quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

XINTOÍSMO

Originalmente, o xintoísmo não possuía nome, doutrina nem dogmas. Constituía-se em um conjunto de ritos e mitos que explicavam a origem do mundo, do Japão e da família imperial. Os protagonistas desses mitos eram os Kamis, deuses ou energias divinas que habitam todas as coisas e se sucedem por gerações, desde a criação do mundo. Recebe o nome de xintoísmo (caminho dos deuses) para se distinguir do confucionismo e do budismo.


O xintoísmo é a religião principal dos japoneses, reconhecida pelo Estado como sendo a oficial. Também é uma das profissões de fá mais antigas do mundo.

Sua peculiaridade em relação às demais se define por não se tratar de uma instituição baseada em um sistema exclusivamente de crenças, possuindo mais de uma definição, entre as quais uma delas enxerga a religião como uma maneira muito familiar de vida e com associação a lugares familiares.

Entre os nipônicos, o amor à pátria é, em primeiro lugar, proveniente do coração, como ocorre entre todas as outras nações, mas, em segundo plano, acham-se ligado às questões doutrinárias do xintoísmo.

Noutra definição, o xintoísmo surge revelando práticas religiosas tradicionais que também se originam no Japão, desenvolvendo-se naturalmente entre seus nativos, os quais aprendem a aplicar seus valores e atividades diárias a conceitos que se relacionam com a questão religiosa, formando, então, receita que propaga todo o conjunto.

Ainda segundo essa definição, o xintoísmo não possui um corpo doutrinário bem definido e dotado de organização, tampouco de um código de conduta coeso e sistemático.

Suas raízes rememoram épocas longínquas, quase inacessíveis aos mais jovens, revestindo-se de toda nostalgia de períodos imemoráveis da história japonesa. Entretanto, desde que o povo japonês tomou ciência da posse de valores culturais próprios e da quase sacralização de suas tradições, passaram a testemunhar que estas mesmas tradições, práticas, atitudes e patriotismo foram se condensando para que, imperceptivelmente, apresentassem um xintoísmo já devidamente formado.

HISTÓRIA DO XINTOÍSMO


Como religião puramente japonesa, e considerando a antiguidade dessa nação, constatamos que sua fundação também jaz num período remoto.

O amor e o respeito que o povo japonês declina em louvor aos seus arquipélagos fomentam a crença de que dessa região tenha principiado toda a criação divina, idéia que percorre a linha do tempo da história xintoísta, juntamente com seus conceitos inaugurais.

Esse idealismo nacional e amor pátrio são os pontos de maior relevância quando o assunto é a presença exclusiva dessa cultura religiosa apenas em solo japonês. A crença a respeito da divindade desse território, embora antiga, surgiu como dogma bem mais tarde.

Nessa condição, a crença proporcionou a revelação de mais uma faceta do patriotismo japonês, que trata sobre o suposto fato de que nenhuma outra nação no mundo é divina. Atrelado a isso, surgiu a crença na divindade (Deus) de sua terra, tão especial e sem par, mas também tão ausente dos outros lugares do globo, que os leva a dizer que o Japão seria “o centro do nosso universo de fenômenos”.

É dessa crença que surge o nome do país, dado pelos próprios nativos: Nippon, significando “a origem do sol”.

Enquanto durou a 2ª Guerra Mundial, era comum o ensino que transmitia aos pequenos a procedência divina dos imperadores japoneses, supostamente provenientes da deusa Amaterasu. Ainda segundo a tradição, essa deusa teria concedido à casa imperial japonesa o direito divino de governar, entretanto, essa prerrogativa encontra seu fim em 1946, quando o imperador Hiroito repeliu esse suposto direito divino de administração temporal.


RELIGIÃO OFICIAL


O imperador japonês Meiji estabeleceu o xintoísmo como religião oficial do Japão, substituindo, então, o budismo, entretanto, como se mostrava patente a simpatia do povo por muitos cultos e práticas budistas, em 1877 o governador admitiu aos conservadores budistas a prática de seus rituais em solo japonês. Essa concessão impulsionou, dois anos mais tarde, a decretação da completa liberdade religiosa.

