quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

ZOROASTRISMO

Os expositores dessa religião asseveram que ela possui uma peculiaridade não encontrada nas demais crenças. Trata-se da eterna batalha entre o bem e o mal, a qual exerce um impacto muito mais expressivo que aquele declarado ou percebido pelos seus mais de cem mil seguidores.


Sua fundação é atribuída a um homem que teria vivido cerca de seiscentos anos antes do nascimento de Cristo, e cujo nome serviu de batismo a essa comunidade religiosa – Zoroastro. Esse personagem é originário da região babilônica, extremamente produtiva em matéria de religião e que, atualmente, está ocupada pelo Irã e Iraque.

Seu nome deriva de uma variação grega do original – Zarathushtra, essencialmente persa. Não há informações precisas sobre a data e o local de seu nascimento, mas o próprio nome leva à inferência de uma natalidade ocorrida na Pérsia (atual Irã) e a tradição, quanto ao nascimento, propõe um período que se aproxima de 650 a.C. Entretanto, estudiosos do tema, como Richard Cavendish, declaram haver muitas dúvidas quanto a esses dados.


HISTÓRIA


A fundamentação histórica na qual se acha envolto o zoroastrismo é extremamente frágil. Ele teria sido fundado por Zoroastro, personagem a quem sequer se consegue definir local de moradia, onde porventura tenha passado sua vida, e muito menos por quanto tempo viveu e quanto do zoroastrismo posterior preservou suas idéias.

A única base para uma análise é a tradição, que o coloca instalado na parte ocidental do Irã, no século 6° a.C., num período pouco anterior ao Buda indiano. Mas, contestando a tradição, estudos mais modernos passaram a propor uma existência na região Nordeste do Irã, entre as divisas dos atuais Afeganistão e Turcomenistão.

Outra especulação atribui a existência de Zoroastro numa época ainda mais antiga, entre 1700 a.C. e 1500 a.C., mas habitando as planícies da Ásia Central.

Também é a tradição que concede a Zoroastro a paternidade de um comerciante de camelos, nascido e criado numa época em que seus conterrâneos persas eram dados à adoração de vários deuses.

A adolescência de Zoroastro já registrava momentos de manifesto interesse pelas questões religiosas e de meditação nas mais profundas dúvidas do homem quanto aos mistérios da vida. A postura de compaixão lhe concedeu renome entre os seus contemporâneos, destacada a condolência que sempre demonstrava, em especial para com os idosos.

Sua educação teria sido privilegiada, considerando que toda a sua formação advinha das melhores escolas de mestres existentes na Pérsia. A inquietude, porém, não o abandonava, e Zoroastro, aos vinte anos de idade, preferiu deixar o lar e os pais para partir em busca das respostas às suas dúvidas existenciais. Nesse período de buscas, tantos quantos passavam por Zoroastro se tornavam alvos de seus questionamentos religiosos.

Segundo narra a tradição, durante todo esse período de intermináveis inquirições, Zoroastro teria empregado suas habilidades médicas para beneficiar aqueles que eram constantemente vitimados pelas guerras incessantes daquela época.

Ao atingir a idade de trinta anos, teria alcançado a iluminação, sucedida as margens do rio Daitya, quando, numa visão, surgiu-lhe uma figura colossal, que, na oportunidade, se autodenominou Vohu Manah (Bom Pensamento). Essa figura teria levado Zoroastro à presença de outra divindade cósmica tida como “sábio senhor”, que atendia pelo nome de Ahura Mazda, e o instruía na verdadeira religião.

Após esse fato incomum, ele teria dedicado os próximos dez anos de sua vida à propagação das verdades recém-descobertas, mas de forma modesta e sem alcançar adesão significativa entre seus ouvintes.

O movimento iniciado por Zoroastro obteve expressividade somente quando ele conseguiu que o príncipe Vishtaspa aderisse às suas idéias e, não só isso, antes, Vishtaspa cooperou com Zoroastro na divulgação de seus conceitos. Esse significativo apoio foi decisivo para o rápido crescimento zoroastrista nos anos que se seguiram.

Esses tradicionais registros de fatos pertinentes à história do zoroastrismo trazem em seu bojo referência de duas guerras dita “santas” que teriam ocorrido em razão da fé que se apresentava, sendo que, no segundo conflito, Zoroastro teria morrido, quando então já contava setenta e sete anos de idade.

