sexta-feira, 19 de março de 2010

APRENDENDO A LER A BÍBLIA

INTRODUÇÃO

A interpretação bíblica é essencial para a compreensão e para o ensino correto da Bíblia. Certas pessoas "adulteram a palavra de Deus" intencionalmente, conforme cita II Coríntios 4.2. Por isso é necessário observar e entender o significado, compreender o sentido para a época, depois entender o que a mensagem bíblica quer dizer para os dias de hoje e aplicá-la.

Na Bíblia existem alguns textos que têm várias interpretações. Entre eles pode-se citar:
1- João 10.28 - pode significar segurança eterna;

2- Colossense 1.15 - pode significar que Cristo é o primogênito de toda criação;

3- Naum 2.4 - pode significar o trânsito de hoje ou as carruagens de guerra da época;

4- Lucas 10.30-37 - pode significar que a hospedaria é a igreja e as duas moedas são a ceia e o batismo.

Algumas denominações evangélicas defendem o livre exame e interpretação das Escrituras, porque cada indivíduo criado por Deus tem o direito de examinar a Bíblia e chegar às suas próprias conclusões sobre a mensagem. Entretanto, esta forma é perigosa, pois se esta interpretação for feita de qualquer forma ou sem as técnicas devidas, pode-se chegar às mais incríveis e absurdas conclusões.

Apesar de ser uma das escolas mais freqüentadas do mundo inteiro, a EBD—Escola Bíblica Dominical, pode trazer sérias conseqüências na vida dos seus alunos. Se todos derem a sua opinião sobre determinado assunto sem estudá-lo corretamente, não chegarão a uma conclusão plausível, porque cada um terá uma opinião.

A Bíblia relata um fato entre Filipe e o eunuco (oficial da corte da rainha de Candace, Etiópia), que se encontra no livro de Atos 8.25-40. Há um diálogo pequeno a princípio, mas que é suficiente para que o livro de Isaías, que estava sendo lido, fosse compreendido.

“E correndo Filipe, ouviu que lia o profeta Isaías, e disse: Entendes, porventura, o que estás lendo?

Ele respondeu: pois como poderei entender, se alguém não me ensinar? E rogou a Filipe que subisse e com ele se sentasse”.

Este relato mostra que há necessidade de que a Bíblia seja interpretada, de uma forma correta e esta deve ser feita por uma pessoa capacitada. Saber interpretar a Bíblia não é um ato de orgulho e nem de vergonha, mas de obediência aos ensinamentos da Palavra de Deus. No Antigo Testamento encontra-se um relato referente ao estudo e a explicação da Bíblia, conforme consta no livro de Neemias 8.1-12. Através deste e de outros relatos nota-se a necessidade de interpretar a Bíblia.

A etapa essencial da interpretação é a observação. Observar algo é sondar, meditar, refletir, etc. O ato de observar atentamente algo leva ao descobrimento de algo também. Quem observa, explora e descreve; enquanto que quem interpreta, explica e determina o sentido. Por isso, um necessita do outro.

No texto de Salmo 1, pode-se entender a importância da interpretação em conjunto com a observação. O versículo 2 diz:

“Antes tem o seu prazer na lei do Senhor, e na sua lei medita dia e noite”.

Ao observar o texto, pode-se ver uma necessidade de meditar na Lei de Deus (Torah) o dia inteiro, mas, ao interpretar o texto descobre-se que a palavra meditar, do hebraico ieheggeh significa estudar em meia voz, murmurar. Então, é necessário ter um forte desejo pela Lei de Deus e estudar continuamente nela, em meia voz, murmurando.

O versículo 3 diz:

“Pois será como a árvore plantada junto às correntes de águas, a qual dá o seu fruto na estação própria, e cuja folha não cai; e tudo quanto fizer prosperará”.

Ao analisar a Bíblia Hebraica nota-se que o verbo utilizado pelo salmista é o shatol, que significa mudar uma planta, isto é transplantar. Então, o justo não é como uma árvore plantada, mas sim, transplantada. Só nestes dois versículos encontra-se uma enorme diferença e importância para o estudo bíblico.

Por isso que é importante saber a diferença entre observar um texto e interpretá-lo. Observar, interpretar e aplicar faz parte de um processo para chegar a uma boa interpretação bíblica. A interpretação bíblica é um meio que visa um fim, diz o Dr. Roy B. Zuck. Mas estudar a Bíblia não é apenas ver o que ela diz e conhecer o seu significado. É preciso aplicá-la à vida, tornando assim, um processo completo.

Ao começar a ler a Bíblia, o estudante amplia o seu vocabulário com várias palavras, até então, desconhecidas ou insignificantes. Entre elas pode-se citar: graça, misericórdia, perdão, concupiscência, fornicação, etc. E estas passam a fazer parte da vida do estudante, por isso há a necessidade de fazer uma interpretação para que haja uma boa aplicação.

Aprender a interpretar a Bíblia é muito importante, porque a interpretação afeta no modo de agir e de viver de quem a faz e a ouve.

Estudar a Bíblia, por estudar, não é o suficiente, é preciso utilizar a hermenêutica. Esta é essencial para a interpretação.

DEFINIÇÃO DE HERMENÊUTICA

A palavra hermenêutica tem a sua origem no nome de Hermes, um Deus da mitologia grega, que servia de mensageiro dos deuses transmitindo e interpretando suas comunicações aos afortunados ou desafortunados destinatários.

Entretanto a palavra hermenêutica é derivada do termo grego hermeneuo, ermneuw (que significa interpreto, traduzo). Platão foi o primeiro a empregar a palavra hermenêutica como termo técnico.

Hermenêutica é a arte de hermeneia, ermneia (interpretação), ou melhor, designa a teoria dessa arte.

Berkhof define a hermenêutica como a ciência que ensina os princípios, as leis e os métodos de interpretação; enquanto Virkler, a define tecnicamente, como a ciência e a arte da interpretação bíblica. Ela é considerada ciência porque tem normas, regras e estas podem ser classificadas num sistema ordenado. Também é considerada como arte porque a comunicação é flexível e, portanto, uma aplicação mecânica e rígida apenas, pode distorcer o verdadeiro sentido de uma comunicação. Por isso há necessidade de aprender as regras da hermenêutica, assim como, à arte de aplicá-las.

O estudo da hermenêutica tem o propósito de interpretar as produções literárias do passado. Sua tarefa especial é indicar o meio pelo qual possam ser removidas as diferenças entre o autor e os seus leitores, em qualquer época.

Ao utilizar a hermenêutica na interpretação da Bíblia, é preciso conhecer alguns problemas que serão enfrentados. Isso ocorre porque ela se relaciona diretamente com outras áreas do estudo bíblico, entre esses estão: o cânon, as críticas textual e histórica, a exegese, as teologias sistemática e bíblica.

Estudo do Cânon – Visa a determinar quais livros trazem o selo da inspiração divina e quais não o trazem.


Cítica Textual – Procura averiguar o fraseado primitivo de um texto.

Crítica Histórica – Estuda as circunstâncias contemporâneas que cercam a composição de determinado livro.

Exegese – É uma aplicação dos princípios da hermenêutica à compreensão do significado que o autor pretendia dar.

Teologia Bíblica – Organiza os significados de uma forma histórica.


Teologia Sistemática – Dispõe esses significados em forma lógica em temas.

PROBLEMAS PARA A INTERPRETAÇÃO:

a) Cronológico: está relacionado ao fato da Bíblia ter sido escrita há muito tempo atrás. O primeiro livro foi escrito aproximadamente há 3.400 anos e o último em torno de 1.900 anos;

b) Geográfico: influencia pelo fato que a maioria dos leitores está longe demais de onde os fatos ocorreram. Sem contar que quase tudo mudou ou tudo realmente mudou;

c) Cultural: a maior parte da cultura mudou. Além de ser muito diferente a forma de pensar e agir hoje em dia;

d) Lingüístico: como já se sabe, a Bíblia foi escrita nas línguas: hebraica, aramaica e grega. Estas contêm muitos detalhes importantes e ricos para um conhecimento mais detalhado em relação à Bíblia. Entretanto, foi por causa dessas línguas e das mudanças naturais, que surgiram os problemas em relação às interpretações textuais, conforme consta nos melhores manuscritos encontrados;

e) Literário: as diferenças contidas nos estilos de escritos utilizados nos tempos bíblicos com os de hoje são enormes. Um bom exemplo é o fato de o N.T. utilizar muitas parábolas, enquanto que no A.T. utiliza muitos provérbios e salmos, entre outros estilos.

O importante é que o estudante da Bíblia saiba que para estudá-la é preciso ter bom senso, paciência, disposição e dedicação ao analisar os textos.

Antes de começar a estudar a hermenêutica e suas técnicas é preciso lembrar que o livro a ser estudado é a Bíblia.

HERMENÊUTICA GERAL E ESPECIAL

Cada conjunto de regras é inigualável, mas não mutuamente exclusivo (os dois conjuntos podem ser usados para estudar um só trecho). Qualquer trecho das Escrituras pode ser estudado por meio das regras gerais da hermenêutica, mas alguns deles não podem ser completamente entendidos sem a ajuda adicional das regras de hermenêuticas especiais que se relacionam com aquele tipo de literatura de modo específico.

Hermenêutica Geral – É o estudo das regras que regem a interpretação do texto bíblico inteiro.

Hermenêutica Especial – É o estudo das normas literárias específicas, como parábolas, tipos e profecia.

POR EXEMPLO: Sabendo que o Salmo 23 é uma forma poética de literatura escrita na linguagem figurada, o estudante é capacitado a determinar com bastante facilidade que Deus não está ordenando que os crentes fiquem deitados no capim das pastagens verdes. Pelo contrário, o Senhor os está encorajando a confiar nele para todas as necessidades físicas.

EXEGESE E A EISEGESE

O termo exegese deriva-se de uma palavra grega que significa “conduzir para fora” e eisegese de um vocábulo que significa “conduzir para dentro”. Assim, a exegese é o processo de ir até o texto a fim de determinar o seu sentido e “trazer para fora” a interpretação correta. Por outro lado, a eisegese ocorre quando a pessoa aborda o texto com preconceitos e torce a mensagem da Bíblia, extraindo dela um sentido que o estudante deseja de antemão.

