fundamentada nos deuses Brahma, Shiva e Vishnu, descrevendo, ainda, as festas as condutas sociais e religiosas do hindu. Contam também, com um poema histórico que narra a grande epopéia do Bharatas, o Mahabharata.

Esse poema possui nada menos que noventa mil versos, e é a compilação de um antigo material épico indiano, provavelmente escrito entre o 2° século a.C. e o 1° século d.C. Trata, ainda, da luta do bem e do mal, dos cultos a Shiva e Vishnu e das lutas entre as tribos hindus; descreve os Upanishads, que são as aulas dos mestres; o Ramayana, outro poema sobre o amor de Rama por Sita, além do código de Manu, um conjunto de normas, regras e práticas sociais hindus.

O enredo se desenrola na planície do Rio Ganges e seu ponto principal é a batalha entre os Kauras e os Pândavas (outro ramo dos Bharatas), povo que afirma descender de um antepassado epônimo, isto é, que cedeu seu nome a famílias indianas, o grande Bharata.

Originalmente, o mahabharata era considerado um poema marcial escrito, preservado e transmitido às gerações pela classe dos brâmanes, o qual recebeu, com toda certeza, um vasto volume de material didático e religioso no decorrer de sua transmissão. No curso dessa obra, considerada de primeira grandeza para os hindus, encontram-se narrativas de guerras, mescladas com cenas que retratam mitologia e pronunciamentos morais, revelando valores éticos das antigas sociedades hindus e, em especial, textos que versam sobre os deveres de cada indivíduo.

A parte que encontra mais reverência entre os fiéis do hinduísmo destaca o discurso de Krishna ao herói dessa novela, Arjuna, também conhecido como Bhagavad-Gita, ou, o canto do bem-aventurado, isto é, de Krishna como avatar, a reencarnação de um Deus supremo, e, especialmente no hinduísmo, a reencarnação do Deus Vishnu.

O discurso transcorre, num primeiro momento, sobre o dharma da classe Kshatriya, a varna (forma como se denominam os grupos ou castas no hinduísmo) guerreira. Outra parte que integra o poema é o Shanti Parvan; um discurso sobre a ética e o governo, pronunciado pelo moribundo Bhishma. Uma última história é a de Damyanti, que tem o propósito de advertir os seguidores contra os malefícios do jogo.
O SISTEMA DE CASTAS


Varna é o sistema de separação de grupos entre os fiéis dessa seita, sendo codificado com o passar do tempo.

Segundo a literatura sagrada hindu, os homens, devido à soberana vontade de seus deuses, devem pertencer a diferentes classes sociais, as chamadas castas, sendo que essa separação é determinada logo na natividade do indivíduo, respeitando-se sempre a ascendência paterna. Essa crença milenar, além de determinar a qual classe ire pertencer à criança recém-nascida, fixa sua posição profissional na comunidade em que conviverá.

Uma vez que esta norma religiosa excede em importância a qualquer outra, não pode ser modificada por intervenção humana, já que se considera, entre os hindus, que a fidelidade aos ritos ditados pela literatura espiritual é um dos elementos que proporcionam ao indivíduo o gozo celeste.

As castas também estão divididas hierarquicamente e, baseado nessa tradição, os que pertencem às classes mais altas gozam de todos os privilégios previstos na seita, enquanto que os que se acham resignados as varnas mais baixas não usufruem nenhum. Essa separação pode determinar ainda uma outra privação, que se define na incomunicabilidade entre as classes, principalmente no que diz respeito às atividades sociais desenvolvidas pelos indivíduos. No casamento, por exemplo, não poderão se unir pessoas de castas diferentes. No princípio, o número de castas existentes se resumia a quatro. As três mais importantes derivavam de uma divisão que já ocorria entre uma horda de colonizadores árias, enquanto que a quarta, por não se achar inserida sequer na sociedade, estando limitada aos grupos que se sujeitaram aos invasores, não podia ser contada com aquelas que advinham desses povos. São elas:



BRAHMAN OU BRÂMANES – São os portentosos colecionadores da sabedoria contida nos Vedas, acumulando ainda a responsabilidade da ministração dos sacrifícios, atributos exclusivos àqueles que detém o poder sacerdotal e o conhecimento dos mantras sacrificiais, isto é, fórmulas encantatórias que tem o poder de materializar a divindade invocada. Os hindus acreditam que a partir dessas fórmulas os deuses se tornam obrigados a baixar à terra, aceitar os alimentos e bebidas e a ouvir as orações dos sacerdotes.
KSHATRIYA – É a classe dos guerreiros e dos príncipes, os quais funcionam ainda como defensores dos tesouros, cuja atribuição é incentivar os sacrifícios e a proteção do país.
VAISHYA – É a classe dos que desenvolvem atividades braçais e produtivas, como a criação de gados, a agricultura e o comércio.
SHUDRA – Não possui qualquer outra atividade dentro da sociedade hindu, à exceção de funcionar como servo.
Há duas outras classes ainda mais inferiores: as classes dos shudras, que são os candala e os sem-castas. A partir da proliferação de ramificações das castas dentro da sociedade hindu, o número de classes aumentou substancialmente, excedendo, em muito, o seu número original. Atualmente, a regra para definir qual das castas pertencerá a criança hindu está diretamente ligada à atividade ocupacional que ela desenvolverá e esta, de acordo com a hereditariedade paterna.

Os sem-castas, também conhecidos como parias, constituem-se num grupo numeroso, o qual o líder político e religioso indiano Mohandas Karamchand Ghandi (Mahatma Ganghi, 1869-1948) chamava Karijan, que significa “filhos de Deus”. Entretanto, a sociedade hindu não parece ter tido o mesmo sentimento fraternal por esta casta, qualificando-a posterior e genericamente como dulit, ou “excluídos”.

Em prol dos “excluídos” e das castas mais inferiores, emergiu um governo afinado com o mundo moderno, que reconheceu a igualdade social diante do estado e aboliu o sistema de castas. A Índia independente também abortou oficialmente este sistema, tornando-o inexistente ante o governo, não se nomeando mais castas entre a sociedade; oferecendo-se recompensas para os jovens que se propusessem a contrair matrimonio com membros de outras classes; adotando medidas que favorecem as castas tidas por inferiores e demais providencias que efetivamente baniram a desigualdade ditada pela fé hindu.

Em 1950, Nehru, líder hindu à época, declarou que, em dez anos, conseguiria desarticular todo o sistema de castas. Entretanto, a sociedade comum pareceu não aceitar a intervenção governamental, desejando a prevalência da tradição, o que promoveu um entrave no processo de extinção das castas, fazendo que, até hoje, essa norma prevaleça entre o povo.

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