quinta-feira, 18 de março de 2010

A INFLUÊNCIA DE JESUS NA SOCIEDADE

INTRODUÇÃO

 
Quando vamos analisar como Jesus se comportou na sociedade de seu tempo, vemos que nem todas as coisas são claras. Às vezes encontramos embaraço para colocarmos certas questões. A gente aborda a questão da atitude política de Jesus interrogando os Evangelhos a partir de nossas preocupações. A partir de nossas interrogações, também ele, o Evangelho, nos interroga e nos interpele. Fazemos como que uma leitura dialética do Evangelho: há uma interpelação mútua entre nós, nossa situação, e o Evangelho seu mundo e o pensamento político de Jesus.

A atitude de abertura, de autocrítica:

1. Análise da sociedade, da situação em que Jesus viveu. Se desligarmos Cristo do seu mundo social, produzimos um mito. É impossível aplicar as palavras e os exemplos de Jesus para hoje sem levar em conta o mundo dele; o contexto sócio-político, as estruturas vividas por ele.

2. A atuação política de Jesus dentro da sociedade de seu tempo.

3. Lições que tiramos dessa análise e desse confronto para os dias de hoje.

 
A SOCIEDADE EM QUE JESUS VIVEU

Economia

A sociedade em que Jesus viveu deve ser analisada a partir da economia, das relações de produção. Em termos econômicos era uma sociedade pré-capitalista, transacional, substancialmente agrícola. Não era urna sociedade industrial como a nossa. Lá predominava a agricultura. E como eram as relações na agricultura.

Latifúndio

A propriedade da terra na palestina, Judéia, Samaria, Galiléia, estava concentrada nas mãos de pouca gente. Aliás, dá para perceber que no fundo de muitas parábolas, temos a situação do latifúndio, da concentração da propriedade da terra. Por exemplo, a Parábola dos Talentos. O grande patrão antes de ir para a cidade, entrega os talentos, o dinheiro, para os seus servos, de maneira que esses possam produzir. Temos a Parábola dos Vinhateiros. O patrão que sai arrenda a vinha aos empregados. Existem umas quinze Parábolas contadas por Jesus tendo como pano de fundo o latifúndio. Essas Parábolas mostram a situação econômica do tempo de Jesus, mostram uma economia agrícola, onde as relações das pessoas com a terra são relações de latifúndio.

Diante desta situação Cristo tem uma atitude bastante critica, quando o Evangelho fa¬la de riqueza; em geral entendemos riqueza por dinheiro, por moeda. Enquanto a riqueza principal daquela época era a propriedade da terra. Cristo considera a riqueza de uma maneira muito negativa, porque vê que propriedade da terra está muito concentrada. Então a riqueza é um ídolo que faz concorrência com Deus. A riqueza e um obstáculo para seguir Jesus Cristo, ou seja, para ser Cristão.

É difícil ser rico, latifundiário, no tempo de Jesus e ao mesmo tempo ser discípulo, ser Cristão. A riqueza recebe uma das considerações mais fortes da sua boca, quando diz: “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus”. Mesmo diante do espanto dos apóstolos Jesus a repetiu sem pestanejar. E qual é a sua proposta positiva?

A proposta positiva do Cristo é a partilha. Cristo não é contra a como tal. Também não é contra a terra. É contra a concentração da terra nas mãos de poucos. Então sua proposta é a partilha. Todos os discípulos de Jesus têm de partilhar os bens, têm de entrar numa economia de partilha, de socialização, para poder seguir Cristo. Ou seja, é impossível ser rico e ser seguidos de Cristo. Na perspectiva de Jesus isto aparece muito claro. Nós é que, muitas ve¬zes, obscurecemos o fato por causa da ideologia do dinheiro que esta em nossas cabeças.

Artesanato

O segundo pólo econômico da época eram as atividades artesanais. O artesanato é o trabalho manual em cima de qualquer matéria, com instrumentos muito rudimentares, primitivos. No tempo de Jesus ele era mais desenvolvido nos grandes centros, como em Jerusalém, onde havia uma camada de artesões mais qualificada. Nas pequenas cidades da Galiléia, como Nazaré, era muito rudimentar.

