quarta-feira, 30 de junho de 2010

A INFLUÊNCIA DOS BLOCOS ECONÔMICOS NA TEOLOGIA CRISTÃ

INTRODUÇÃO


O que é o capitalismo?

Capitalismo é definido como um sistema econômico baseado na propriedade privada dos meios de produção e propriedade intelectual, e na liberdade de contrato sobre estes bens (livre mercado). Estes requisitos motivam às pessoas ao acúmulo de capital e a investir este capital em projetos que aumentam a eficiência produtiva, resultando num aumento do padrão de vida da sociedade. Isto porque os produtos e serviços, devido à maior eficiência decorrente do progresso tecnológico que, por sua vez, foi causado pelo investimento do capital acumulado, se tornam progressivamente mais fáceis de adquirir (mais baratos). É importante notar que o capitalismo não é um sistema propriamente dito, pois ninguém é obrigado a acumular capital. Ele apenas é o resultado natural numa sociedade que respeita a propriedade privada e a liberdade de contrato. Nesse tipo de sociedade as pessoas são altamente motivadas a empregar seu capital da forma mais eficiente possível, minimizando o desperdício, já que isso lhes é lucrativo. E, se ocorrer o contrário, ou seja, as pessoas investirem mal o seu patrimônio, desperdiçando produção, irão amargurar prejuízos. De maneira geral o tamanho do lucro/prejuízo é proporcional ao acréscimo/decréscimo de riqueza gerado no processo.

O que é o comunismo?

Comunismo refere-se à obra e às idéias de Karl Marx e, posteriormente, a diversos outros teóricos, notavelmente Friedrich Engels, Rosa Luxemburgo, Vladimir Lênin, entre outros. Uma das principais obras fundadoras desta corrente política é O Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels e a principal obra teórica é O Capital de Marx.As principais características do modelo de sociedade comunal proposto nas obras de Marx e Engels são: A inexistência das classes sociais. As necessidades de todas as pessoas supridas. A ausência do Estado. Para chegar a tal estado, Marx propõe uma fase de transição, com a tomada do poder pelos proletários para abolir a propriedade privada dos meios de produção e a conseqüente orientação da economia de forma planejada com o objetivo de suprir todas as necessidades da sociedade e seus indivíduos. Marx entende que, com as necessidades supridas, deixam de existir as classes sociais e, portanto, não existe mais a necessidade do Estado.

Algumas vertentes do socialismo e do comunismo, identificadas como anarquistas, defendem a abolição imediata do Estado. Tornam-se mais visíveis às diferenças entre estes grupos quando se sabe que a primeira Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) terminou como resultado da cisão entre Marxistas (que acreditavam na necessidade de tomar o poder do Estado para realizar a revolução) e Bakuninistas (que acreditavam que não haveria revolução a menos que o Estado fosse abolido em simultâneo com o capitalismo).

A teoria que dá base à construção do comunismo tem como ponto de partida a análise feita por Marx da sociedade capitalista. Segundo ele, a propriedade privada dos meios de produção, característica fundamental do capitalismo, só existe com a apropriação da mais-valia pela classe dominante, ou seja, a exploração do homem pelo homem é fundamental ao capitalismo.

Marx acreditava que somente em uma sociedade sem classes sociais essa exploração não aconteceria. Considerava, ainda, que somente o proletariado poderia, por uma luta política consciente e conseqüente de seu papel, derrubar o capitalismo, não para constituir um Estado para si, mas para acabar com as classes sociais e derrubar o Estado como instrumento político de existência das classes.

A palavra comunismo apareceu pela primeira vez na imprensa em 1827, quando Robert Owen se referiu a socialistas e comunistas. Segundo ele, estes consideravam o capital comum mais benéfico do que o capital privado. As palavras socialismo e comunismo foram usados como sinônimos durante todo o século XIX. A definição do termo comunismo é dada após a Revolução russa, no início do século XX, pois Vladimir Lênin entendia que o termo socialismo já estava desgastado e deturpado. Por sua teoria, o comunismo só seria atingido depois de uma fase de transição pelo socialismo, onde haveria ainda uma hierarquia de governo.

HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DESSES 02 BLOCOS ECONÔMICOS

O capitalismo teve seu início na Europa. Suas características aparecem desde a Baixa Idade Média (século XI ao XV) com a transferência do centro da vida econômica, social e política dos feudos para as cidades. O feudalismo passava por uma grave crise decorrente da catástrofe demográfica causada pela Peste Negra que dizimou 40% da população européia e pela fome que assolava o povo. Já com o comércio reativado pelas Cruzadas (do século XI ao XII), a Europa passou por um intenso desenvolvimento urbano e comercial, conseqüentemente, as relações de produção capitalistas se multiplicaram, acabando com as bases do feudalismo. Na Idade Moderna, os reis expandem seu poderio econômico e político através do mercantilismo e do absolutismo. A Reforma Protestante com as idéias teológicas de João Calvino começam a dar o respaldo espiritual que os burgueses queriam para combater as idéias teológicas da Igreja de Roma, a qual pregava que era pecado o acumulo de riquezas. Dentre os defensores políticos que começou a descentralizar a Igreja de Roma como autoridade teológico-política, a qual ensinava que é Deus que ungi os reis e autoriza e confirma sua liderança mediante o papa (a igreja), temos: Jean Bodin, Jacques Bossuet e Niccólo Machiavelli.