Resumindo: a exegese ocorre se a aplicação provém genuinamente do texto e a eisegese a aplicação é artificialmente imposta sobre o texto.

AS PRINCIPAIS LEIS DA HERMENÊUTICA

As principais leis da hermenêutica bíblica que auxiliam na interpretação das Escrituras são:

• Lei do contexto – Contexto é a parte que vem antes ou depois do texto. Diz-se que não se deve interpretar um texto sem o auxílio do contexto, para não se fazer um pretexto. Para entender a aplicação desta lei, recomendamos a leitura dos seguintes textos: (Sl 23.1; Fl 4.13).

• Lei do texto paralelo – Um texto deve ser auxiliado na sua interpretação utilizando o mesmo assunto que ocorre em outras partes das Escrituras Sagradas. Para entender a aplicação desta lei, recomendamos a leitura dos seguintes textos: (Mt 27.38; Mc 15.27; Lc 23.39-43); (Mt 7.7-12; Lc 11.9-13).

• Lei da autoria do texto – Os diferentes autores da Bíblia viveram em tempos, culturas, situações sociais e regiões diferentes. Portanto, a forma de apresentação de um determinado texto para um povo, que viva situações diferentes, deve ser comparado com outros em tempo ou forma remota. Para entender a aplicação desta lei, recomendamos a leitura dos seguintes textos: (Ef 5.22-27; Dt 22.5).

• Lei da interpretação do texto – A interpretação do texto é aquilo que a passagem quer dizer no tempo, no espaço e nas circunstâncias em que foram escritas. O literalismo busca o que o texto quer dizer (Jo 21.6) e o simbolismo busca o que a figura quer dizer (Ap 3.20).

• Lei da aplicação do texto – Um mesmo texto pode ser aplicado a pessoas ou clãs vivendo em épocas ou situações geográficas diferentes (cf. Mt 13.24-30).

• Lei da implicação do texto – Num sentido filosófico, pode-se dizer que uma pessoa geme porque está doente. Nesta ilustração, encontramos a lei da implicação – a manifestação patente (explícita) do latente (implícito). (2Sm 12.10)

A BÍBLIA E SEU INTÉRPRETE

A Unidade e diversidade na bíblia

De uma forma inquestionável, a Bíblia é uma. Ela mantém a sua unidade e, ao mesmo tempo, a sua diversidade, que não é contraditória, antes, é uma diversidade com multiplicidade de riquezas literárias, metodológicas, doutrinais e propósitos de Deus. Eis alguns pontos:
A Unidade orgânica da Bíblia

Os livros da Bíblia constituem uma “unidade orgânica”. “A Bíblia não é comparada a uma catedral de acordo com os planos de um arquiteto, porém, se compara a uma árvore majestosa”. Trata-se do resultado de um crescimento progressivo desde Gênesis até Apocalipse. Como exemplos, temos:

• As passagens citadas para provar a inspiração da Bíblia mostram o fato de que ela tem um autor principal: o Espírito Santo;

• Sem ignorar sua variedade, vemos que o conteúdo bíblico apresenta uma unidade admirável. O centro de todos os livros da Bíblia é Jesus Cristo;

• A revelação progressiva de Deus também prova a unidade bíblica. Esse desenvolvimento gradual marca os períodos e as épocas em que a escritura foi sendo completada;

• As citações coletivas da Escritura também indicam sua unidade. Os escritores do Novo Testamento, com freqüência, fazem referências ao Antigo Testamento;

• A unidade da Escritura é provada quando observamos que os autores do Novo Testamento, ao citar o Antigo Testamento, aplicam algumas das passagens citadas num sentido que não está evidente no Antigo Testamento sem, com isso, alterar a sua verdade;

A Diversidade orgânica da Bíblia

Podemos enxergar a distinção entre o Antigo e o Novo Testamento nos seguintes aspectos:

• Quanto ao conteúdo – O Antigo Testamento contém a promessa; o Novo Testamento, o cumprimento. O primeiro aponta para a vinda de Cristo e nos conduz a Ele, o segundo tem Cristo e o seu ponto de partida e contempla a sua expiação para perdoar o pecado do mundo;

• Quanto à forma – O Antigo Testamento é profético; o Novo Testamento é apostólico. O elemento simbólico, bastante salientado no primeiro, é pouco enfático no segundo. O fator divino é muito mais destacado no Antigo Testamento do que no Novo. No primeiro, o Espírito Santo age sobre os escritores externamente; no segundo, o Espírito Santo habita na Igreja e opera sobre os apóstolos internamente;

• Quanto à linguagem – O Antigo Testamento foi escrito em hebraico, com exceção de algumas partes dos livros de Daniel, poucos versículos em Jeremias e Esdras, que foram escritos em aramaico; o Novo Testamento foi escrito em grego koiné.

A Distinção entre formas fundamentais de revelação de Deus

• Deus deu sua revelação em partes, em forma de naturalidades históricas;

• Deus demonstrou a sua vontade por meio de escritos didáticos ou discursos, como contemplamos no Pentateuco, mediante os discursos de Moisés, e no Novo Testamento por meio das parábolas e discursos de Jesus;

• Deus nos fez conhecer os mistérios de seu reino por intermédio das profecias, que interpretam os caminhos divinos no passado, revela sua vontade no presente e nos dá uma visão gloriosa para o futuro;

• Deus também se revelou por meio de poesia, na qual é possível ouvir os sons ritmados da poderosa orquestra celestial, saciando os gritos ansiosos da alma humana;

• Por último, ainda temos de considerar a distinção entre os vários livros da Bíblia. O Espírito Santo usou profetas e apóstolos, com suas características pessoais, seus conhecimentos e talentos naturais, e, de modo orgânico, suscitou naturalmente uma grande diversidade;

Necessidades básicas do intérprete

• Ser convertido a Jesus Cristo (cf. Is 55.7; Jr 18.11; Ez 33.11; Mt 18.3; 1Pe 2.25). Uma boa interpretação da Bíblia resultará de:

- Uma consciência pura: “E por isso procuro sempre ter uma consciência sem ofensa, tanto para com Deus como para com os homens” (At 24.16);

- Uma mente santificada: “Porque quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo” (1Co 2.16);

• Alcançar uma maturidade progressiva no desempenho dos trabalhos do Senhor. Na vida cristã, mensuramos a maturidade pelo grau de perfeição, integridade e experiência pessoal com Cristo (Gn 17.1; Dt 18.13; Mt 5.48; Ef 4.13; 2Tm 3.17; Tg 1.4);

• Ter o Espírito Santo como mestre por excelência na busca de poder e conhecimento da Palavra de Deus. Devemos lembrar que o Espírito Santo somente ajuda, guia e completa a promessa da Palavra de Deus quando o indivíduo é sincero, estudioso e obediente (Jo 14.17, 26; Gl 5.16);

• Estudar com diligência a Palavra de Deus, com a finalidade de descobrir a verdade eterna e conhecer a vontade de Deus, a ponto de aceita-la e praticá-la como servos fiéis do Senhor (Dt 6.17; Pv 13.4; 1Tm 4.14, 15);

• Manter-se sempre humilde para estudar a Palavra de Deus (Jó 22.29; Sl 25.9; Pv 1.7; 11.2; Mt 5.3; 11.29; Tg 4.6). Quando o orgulho e a carnalidade tomam conta do cristão, não existe a possibilidade de se entender a Bíblia. É necessário despojar-se de todo e qualquer comportamento pré-conceituoso para se alcançar a sabedoria de Deus;

• Ser uma pessoa de oração, e não apenas um teórico. Realmente, a oração é a porta aberta para a luz que vem do Senhor. Se até aqui a divulgação das boas novas triunfou, isso, indubitavelmente, se deve às lágrimas derramadas na oração dos escolhidos do Senhor (1Rs 9.3; 2Rs 19.4; Sl 5.3; 65.2; 102.17; 141.2; Is 26.16; Mt 21.22; At 12.5; Rm 12.12; Ap 5.8);

• Ter discernimento espiritual e usar o bom senso. Como filhos de Deus, purificados com o sangue de Cristo, devemos proceder com sabedoria, diferenciando o bem do mal e sempre agindo com imparcialidade. Este fundamento pode ser encontrado na própria palavra de Deus (1Rs 3.9; Mt 16.3; Lc 12.56; 1Co 2.14; Hb 5.24);

AS REGRAS DA HERMENÊUTICA BÍBLICA

REGRA FUNDAMENTAL

Em todo o documento de caráter oficial, há sempre pontos obscuros que são solucionáveis apenas a partir do seu próprio conteúdo. Quanto à Bíblia, é indispensável que seus pontos obscuros sejam resolvidos pela própria Bíblia: Scriture sacre sui ipsius interpres – A Sagrada Escritura se interpreta a si própria.

• Observe em Gênesis 3 que o primeiro intérprete da Bíblia foi satanás, dando a Palavra de Deus um significado diferente, distorcendo a Palavra escrita, omitindo uma parte e citando só o que lhe convém.

“Ora, a serpente era mais astuta que todas as alimárias do campo que o Senhor Deus tinha feito. E esta disse a mulher: é assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim? E disse a mulher à serpente: Do fruto das árvores do jardim comeremos, mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais. Então a serpente disse a mulher: certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal” (Gn 3.1-5).

• Algumas pessoas têm sido instrumentos do inimigo para enganar a humanidade com falsas interpretações das Escrituras. Ao conhecer essas interpretações particulares, o cristão deve persistir em que a primeira e fundamental regra da correta interpretação bíblica deve ser: a Escritura explicada pela Escritura, a Bíblia se interpreta a si própria.

• Quanto a ignorância (atitude involuntária) ou violação (atitude voluntária e consciente) da regra fundamental, alguns têm encontrado aparente apoio nas Escrituras para cometer erros capitais. Ao fixar-se em versículos e palavras tiradas de seu contexto e não deixando a Escritura explicar-se a si mesma, os judeus encontram aparente apoio no Antigo Testamento para rejeitar a Jesus Cristo, o Messias e Salvador. A mesma atitude pode ser vislumbrada sem dificuldades entre as inúmeras religiões e seitas existentes em nosso mundo contemporâneo.