O xintoísmo oficial, classificado por todos como ritual patriótico que desconsidera as predileções religiosas de cada indivíduo, homenageia seu imperador, cuja decretação se dá em 1882. Essa oficialização visava atender aos interesses práticos da sociedade e do Estado. Depois do sucesso militar japonês na 1ª Guerra Mundial, entre 1914 e 1918, implanta-se novamente na comunidade o conceito de personalidade divina que sempre se atribuiu ao imperador, mas a derrota de 1945, durante a 2ª Guerra Mundial, condenou o xintoísmo à abolição de sua oficialidade religiosa.

Essa queda retirou das mãos do governo a administração dos santuários xintoístas, determinando, até os tempos hodiernos, uma manutenção patrocinada pela iniciativa privada nacional japonesa.


O QUE SIGNIFICA “XINTOÍSMO”


O vocábulo nipônico shinto se origina em uma nomenclatura chinesa transcrita como shen-tao, ambas traduzidas por “caminho dos deuses”. Todavia, a aplicação desse termo à religião japonesa só ocorreu no século 6° d.C., e isso com a finalidade de evidenciar sua distinção do budismo.

Com relação à terminologia, vale destacar uma característica xintoísta única, que se refere à noção que se tem de Kami. Essencialmente, refere-se ao conceito do poder sagrado que se crê existir tanto no inanimado quanto naquilo que tem vida.

Eruditos da fé xintoísta definiram o termo Kami e seu significado, explicando que essa religião mostrava – e prossegue mostrando – um poderoso senso de presença de deuses e de espíritos ligados à natureza, aos quais se atribui o termo Kami, traduzido, nessa ótica, por seres superiores”, o que propicia a veneração a essas personalidades do além.

O contingente declarado desses seres impossibilita a criação de um rol sistemático que sirva a uma organização na adoração e a planejar uma hierarquia sistematizada, de forma estável. Mas, entretanto personagens, obviamente se destaca uma, a “deusa sol”, Amaterasu, que já ocupa o centro do panteão xintoísta há muito tempo.

O xintoísmo prega que o primeiro “deus” celestial teria dado orientações a Izanagi e a Izanami, divindades macho e fêmea do panteão japonês, para que criassem o mundo e, em particular, as ilhas que compõem o território japonês. Mas os expositores xintoístas revelaram, posteriormente, que o mundo e as ilhas são a mesma coisa.

Empregando, segundo a crença, o processo de geração sexual, criaram, então, a terra, os kami (deuses) dos montes, das árvores e dos riachos, o Deus do vento e o Deus do fogo, assim prosseguindo até a constituição completa do planeta. Amaterasu é uma divindade que parece não possuir a eternidade, vinda à existência eventualmente, acumulando, ainda, o título de “grande deusa do sol”.

Mesmo considerando que seus personagens usufruem poderes de divindades, a linha que os separa dos homens é por demais estreita. Os japoneses xintoístas acreditam que descendem dos kami (deuses), e que a linhagem dos imperadores deriva de uma potestade superior, que seria a própria Amaterasu. Essa deusa teria enviado seu filho, Ni-ni-gi, para a terra (Japão), a fim de governá-la em seu lugar em seu lugar, providencia que determinou a procedência da linhagem imperial japonesa. Foi essa tradição que impôs, em tempos hodiernos, um xintoísmo que determinou a expansão nacionalista.

Outra divisão quase nebulosa é verificada entre Kami (deuses), que supostamente se dividem entre os pessoais e os impessoais. Os impessoais, segundo a classificação xintoísta, deriva do fato de eles não serem associados a lugares ou coisas particulares, o que atribuiria personalidade a essas entidades. Além disso, vale ressaltar que a mitologia que cerca alguns deuses e deusas é estritamente antropomórfica, isto é, procura atribuir forma humana a santidades às quais se devotam.


ESCRITOS SAGRADOS


Embora os xintoístas não cultivem a crença de que volumes isolados possam apresentar veracidade quanto às revelações plenamente inspiradas, e sobre as quais a religião esteja alicerçada, atribuem sacralidade a dois volumes de sua literatura, que exercem influência sobre o comportamento do povo. São eles: o Ko-ji-ki, ou “registro das questões antigas”, e Nihon-gi, as “crônicas do Japão”.

A escrituração de ambas é atribuída a uma mesma época e data aproximadamente (720 d.C.), e se prestam a narrar os eventos sucedidos no Japão há, aproximadamente, mil e trezentos anos antes, antecedência que não impede que sejam classificadas como obras recentes, devido à antiguidade histórica do xintoísmo.


