quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

SIKHISMO

O sikhismo é uma religião quase desconhecida na cultura das civilizações ocidentais. Seus seguidores se encontram, na sua maioria, na região indiana de Punjabe, e a história de sua fundação se observa em períodos recentes.


O corpo doutrinário se prende a propósitos que, aos olhos dos mulçumanos, mais buscam uma utopia do que uma fusão de conceitos, já que o principal objetivo foi unir duas das maiores correntes religiosas do planeta: o hinduísmo e o islamismo.

Depois do jainismo e do budismo, o sikhismo se constitui na terceira maior ramificação do hinduísmo. Sua implantação entre os homens é conferida a Nanaque, que, para esse processo de fundição doutrinária, importou uma série de elementos da cultura mulçumana.

Nanaque, o precursor, nasceu em Talwandi, uma aldeia indiana que distava de Lahore, cinqüenta quilômetros, a Sudeste da capital, Punjabe. Seu nascimento é datado em 1469 d.C.

Seus pais estavam inseridos na sociedade local como cidadãos comuns, compondo o quadro de seguidores do hinduísmo. O folclore da época cita Nanaque mais precisamente em seu estágio juvenil, quando aparece dirigindo exortações aos mestres hindus.


DESENVOLVIMENTO


Acredita-se que Nanaque, ainda em sua juventude, teria discursado a dois sacerdotes brâmanes do hinduísmo acerca do sacramento material. Independente da veracidade histórica sobre essa demonstração de sabedoria, certo é que Nanaque preferia se prender às práticas religiosas, como a meditação e os rituais, do que ao trabalho temporal.

Indisposto a seguir o caminho profissional escolhido por seus pais, tornou-se malvisto no seio familiar, todavia, aceitou um cargo governamental oferecido por seu cunhado, em outra cidade.

Sua preocupação, porém, continuaria sendo a busca incansável pela verdade religiosa, admitindo para si a crença de que, ao ter alcançado trinta e três anos de idade, recebera o divino chamamento.

Conta à tradição que, em dada oportunidade, Nanaque teria desaparecido na floresta enquanto se banhava, tendo sido supostamente tomado para a presença de Deus, segundo explicou posteriormente em sua própria visão.

Após lhe oferecer uma taça de néctar, Deus teria dito a Nanaque que estava com ele e com aqueles que tomassem seu nome, e acrescentou: “Vai e repete meu nome, ensinando a todos a que procedam da mesma forma, praticando a repetição do meu nome, a caridade, as abluções e a meditação [...] meu nome é Deus, o Brahma primeiro, e tu, o guru divino”.

Decorridos três dias desse fato, Nanaque ressurgiu na floresta e bradou sobre a inexistência de hindus ou islâmicos.

Acompanhado do amigo Mardana, poeta e trovador, iniciou a propagação de sua experiência e de seus conceitos, não alcançando, entretanto, maciça simpatia entre seus ouvintes, optando ambos pelo retorno a Punjabe, onde a adesão de futuros discípulos se tornaria mais acentuada. Assim, tem início à religião sikhi, que, a partir daí, não pára de crescer, fenômeno que Nanaque observou durante toda a sua vida.

Nanaque faleceu com aproximados setenta anos de idade, mas não sem antes tomar o cuidado de nomear um sucessor, para que continuasse a difundir suas idéias. Essa tarefa ficou a cargo de Angade, um digno e fiel discípulo, que manteve a rejeição e o combate ao hinduísmo e ao islamismo.

O nome desse sucessor de Nanaque era originalmente Lahina, o qual, posteriormente, mudou para Angade (guarda-costas). Também foi ele quem propagou a doutrina que aponta Nanaque como sendo igual a Deus.

Diferentes gurus se tornam seguidores do guru Angade. Após a morte do décimo guru na linhagem de sucessão, em 1708, a lealdade dos sikhis foi transferida da autoridade pessoal dos gurus para o Granth Sahib, livro sagrado do sikhismo, compilado por um dos seguidores de Angade chamado Arjan.

ENSINOS SIKHIS


Em linhas gerais, os sikhis aprendizes são seguidores do guru Nanaque e de seus sucessores (gurus). A autoridade sikhista Rahit Maryada define o sikhi como alguém que acredita nos dez gurus, nos seus ensinamentos e na iniciação (amrit) instituída pelo décimo guru, acrescentando que não lhe é permitido acreditar em quaisquer outras religiões.

Os ensinamentos dos sikhis são uma unificação de idéias extraídas do islamismo e do hinduísmo, o que não significa que tenham empregado a literatura religiosa de qualquer dessas crenças. Os sikhistas preferiram compor seus próprios escritos sacros, que são baseados em interpretações particulares derivadas de idéias difundidas nessas religiões, o que acaba resultando numa miscelânea teológica.


ESCRITOS SAGRADOS


Os escritos sagrados do sikhismo são conhecidos como Granth Sahib, ou o “livro do senhor”. Essa literatura foi desenvolvida por inúmeros autores e, curiosamente, alguns deles viveram num período que antecede a existência do próprio Nanaque, cuja relação com o sikhismo não excedeu o superficial.

A obra contém uma coletânea de poemas de várias dimensões, perfazendo um total aproximado de 29.500 versos, todos em rima, com um teor que enfoca a atenção sobre a exaltação do nome divino, além de advertências pertinentes à conduta diária de seus seguidores.