• Algumas pessoas, por falta de esclarecimento, chegaram à conclusão de que, com a Bíblia, podem provar o que quiserem. A indiferença, a incredulidade, a preguiça de estudar a Bíblia, a aceitação de idéias falsas e mundanas e a ignorância de toda a regra de interpretação norteiam este comportamento.

• Ao contrário disso, o discípulo humilde e douto na Palavra sabe que a “a lei do Senhor é perfeita” e que não há erro na Palavra de Deus.

• “Nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação”, afirma Pedro; e Jesus nos exorta a examinar as Escrituras para encontrarmos nela a verdade, e não interpreta-la para estabelecermos a verdade segundo a vontade do homem.

• Os eminentes escritores da Antiguidade já afirmavam que as Escrituras constituem-se em seu melhor intérprete. Compreende-se a Palavra de Deus melhor comparando o espiritual com o espiritual, isto é, a Escritura pela Escritura: “As quais também falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais” (1Co 2.13).

• Portanto, é indispensável observar a referida regra das regras. A saber: A Bíblia interpreta-se a si mesma. Esta regra fundamental é que abrirá o campo para outras regras específicas e bíblicas.

OUTRAS REGRAS DA HERMENÊUTICA BÍBLICA

PRIMEIRA REGRA

Os cristãos devem ter consciência de que os escritores das Escrituras Sagradas escreveram com a finalidade de deixar uma mensagem clara ao povo de Deus e ao mundo. Para isso, eles usaram palavras conhecidas e entendíveis pelo povo em geral. A garantia de ser uma mensagem clara está no fato de que a Bíblia tem muitos recursos internos, a ponto de explicar as passagens tidas como obscuras. Daí nasce à primeira regra:

É indispensável, o quanto seja possível, tomar as palavras em seu sentido usual e ordinário.

Farei três considerações sobre esta regra:

• Como se pode notar trata-se de uma norma suficientemente clara e simples, mas de grande importância. Ignorar este princípio, ou violar o estabelecido, só conduzirá a interpretações cegas e orgulhosas. Veja um exemplo de deslize causado pela violação desta regra:

“Todas as ovelhas e bois, assim como os animais do campo, as aves dos céus, e os peixes do mar, e tudo o que passa pelas veredas dos mares” (Sl 8.7,8). As menções de “ovelhas” e “bois” (v.7), para alguns curiosos, são interpretadas como sendo os crentes, e os “peixes do mar” (v.8) são tidos como sendo os incrédulos. Este é um exemplo de erro corriqueiro que poderia ser evitado simplesmente considerando-se o sentido usual e comum das palavras referidas.

• Deve-se, portanto, observar o cuidado e equilíbrio na atribuição dos sentidos das expressões, pois nem sempre se deve levar “ao pé da letra” uma determinada sentença. É obrigação do intérprete lembrar que cada idioma tem seus modos próprios e peculiares de expressão que, ao serem traduzidos literalmente, podem perder seus sentidos reais e verdadeiros. Vejamos um exemplo:

“Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno” (Mt 5.29). como poderíamos entender esta declaração? Se fôssemos interpretar esta declaração de modo literal (ao pé da letra) não haveria no mundo homem com olho direito. O que Jesus queria ensinar com esta declaração é que é vantajoso sacrificar algo com o objetivo de obedecer à vontade de Deus.

• Como todo idioma tem seus próprios modismos, com significações específicas, assim o povo hebreu se caracterizou por seus abundantes modismos que influenciaram fortemente a literatura e a teologia do mundo ocidental. Por esses motivos, o tratamento dos hebraísmos mereceria um tema à parte, porém, aqui, farei menção de apenas alguns exemplos.

- Em Gênesis 6.12, segundo a versão revista e corrigida da Bíblia, está escrito: “Porque toda carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra”. No seu sentido literal, as palavras “carne” e “caminho” fazem perder completamente o significado do texto. Entretanto, tendo em conta o seu sentido usual como figura, carne passa a significar pessoa e caminho, costume, modo de proceder ou religião, devolvendo, assim, a possibilidade de interpretação.

- Em Lucas 14.6, Jesus disse: “Se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo”. Uma interpretação literal deste versículo violenta o princípio e a prática do amor ao próximo e ao inimigo pregados pelo próprio Jesus no sermão da montanha. Mas aplicando o usual hebraísmo, chega-se à conclusão de que aqui se trata de dar preferência a Deus em detrimento da família.


SEGUNDA REGRA


Tanto na literatura secular quanto na linguagem bíblica existem palavras que variam muito em seu significado, dependendo do sentido da frase ou do argumento de que se trata. Assim, é importante indagar qual é o pensamento específico do escritor para determinar o sentido viável da palavra que deve ser interpretada. Logo, a segunda regra diz:

É fundamental tomar as palavras no sentido que indica o conjunto da frase, isto é, o versículo bíblico.

• Ao analisarmos esta regra, comprovaremos a variação de palavras muito importantes numa frase, texto ou versículo da Bíblia. Vejamos:

- O termo salvação e seus derivados são empregados, com freqüência, no sentido de salvação do pecado com suas conseqüências. Todavia, em Atos 7.25 se lê que “E ele (Moisés) cuidava que seus irmãos entenderiam que Deus lhes havia de dar a salvação pela sua mão; mas eles não entenderam”. Pelo conjunto do versículo, compreende-se que, salvar significa uma libertação temporal.

- “Porque a nossa salvação está agora mais perto de nós do que quando aceitamos a fé” (Rm 13.11). Nesta declaração, salvação significa o retorno de Cristo.

- “Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação” (Hb 2.3). Pelo conjunto do texto, salvação aqui significa toda revelação do evangelho.

• Atente para o fato de que esta ocorrência é comum com outras palavras também. O termo sangue, por exemplo, igualmente vai depender do conjunto de frases escritas pelo autor. Ao falar da crucificação de Cristo, os judeus disseram:

- “Caia sobre nós o seu sangue, e sobre nossos filhos” (Mt 27.25). Direcionados pelo conjunto da frase, concluímos que sangue aqui significa a culpa e suas conseqüências por matar um homem justo.

- “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça” (Ef 1.7) e “Sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira” (Rm 5.9). Pelo conjunto das frases, a palavra sangue aqui refere-se à morte expiatória de Cristo na cruz.


TERCEIRA REGRA


Nem sempre é suficiente estudar apenas o conjunto de uma frase para determinar o verdadeiro sentido de certas palavras. Neste caso, é necessário observar um versículo ou vários versículos que antecedem e sucedem o texto para encontrar a expressão obscura e os elementos esclarecedores que há no contexto. Resumindo, a terceira regra diz:

É essencial tomar as palavras no sentido indicado no contexto, isto é, os versículos que antecedem e seguem o texto que se investiga.

• No contexto, achamos expressões, versículos ou exemplos que nos esclarecem e definem o significado da palavra obscura.

- Paulo disse: “Por isso, quando ledes, podeis perceber a minha compreensão do mistério de Cristo” (Ef 3.4). Verificando os versículos anteriores e posteriores, conclui-se que o termo “mistério” refere-se à participação dos gentios (outros povos - não judeus) nos benefícios do evangelho. Em outros versículos, a mesma palavra pode ter sentido diferente.

- “Quando éramos menores, estávamos servilmente sujeitos aos rudimentos do mundo” (Gl 4.3,9-11). Os versículos posteriores a este nos explicam que rudimentos são as práticas dos costumes judaicos.

• Em algumas circunstâncias, é possível encontrar no contexto o esclarecimento de uma palavra obscura por meio do sinônimo ou ainda pelo seu antônimo. Por exemplo, o termo “aliança”, empregado em Gálatas 3.17, se explica pelo vocábulo promessa, que aparece no final do mesmo versículo. Veja: “Mas digo isto: que tendo sido a aliança anteriormente confirmada por Deus em Cristo, a lei, que veio quatrocentos e trinta anos depois, não invalida, de forma a abolir a promessa”.

Os termos “arraigados” e “edificados” mencionados em Colossenses 2.7 são explicados pela expressão confirmados na fé, que vem em seguida: “Arraigados e edificados nele, e confirmados na fé, assim como fostes ensinados, nela abundando em ação de graças”.

• Ás vezes, uma palavra que expressa uma idéia geral e absoluta deve ser tomada num sentido restrito, segundo determine alguma circunstância especial do contexto, ou melhor, o conjunto das declarações em assuntos de doutrina. Observe isto tendo como parâmetro a declaração de Davi: “Julga-me, Senhor, segundo a minha retidão, e segundo a integridade que há em mim” (Sl 7.8). Pelo contexto, entende-se que Davi só proclama sua retidão e integridade em oposição às calúnias que Cuxe, o benjamita, levantara contra ele.

• Ainda é necessário esclarecer que a regra do contexto não se limita apenas a uma frase. De fato, o tratamento do contexto pode tanto ser muito pequeno como pode ser muito abrangente. O contexto, neste sentido, é gradativo. Veja:

Palavra – Frase – Capítulo – Livro – Bíblia

O importante é conseguir demarcar os limites necessários para a descoberta do significado no texto a ser interpretado.


QUARTA REGRA


No caso da ausência de outros recursos elucidativos, acrescenta-se esta regra para facilitar o domínio interpretativo da Palavra de Deus. A quarta regra expressa o seguinte:

É importante considerar o objetivo ou desígnio do livro ou passagem em que ocorrem as palavras ou expressões obscuras.

• O objetivo ou desígnio de um livro ou passagem se adquire lendo-o e estudando-o com seriedade, repetidamente, sempre tendo em consideração em que ocasião, para qual pessoa e em que língua foi originalmente escrito. Em alguns casos, o objetivo do livro encontra-se registrado em suas próprias páginas. Por exemplo:

- Um dos objetivos de toda a Bíblia encontra-se expresso assim: “Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que pela paciência e consolação das Escrituras tenhamos esperança” (Rm 15.4; V. tb. 1Tm 3.16,17).

- O objetivo dos evangelhos pode ser explicado pelo seguinte texto: “Estes, porém, foram escritos para que creias que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20.31).

