quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

TAOÍSMO

Semelhantemente ao confucionismo, o taoísmo também encontra suas origens em território chinês, contrastando, entretanto, seus princípios éticos e humanísticos com aqueles ditados por Confúcio em seus ensinamentos. Entre outros aspectos que o diferenciam do confucionismo, encontra-se a observância das crenças místicas e enigmáticas, características que derivaram de uma figura igualmente mística e enigmática – Lao-tsé.


O taoísmo tem suas raízes nessa figura misteriosa. Pouco se sabe sobre a sua história e o que é conhecido não tem credibilidade. Alguns expositores históricos vão além e chegam a questionar a existência desse personagem épico. O que se acha está fundamentado nos incertos relatos de seu nascimento, que varia em mais de meio século (entre 604 e 570 a.C.).

Um registro lendário relata que Lao-tsé nunca foi jovem e o apresenta, desde o seu nascimento, como um ancião de cabelos e barba brancos e o corpo coberto por uma pele rugosa.

Outra história derivada desta cultura religiosa conta sobre o apelido hilário aplicado pela sua mãe, que o tratava por “orelhas de ameixeira”, codinome que se embasava no seu nascimento, dado que ele teria nascido embaixo de uma ameixeira, destacando a característica anatômica verificada em Lao-tsé, isto é, orelhas enormes.

DESENVOLVIMENTO


Seu nome está relacionado à personalidade social que a comunidade reconhecia nele sendo que Lao-tsé significa “velho filósofo”. Ocupou cargos de confiança como zelador dos arquivos do império chinês, na cidade de Loyang, capital da província de Ch’u.

A posição estatal do “velho filósofo”, entretanto, tomou-o de uma fadiga que estava instalada não em sua carne, mas em seus valores. Isso porque a administração estatal de sua época agia de forma tirânica para com os súditos do império, e isso se refletia no próprio conceito de governo que as autoridades locais possuíam.

Partindo desses valores particulares, Lao-tsé passou a expor suas idéias concernentes a uma forma de vida mais modesta como padrão a ser seguido pelos homens; levando-os a se divorciar das honrarias e a abrir mão da necessidade de uma busca infrutífera pelo conhecimento. Este posicionamento culminou com a demissão de seu cargo, ocasião em que se recolheu em seu lar.

Uma vez que seus discursos já haviam sugado estudantes e discípulos interessados, espécie de movimento que dispensava, viu-se obrigado a se afastar do lar estabelecido entre a civilização, para buscar paz e meditação longe de todos.

Adquiriu, então, uma carroça e um bovino negro e partiu, abandonando a sociedade na qual estava inserido e que reputava demasiadamente corrupta. Mas foi impedido pelo amigo Yin-hsi, que, após tomar parte em seu plano, obstruiu-lhe a passagem. Esse amigo resolve exortá-lo com palavras que o intimavam a escrever todos os pontos essenciais de seus ensinamentos para que, após sua partida, todos tivessem acesso, já que essa era a marca que o identificava entre todos.

Foi nessa oportunidade que Lao-tsé redigiu o Tão Te King, ou “o caminho e o seu poder”, outras vezes traduzido por “o caminho e o princípio moral”.

Diz-se que, após a entrega desse documento ao requerente amigo, Lao-tsé teria subido à montaria com destino ao pôr do sol, encerrando nesse episódio, sua lembrança entre o povo.

Uma segunda versão mostra o amigo Yin-hsi instando com ele para que o levasse consigo, após ter lido o tratado a pedido redigido, porém, qualquer que tenha sido o real enredo, certo é que a obra foi deixada para trás, passando a ser reconhecida como primazia literária do taoísmo.


ESCRITOS SAGRADOS


O tratado escrito por Lao-tsé, que acabou tomando esse mesmo nome, é um pequeno compêndio contendo, aproximadamente, cinco mil e quinhentas palavras, que propõe, segundo os valores do autor, uma modalidade de governo feito com arte, pretensamente escrito para as autoridades da época.

Seu tratado tentava implantar, entre os dirigentes, um governo que se fortificasse naturalmente e não baseado na tirania. Essa idéia, obviamente, não alcançou o respeito e, menos ainda, a adesão de qualquer governante contemporâneo.

O Tao Te King também tem seu lado filosófico ao orientar seus portadores à correta forma de proceder para resistirem aos terríveis flagelos que, à época, assolavam a China. Seu conteúdo é tímido, sem a pretensão comum que se observa em outras obras filosóficas. Coloca o homem num plano inferior, para supostamente ajudá-lo a destituir-se das ambições e capacitá-lo a resistir ante as adversidades.

