quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

RELIGIÃO, INTOLERÂNCIAS E CONFLITOS NO ENSINO RELIGIOSO

Ao longo da Historia da Humanidade, infelizmente, a convivência dos seres humanos, dos grupos sociais e das sociedades diferentes, deixaram suas marcas, ou seja, a convivência com o Outro, nem sempre foi pacifica.


A intolerância se expressa diante de varias diversidades: de gênero, de etnia, de geração, de orientação sexual, de padrão fisico-estetico, e, também, de religião.

A intolerância religiosa pode causar espanto, mas muitos e muitos conflitos e guerras violentas foram e ainda são travados em nome de uma determinada crença religiosa ou de outra.

Este é um problema extremamente complexo porque tais confrontos, costumeiramente, não carregam motivações exclusivamente religiosas, mas a estas se somam razoes de ordem econômica, social, política, cultural, variáveis a cada experiência histórica. Os exemplos de conflitos religiosos são numerosissimos: entre judeus e cristãos, entre cristãos e islâmicos, e etc. As milhares de mortes produzidas pela Inquisição (da Igreja Católica) contra os considerados hereges, as guerras entre católicos e protestantes em decorrência da Reforma e da Contra-Reforma, nos séculos XVI-XVII; a imposição do cristianismo ou do catolicismo sobre os indígenas da América e os negros importados da África como escravos. Hoje, alguns desses grandes conflitos ainda perduram como aquele entre islâmicos e cristãos ou entre católicos e protestantes, na Irlanda do Norte. Mas a intolerância religiosa também se expressa em pequenos conflitos cotidianos, quando se desqualifica pessoas por não pensarem religiosamente do mesmo modo de quem as desqualifica; ou quando se destrói templos, símbolos e imagens de religiões que se consideram adversárias; ainda, quando alguém arroga para a sua crença o estatuto de sua religião e qualifica a crença alheia como uma seita demonizada.

No Brasil, ainda vemos muito dessas coisas, mas de uma maneira “velada”, da mesma forma que vemos o racismo do branco contra os negros.

Diante da intolerância religiosa, o filosofo francês Voltaire, dizia no século XVIII:


“É verdade que esses horrores absurdos não mancham todos os dias a face da terra; mas foram freqüentes, e com eles facilmente se faria um volume bem mais grosso do que os Evangelhos que os reprovam”. (VOLTAIRE, 1993: 127)


O DIREITO À DIVERSIDADE RELIGIOSA NO BRASIL


O Brasil já teve uma única religião oficial – o Catolicismo –, com a Constituição de 1824, que perdurou até a proclamação da Republica. Ate então, só eram permitidos templos católicos. O clero católico fazia parte do funcionalismo do Estado. E claro que eram praticadas outras religiões, mas os seus professantes sofriam discriminação e só podiam realizar seus atos religiosos em particular, no espaço privado, e não em lugares públicos.

Com a Republica, o Brasil se tornou um Estado Laico, isto é, deixou de ter uma religiao oficial e se separou da Igreja.

Fica claro que com a Carta Magna do país e outros documentos legais que asseguraram a liberdade de culto e estabeleceram que nenhuma pessoa possa ser discriminada por motivo de qualquer natureza, incluindo a religião. Preserva-se, assim, o direito subjetivo de consciência, tanto para professar quanto para não professar nenhum credo religioso. Complementarmente, a lei assegura o respeito e tolerância à diversidade cultural-religiosa do país.

A execução destes princípios de tolerância e respeito à diversidade não é fácil, ainda mais em uma sociedade como a nossa em que intolerâncias e desrespeitos às diversidades culturais são freqüentes. A questão religiosa e uma das mais delicadas no que se refere a tais diversidades.