Sua morte, de qualquer forma, jamais impedira a resistência do movimento zoroastrista, bem como seu crescimento, embora de forma tímida. Seus seguidores, imediatamente, se desfizeram das práticas místicas e cessaram a adoração que se prestava a vários ídolos, até então exercidas entre os adeptos, estabelecendo, a partir daí, uma crença monoteísta que também sustentava a certeza na existência do céu e do inferno.


ESCRITOS SAGRADOS


O livro sagrado do zoroastrismo é conhecido pelo nome típico de Avesta, originalmente redigido num antigo dialeto iraniano, o avestan. A obra original, entretanto, já não existe, à exceção de pequenos fragmentos, algo em torno de dez por cento do que se acha no Livro Máximo do cristianismo, a Bíblia.

Está redigido na forma de hinos, orações e orientações para as práticas ritualísticas, e é dividido em três partes, a mais antiga é chamada Yasna. Dentro dessa arcaica porção, encontra-se relacionados cinco hinos denominados Gathas, composto em um idioma ainda mais antigo que todo o mais da obra, de onde se infere que é nessa coleção de cânticos que se encontram as palavras que possam ter pertencido a Zoroastro.


GATHAS – Prestam-se a exaltação da divindade venerada entre os zoroastristas, o Ahura-Mazda, considerado, por todos os seguidores, como o único Deus Supremo, além de fazer declarações acerca da recompensa que se reserva aos justos e que se acha previstas para o final desta era. Esses hinos acomodam ainda em seu conteúdo uma exortação que se dirige aos vivos.


YASHTS – A segunda parte do Avesta, de igual importância, é chamada de Yashts. Curiosamente, apresenta hinos que se destinam a várias divindades.


VIDEVDAT – A terceira parte, conhecida por Videvdat, fora escrita num tempo bem posterior ao das duas primeiras partes. Essa última seqüência contem a lei contra os demônios, juntamente com outros códigos e normas.
Os sacerdotes do zoroastrismo são conhecidos por magi, francos praticantes das artes mágicas quando o ritual se refere à comunhão com Deus. É daqui que deriva a palavra portuguesa “mágica”.


AHURA-MAZDA


De acordo com o zoroastrismo, existe apenas uma divindade à qual se possa aplicar o título de verdadeira, ou seja, legítima, e para qual devemos declinar adoração. Seu nome é Ahura-Mazda, o “senhor sábio”. Nas primeiras linhas da literatura sagrada dos zoroastras, essa divindade é exaltada com uma espécie de louvor semelhante a este que transcrevemos: “Ahura-Mazda, o criador, radiante, glorioso, maior e melhor, o mais belo, o mais firme, o mais sábio, o mais perfeito, o espírito mais generoso”.


ANGRA-MAINYU


Embora o zoroastrismo considere apenas Ahura-Mazda como sua suprema divindade, a tradição revela que, posteriormente à implantação desse conceito, o supremo ser sofreria uma severa oposição de outra entidade espiritual poderosa, conhecida como Angra-Mainyu, ou Ahriman (espírito mau). Essa animosidade estaria presente nessas duas criaturas espirituais desde o começo de toda a existência.

São os dois espíritos primários, segundo a crença do zoroastrismo, os quais, numa visão sucedida com o fundador, revelaram-se como gêmeos, então classificados como “melhor” e “mau”, em pensamentos, palavras e ações, entre os quais, apenas os sábios sabem definir corretamente cada personalidade.

A união que se consagrou entre dois seres no princípio estabeleceu a Vida e a Não-vida, quando se definiu a realidade de uma “pior existência”, popularmente chamado “inferno”, reservada àqueles que seguem a mentira. Do outro lado, o chamado “melhor pensamento” (paraíso), está preparado para os que seguem o que é correto.

Esses dois poderes têm atuado juntamente desde o princípio de todas as coisas, sendo certo que essa aversão mútua persistirá até o fim do mundo.