Há uma peculiaridade bastante distintiva nesses versos, ou seja, a exploração da filologia em seis idiomas diferentes e diversos dialetos, tornando-a praticamente impossível de ser estudada pelos próprios sikhis com profundidade. Isso acaba excluindo qualquer possibilidade de aprofundamento por parte dos adeptos iletrados.

Essa realidade determinou a existência de um seletíssimo grupo entre os sikhis que estivesse habilitado a interpretar o Granth Sahib em sua integralidade, o que, obviamente, impediu a instituição de escolas especializadas na interpretação e estudos referentes a essa sagrada literatura.

Os que conseguem atingir um grau de sabedoria moderado dentro do sikhismo, por certo conhecem muito pouco sobre essa complexa obra, dificuldade perfeitamente previsível se considerarmos o emaranhado filológico em questão.

Eivado de dificuldades, o livro passou a ser classificado como elemento de segunda grandeza dentro da religião, chegando a ser considerado dispensável quanto ao seu emprego para aperfeiçoamento dos membros sikhistas.

Esse aspecto, todavia, não promoveu a rejeição ou o desdém de seus seguidores para com a sua literatura. Pelo contrario, eles observam uma exigente reverência à obra, quase que a ponto da idolatria.


DEUS


Os sikhis tem uma crença quanto a divindade que se assemelha ao islamismo. A primeira declaração de Nanaque a esse respeito, lavrada logo após ter ele recebido a chamada divina, faz parte do conjunto de sentenças iniciais do Granth Sahib.

Ele declarou: “Há somente um Deus, cujo nome é verdadeiro criador, isento de temor e inimizade, imortal, não-nascido, auto-existente, grande e generoso. O verdadeiro que estava no começo”.

O nome usualmente adotado pelos sikhis para se referirem à deidade é Sat Nam, significando “nome verdadeiro”. Mas, apesar disso, é possível também observar uma variedade de nomes que são atribuídos a Deus, todos distintos, o que esta de acordo com a crença sikhi de que Deus se apresenta em diversas manifestações. Sobre isso, assim ensina o Granth Sahib: “Tu, ó senhor, és um, mas muitas são as suas manifestações”.

Uma distinção sikhi quanto a Deus versa sobre a crença de que, embora ele seja basicamente uma unidade, não é considerado um ser pessoal, antes, filosoficamente, é assemelhado à verdade e à realidade.


SALVAÇÃO


Ensinam que a salvação consiste em conhecer Deus, em obter Deus e em ser absorvido por ele. Esse método parece estar de acordo com a supremacia de um Deus incompreensível além das doutrinas relacionadas à indignidade da humanidade e do desamparo humano.

O método sikhi, na forma em que se amostra, fala sobre se obter a salvação por meio de uma assimilação introspectiva de Deus que alcance o espírito, do “eu” de cada indivíduo em relação à alma do mundo místico. Esse conceito atinge uma forte semelhança à idéia que se refere à salvação propagada entre os upanishads, seguidores do hinduísmo.


DISTINÇÕES DO SIKHISMO


EM RELAÇÃO AO HINDUÍSMO – Teoricamente, o sikhismo concorda com o hinduísmo quanto à crença em uma Unidade Suprema mística, uma aplicação teísta que se observa no panteísmo, na forma como ocorre com os upanishads e no Bagavad Gita.

Crê na mesma forma de salvação pela fé na graça de Deus, na doutrina do carma e na transmigração da alma. Discorda, porém, do politeísmo hindu, das peregrinações ditadas pela norma, da ritualística e do modo de vida asceta, embora aplique a adoração ao que é puro.

Rejeita também os escritos hindus e a degradação que as comunidades hindus infligem às suas mulheres, por acreditar que elas mereçam consideração mais elevada. Prefere um aumento na taxa de natalidade ao infanticídio, que é prática hindu comum, desobrigando, ainda, a suposta necessidade de um vegetarianismo total, proporcionando a todos uma dieta que inclui carnes.


EM RELAÇÃO AO ISLAMISMO – Dessa religião o sikhismo extraiu a crença da unidade do Supremo Ser, bem como a soberania de ser absoluto e sua divindade incompreensível.

É comum também a esperança que se baseia na sujeição a Deus e a adoração que se efetua na repetição do nome da divindade. Concorda com a constante repetição das orações prescritas e com a devoção que dirige ao fundador, como sendo legítimo emissário divino.

Assim como os mulçumanos, os sikhis são reverentes aos escritos sagrados, entendendo ser correta a linhagem de sucessor es que se forma após a morte de seu fundador (Nanaque para os sikhis e Maomé para os mulçumanos), além de adotar uma estrutura de governo que esteja intimamente ligada à religião.

A unidade entre os seguidores e a definição de um santuário principal muito reverenciado por todos (Amritsar para os sikhis e Meca para os islâmicos) são pontos concordes em ambas, assim como a abominação à idolatria.

Em divergência aos mulçumanos, os sikhis destacam a natureza colérica de Maomé enquanto Nanaque era um líder gentil. Dessa mesma forma, a divindade sikhi não é rude e severa como aquela do Islã. Apóiam a formação literária que aconteceu pelas mãos de pelo menos trinta e cinco mestres, enquanto o Corão é atribuído a apenas um autor.

A prática do jejum no período do Ramadan, parte indivisível na cerimônia islâmica, não possui equivalente no sikhismo, da mesma forma que não se prega um dia de julgamento específico no qual Deus operará a justiça sobre os homens.

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