Nós sabemos que Jesus era artesão. Ele era um carpinteiro do interior, sem grande qualificação. O pai de Jesus, José, também era carpinteiro. A profissão passava de pai para filho. Nas cidades pequenas esta atividade era muito explorada e desprestigiada. Isso dá para compreendermos a posição de classe de Jesus. Na verdade ele era um artesão que possuía alguns instrumentos de trabalho, mas aio exercia o controle sobre a matéria-prima necessária para o seu trabalho. Na verdade ele era um artesão pobre.

Comércio

O terceiro pólo econômico eram as atividades comerciais. Existia nas pequenas cidades um comércio local (feiras), onde se fazia a troca, de produto. A economia monetária, a circulação de dinheiro, era muito reduzida. Mas havia os grandes mercados, como o de Jerusalém, com o controle de grandes comerciantes. Eram mercados atacadistas, que faziam importações, como o mercado do templo.

É importante guardarmos este dado: a economia era principalmente rural e tem muito pouco a ver com a nossa sociedade moderna, onde a economia agrícola é na verdade uma economia de exceção, controlada pelo pólo industrial que leva a frente o progresso de um país mais moderno.

Quais eram as relações de produção, as relações de exploração no tempo de Jesus?

Hoje a exploração ocorre em nível de salárial. O salário cada vez menor em relação ao custo da vida. No tempo de Jesus, a exploração ocorria em nível de impostos, que literalmente esmagavam o povo.

Não é à-toa que os romanos dominavam a Palestina, que a tinham transformado em colônia. Eles estavam ali para tirar bens econômicos do povo, através dos impostos. O sistema de impostos era o canal principal pelo qual o povo era explorado pelos colonizadores roma¬nos.

Havia dois sistemas de impostos:

- O romano.

- religioso.

• O Imposto Romano: Era dividido em três tipos:

a) Debário: Pago por cabeça. Como os romanos poderiam controlar o seu pagamento? Através de recenseamento ou censos. O próprio Jesus nasceu numa época de recenseamento e, naquele tempo, houve um grande levante revolucionário na Galiléia. Sur¬giu o movimento guerrilheiro denominado “Zelotismo” dos Zelotes, que perceberam que o recenseamento nada mais era do que a forma de garantir o imposto por cabeça.

b) Produção: Um quarto da produção agríco¬la (25%) era entregue nas mãos do colonizador romano.

c) Circulação: Nas grandes cidades, nas encruzilhadas, nas divisões das províncias, era taxado um tributo de circulação.

• O Imposto Religioso: Era imposto judaico, para o templo, tem também três tipos:

a) Dracma: Pago por cabeço. No Evangelho aparece a referência quando o Sacerdote diz a Pedro: “O mestre de vocês não paga a didracma, o imposto do Templo”? Depois Cristo manda Pedro pescar. Ele encontra quatro dracmas embaixo da orelha do pei¬xe e os entrega como pagamen¬to.

b) Primícias: Todo primeiro fruto da terra ou do animal era entregue no templo, ao sumo sacerdote. E até mesmo todo filho que nascesse tinha de ser entregue simbolicamente ao Templo, através de um animal. Os ricos entregavam camelos ou bodes; os pobres, um par de rolas ou de pombinhos. Quando Jesus foi apresentado ao Templo, José levava um par de rolinhas pa¬ra ser entregue no lugar da criança.

c) dízimo: Dez por cento (10%) da produção vai para as mãos do sumo sacerdote, da classe sacerdotal’ do Templo. E não havia um só dízimo, havia três ou quatro tipos: Dai percebemos o quan¬to era profundamente explorado o povo no tempo de Jesus exploração que se fazia através do sistema tributário.

Política

Somente entendendo o funcionamento da economia e que se entende a significação política de uma crítica ao Templo.

No tempo de Jesus, o Estado é o que chamamos hoje de teocrático. Ou seja, um Estado re¬ligioso. A constituição, as leis são a Bíblia, os cinco primeiros livros chamados Pentateuco. Ela e a constituição, o código penal, o código civil.

Quando os juizes vão julgar alguém, eles interpretam aplicam as regras da Bíblia. O sumo sacerdote é o dirigente político da nação. Existe ainda o Sinédrio, que é uma espécie de tribunal, de conselho, formado por 80 homens que dirigem a nação, tendo à frente o sumo sacerdote. Qualquer comportamento religioso, nesta situação, é um comportamento político. Não havia divisão, política de um lado, religião de outro. Hoje nós temos uma divisão institucional entre Igreja e governo. Naquela época o judaísmo era a sede do poder político, e o sumo sacerdote, o governante da nação, em estado de vassalagem a Roma..