- O objetivo da carta de Pedro encontra-se em 1Pedro 3.2, o de Provérbios em Provérbios 1.1-4 e etc.

• Um estudo diligente nos fará alcançar o desígnio de um livro ou passagem, esclarecendo e explicando pontos obscuros e contraditórios. Por exemplo, as epístolas dirigidas aos Gálatas e aos Colossenses foram escritas na ocasião em que os judaizantes ou “falsos mestres” procuravam implantar seus erros doutrinários nas igrejas apostólicas. Portanto, estas cartas têm por desígnio expor, com extrema clareza, a salvação pela morte expiatória de Cristo e não pelas obras (observância de dias e cerimônias judaicas), a disciplina do corpo e a filosofia que mascarava a falsidade.

• Tendo um objetivo determinado, desaparecem as aparentes contradições. A contradição superficial entre a declaração de Paulo, que diz que o “o homem é justificado pela fé sem as obras”, e a declaração de Tiago, que diz que “o homem é justificado pelas obras e não somente pela fé”, desaparece quando levamos em conta o desígnio diferente que trazem as respectivas cartas (Rm 3.28; Tg 2.24). Paulo combate e rejeita o erro dos que confiavam nas obras da lei mosaica como meio de justificação, refutando a fé em Cristo, enquanto que Tiago combate o erro de alguns indisciplinados que se satisfazem com uma fé imaginária, descuidando e rejeitando as boas obras. Paulo trata da justificação pessoal diante de Deus, enquanto Tiago se ocupa da justificação pelas obras diante dos homens. Os dois escritores harmonizam a fé e as obras diante de Deus e dos homens.


QUINTA REGRA


Outra regra importante que enriquece o trabalho de interpretação bíblica diz respeito às passagens paralelas. Isto é, as passagens que fazem referências umas as outras, que possuem entre si alguma relação ou, de alguma forma, tratam de um mesmo assunto. A quinta regra diz assim:

É necessário consultar as passagens paralelas explicando as coisas espirituais pelas espirituais (1Co 2.13).

Observaremos agora três classes de paralelos: de palavras; de idéias e de ensinos gerais.

• Paralelo de palavras – Quando o conjunto de frases ou regras do contexto não esclarece uma palavra duvidosa, procura-se, em alguns casos, o verdadeiro sentido consultando outros textos em que ela ocorre.

- Em Atos 13.22 está registrado que Davi foi um “homem segundo o coração de Deus”. Significa isto que Davi foi perfeito? No texto paralelo, em 1Samuel 2.35, Deus disse: “Suscitarei para mim um sacerdote fiel, procederá segundo o que tenha no coração”. Considerando toda a passagem, conclui-se que Davi, especialmente em sua qualidade de sacerdote-rei, procederia segundo o coração ou a vontade de Deus. Esta interpretação é confirmada na passagem paralela do capítulo 1Samuel 13.14, na qual se comprova que, em vista da rebeldia e má conduta de Saul como rei, Davi seria homem segundo coração de Deus.

• Paralelo de idéias – Se quisermos alcançar uma informação completa e exata do que ensina a Sagrada Escritura em determinado texto obscuro ou discutível, é importante consultarmos os ensinos, as narrativas e os fatos contidos em passagens que esclarecem o texto tido como obscuro ou discutível. Vejamos alguns casos:

- Quando Jesus disse: “Sobre esta pedra edificarei a minha igreja” (Mt 16.18), será que Jesus quis dizer que Pedro era o fundamento da igreja? Será que Pedro de fato é o primeiro papa?

Veja que Cristo não disse: “Sobre ti, Pedro, e sim, “sobre esta pedra edificarei a minha igreja”. Neste caso, as próprias palavras de Cristo e de Pedro, os melhores intérpretes, esclarecem o problema. Em Mateus 21.42,44 verifica-se que Jesus é a “pedra angular”, profetizada e tipificada no Antigo Testamento. O próprio Pedro (1Pe 2.4-8) declara que Cristo é a pedra que vive, mas que foi rejeitada pelos judeus. O apóstolo Paulo reforça esta idéia ao falar que os irmãos de Éfeso estão “edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular, no qual todo edifício, bem ajustado, cresce para o santuário dedicado ao Senhor” (Ef 2.20,21). Esta mesma idéia paralelamente se encontra na admoestação de Paulo aos Coríntios: “Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo (1Co 3.10,11).

- Em 1Coríntios 11.22-29, encontramos o “comer pão e beber do vinho” como partes inseparáveis na ceia, pondo à disposição os elementos a todos os membros da igreja, sem distinção. Ocorre que há certos comportamentos antibíblicos que desconhecem os paralelos de idéias que, inclusive, estão na mesma passagem. Ao quebrar este princípio, uns participam apenas do pão e outros apenas do vinho, na comunhão.

• Paralelos de ensinos gerais – Felizmente, a Bíblia é um tesouro incomparável de coisas espirituais e práticas. Entretanto, precisamos saber manusear este tesouro. Por isso, se os paralelos de palavras e idéias não são suficientes para esclarecer um ponto doutrinário, é mister recorrer aos ensinos gerais das Escrituras (1Co 15.3,14; At 3.18; Rm 12.6).

- Segundo teor geral das Escrituras, Deus é espírito (Jo 4.4) onipotente, onisciente, puríssimo, santíssimo etc. estes atributos estão confirmados em muitas passagens da Bíblia. Da mesma forma, há muitas passagens que apresentam Deus com características de ser humano, limitando-o ao tempo, lugar, espaço e etc. estas passagens devem ser interpretadas à luz dos “ensinos gerais”. Os textos de aparente contradição se harmonizam à luz dos ensinos gerais exarados nas Escrituras.

- Nos paralelos aplicados à linguagem figurada é necessário determinar se uma passagem deve ser tomada literalmente ou em sentido figurado. O fato de alguém interpretar figuradamente não significa obrigatoriamente fazer que o objeto apontado adquira todas as características da figura, mas apenas envolvem as qualidades de destaque entre duas coisas, animais ou pessoas. Por exemplo, quando João Batista testemunhou de Cristo: “Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29), não quis afirmar com isso que Cristo tinha todas as características de um cordeiro, antes, referiu-se tão-somente ao seu caráter manso e ao seu destino de ser sacrificado, como ocorria frequentemente com o cordeiro sem defeito no contexto judaico. Outro exemplo, quando João, desta vez o apóstolo amado, disse: “Eis que o leão da tribo de Judá, a raiz de Davi...” (Ap 5.5), não quis representar aqui Cristo como um leão feroz e carnívoro, mas tão-somente aludiu à sua qualidade de rei poderoso, mais forte entre os homens, vitoriosos, simbolizando a tribo de Judá.


RECAPITULAÇÃO DAS REGRAS


Regra Fundamental – A Sagrada Escritura se interpreta a si própria

1ª Regra – É indispensável, o quanto seja possível, tomar as palavras em seu sentido usual e ordinário;

2ª Regra – É fundamental tomar as palavras no sentido que indica o conjunto da frase, isto é, o versículo bíblico;

3ª Regra – É essencial tomar as palavras no sentido indicado no contexto, isto é, os versículos que antecedem e seguem o texto que se investiga;

4ª Regra – É importante considerar o objetivo ou desígnio do livro ou passagem em que ocorrem as palavras ou expressões obscuras.

5ª Regra – É necessário consultar as passagens paralelas explicando as coisas espirituais pelas espirituais (1Co 2.13);


BIBLIOGRAFIA

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quinta-feira, 18 de março de 2010

CRONOGRAMA HISTÓRICO DO CRISTIANISMO NO BRASIL

INTRODUÇÃO

Para compreendermos melhor este cronograma histórico sobre o cristianismo, precisamos entender a razão do nascimento de Cristo na época dos césares e a difusão do cristianismo apostólico, buscando o contexto histórico, sociocultural, político e religioso no período do primeiro século da era cristã.

Muitas foram às contribuições do antigo mundo para a chegada de Cristo e sua doutrina. Ao estudarmos os períodos anteriores à vinda do messias, percebemos a providência divina ao preparar o cenário para a chegada de seu plano de salvação. O ambiente histórico em que Cristo surgiu cooperou, de modo colossal, para disseminação do evangelho. Nesse período, três povos, por sua rica contribuição, merecem destaque: os judeus, os romanos e os gregos.


OS JUDEUS – A mentalidade religiosa quanto á espera iminente de um Messias facilitou a aceitação da mensagem de Jesus como Messias prometido. Outro fator importante de contribuição foi o monoteísmo rígido, herdado da religião mosaica, com sua ética moralista baseada na lei de Moisés. Assim, o mundo religioso de então estava preparado psicologicamente para a chegada de um messias.


OS ROMANOS – O império romano dominava o mundo na época em que Cristo nasceu. A extensão do império, que concorreu para a unificação dos povos, facilitou a difusão da mensagem cristã. Outra contribuição foi proporcionada pela infra-estrutura das estradas e das cidades romanas. Com o anexo de novas terras, pelo desbravamento do exército romano, foi fácil a disseminação do evangelho em regiões estrangeiras. O latim e o grego eram línguas universais e facilitavam a transmissão das boas novas


OS GREGOS – Sem dúvida, uma das inestimáveis riquezas legadas pelos gregos foi sua língua. Tanto é que todo o Novo Testamento foi escrito em grego. Além disso, as idéias de seus famosos filósofos levaram o povo a inquirir sobre os mistérios da vida, sobre o ser e sobre Deus, razão e propósito de nossa existência. O evangelho oferecia respostas sensatas para todas essas questões intrigantes.

Enfim, todas essas contribuições, juntas, forneceram o ambiente propício para a chegada do Filho de Deus. Foi uma época ímpar, predestinada, como não houve em toda história.