Os estudiosos e historiadores ainda não chegaram a um consenso quanto à data da escrituração desse compêndio, embora, tradicionalmente, se aceite que o livro tenha sido escrito por Lao-tsé, contemporâneo de Confúcio, no século 6° a.C. Essa data encontra amparo no volume Shin-chi, biografia de Lao-tsé, também conhecida como “registros do historiador”, escrito por volta de 100 a.C.

A idéia mais recente sobre esse volume o qualifica como sendo uma compilação datada de 300 a.C. O ambiente que se vislumbra na história que serve de referencial para o texto está em maior conformidade com uma China atribulada do que com o período que os historiadores tradicionalistas defendem.


CHANG-TSÉ


Depois de Lao-tsé, esse é o mais importante representante dessa ordem religiosa. Trata-se de um famoso discípulo do fundador e autor de expressiva produtividade que viveu no século 4° a.C. Escreveu aproximadamente trinta e três títulos. Seu talento com a escrita possibilitou-lhe a divulgar, com considerável habilidade, as doutrinas de Lao-tsé de uma maneira semelhante àquela com a qual Mêncio honrou a escola deixada pelo seu predecessor, Confúcio.

As explanações de Chuang-tsé sobre a matéria derivada do taoísmo evidenciam seu caráter filosófico, o qual ele ajudou a popularizar. Podemos constatar isso em suas próprias palavras, quando diz: “certa feita, eu, Chuang Chou, sonhei que era uma borboleta e que me sentia feliz como uma borboleta [...] subitamente, despertei, e lá estava eu, um bem visível Chou. Não sei dizer se foi Chou quem sonhou que era uma borboleta ou se uma borboleta sonhou que era Chou. Entre Chou e uma borboleta deve haver uma distinção. Chama-se isso de transmutação das coisas”.

A respeito da morte de sua companheira, afirmou “... Quando ela morreu, como poderia deixar de ser afetado? Mas quando repensei sobre a questão, percebi que, originalmente, ela não tivera vida, e não somente não tivera forma, e não somente não tivera forma, mas também não tivera força material. No limbo, entre a existência e a não-existencia, houve uma transmutação, e a força material evoluiu...”.

Essas colocações refletem o quanto este discípulo primava pela responsabilidade filosófica quanto à fundamentação dos ensinos de Lao-tsé para o taoísmo.


O TAO


O conceito principal do Tao Te King é aquele que se refere ao Tao, o qual não permite a simplicidade em sua elucidação, uma vez que, como a palavra “Tao” literalmente signifique “caminho” ou “vereda”, é certo que seu pensamento vai muito além disso.

Assim, as palavras de abertura do Tao Te King, numa explanação um tanto complexa, exprimem que o Tao (caminho) que porventura possibilite sua própria compreensão não pode ser o verdadeiro Tao (caminho). O entendimento deste conceito se firma na tese que diz que o nome que pode ser pronunciado não pode ser um nome verdadeiro.

Vemos na famosa declaração taoísta o seguinte: “Aqueles que sabem, não dizem; e aqueles que dizem, não sabem”. Por se expor dessa forma, a palavra Tao é reputada como sendo da língua de origem, com expressão e significado misteriosos, acima de toda compreensão, imaginação e bom senso humano. Todavia, é daqui que se parte se o adepto desejar encontrar o caminho para a realidade última, ou seja, a verdade máxima sobre toda a existência. Seria, num conceito mais simplificado, o caminho do universo, aquele por meio do qual o indivíduo teria condições de dirigir sua vida.

Quanto a esse tema, levanta-se a questão: dada a complexidade que envolve toda a aura taoísta, como poderia alguém basear, estruturar ou alinhar sua vida a partir do Tao? Se a filiação ao “caminho do Tao” é alvo a ser seguido pelo homem, como deverá proceder o indivíduo para alcançá-lo?

A resposta taoísta para esses questionamentos previsíveis é verificada no próprio Tao Te King, que descobre essa possibilidade aos seus seguidores, mediante o exercício da iniciativa básica, a qual se denomina Wu Wei, significando, literalmente, “inação”.

Esse princípio abomina toda forma de violência, seja física, verbal ou mesmo aquela que reside apenas em nosso inconsciente. O homem, então tem de cultivar atitudes espontâneas, promovendo uma existência pacífica entre os demais, distanciando toda forma de tensão e agressividade e possibilitando uma convivência harmoniosa entre ele e a natureza. Essa é a única e autêntica manifestação de vida que está genuinamente alicerçada no Tao.


YIN E O YANG


Essa característica taoísta recebeu simpatia da comunidade confuciana, com apreço tanto pela seção filosófica quanto pela parte estritamente religiosa.