É muito importante entender que religião e política era uma coisa só e qualquer comportamento blasfemo, irreligioso, era subversivo. Quando Cristo, por exemplo, cura em dia de sá¬bado e não observa as tradições, ele está ten¬do um comportamento subversivo, anti-político. Só levando isso em consideração é que entende¬mos o quanto Cristo era político, o quanto ele rompia com a ordem social porque para fazer política bastava praticar religião de uma outra maneira. Isso era política de oposição.

Estruturas de Classe

A sociedade era piramidal, coma nossa, por sinal. A classe alta era composta pelos funcionários, pelos detentores do Estado: Sumo Sacerdote, Sinédrio e Estado romano, O rei Herodes, o governador Pôncio Pilatos e a Corte, Esse era o primeiro pólo da classe rica, O se¬gundo pólo da classe rica era constituído pelos proprietários de terra, pelos latifundiários. No Evangelho aparece muitas vezes a referência aos anciãos. Quem eram os anciãos? Eram famílias tradicionais, donas de terras. Por fim, tinham os grandes comerciantes do mercado importador-exportador, do mercado atacadista, sobretudo de Jerusalém.

Depois da classe rica, vinham os “remediados”. Eram os artesãos qualificados, dos grandes centros urbanos, que não eram tão grandes assim. Jerusalém deveria ter de 35 a 40 mil habitantes. Nazaré, de 20 a 30 famílias. Toda a Palestina, a sociedade em que Jesus viveu, deveria ter de 600 a 800 mil habitantes.

Além dos artesãos, a classe intermediária era constituída pelos pequenos agricultores, pequenos comerciantes e profissionais liberais, que, naquele tempo, eram os escribas e os fariseus. Na verdade, os escribas não eram ricos. Eram uma classe intermediária que estava em ascensão, com a hegemonia da sociedade. Nessa posição havia a classe do baixo clero, os sacerdotes do templo e os levitas, que giravam em torno de 17 mil pessoas. Como os sacerdotes naquele tempo casavam, constituíam famílias, existia cerca de 80 mil pessoas dependentes deles. Por aí se compreende como deveriam ser altos os impostos, porque estas oitenta mil pessoas eram totalmente sustentadas pelo fisco.

Por fim, a classe baixa, formada pelo povo. O povo era muito fragmentado, tanto que o Evangelho diz “multidão”. O que é multidão? É a massa de gente, sem maior coesão interna, sem espírito de classe. Mateus diz: “Jesus olhou a multidão e teve pena, porque ela estava prostrada e cansada como ovelhas sem pastor”. No meio do povo existia toda a sorte de trabalhadores. Eram artesãos do interior, diaristas, arrendatários rurais, escravos, criados, e também existia toda a sorte de marginalizados: Leprosos (que eram os últimos dos últimos), Doentes, Mendigos, Órfãos, Viúvas, Estropiados, Loucos, Possessos. Chamavam de possessos as pessoas que, por causa de suas condições sociais, ficavam loucas. Isso mostra o nível a que estava reduzido o povo, o grau de deterioração das condições de vida.

Além dos critérios econômicos, havia outros: uma pessoa de sangue judeu tinha mais status social do que outras. Um filho de uma pessoa adúltera ou de um estrangeiro ou de um samaritano já não tinha muita consideração, O critério de sangue também prevalecia.

Se a pessoa era rica, mas pertencente a uma profissão considerada pecaminosa, também era desprestigiada. Naquele tempo, um fiscal, economicamente falando, estava bem posicionado. Por quê? Porque teve de comprar essa posição já que ela era leiloada e rendia muito. Em geral, os fiscais se tornavam rapidamente ricos.

Mas o povo considerava que mexer com dinheiro era uma profissão pecaminosa, por isso os fiscais eram desprezados e marginalizados, Assim entendemos porque Jesus almoçou com eles. Foi porque eles eram ricos? Não, porque eram marginalizados.