O FUNDADOR

Seu nome era Yeoshua (Jesus). Sua mãe chamava-se Miriam (Maria), casada com Yussef (José), que era carpinteiro. Logo na infância, fora morar em Nazaré, cidade isolada nas montanhas da Galiléia, próxima da movimentada estrada que ligava Mesopotâmia ao Egito. Ali ele viveu e cresceu. Um judeu entre os judeus. Aparentemente, um homem entre os outros homens. Em Roma, reinava Tibério; na Galiléia, Herodes. Com seus “dentes de ferro”, Roma continuava conquistando terras, sem imaginar que ali estava uma força, muito superior à sua, que conquistaria mais vidas do que as sete colinas jamais sonharam. Um poder contra o qual o Império Romano empenharia toda a sua força para destruir, para depois cair vencidos de joelhos. Ali estava um homem que, de forma estranha e espantosa, colocaria seu nome acima de todo nome. Um homem que se apoderaria das vidas, dos corações e das mentes, como Roma se apoderava dos corpos. Um homem que era muito mais do que um homem. Alguém de quem sempre falaram as profecias e os profetas – Jesus de Nazaré, o Messias.

Ele chegou. Talvez, não como muitos esperavam, mas Ele chegou. E cada situação de sua vida era cumprimento das milenares palavras dos profetas. Multidões o seguiam porque experimentavam o poder de seus atos e a verdade de suas palavras. Foram apenas três anos e meio, preenchidos com curas, libertações e ensinos de sabedoria, ao fim dos quais, como um criminoso, foi levado a julgamento e, como o mais hediondo dos homens, foi colocado na cruz.

Mas sua morte não seria o fim. Seria apenas o começo de uma nova era. Pois segundo seus seguidores, Ele ressuscitou e dois mil anos de história são uma prova extremamente sólida de que ele veio ao mundo não por coincidência ou por acaso. Antes, Ele veio sim, de acordo com suas próprias palavras, “cumprir o que estava escrito” (no Antigo Testamento).

Desde então, homens passariam a contar os tempos como antes e depois dele. Tornou-se o marco divisor da História e o marco divisor das almas e da humanidade. Sua vida, suas palavras e seus feitos não puderam, de forma nenhuma, ser ignorados. A História encontrou seu centro, sua razão, seu núcleo, um eixo sobre o qual girar.


OS FUNDAMENTOS DO CRISTIANISMO

O pequeno grupo de Jerusalém iniciado pelos discípulos escolhidos por Jesus Cristo (12 Apóstolos) e por outros após sua morte e ressurreição, a princípio amarrado ao exclusivismo judaico, vai, pouco a pouco, se desprendendo de suas raízes étnicas. Com Paulo, a mensagem do evangelho ganha projeção mundial, não apenas geograficamente, pelo seu trabalho missionário, como também culturalmente, pela sua exposição da mensagem cristã dentro dos conceitos gregos. Seu vigoroso pensamento, formado por elementos tanto judeus quanto não-judeus, possibilitou ao Espírito Santo fazer de suas cartas uma boa nova para toda a humanidade: “... pela palavra da verdade do evangelho, que já chegou a vós, como também está em todo mundo; e já vai frutificando...” (Cl 1.5b).

Próximo ao ano 100 d.C. morria João, o último dos doze apóstolos. Mas o alicerce já estava lançado. Roma, o mundo e a história jamais seriam os mesmos. A pequena semente de mostarda começava a brotar e a crescer, para dar alívio e cura a um mundo mergulhado na idolatria, na violência, na homossexualidade, no infanticídio, na vazia especulação filosófica e na obscuridade do ocultismo. Enquanto o grande corpo (do Império Romano) foi invadido pela violência aberta, ou solapado pela lenta decadência, uma religião humilde e pura gentilmente insinuou-se dentro da mente dos homens, cresceu em silêncio e obscuridade, recebeu novo vigor da oposição e, finalmente, ergueu a triunfante bandeira da cruz sobre as ruínas do Império.


PRINCIPAIS DIVISÕES DO CRISTIANISMO

Da era apostólica até meados da Idade Média, a igreja tinha conseguido se manter una, mesmo com suas divergências políticas e teológicas, até que ficou insustentável o poder político (imperialista) que a igreja exercia no mundo. Vejamos os motivos das duas divisões que causaram as três igrejas.

Igreja Católica Apostólica Romana

Tudo vinha muito bem até a igreja se tornar em Império. Fazendo com que durante toda era Medieval, a Igreja Católica Romana tivesse o monopólio religioso de todo o Ocidente europeu. Pertencer à Igreja era conseqüência automática do nascimento de qualquer pessoa ocidental, e não havia lei ou costume que permitisse a ninguém renunciá-la. A dominação espiritual da Igreja se estendia por toda a Europa. É impossível compreender o papel e a influência da Igreja Católica Romana na era Medieval sem a compreensão de suas doutrinas religiosas básicas. Do século IV ao século XIII, várias doutrinas extra-bíblicas foram adotadas pelo catolicismo. Vejamos algumas delas:

- 431 a igreja começa a cultuar Maria como mãe de Deus.

- 503 decretam a existência do purgatório.

- 783 iniciam a veneração de imagens (idolatria).

- 933 a igreja instituiu a “canonização” de santos.

- 1074 é instituído o celibato.

- 1190 começam a conceder perdão e favores espirituais por dinheiro. A igreja inicia os negócios com as indulgências.

- 1208 começaram na missa, a “levantar” a hóstia, para que fosse adorada.

- 1215 o papa Inocêncio III, por decreto, instituiu a transubstanciação (presença literal de Cristo na hóstia), “valorizando” sobremaneira a missa.

Igreja Ortodoxa

As causas da separação da Igreja Oriental da Ocidental não foram repentinas, mas uma longa sucessão de fatores que culminaram no chamado “Grande cisma”. Inconscientemente, o passo da separação havia sido dado quando Constantino transferiu a sede do Império de Roma para Constantinopla, em 330. Depois, veio Teodósio, em 395, com a separação do Império em duas partes com líderes eclesiásticos distintos. Uniram-se a isto algumas diferenças de caráter litúrgico e doutrinário, que há anos vinham incomodando as duas igrejas, como, por exemplo, o incidente no século II sobre a questão da páscoa e, depois, a eleição do patriarca Fócio e sua defesa quanto à questão do filioque, a qual o papa questionou severamente. Também não menos importante é a oposição política entre a Constantinopla e o “Império” de Carlos Magno.

Finalmente, a tão abalada comunhão entre as duas igrejas recebeu o selo do cisma em 1054, quando o papa e o patriarca do oriente se excomungaram mutuamente por causa de uma disputa sobre a eucaristia. Desde então, surgiram duas igrejas: Ortodoxa Grega (Oriental) e a Católica Romana (Ocidental).

O cristianismo oriental possui uma cosmovisão diferente do cristianismo ocidental. Enquanto a igreja do ocidente experimentou várias transformações, a igreja do oriente permaneceu estática, tanto na doutrina como na liturgia. A teologia ocidental era mais inclinada a assuntos práticos, já a teologia oriental tendia para soluções de assuntos teológicos em termos filosóficos. Haja vista que a maioria das controvérsias religiosas entre 325 e 451 surgiram do oriente.

Enquanto a igreja no ocidente ficou livre do jugo do império, a do oriente ficou subordinada a este. Em 726, surge à controvérsia iconoclasta (uso de ícones na igreja), levantada por Leão III, uma verdadeira cruzada contra o uso de imagens. A igreja ortodoxa se engajou também na obra missionária, levando o evangelho aos búlgaros e aos russos. Produziu vários teólogos capacitados, como, por exemplo, João Damasceno, apontado pelos estudiosos como Tomás de Aquino do Oriente.

O choque com o islamismo, no século VII, e a perda de gente e de terras para os mulçumanos, junto com dois séculos de desavenças quanto ao uso de imagens, estagnaram o cristianismo no oriente.

Protestantismo

Mesmo após o grande “Cisma do Oriente”, a crise interna na Igreja Ocidental ainda era caracterizada pelo comportamento imoral da parte do clero, situação que se desenvolvera por séculos, desde a Idade Média. A simonia era uma prática comum secular, caracterizada pela venda de objetos considerados sagrados ou a venda de cargos religiosos. Os grandes senhores feudais compravam cargos eclesiásticos como forma de aumentar seu poder ou de garantir uma fonte de renda para seus filhos, originando um processo conhecido como “investidura leiga”, principalmente no sacro império. A preocupação com as questões materiais (poder e riqueza) levou principalmente o alto clero a um maior distanciamento das preocupações religiosas ou mesmo de caráter moral.

O nicolaísmo retrata um outro aspecto do desregramento moral do clero, a partir do qual o casamento de membros do clero levava-os a uma preocupação maior com os bens materiais, que seriam deixados em herança para os filhos e a partir daí determinavam o comportamento “mundano” dessa parcela do clero. Fatores econômicos (ascensão da burguesia), o aparecimento do renascentismo, a consolidação do absolutismo e etc. contribuíram para a Reforma Protestante.

Assim, em oposição ao abuso de venda de indulgências e as demais coisas citadas, promovida pela Igreja Católica Romana, surge no cenário eclesiástico, Martinho Lutero – monge agostiniano – que em 31 de outubro de 1517, afixou na porta da igreja do castelo de Wittenberg suas 95 teses contra as práticas absurdas da igreja, o que causou repercussão mundial. Em 1520, foi excomungado pelo papa e, no mesmo ano, queimou a bula de excomunhão em praça pública, rompendo, assim, definitivamente com a Igreja Católica. A partir daí, surgiu a Igreja Luterana, que foi inspiradora para o surgimento de outras denominações protestantes.

Antes de morrer, Lutero traduziu a Bíblia para o alemão popular (nesta época somente o clero tinha acesso as Escrituras) e escreveu inúmeras obras e tratados teológicos. Toda sua vida e obra basearam-se em três pilares: Sola Scriptura (somente a Escritura – a Bíblia), Sola Gratia (somente a graça de Deus) e Sola Fides (somente a Fé). Estes pilares ainda hoje são à base do pensamento protestante.


O CRISTIANISMO A CAMINHO DO BRASIL

Portugal surgiu como nação independente da Espanha durante a Reconquista (1139-1249), ou seja, a luta contra os muçulmanos que haviam conquistado boa parte da Península Ibérica vários séculos antes. Seu primeiro rei foi D. Afonso Henriques. O novo país tinha fortes ligações com a Inglaterra, com a qual iria firmar posteriormente o Tratado de Windsor, em 1386. O apogeu da história de Portugal foi o período das grandes navegações e dos grandes descobrimentos, com a conseqüente formação do império colonial português na África, Ásia e América Latina.