Não obstante, mesmo que todas as coisas fluam do Tao, existem elementos que se opõem mutuamente, como o bem e o mal; a vida e a morte. A parte positiva destacada por esse conceito é o “yang”, o seu oposto é o “yin”, que exprime negatividade. A contraposição pode ser claramente expressa quando comparamos situações cotidianas da sociedade, como nos exemplos abaixo:


Yang e Yin

Verão e Inverno

Vida e Morte

Bom e Mau

Macho e Fêmea

Positivo e Negativo

Luz e Trevas

Atividade e Passividade


Cada um desses princípios é interdependente e expressa, de forma diversa, o Tao. A participação do homem nesse princípio está relacionada à “misturar-se com o ciclo universal, todavia sem esforçar-se, unindo-se ao Tao, e, portanto, alcançando o objetivo”.

Originalmente do território e da cultura chinesa, surgiu um conceito de maior amplitude a respeito do Yin e Yang, o qual ensina que uma vida harmônica pode ser adquirida tão-somente quando permitimos que essas duas forças interajam.


TAOÍSMO FILOSÓFICO


A história nos mostra que o taoísmo seguiu por dois caminhos diferentes. O taoísmo que se ampara na filosofia tem suas origens anotadas em 300 a.C. e descreve o Tao como a fonte da verdade última, isto é, inatingível e inabalável, tentando instalar o homem numa relação harmoniosa com a natureza, para lhe permitir, o livre exercício de suas faculdades instintivas e imaginárias.


O TAOÍSMO RELIGIOSO


Essa corrente religiosa marcou seu início, aproximadamente, no século 2° d.C., oportunidade na qual o imperador Hwan determinou a construção de um templo em homenagem a Lao-tsé. A partir daí, foi esse o lugar designado para que se lhe oferecesse oferendas. O reconhecimento como instituição religiosa devidamente estabelecida só veio depois, por volta do século 7° d.C.

Essa modalidade passou a contar com seus próprios escritos sagrados, com um sacerdócio, templos e discípulos, desfrutando todos de uma crença prevista para os tempos últimos, quando surgiria uma nova era que suplantaria a ordem anteriormente estabelecida.

Durante o desenvolvimento dessa corrente, implantou-se, gradualmente, o panteão de deuses, formando-se consenso sobre a existência do céu e do inferno, culminando, quase que num último estágio de desenvolvimento religioso, com a deificação do precursor Lao-tsé.


CRONOLOGIA TAOÍSTA


212 a.C – É procedida a queima de toda literatura confuciana pelo imperador Shi Huang Ti, estabelecendo definitivamente o taoísmo, além de enviar frotas navais à ilha de Formosa, cujo objetivo era descobrir determinada erva da imortalidade.

1 d.C. – A liderança taoísta da China tenta produzir a tão desejada fórmula da imortalidade.

156 d.C. – Hwan, imperador chinês, inicia a prática de oferendas a Lao-tsé.

574 – 581 d.C. – O imperador Wu organiza uma relação religiosa, ficando assim estabelecida: 1ª confucionismo; 2ª taoísmo; 3ª budismo. Sua desilusão com as duas últimas profissões de fé o leva a aboli-las. Mas o próximo imperador, Tsing, estabelece-as assim que assume o trono.

650 – 684 d.C. – Lao-tsé é canonizado na qualidade de imperador e seus escritos são instituídos entre as matérias que determinavam os exames para ocupação de cargos governamentais.

713 – 142 d.C. – Kai Yuen, imperador chinês da época, distribui cópias do Tao Te King a todos os súditos do império, efetuando ainda a ingestão de determinada medicação taoísta denominada “pedra dourada”. Multiplicam-se, a partir daí, as artes mágicas.

827 – 835 d.C. – O imperador Pao-Li expulsa todos os médicos taoístas por não concordar com a discórdia promovida pelos mesmos e as muitas dissensões instaladas por eles entre o povo, enviando-os para as duas províncias mais ao Sul da Índia.

841 – 847 d.C. – Wu Tsung, também imperador chinês, determina o fechamento de todos os monastérios budistas e taoístas, todavia, restabelece o taoísmo mais tarde, reputando-o favorável ao império. Ao budismo, entretanto, reputou religião estrangeira, estigmatizando-a. Ingere a medicação taoísta na esperança de que seus ossos se tornem em sublime pureza para que, nessa esperança, sonhasse com a possibilidade de voar.

1661 – 1721 d.C – O imperador Kang Hsi ordena a punição dos taoístas, declarando-os charlatãs, punição que também deveria ser estendida a todos que se submetiam como pacientes. Decreta proibição às reuniões e manifestações públicas do taoísmo, enxugando as inúmeras ramificações já existentes.

1900 d.C. – Ocorre à revolução dos chamados “boxers”, uma ardente ramificação taoísta. Essas pessoas criam na imunidade de seus corpos aos projéteis balísticos disparados pelas armas dos estrangeiros, por aceitarem literalmente as palavras exatas do fundador: “Quando vier entre os soldados, ele não precisará temer nem armas nem armaduras...”.

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