Também os trabalhadores do campo eram desprestigiados, devido à própria função que impedia a prática escrupulosa da Lei. Assim, o critério econômico é sufi¬ciente para entendermos a firmação de classes no tempo de Jesus. É necessário levar em consideração também os critérios de sangue, religiosos, ideológicos e culturais.

Partidos Políticos

Existiam três partidos políticos principais:

1 – Saduceus: Nele se encontrava a classe rica: O alto clero, os proprietários de terra (anciãos). Como dá para desconfiar, era um partido totalmente “capacho”, pró-romano. Não tinham nenhuma posição crítica frente ao poder romano. Por quê? Ora, porque ele era mantido sem nenhuma perspectiva messiânica. Eles não acreditavam na vinda do Messias, porque o Messias significa mudança. Ele se opunha a mudança, porque se beneficiava da situação tal como ela era, e mantinha a ideologia da conservação. Era extremamente conservador e reacionário. Este partido se concentrava em torno do templo, tinha os papéis principais do governo colegiado do Sinédrio e detinha o poder político.

2 – Fariseus: Composto por leigos, da classe média ascendente. Ascendente porque os fariseus e os escribas controlavam a interpretação da Bíblia. Como saber é poder, eles estavam subindo na sociedade e adquirindo bastantes postos no Sinédrio, dentro do governo Judeu. O partido era formado pelos intelectuais do templo, pelos advogados, copistas, teólogos. Frente aos romanos ele era uma espécie de oposição. Tinha uma resistência pacifi¬ca. Seus membros pagavam os impostos e se sub¬metiam para evitar o pior. Procuravam ganhar espaço pouco a pouco, com o tempo. Seus partidários se concentravam em torno da Sinagoga, porque aí era o lugar em que se lia a Lei de Deus, Era a liturgia da palavra. Eles dominavam porque eram os únicos que sabiam ler e interpretar a Lei Bíblica. Tinham a hegemonia, no sentido de que detinham a direção moral, intelectual; o povo confiava neles. Então, na verdade, detinham o poder na mão, Um histo¬riador daquele tempo dizia que o povo era o aliado natural dos fariseus.

3 – Zelotes: É um partido radical, que rompe definitivamente com os romanos e adota a prática da guerrilha, da violência ar¬mada. Nascido na Galiléia, é integrado, sobretudo por camponeses escravizados por dívidas. Visa realmente destruir a estrutura política romana e também o poder judaico “capacho” dos saduceus. Em certos momentos, fazem alianças com os fariseus. Para entender como é que Jesus se posiciona diante dos revolucionários, é necessário lembrar que esse partido tem um projeto nacio¬nalista na cabeça. Além da independência da Palestina, ele tem um projeto expansionista, imperialista. Quer colocar o judeu no centro e sobre todos os outros povos, e criar um império mundial judeu. O César judeu seria uma espécie de César-Moises, César Bíblico que dominasse o mundo, já que isso estava nas profecias da Bíblia. No projeto dos zelotes havia também a restauração da teocracia, do rei santo, muito parecido com Davi.

Cristo age ao contrario. Ele dessacraliza o poder político, não pensa em poder religioso, teocrático. Deste ponto de vista, há diferença entre Cristo e os revolucionários zelotes.

Existiam ainda outros partidos de significação menor, como os essênios, os herodianos e outros, e tinha também o povo, o “povilhéu” como era chamado à gente da terra. Era o povo sem organizações populares de base e que estava mais sob a dominação dos saduceus e dos fariseus.

Cultura

Existiam três características básicas da cultura na época de Cristo:

1 – Legalismo: A ideologia preconizava o culto. A observância rígida da Lei. A Lei era uma espécie de força que impedia toda a criatividade, toda força, exuberância. Esse legalismo, mantido, sobretudo pelos escribas, pelos doutores da Lei, era extremamente funcional. Servia para acobertar as iniquidades do regime e manter o povo do¬minado. O legalismo não era um desvio puramente moral ou religioso. Tinha uma função também política. Por que a Lei era tão rigidamente aplicada? Para poder manter o povo submetido. O conhecimento dos doutores da Lei se baseava em uma espécie de conhecimento secreto, esotérico, ou seja, somente eles sabiam ler e interpretar a Lei. E isto era feito com um vocabulário complicado, difícil, de modo que deixavam o povo confuso e crente de que eles entendiam os mistérios de Deus. Assim o povo entre¬gava sua liberdade nas mãos dos fariseus, dos doutores da Lei. Só desse modo compreendemos as violentas investidas de Cristo contra os Escribas e os Fariseus. No capítulo 23 de Mateus, lemos um dos textos mais violentos de toda a literatura antiga: “Ai de vós, Escribas e Fariseus hipócritas, que sequestrastes as chaves da casa da ciência”. E, falando do saber secreto deles “Vocês ano entraram nela e impedem aos outros que entrem”. As investidas de Cristo são contra esta carapaça que Escribas e Fariseus mantinham em cima da consciência do po¬vo.