No final da Idade Média, a forte integração entre a igreja e o estado na Península Ibérica deu origem ao fenômeno conhecido como “padroado” ou patronato real. Pelo padroado, a Igreja de Roma concedia a um governante civil certo grau de controle sobre uma igreja nacional em apreciação por seu zelo cristão e como incentivo para futuras ações em favor da igreja. Entre 1455 e 1515, quatro papas concederam direitos de padroado aos reis portugueses, que assim foram recompensados por seus esforços no sentido de derrotar os mouros, descobrir novas terras e trazer outros povos para a cristandade.

Portanto, a descoberta e colonização do Brasil foi um empreendimento conjunto do Estado português e da Igreja Católica, no qual a coroa desempenhou o papel predominante. O estado forneceu os navios, custeou as despesas, construiu as igrejas e pagou o clero, mas também teve o direito de nomear os bispos, recolher os dízimos, aprovar documentos e interferir em quase todas as áreas da vida da igreja.


O CATOLICISMO NO BRASIL

O cristianismo chega no Brasil já no descobrimento e lança profundas raízes na sociedade a partir do período da colonização. Ordens e congregações religiosas assumem serviços nas paróquias e dioceses, a educação nos colégios, a evangelização do indígena e inserem-se na vida do país.

Frades franciscanos apareceram nas capitanias com precocidade. As missões propriamente ditas se instalaram mais tarde: em 1549 seis jesuítas (padres da Companhia de Jesus) acompanharam o governador-geral Tomé de Sousa, chefiados pelo padre Manuel da Nóbrega; ficaram famosos o padre José de Anchieta e o Padre João de Azpilcueta Navarro. Os carmelitas descalços chegaram em 1580, as missões dos beneditinos tiveram início em 1581, as dos franciscanos em 1584, as dos oratorianos em 1611, as dos mercedários em 1640, as dos capuchinhos em 1642. Durante o século XVI e o século XVII, a legislação buscou certo equilíbrio entre Governo central e Igreja, tentando administrar os conflitos entre missionários, colonos e índios.

Até meados do século XVIII, o Estado controlou a atividade eclesiástica na colônia por meio do padroado. Arcava com o sustento da Igreja e impedia a entrada no Brasil de outros cultos, em troca de reconhecimento e obediência. O Estado nomeia e remunera párocos e bispos e concede licença para construir igrejas. Confirma as condenações dos tribunais da Inquisição e escolhe as formas de punição; em contrapartida, controla o comportamento do clero, pela Mesa da Consciência e Ordens, órgão auxiliar do Conselho Ultramarino.

Em 1707, com as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, elaboradas por bispos em uma reunião em Salvador, a hierarquia da Igreja conquista mais autonomia. As constituições uniformizam o culto, a educação, a formação do clero e a atividade missionária. Não impedem, porém, o agravamento dos conflitos entre colonos e padres, em torno da escravização dos índios, que desembocam no fechamento da Companhia de Jesus pelo Marquês de Pombal em 1759. Nas décadas de 1860 e 1870, a Santa Sé, em Roma, decreta regras mais rígidas de doutrina e culto. Bispos brasileiros, como Dom Antônio de Macedo Costa, Bispo de Belém do Pará e Dom Vital de Oliveira, Bispo de Olinda, acatam as novas diretrizes e expulsam os maçons das irmandades. Isso não é aceito pelo governo, muito ligado à maçonaria, dando início à chamada Questão religiosa, culminando com o encarceramento e trabalhos forçados destes bispos em 1875.

Em 7 de janeiro de 1890, logo após a proclamação da República, é decretada a separação entre Igreja e Estado. A República acaba com o padroado, reconhece o caráter leigo do Estado e garante a liberdade religiosa. Em regime de pluralismo religioso e sem a tutela do Estado, as associações e paróquias passam a editar jornais e revistas para combater a circulação de idéias anarquistas, comunistas ou protestantes.

A partir da década de 30, o projeto desenvolvimentista e nacionalista de Getúlio Vargas influencia a Igreja no sentido de valorização da identidade cultural brasileira. Assim, a Igreja expande sua base social para além das elites, abrindo-se para as camadas médias e populares. A Constituição de 1934 prevê uma colaboração entre Igreja e Estado. São atendidas as reivindicações católicas, como o ensino religioso facultativo na escola pública e a presença do nome de Deus na Constituição. Nessa época, o instrumento de ação política da Igreja é a Liga Eleitoral Católica (LEC), que recomenda os candidatos que se comprometem a defender os interesses do catolicismo.

Contra a ascensão da esquerda, a Igreja apóia a ditadura do Estado Novo em 1937. São do período os círculos operários católicos, favorecidos pelo governo para conter a influência da esquerda.

Em 1952 é criada a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que coordena a ação da Igreja no país. No final dos anos 50, a Igreja preocupa-se com questões sociais geradas pelo modelo de capitalismo no país, como a fome e o desemprego. Em 1960, a Juventude Universitária Católica (JUC), influenciada pela Revolução Cubana, declara sua opção pelo socialismo. Pressões de setores conservadores da Igreja levam os militantes da JUC a criar um movimento de esquerda, a Ação Popular (AP). Na época, a Igreja está dividida quanto às propostas de reformas de base do presidente João Goulart.

Com o Regime Militar de 1964 crescem os conflitos entre Igreja e Estado. A partir de 1968, com o Ato Institucional nº 5 (AI-5), há uma ruptura total diante da violenta repressão - prisões, torturas e assassinatos de estudantes, operários e padres e perseguições aos bispos. Na época, a Igreja atua em setores populares, com as comunidades eclesiais de base. Inspiradas na Teologia da Libertação, elas vinculam o compromisso cristão e a luta por justiça social. Os abusos contra a ordem jurídica e os direitos humanos levam a Igreja a se engajar fortemente na luta pela redemocratização, ao lado de instituições da sociedade civil.

Ao longo dos anos 80 e 90, com a redemocratização da sociedade brasileira e com alguns de seus ensinamentos fortemente criticados pela Santa Sé, a Teologia da Libertação perde parte de sua influência. Nesse período cresce o vigor da Renovação Carismática Católica, surgida nos EUA. Em oposição à politização da Teologia da Libertação, o movimento busca uma renovação em práticas tradicionais do catolicismo pela ênfase numa experiência mais pessoal com Deus.

No transcorrer do século XX foi percebida uma diminuição no interesse em formas tradicionais de religiosidade. Um reflexo disso é a grande massa de católicos não-praticantes hoje presente no país. No censo IBGE de 2000, 40% dos que responderam ser católicos diziam ser "não-praticantes".

Na hierarquia católica brasileira estão hoje presentes três vertentes principais: o clero tradicionalista, mais conservador e defensor da ortodoxia; os remanescentes da Teologia da Libertação, que desde os anos 70 tem formado uma espécie de "esquerda" eclesiástica; e os adéptos da Renovação Carismática ou de Comunidades Carismáticas, movimentos mais recentes e vigorosos.

Algumas tradições populares do catolicismo no Brasil incluem as peregrinações à Nossa Senhora Aparecida, no lugar onde a santa fez sua aparição na cidade de Aparecida, localizada a 168 km da capital de São Paulo, e acabou por tornar-se a Padroeira do Brasil. Outros festivais importantes incluem Círio de Nazaré em Belém do Pará e a Festa do Divino Pai Eterno no Estado de Goiás(Brasil central).

A Renovação Carismática tem forte presença leiga e já responde sozinha por grande parte dos católicos praticantes no país. O movimento tende a ter uma moral conservadora e assemelha-se em certos aspectos às Igrejas Pentecostais, como no uso dos dons do Espírito Santo e na adoção de posturas que poderiam ser rotuladas como fundamentalistas.

Uma das Comunidades Carismáticas mais conhecidas é a Canção Nova que é presidida pelo Padre Jonas Abib, um dos precursores da Renovação Carismática Católica no Brasil, e possui um canal de televisão mantido por doações; a sua sede fica na cidade de Cachoeira Paulista. Outro ícone da RCC no Brasil é o Padre Marcelo Rossi, fenômeno de mídia e cultura de massas que surgiu no final da década de 90. Cantando e fazendo coreografias em programas de televisão e missas lotadas, ele se propõe a pregar a mensagem de Cristo conforme ensinada pela Igreja Católica.

É preciso citar também a significativa presença de outros grupos conservadores como a Opus Dei, o Caminho Neocatecumenal e o Regnum Christi dos quais participam milhares de pessoas no Brasil, suscitam um grande empenho e aprofundamento na fé dos leigos e têm apoio do clero.

O catolicismo apostólico romano ainda é a maior religião do Brasil desde o período colonial, quando foi introduzida por missionários que acompanhavam os colonizadores portugueses. A Igreja Católica exerce grande influência nos aspectos social, político e cultural dos brasileiros. O Brasil ainda hoje é considerado o maior país católico no mundo, pois aproximadamente 74% (ou quase 150 milhões) dos habitantes se declaram católicos.


PROTESTANTISMO NO BRASIL

Os primeiros protestantes chegaram ao Brasil ainda no período colonial. Dois grupos são particularmente relevantes:

Os franceses na Guanabara (1555-1567): no final de 1555, chegou à Baía da Guanabara uma expedição francesa comandada pelo vice-almirante Nicolas Durand de Villegaignon, para fundar a "França Antártica." Esse empreendimento teve o apoio do almirante huguenote Gaspard de Coligny, que seria morto no massacre do dia de São Bartolomeu (24-08-1572).

Em resposta a uma carta de Villegaignon, Calvino e a igreja de Genebra enviaram um grupo de crentes reformados, sob a liderança dos pastores Pierre Richier e Guillaume Chartier (1557). Fazia parte do grupo o sapateiro Jean de Léry, que mais tarde estudou na Academia de Genebra e tornou-se pastor (†1611). Ele escreveria um relato da expedição, História de uma Viagem à Terra do Brasil, publicado em Paris em 1578.