Os propagadores da crença zoroastrista, no decorrer do desenvolvimento da doutrina, promulgaram sete atributos para cada uma das divindades, relação que recebeu o título de Amesha-stentas. Tal relação se resume em correspondentes contrários, que são:



Ahura-Mazda             Angra-Mainyu

Deus da luz                 Deus das trevas

Direito e justo             Falso

Boa mente                  Mente ruim

Poder                        Covardia

Amor                        Pretensão falsa

Saúde                       Miséria

Imortalidade             Aniquilamento


JULGAMENTO FUTURO


O zoroastrismo foi uma das primeiras profissões de fé a propagar a esperança de uma vitória definitiva do bem sobre o mal, além do dogma que define um juízo vindouro para aqueles que preferiram seguir o mau caminho, bem como a recompensa que se reserva para todos os que se tornaram partidários do bem.


INFLUÊNCIAS RELIGIOSAS


Os mais conceituados estudiosos da matéria religiosa têm observado uma clara influência do zoroastrismo nas três principais religiões do mundo, ou seja, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Numa mostra de opinião coesa, esses estudiosos declaram que a importância do zoroastrismo sempre primou mais pela qualidade que pela quantidade.

Seu maior significado repousa no fato de ter infligido inegável influência nas principais e mais numerosas profissões de fé mundiais. Sua contribuição para o judaísmo é observada por duas vezes:


1ª - Em 538 a.C., oportunidade em que os persas, sob o comando de Ciro, conquistaram a Babilônia e libertaram os judeus que se achavam em exílio naquela região;

2ª - Em 330 a.C., quando o império persa foi destruído por Alexandre, o Grande.


Nessas épocas, o povo judeu se achava sob o governo dos zoroastristas. Parece ter sido por meio dessa classe religiosa que os judeus aprenderam a crer num Ahriman, isto é, num “diabo” pessoal, personalidade que, no hebraico, receberia o nome de Satanás. Atribuem que também vem da cultura zoroástrica a crença num céu, num inferno e num dia de julgamento, quando cada indivíduo será avaliado segundo suas obras.

Ensinam esses eruditos, ainda, que, de todas as novas religiões extrabíblicas, o zoroastrismo é a única que teve suas doutrinas emprestadas para serem incluídas na Bíblia. É reconhecido por todos que o Antigo Testamento, em todo o seu contexto épico, incluindo o livro do profeta Isaías e o exílio, tem como fonte originária o Deus Yahweh.

Após o exílio, entretanto, constatou-se uma sutil mudança. Realizada uma comparação entre dois relatos paralelos de uma mesma experiência do rei Davi, ficou provado que um documento pós-exílico substitui “Iavé” (1Cr 21.1) por “Satanás”, no relato pré-exílico (2Sm 24.1). Diante disso, “Satanás” acaba não constituindo uma figura originária da Bíblia, antes, fora ali esculpido a partir do conhecimento extraído do zoroastrismo.

É possível, partindo deste fato, comentam os eruditos, que outras inovações tenham sido extraídas da doutrina zoroástrica pelos hebreus após o contato direto que eles tiveram com essa religião durante o exílio babilônico.

Neste mesmo exemplo, pode-se aproveitar a idéia de uma constituída doutrina na área da angelologia e da demonologia; de um grande Salvador ou Libertador que viria; de uma ressurreição e julgamento final, além de uma existência no pós-morte bem definida. Alegam, ainda, que se pode ter por certo que a palavra “paraíso”, proclamada por Jesus em Lucas 23.43, ao menos em sua etimologia, deriva-se de uma palavra persa, o avestan “pairidaeza”.


SITUAÇÃO ATUAL DO ZOROASTRISMO


Observa-se, nos anais das principais religiões do mundo, o arrolamento de seguidores que sempre excede os milhões. Baseados nessa perspectiva astronômica, temos que a presença do zoroastrismo no mundo, quando apreciada a partir de sua representatividade astronômica, temos que a presença do zoroastrismo no mundo, quando apreciada a partir de sua representatividade, é ínfema. O número de seguidores dos ensinos de Zoroastro, na Índia e no Paquistão, estaciona na marca dos cem mil; localidades onde eles são rotulados com o nome de parsis.

Dado o fato de não admitirem mais convertidos entre suas fileiras, a automaticidade da extinção do grupo já mostra seus sérios efeitos. O Irã também acomoda alguns milhares de adeptos de Zoroastro, havendo comunidades ainda menores da América do Norte, na Grã-Bretanha, na África Oriental e em Hong Kong.

A diminuta sociedade zoroástrica, entretanto, apresenta riqueza de idéias, quando comparadas às demais religiões bem estabelecidas entre os homens, o que fica evidenciado na influência que ainda exercem nos povos em que se abrigam.

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