2 – Messianismo: Nessa situação intolerável de exploração econômica, de dominação política, de marginalização religio¬sa, as esperanças em um libertador se aguçavam de maneira extrema. Esperava-se um Messias pa¬ra libertar o povo dessa opressão, dessa situa¬ção intolerável. O povo imaginava o Messias do tamanho de seu desejo e de suas necessidades. Ou seja, o Messias seria um grande benfeitor que viria trazer pão, saúde, libertação de todas as opressões. Mas que Messias? Aquele que vinha libertar a Palestina da dominação romana para fazer com que pudessem ler, estudar e praticar a Lei com sossego. É um outro tipo de Messias, é um Messias também de classe. O povão esperava o Messias realmente material e a espera era feita de uma maneira urgente, delirante, de uma hora para outra. Isso porque a situação estava insuportável que pior não podia estar. Um historiador judeu, Flávio Josefo, conta que na época em que Jesus viveu surgiram cerca de trinta messias, dizendo-se reis, libertadores. Todos acabaram mortos, massacrados pelo poder romano. Quando apareceu João Batista, o povo perguntou se ele não era Messias. Assim ocorreu com Pedro, Judas Galileu e também com Paulo. Havia uma expectativa incrível de um salvador, libertador, e se investiam sobre as pessoas que apareciam com certa perspectiva de libertação.

O POSICIONAMENTO DE JESUS

Existiam dois dados nos Evangelhos em tor¬no dos quais não há qualquer contestação:

“Jesus vivia na companhia dos pobres, dos oprimidos. Sua base social eram os oprimidos e marginalizados daquela sociedade. No capitulo 8 de Mateus vemos que os seus primeiros milagres, as curas de pessoal muito marginalizado, Jesus, aqui reata com a boa tradição profética que é a defesa dos pequenos. A tradição farisaica dizias “Afasta-te dos pobres, dos pecadores, porque são malditos”. A condição de vida dos pobres lhes impediam de praticar a Lei. Portanto, concluía-se que eram pecadores.

Cristo diz ao contrário. Ele se aproxima, defende os pequenos, o partido dos pobres e oprimidos.

Cristo tem uma atitude critica frente aos poderosos. O conflito entre Jesus e os di¬rigentes do povo atravessa os Evangelhos de ponta a ponta. No Evangelho de São Marcos, o mais antigo dos Evangelhos (embora apareça em segunda posição no livro do Novo Testamento), a gente percebe um progresso na oposição entre Cristo e os dirigentes. No capítulo 2, quando cura um paralítico, os Fariseus cochicham entre si e dizem. “Esse homem blasfema, porque ele perdoa pecados”. No capítulo 2, Jesus esta jantando com os publicanos. Os Fariseus conversam com os discípulos e dizem: “Como é que o mestre de vocês almoça com os publicanos”. Logo em seguida, quando os discípulos infringem o sábado, esmagando, descascando as espigas de trigo e comendo, então ai aparece o ataque direto a Cristo: “Como é que seus discípulos infringem o dia de sábado?” Mais adiante, atacam-no porque ele não lava as mãos antes de comer, desrespeitando a tradição.

Era Jerusalém, o conflito aberto. Jesus ataca diretamente os Escribas, Fariseus, os Sumo Sacerdotes e os Saduceus, Expulsa os vendilhões do Templo, e declara que o Templo vai acabar. O Templo significa o sistema da época. Amaldiçoa também a figueira, símbolo do sistema Judaico, A maldição da figueira significa maldição daquela sociedade. Foi logo entendido esse gesto profético de Jesus. É claro, uma semana após ele é levado ao tribunal, e condenado a morte na cruz.