Em 10 de março de 1557, esses reformados celebraram o primeiro culto evangélico do Brasil e talvez das Américas. Todavia, pouco tempo depois Villegaignon entrou em conflito com as calvinistas acerca dos sacramentos e os expulsou da pequena ilha em que se encontravam.

Alguns meses depois, os colonos reformados embarcaram para a França. Quando o navio ameaçou naufragar, cinco deles voltaram e foram presos: Jean du Bordel, Matthieu Verneuil, Pierre Bourdon, André Lafon e Jacques le Balleur. Pressionados por Villegaignon, escreveram uma bela declaração de suas convicções, a "Confissão de Fé da Guanabara" (1558). Em seguida, os três primeiros foram mortos e Lafon, o único alfaiate da colônia, teve a vida poupada. Balleur fugiu para São Vicente, foi preso e levado para Salvador (1559-67), sendo mais tarde enforcado no Rio de Janeiro, quando os últimos franceses foram expulsos. A França Antártica é considerada como a primeira tentativa de estabelecer tanto uma igreja quanto um trabalho missionário protestante na América Latina.

Os holandeses no Nordeste (1630-54): depois de uma árdua guerra contra a Espanha, à Holanda calvinista conquistou a sua independência em 1568 e começou a tornar-se uma das nações mais prósperas da Europa. Pouco tempo depois, Portugal caiu sob o controle da Espanha por sessenta anos – a chamada "União Ibérica" (1580-1640).

Em 1621, os holandeses criaram a Companhia das Índias Ocidentais com o objetivo de conquistar e colonizar territórios da Espanha nas Américas, especialmente uma rica região açucareira: o nordeste do Brasil. Em 1624, os holandeses tomaram Salvador, a capital do Brasil, mas foram expulsos no ano seguinte. Finalmente, em 1630 eles tomaram Recife e Olinda e depois boa parte do Nordeste.

O maior líder do Brasil holandês foi o príncipe João Maurício de Nassau-Siegen, que governou o nordeste de 1637 a 1644. Nassau foi um notável administrador, promoveu a cultura, as artes e as ciências, e concedeu uma boa medida de liberdade religiosa aos residentes católicos e judeus.

Sob os holandeses, a Igreja Reformada era oficial. Foram criadas vinte e duas igrejas locais e congregações, dois presbitérios (Pernambuco e Paraíba) e até mesmo um sínodo, o Sínodo do Brasil (1642-1646). Mais de cinquenta pastores ou "predicantes" serviram essas comunidades.

A Igreja Reformada realizou uma admirável obra missionária junto aos indígenas. Além de pregação, ensino e beneficência foram preparados um catecismo na língua nativa. Outros projetos incluíam a tradução da Bíblia e a futura ordenação de pastores indígenas.

Em 1654, após quase dez anos de luta, os holandeses foram expulsos, transferindo-se para o Caribe. Os judeus que os acompanhavam foram para Nova Amsterdã, a futura Nova York.

Já o século XIX testemunhou a implantação definitiva do protestantismo no Brasil.

Primeiras manifestações:

Após a expulsão dos holandeses, o Brasil fechou as suas portas aos protestantes por mais de 150 anos. Foi só no início do século XIX, com a vinda da família real portuguesa, que essa situação começou a se alterar. Em 1810, Portugal e Inglaterra firmaram um Tratado de Comércio e Navegação, cujo artigo XII concedeu tolerância religiosa aos imigrantes protestantes. Logo, muitos começaram a chegar, entre eles um bom número de reformados.

Depois da independência, a Constituição Imperial (1824) reafirmou esses direitos, com algumas restrições. Em 1827 foi fundada no Rio de Janeiro a Comunidade Protestante Alemão-Francesa, que veio a congregar, ao lado de luteranos, reformados alemães, franceses e suíços.

Um dos primeiros pastores presbiterianos a visitar o Brasil foi o Rev. James Cooley Fletcher (1823-1901), que aqui chegou em 1851. Fletcher foi capelão dos marinheiros que aportavam no Rio de Janeiro e deu assistência religiosa a imigrantes europeus. Ele manteve contatos com D. Pedro II e outros membros destacados da sociedade; lutou em favor da liberdade religiosa, da emancipação dos escravos e da imigração protestante. Ele escreveu o livro O Brasil e os Brasileiros (1857), que foi muito apreciado nos Estados Unidos.

Fletcher não fez nenhum trabalho missionário junto aos brasileiros, mas contribuiu para que isso acontecesse. Foi ele quem influenciou o Rev. Robert Reid Kalley e sua esposa Sarah P. Kalley a virem para o Brasil, o que ocorreu em 1855. Kalley fundou a Igreja Evangélica Fluminense em 1858. No ano seguinte, chegou ao Rio de Janeiro o fundador da Igreja Presbiteriana do Brasil, o Rev. Ashbel G. Simonton.

Protestantismo de Imigração

"Ao iniciar-se o século XIX, não havia no Brasil vestígio de protestantismo" (B. Ribeiro, Protestantismo no Brasil Monárquico, 15).

Em janeiro de 1808, com a chegada da família real, o príncipe-regente João decretou a abertura dos portos do Brasil às nações amigas. Em novembro, novo decreto concedeu amplos privilégios a imigrantes de qualquer nacionalidade ou religião.

Em fevereiro de 1810, Portugal assinou com a Inglaterra tratados de Aliança e Amizade e de Comércio e Navegação. Este, em seu artigo XII, concedeu aos estrangeiros "perfeita liberdade de consciência" para praticarem sua fé. Tolerância limitada: proibição de fazer prosélitos e falar contra a religião oficial; capelas sem forma exterior de templo e sem uso de sinos.

O primeiro capelão anglicano, Robert C. Crane, chegou em 1816. A primeira capela foi inaugurada no Rio de Janeiro em 26-05-1822; seguiram-se outras nas principais cidades costeiras. Outros estrangeiros protestantes: americanos, suecos, dinamarqueses, escoceses, franceses e especialmente alemães e suíços de tradição luterana e reformada.

"Quando se proclamou a Independência, contudo, ainda não havia igreja protestante no país. Não havia culto protestante em língua portuguesa. E não há notícia de existir, então, sequer um brasileiro protestante" (B. Ribeiro, ibid., 18).

Com a independência, houve grande interesse na vida de imigrantes, inclusive protestantes. Constituição Imperial de 1824, art. 5º: "A religião católica apostólica romana continuará a ser a religião do Império. Todas as outras religiões serão permitidas com seu culto doméstico ou particular, em casas para isso destinadas, sem forma alguma exterior de templo."

1820 – suíços católicos iniciaram a colônia de Nova Friburgo; logo a área foi abandonada e oferecida a alemães luteranos que chegaram em maio de 1824: um grupo de 324 imigrantes acompanhados do seu pastor, Friedrich Oswald Sauerbronn (1784-1864).

A maior parte dos imigrantes alemães foram para o sul: cerca de 4.800 entre 1824 e 1830 (60% protestantes). Primeiros pastores: Johann Georg Ehlers, Karl Leopold Voges e Friedrich Christian Klingelhöffer.

Junho 1827: fundação da Comunidade Protestante Alemã-Francesa do Rio de Janeiro, por iniciativa do cônsul da Prússia Wilhelm von Theremin. Luteranos e calvinistas. Primeiro pastor: Ludwig Neumann. Primeiro santuário em 1837 (alugado); o edifício próprio foi inaugurado em 1845.

Por falta de ministros ordenados, os primeiros luteranos organizaram sua própria vida religiosa. Elegeram leigos para serem pastores e professores, os "pregadores-colonos." Na década de 1850, a Prússia e a Suíça "descobriram" os alemães do sul do Brasil e começaram a enviar-lhes missionários e ministros. Isso criou uma igreja mais institucional e européia.

Em 1868, o Rev. Hermann Borchard (chegou em 1864) e outros colegas fundaram o Sínodo Evangélico Alemão da Província do Rio Grande do Sul, que foi extinto em 1875. Em 1886, o Rev. Wilhelm Rotermund (chegou em 1874), organizou o Sínodo Rio-Grandense, que tornou-se modelo para outras organizações similares. Até o final da Segunda Guerra Mundial as igrejas luteranas permaneceram culturalmente isoladas da sociedade brasileira.

Uma conseqüência importante da imigração protestante é o fato de que ela ajudou a criar as condições que facilitaram a introdução do protestantismo missionário no Brasil. Erasmo Braga observou que, à medida que os imigrantes alemães exigiam garantias legais de liberdade religiosa, estadistas liberais criaram "a legislação avançada que, durante o longo reinado de D. Pedro II, protegeu as missões evangélicas da perseguição aberta e até mesmo colocou as comunidades não-católicas sob a proteção das autoridades imperiais" (The Republic of Brazil, 49).

Em 1930, de uma comunidade protestante de 700 mil pessoas no país, as igrejas imigrantes tinham aproximadamente 300 mil filiados. A maior parte estava ligada à Igreja Evangélica Alemã do Brasil (215 mil) e vivia no Rio Grande do Sul.

Protestantismo Missionário

As primeiras organizações protestantes que atuaram junto aos brasileiros foram às sociedades bíblicas: Britânica e Estrangeira (1804) e Americana (1816). Traduções da Bíblia: protestante – Rev. João Ferreira de Almeida (1628-1691); católica – Pe. Antonio Pereira de Figueiredo (1725-1797). Primeiros agentes oficiais: SBA – James C. Fletcher (1855); SBBE – Richard Corfield (1856) e o trabalho dos colportores.

A Igreja Metodista Episcopal foi a primeira denominação a iniciar atividades missionárias junto aos brasileiros (1835-41). Obreiros: Fountain E. Pitts, Justin Spaulding e Daniel Parish Kidder. Fundaram no Rio de Janeiro a primeira escola dominical do Brasil. Também atuaram como capelães da Sociedade Americana dos Amigos dos Marinheiros, fundada em 1828.

Daniel P. Kidder: figura importante dos primórdios do protestantismo brasileiro. Viajou por todo o país, vendeu Bíblias, contactou intelectuais e políticos destacados, como o Pe. Feijó, regente do império (1835-37). Escreveu Anotações de Residência e Viagens no Brasil, publicado em 1845, clássico que despertou grande interesse pelo nosso país.