KO-JI-KI – É o mais antigo documento escrito de que se tem conhecimento no idioma japonês, estando eivado de mitologia, lendas e enredos históricos ligados ao desenvolvimento dessa civilização, aos antepassados dos imperadores e à corte imperial, considerando uma data um pouco mais precisa para sua redação: 712 d.C.


NIHON-GI – Foi estabelecido como compilação em 720 d.C. e carrega em seu conteúdo a crônica sobre a origem do Japão e os fatos decorridos até 700 d.C.


DESENVOLVIMENTO


O desenvolvimento desse grupo ocorreu em estágios periódicos. O primeiro vê seu nascimento numa época pré-histórica que se alonga até 552 d.C, quando o xintoísmo reinava soberanamente entre o povo japonês, não registrando, até esse estágio, qualquer rivalidade considerável com outras religiões.

De 552 d.C. em diante, paralelamente ao xintoísmo, encontramos o budismo em ascensão, conquistando popularidade entre os nipônicos.

Já em 645, Kotoku adere ao budismo, repelindo o xintoísmo com todos os seus ideaispráticas e cultura patrióticas. Entre 800 e 1700, o xintoísmo aparece dando os primeiros sinais de adesão ao sincretismo, misturando sua essência com elementos budistas e confucionistas, formando aquilo que posteriormente passou a ser chamado ryobu, isto é, um xintoísmo em dois aspectos. Nessa época, a modalidade de xintoísmo que poderíamos qualificar como “raiz” sofreu um drástico declínio.


O REAVIVAMENTO


Por volta de 1700, o xintoísmo vivencia um necessário avivamento, com o qual estudiosos contribuíram analisando textos arcaicos relacionados às origens mais remotas dessa crença.

Hirata, um dos mais eruditos membros de grupo de cooperação avivalista, pronunciou-se a esse respeito afirmando que as duas doutrinas xintoístas fundamentais são:

a) O Japão é o país dos deuses e, conseqüentemente, seus habitantes são descendentes dessas divindades. Entre o povo japonês e os chineses, os indianos, os russos e os outros povos do mundo, há uma diferença de espécie e não somente de grau, segundo ressalvam.

b) O Mikado (termo usado por estrangeiros para se referirem ao imperador) é o verdadeiro filho do céu, o qual tem o direito de reinar sobre os quatro oceanos e também sobre os dez mil países.

Do suposto fato da origem divina do povo japonês é que brota a crença da superioridade sobre os demais povos da terra, quanto à coragem e a inteligência. Propagam-se, ainda, a honestidade e a pureza de coração, o que os impele a evitar teorias inúteis e falsidades, como declaram ocorrer freqüentemente no seio de outras pátrias.

Foram essas concepções que reavivaram o xintoísmo no seio da nação japonesa, que passou a acreditar, com uma convicção ainda maior, que esses estudos confirmaram a origem divina tanto do povo quanto do território nipônico.


ADORAÇÃO


Esse procedimento, que define o xintoísmo como religião, ocorre nos numerosos templos que se acham distribuídos por todo o território japonês.

A cultura dos seguidores, embora pareça considerar importante a construção de um altar doméstico, ensina que o lugar propício para que haja adoração é o templo local. O xintoísmo, à semelhança de outras religiões orientais, também detém um panteão de deuses que impede práticas sistemáticas de adoração a todos.

As obras sacras do xintoísmo ensinam que apenas algumas das muitas divindades possuem consideração para que possam ser adoradas com solidez, mas há uma que se destaca das demais: Amaterasu.

Essa divindade possui um grande e exclusivo santuário imperial dedicado apenas à sua adoração, e está localizado em Isé, a 360 quilômetros de Tóquio, sendo considerado, pelos praticantes, o principal centro de adoração do Japão. Dedicar-se à adoração nesse templo é rotina que remonta aos tempos anteriores a Jesus Cristo. Os muçulmanos peregrinam em Meca, os cristãos em Jerusalém e os xintoístas nesse templo, cujas dependências dispõem de um pátio externo onde os fiéis se aglomeram para que possam proceder ao ritual, enquanto os sacerdotes e os oficiais se aglomeram para que possam proceder ao ritual, enquanto os sacerdotes e os oficiais do governo ocupam o pátio interno.

Amaterasu, como principal divindade japonesa, tem sua sexualidade definida como feminina, já que se insere, no ato da adoração, que é dela que provêm todos os antepassados divinos da cultura xintoísta, o que se constitui em elemento único, caso consideremos as principais formas de divindade cultuadas pelo homem ao redor do mundo.

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