Teve um grande teólogo judeu que escreveu um livro chamado “Jesus e os judeus.” Ele mostra de maneira clara que quem matou Jesus não foi o povo judeu. Foram os dirigentes, os chefes do povo de Israel. O povo judeu, ao contrário, estava ao lado de Cristo. Vemos inclusive que os chefes somente conseguiram pegar Jesus escondido do povo, comprando um discípulo.

Jesus teve urna posição não politicamente direta e sim profética. Ele não tinha programa político definido, como o tinham os Zelotes, os Saduceus e os Fariseus. Ele também não fundou uma corrente política que visasse diretamente o poder.

É verdade que existiram grandes historiadores que consideraram Jesus um Zelote. E isso porque o seu discurso critico, violento, era parecido com o dos Zelotes. Cristo também ex¬pulsou os vendilhões do Templo, coisa que os Zelotes queriam e, sobretudo porque ele morreu como um revolucionário, como um Zelote, como um criminoso político. Está inclusive escrito em cima de sua cruz: “Jesus Nazareno, Rei dos Judeus”. Quer dizer, um chefe Zelote, um rei Zelote, assim é condenado na Cruz. Por to¬dos esses motivos, ele teria sido considerado um Zelote. Mas existem outros dados que demonstram a desaprovação de Cristo em relação à prática dos Zelotes. Temos as palavras de perdão, de não violência. Jesus anda em companhia dos fiscais, se relaciona com os romanos e resiste à tentação do poder, o que não ocorria aos Zelotes. E ele guarda o segredo messiânico. Ele não queria revelar sua identidade messiânica para não provocar atitudes de sublevação no meio do povo, pois achava que isto iria ser um suicídio.

Parte do ideário, da concepção, da mentalidade do programa Zelote era partilhada por Jesus. Parte era combatida.

Jesus era um ser apolítico? Alienado?

Por outro lado, Jesus não era um ser alienado, indiferente. O poder uma tentação satânica, mas o poder em questão era o de dominação, Jesus nunca foi contra o poder como tal, enquanto poder de serviço. Ele foi contra o poder de dominação. E se guardava o poder messiânico, era porque o povo fazia uma idéia mística do Messias. Uma idéia mágica de um Messias milagreiro, demagógico, paternalista, portanto uma idéia não libertadora, não autêntica.

Cristo teve uma atuação política verdadeira, mas a nível profético. Foi um revolucionário profético. A sua grande idéia é a do Reino de Deus, que é um projeto radical, total de transformação da sociedade. Quando prega o Reino de Deus, prega uma revolução integral, uma revolução absoluta.

No fundo, a raiz da proposta de Cristo é na verdade profética. Mas ele tinha implicações e efeitos claramente políticos. Essa proposta leva-o a atacar o Templo, o cérebro central da exploração do sistema. Porque era profética, a sua proposta tinha uma implicação política. E os efeitos disso também são políticos. Vemos que Cristo é perseguido continuamente durante toda sua vida pública, ele é julgado por dois tribunais, pelo religioso onde foi declarado blasfemo; pelo romano, onde foi condenado exatamente como Messias, como revolucionário. E basta olharmos os crucifixos para nos darmos conta de que esse símbolo da nossa fé é um símbolo originariamente político.

JESUS NOS DIAS DE HOJE

Esse modo concreto de Jesus viver a sua relação na sociedade, que arranca o profético, da sua fé em Deus, e que envol¬ve e tem implicações políticas, é o modelo a que, sobretudo se propõe a hierarquia e as comunidades cristãs.

É um trabalho de raiz, de fundo, de pastoral. Embora não vise diretamente derrubar o poder ou propor um modelo alternativo, a nossa pastoral, tem uma dimensão política. E da mesma forma que confundiram Jesus com os Zelotes, hoje também se confunde e se condena a Igreja como comunista, como subversiva.

Entendemos a maneira de Jesus se com portar no seu tempo da mesma forma que entendemos a maneira de a Igreja, os bispos e as Comunidades Eclesiais se comportarem na sociedade de hoje. Embora a raiz, em ambos os casos, seja de fé Evangélica e porque é de fé Evangélica, os frutos, as consequências são e não podem deixar de ser políticas.