James Cooley Fletcher (1823-1901): pastor presbiteriano, estudou em Princeton e na Europa, casou-se com uma filha de César Malan, teólogo calvinista de Genebra. Chegou ao Brasil em 1851 como novo capelão da Sociedade dos Amigos dos Marinheiros e como missionário da União Cristã Americana e Estrangeira. Atuou como secretário interino da legação americana no Rio e foi o primeiro agente oficial da Sociedade Bíblica Americana. Promotor entusiasta do protestantismo e do "progresso." Escreveu O Brasil e os Brasileiros, publicado em 1857.

Robert Reid Kalley (1809-1888): nascido na Escócia, estudou medicina e em 1838 foi trabalhar como missionário na Ilha da Madeira. Oito anos depois, escapou de violenta perseguição e foi com seus paroquianos para os Estados Unidos. Fletcher sugeriu que fosse para o Brasil, onde Kalley e sua esposa Sarah Poulton Kalley (1825-1907) chegaram em maio de 1855. No mesmo ano, fundaram em Petrópolis a primeira escola dominical permanente do país (19-08-1855). Em 11 de julho de 1858, Kalley fundou a Igreja Evangélica, depois Igreja Evangélica Fluminense (1863), cujo primeiro membro brasileiro foi Pedro Nolasco de Andrade. Kalley teve importante atuação na defesa da liberdade religiosa. Sua esposa foi autora do famoso hinário Salmos e Hinos (1861).

Igreja Presbiteriana: missionários pioneiros – Ashbel Green Simonton (1859), Alexander L. Blackford (1860), Francis J.C. Schneider (1861). Primeiras igrejas: Rio de Janeiro (12-01-1862), São Paulo e Brotas (1865). Imprensa Evangélica (1864), seminário (1867). Primeiro pastor brasileiro: José Manoel da Conceição (17-12-1865). A Escola Americana foi criada em 1870 e o Sínodo do Brasil surgiu em 1888.

Imigrantes americanos: estabeleceram-se no interior de São Paulo após a Guerra Civil americana (1861-65). Foram seguidos por missionários presbiterianos, metodistas e batistas. Pioneiros presbiterianos da Igreja do sul dos Estados Unidos (PCUS): George N. Morton e Edward Lane (1869). Fundaram o Colégio Internacional (1873).

Igreja Metodista Episcopal (sul dos EUA): enviou Junius E. Newman para trabalhar junto aos imigrantes (1876). O primeiro missionário aos brasileiros foi John James Ransom, que chegou em 1876 e dois anos depois organizou a primeira igreja no Rio de Janeiro. Martha Hite Watts iniciou uma escola para moças em Piracicaba (1881). A partir de 1880, a I.M.E. do norte dos EUA enviou obreiros ao norte do Brasil (William Taylor, Justus H. Nelson) e ao Rio Grande do Sul. A Conferência Anual Metodista foi organizada em 1886 pelo bispo John C. Granbery, com a presença de apenas três missionários.

Igreja Batista: os primeiros missionários, Thomas Jefferson Bowen e sua esposa (1859-61) não foram bem sucedidos. Em 1871, os imigrantes de Santa Bárbara organizaram duas igrejas. Os primeiros missionários junto aos brasileiros foram William B. Bagby, Zachary C. Taylor e suas esposas (chegados em 1881-82). O primeiro membro e pastor batista brasileiro foi o ex-padre Antonio Teixeira de Albuquerque, que já estivera ligado aos metodistas. Em 1882 o grupo fundou a primeira igreja em Salvador, Bahia. A Convenção Batista Brasileira foi criada em 1907.

Igreja Protestante Episcopal: última das denominações históricas a iniciar trabalho missionário no Brasil. Um importante e controvertido precursor havia sido Richard Holden (1828-1886), que durante três anos (1861-64) atuou com poucos resultados no Pará e na Bahia. O trabalho permanente teve início em 1890 com James Watson Morris e Lucien Lee Kinsolving. Inspirados pela obra de Simonton e por um folheto sobre o Brasil, fixaram-se em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, estado até então pouco ocupado por outras missões. Em 1899, Kinsolving tornou-se o primeiro bispo residente da Igreja Episcopal do Brasil.

Igrejas Pentecostais e Neo-Pentecostais

As três ondas do pentecostalismo brasileiro: (a) Décadas 1910-1940: chegada simultânea da Congregação Cristã no Brasil e da Assembléia de Deus, que dominam o campo por 40 anos; (b) Décadas 1950-1960: campo pentecostal se fragmenta, surgem novos grupos – Evangelho Quadrangular, Brasil Para Cristo, Deus é Amor e muitos outros (contexto paulista); (c) Anos 70 e 80: neopentecostalismo – Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus e outras (contexto carioca).

Congregação Cristã no Brasil: fundada pelo italiano Luigi Francescon (1866-1964). Radicado em Chicago, foi membro da Igreja Presbiteriana Italiana e aderiu ao pentecostalismo em 1907. Em 1910 (março-setembro) visitou o Brasil e iniciou as primeiras igrejas em Santo Antonio da Platina (PR) e São Paulo, entre imigrantes italianos. Veio 11 vezes ao Brasil até 1948. Em 1940, o movimento tinha 305 "casas de oração" e dez anos mais tarde 815.

Assembléia de Deus: fundadores: suecos Daniel Berg (1885-1963) e Gunnar Vingren (1879-1933). Batistas de origem, abraçaram o pentecostalismo em 1909. Conheceram-se numa conferência pentecostal em Chicago. Assim como Luigi Francescon, Berg foi influenciado pelo pastor batista W.H. Durham, que participou do avivamento de Los Angeles (1906). Sentindo-se chamados para trabalhar no Brasil, chegaram a Belém em novembro de 1910. Seus primeiros adeptos foram membros de uma igreja batista com a qual colaboraram.

Igreja do Evangelho Quadrangular: fundada nos Estados Unidos pela evangelista Aimee Semple McPherson (1890-1944). O missionário Harold Williams fundou a primeira IEQ do Brasil em novembro de 1951 (São João da Boa Vista). Em 1953 teve início a Cruzada Nacional de Evangelização, sendo Raymond Boatright o principal evangelista. A igreja enfatiza quatro aspectos do ministério de Cristo: aquele que salva, batiza com o Espírito Santo, cura e virá outra vez. As mulheres podem exercer o ministério pastoral.

Igreja Evangélica Pentecostal O Brasil Para Cristo: fundada por Manoel de Mello, um evangelista da Assembléia de Deus que depois tornou-se pastor da IEQ. Separou-se da Cruzada Nacional de Evangelização em 1956, organizando a campanha "O Brasil para Cristo," da qual surgiu à igreja. Filiou-se ao CMI em 1969 (desligou-se em 1986). Em 1979 inaugurou seu grande templo em São Paulo, sendo orador oficial Philip Potter, secretário-geral do CMI. Esteve presente o cardeal arcebispo de São Paulo, Paulo Evaristo Arns. Manoel de Mello morreu em 1990.

Igreja Deus é Amor: fundada por David Miranda (nascido em 1936), filho de um agricultor do Paraná. Vindo para São Paulo, converteu-se numa pequena igreja pentecostal e em 1962 fundou sua igreja em Vila Maria. Logo se transferiu para o centro da cidade (Praça João Mendes). Em 1979, foi adquirida a "sede mundial" na Baixada do Glicério, o maior templo evangélico do Brasil (dez mil pessoas). Em 1991 a igreja afirmava ter 5.458 templos, 15.755 obreiros e 581 horas diárias em rádios, bem como estar presente em 17 países (principalmente Paraguai, Uruguai e Argentina).

Igreja Universal do Reino de Deus: fundada por Edir Macedo (nascido em 1944), filho de um comerciante fluminense. Trabalhou por 16 anos na Loteria do Estado (subiu de contínuo para um posto administrativo). De origem católica, ingressou na Igreja de Nova Vida na adolescência. Deixou essa igreja para fundar a sua própria, inicialmente denominada Igreja da Bênção. Em 1977 deixou o emprego público para dedicar-se ao trabalho religioso. Nesse mesmo ano surgiu o nome IURD e o primeiro programa de rádio. Macedo viveu nos EUA de 1986 a 1989, quando voltou ao Brasil, transferiu a sede da igreja para São Paulo e adquiriu a Rede Record. Em 1990 a IURD elegeu três deputados federais. Macedo esteve preso por doze dias em 1992, sob a acusação de estelionato, charlatanismo e curandeirismo.

Recentemente cresceram as chamadas igrejas neopentecostais com foco nas classes média e alta, com um discurso mais liberado quanto aos costumes e menos ênfase nas manifestações pentecostais. Entre elas as igrejas podemos citar a Igreja Apostólica Renascer em Cristo, fundada por Estevam e Sonia Hernandez, a Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra, fundada por Robson Rodovalho e a Igreja Evangélica Cristo Vive, fundada por Miguel Ângelo. Seus fiéis costumam se identificar como "evangélicos", em referência aos reformados do século XVI.

Além das igrejas evangélicas, existem outros grupos, a saber: Os Neo-Cristãos. São grupos religiosos que usam a Bíblia para sua doutrina, mas não somente Ela, ou seja, se valem ainda de outras fontes de “revelação” ou “verdade”. Não são considerados evangélicos e sim como uma nova “categoria” do cristianismo (são grupos independentes, ou seja, não há comunhão entre eles).

Compõem esses grupos as Testemunhas de Jeová, a Igreja de Jesus Cristo do Santos dos Últimos Dias (Mórmons), Legião da Boa Vontade (LBV) ou Religião de Deus; Igreja Adventista do Sétimo Dia e outros.


CONCLUSÃO

Neste contato com a este cronograma histórico, pudemos ampliar a gama de conhecimentos acerca das variadas formas de cristianismo que se acham inserido na cultura religiosa apresentada neste trabalho, ou seja, no Brasil.

Não devemos, porém, considerar o assunto esgotado. A coleção de dados colecionados neste trabalho, visa proporcionar um domínio significativo, quanto a essas vertentes religiosas do cristianismo panoramicamente estudadas e muito pouco exploradas por pesquisadores brasileiros.


BIBLIOGRAFIA


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