Se quisermos como professores de Ensino Religioso, construir um mundo de tolerância é preciso levar em consideração, na Escola, algumas atitudes, tais como:


a) Compreender as religiões como fenômenos presentes em diversas culturas, ao longo da Historia, portanto, cada religião guarda as suas tradições, vinculadas, por sua vez, as identidades dos grupos sociais das pessoas;


b) Conhecer as religiões, as diversas expressões de religiosidade, de um modo contextualizado, cotejando informação e realidade, de modo a que o (a) educando (a) e, inclusive, o (a) professor (a) conheça (m) as próprias crenças e as situem em relação a outras, com base no principio do valor histórico-cultural de cada uma, promovendo o sentido da tolerância e do convívio respeitoso com o diferente;


c) Compreender o Ensino religioso como uma área de conhecimento interdisciplinar, tanto na execução curricular quanto na avaliação;


d) Adotar a perspectiva da diversidade religiosa de modo articulado com outras dimensões de Cidadania e, desse modo, na Escola, articulando vários componentes curriculares: História, Geografia, Biologia, Língua Portuguesa, Literatura, etc.;


e) Promover o entendimento do conhecimento como aprendizado da dignidade humana, própria e do Outro;


f) Promover a construção de uma convivência fraterna, mediante dialogo inter-religioso, em que o respeito às diferenças tem por base um compromisso moral e ético.


Sintetizando tais posturas, o ensino religioso, sem nenhum propósito doutrinante de uma determinada visão religiosa, de maneira respeitosa e reverente para com o domínio de cada culto e de cada doutrina, deve incentivar e desencadear no aluno um processo de conhecimento e vivência de sua própria religião, mas também o respeito por outras formas de religiosidade.


Assumir essa perspectiva implica em um processo de reeducação do (a) próprio (a) professor (a):


♦ Contra os seus próprios preconceitos na matéria, de que todos nos somos portadores antes de um estudo e reflexão mais profundos;


♦ Contra a cegueira para com o Outro (o diferente), substituindo-a pelo que a compreensão humana e o conhecimento podem trazer de lucidez em todas as religiões: se há algo nas outras religiões que nos produz estranhamento, há concepções belas e, inclusive, aquelas que se aproximam das nossas;


♦ Para o despojamento de querer julgar os outros segundo os princípios da própria religião, e, dessa maneira, “decidir” os que serão salvos e os que serão condenados, se colocando como juiz supremo da conduta humana;


♦ Para conhecer a diversidade religiosa presente na sala de aula, mediante o estudo e a reflexão;


♦ Para uma consciência e uma pratica ética, no sentido do diálogo e da convivência com a diversidade religiosa, de forma respeitosa.

Diante da diversidade, não se pode mais admitir que desrespeite ou critique o posicionamento religioso das pessoas em prol da defesa de uma religião específica. É preciso questionar a homogeneidade e desenvolver uma atitude de respeito diante de todas as religiões e culturas. Este respeito é fundamental, pois concepções religiosas e culturais têm a ver com a vida integral da pessoa, o que traz implicações para a dignidade da própria vida.


Muitas vidas, culturas e religiões ainda continuam sendo machucadas pelo fato de não serem consideradas e respeitadas. Por isso, é urgente que se aprenda a respeitar a perspectiva de outros grupos étnicos e religiosos.

O Ensino Religioso é um espaço onde pode ocorrer essa descoberta progressiva do outro ser, numa atitude de respeito, justiça e solidariedade.

O Ensino Religioso, por outro lado, também é um espaço democrático de aprendizagem mútua, pois só no encontro com o diferente percebemos que culturas e religiões têm experiências e sabedorias peculiares que, em si, são relevantes para os demais e vão enriquecer não só o projeto do Ensino Religioso, mas toda a comunidade escolar.

E por último, o Ensino Religioso, ao propiciar a abertura à alteridade, pelo espírito inter-religioso e pelo diálogo, está contribuindo para que ocorra a eliminação de preconceitos e se desencadeie o respeito mútuo, que podem conduzir à solidariedade, à justiça e à dignificação da vida.

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