O comportamento histórico concreto de Jesus e o comportamento que a Igreja, os pastores e as comunida¬des seguem ainda hoje, com as mes¬mas implicações que ele teve, mas, e a política no sentido direto, especifica? Essa atividade especifica de organização do povo em vista do poder co¬mo, por exemplo, uma atividade sindical uma atividade partidária. Jesus, na verda¬de, não praticou expressa e diretamente esse tipo de política.

E por isso nós não vamos praticá-la? Devemos entender os limites de Jesus, porque são os limites de seu tempo. Jesus era uma pessoa historicamente limitada. Não era um homem de século XX, pós-marxista. Ele tem uma consciência política também limitada pelas condições do seu tempo. E as condições concretas de sua época limitavam o poder e a capacidade do povo. Ou seja, era impossível organizar o povo de tal maneira que ele pudesse obter o poder e exercê-lo de maneira adequada. Mesmo que Cristo tivesse na cabeça um projeto revolucionário de conquista do poder e de organização de uma sociedade alternativa, não havia condições históricas para que isso fosse desenvolvido.

A gente tem de ver que Jesus era um homem do século I. Ele não e um Lula de hoje. O Lula é o Lula por causa da sociedade do século XX, e da sociedade de São Paulo. Se tivesse ficado em Pernambuco, não seria o Lula de hoje. Quer dizer, a gente é também a sociedade onde a gente vive. Então Jesus era limitado pelas possibilidades políticas daquele tempo. Era uma limitação do mundo dele.

Outro dado importante, é que Jesus não podia ser tudo ao mesmo tempo. Ou era profeta, ou revolucionário Zelote. Ou seria Messias po¬lítico ou Messias pobre, sofredor como o povo. Jesus escolheu o caminho profético. Dessa forma não se pode argumentar que, porque Jesus não participou da política diretamente, também o cristão de hoje não pode. Esse é um argumento furadíssimo. Tem gente que trabalha na pastoral e tem gente que trabalha no Sindicato, outros trabalhos no partido. Aliás, essa e uma questão que se coloca atualmente para os líde¬res de comunidade. Muitos têm possibilidade de participar de partidos, mas já assumiram a responsabilidade de participar da pastoral. Surge uma questão concreta, que é a de não ter tempo de participar dos dois. Esse é um problema concreto, prático, e não de princípios.

Assim os cristãos logo advinham o que faria Jesus se vivesse hoje. Ele faria o que estão tentando fazer os cristãos, as comunidades cristãs e a Igreja na sociedade: crítica ao regime, defesa dos pequenos, solidariedade aos operários e lavradores.

Se Cristo viesse hoje, quem sabe se ele não entraria para um partido político. Por que não vemos de entender que ele viveu em urna situação, com possibilidades pessoais e biográficas muito limitadas. E nós que vivemos numa sociedade que se politiza e se organiza cada vez mais, devemos entender isso. Devemos também, a meu ver, traduzir em termos políticos as propostas do Evangelho de Jesus. As vezes o Evangelho tem propostas limitadas a nível individual, como por exemplo, o bom samaritano que se curva diante do despojado para ajudá-lo. Devemos fazer uma tradução política disto; porque essa é a nossa mentalidade. O amor ao próximo não é amor ao outro, individual, é o amor às massas humanas, as classes inteiras, como colocou o Vaticano II.

CONCLUSÃO
A pratica política direta vista por nós nos partidos, nos sindicatos, pode ser um modo nobre de ser cristão, de seguir a Jesus Cristo e imita-lo, então, de maneira criativa.

Não devemos ver Jesus apenas no passado, há dois mil anos, mas devemos vê-lo vivo ressuscitado fazendo política hoje. Como? Através de nós dos movimentos históricos, dos grupos sociais dos cristãos e não-cristãos.

E, em relação a isso, terminaria com uma frase do teólogo Bonhoeffer, que morreu no cam¬po de concentração por ter participado de um complô para liquidar Hitler:

“O burguês, quando diz: “JESUS É O FILHO DE DEUS”, diz muito menos de Jesus do que um operário quando diz: “JESUS FOI UM REVOLUCIONÁRIO”, ou simplesmente quando um operário diz: “JESUS FOI UM HOMEM BOM”.

BIBLIOGRAFIA

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Site pesquisado: http://www.espiritualidades.com.br/Artigos_D_L/incontri_Do



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