Com o absolutismo e com o mercantilismo o Estado passava a controlar a economia e a buscar colônias para adquirir metais (metalismo) através da exploração. Isso para garantir o enriquecimento da metrópole. Esse enriquecimento favorece a burguesia que passa a contestar o poder do rei, resultando na crise do sistema absolutista. E com as revoluções burguesas, como a Revolução Francesa e a Revolução Inglesa, estava garantindo o triunfo do capitalismo. A partir da Segunda metade do século XVII, com a Revolução Industrial, inicia-se um processo ininterrupto de produção coletiva em massa, geração de lucro e acúmulo de capital. Na Europa Ocidental, a burguesia assume o controle econômico e político. As sociedades vão superando os tradicionais critérios da aristocracia (principalmente a do privilégio de nascimento) e a força do capital se impõe. Surgem as primeiras teorias econômicas: a fisiocracia e o liberalismo. Na Inglaterra, o escocês Adam Smith (1723-1790), precursor do liberalismo econômico, publica Uma Investigação sobre Naturezas e Causas da Riqueza das Nações, em que defende a livre-iniciativa e a não interferência do Estado na economia. Deste ponto, para a atual realidade econômica, pequenas mudanças estruturais ocorreram em nosso fúnebre sistema capitalista.

Já no comunismo as idéias de Karl Marx estão expressas principalmente no livro “O Capital” e “O Manifesto Comunista”, obra que escreveu com Friedrich Engels, economista alemão. Marx acreditava que a única forma de alcançar uma sociedade feliz e harmoniosa seria com os trabalhadores no poder. Em parte, suas idéias eram uma reação às duras condições de vida dos trabalhadores do século XIX, na França, na Inglaterra e na Alemanha. Os trabalhadores das fábricas e minas eram mal pagos e tinham que trabalhar em condições desumanas. Marx estava convencido de que a vitória do comunismo era inevitável. Afirmava que a história segue certas leis imutáveis, na medida em que avançava de um estágio a outro. Cada estágio caracteriza-se por lutas que conduzem a um estágio superior de desenvolvimento. Para Marx, a chave para a compreensão dos estágios do desenvolvimento é a relação entre as diferentes classes de indivíduos na produção de bens. Afirmava que o dono da riqueza é a classe dirigente porque usa o poder econômico e político para impor sua vontade ao povo. Para ele, a luta de classes é o meio pelo qual a história progride. Marx achava que a classe dirigente jamais iria abrir mão do poder por livre e espontânea vontade e que, assim, a luta e a violência eram inevitáveis.

O MUNDO DIVIDIDO EM DOIS BLOCOS ECONÔMICOS E ANTAGÔNICOS (GUERRA FRIA)

Baseada nas filosofias político-econômicas do capitalismo e do comunismo, a Guerra Fria tem início logo após a Segunda Guerra Mundial, pois os Estados Unidos e a União Soviética vão disputar a hegemonia política, econômica e militar no mundo. A União Soviética possuía um sistema socialista, baseado na economia planificada, partido único (Partido Comunista), igualdade social e falta de democracia. Já os Estados Unidos, a outra potência mundial, defendia a expansão do sistema capitalista, baseado na economia de mercado, sistema democrático e propriedade privada. Na segunda metade da década de 1940 até 1989, estas duas potências tentaram implantar em outros países os seus sistemas políticos e econômicos. A definição para a expressão guerra fria é de um conflito que aconteceu apenas no campo ideológico, não ocorrendo um embate militar declarado e direto entre Estados Unidos e URSS. Até mesmo porque, estes dois países estavam armados com centenas de mísseis nucleares. Um conflito armado direto significaria o fim dos dois países e, provavelmente, da vida no planeta Terra. Porém ambos acabaram alimentando conflitos em outros países como, por exemplo, na Coréia e no Vietnã.

Paz Armada

Na verdade, uma expressão explica muito bem este período: a existência da Paz Armada. As duas potências envolveram-se numa corrida armamentista, espalhando exércitos e armamentos em seus territórios e nos países aliados. Enquanto houvesse um equilíbrio bélico entre as duas potências, a paz estaria garantida, pois haveria o medo do ataque inimigo. Nesta época, formaram-se dois blocos militares, cujo objetivo era defender os interesses militares dos países membros. A OTAN - Organização do Tratado do Atlântico Norte (surgiu em abril de 1949) era liderada pelos Estados Unidos e tinha suas bases nos países membros, principalmente na Europa Ocidental. Alguns países membros da OTAN: Estados Unidos, Canadá, Itália, Inglaterra, Alemanha Ocidental, França, Suécia, Espanha, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Áustria e Grécia.

O Pacto de Varsóvia era comandado pela União Soviética e defendia militarmente os países socialistas. Alguns países membros do Pacto de Varsóvia: URSS, Cuba, China, Coréia do Norte, Romênia, Alemanha Oriental, Iugoslávia, Albânia, Tchecoslováquia e Polônia.

Corrida Espacial

EUA e URSS travaram uma disputa muito grande no que se refere aos avanços espaciais. Ambos corriam para tentar atingir objetivos significativos nesta área. Isso ocorria, pois havia certa disputa entre as potências, com o objetivo de mostrar para o mundo qual era o sistema mais avançado. No ano de 1957, a URSS lança o foguete Sputnik com um cão dentro, o primeiro ser vivo a ir para o espaço. Doze anos depois, em 1969, o mundo todo pôde acompanhar pela televisão a chegada do homem a lua, com a missão espacial norte-americana.

Caça as Bruxas

Os EUA lideraram uma forte política de combate ao comunismo em seu território e no mundo. Usando o cinema, a televisão, os jornais, as propagandas e até mesmo as histórias em quadrinhos, divulgou uma campanha valorizando o "american way of life". Vários cidadãos americanos foram presos ou marginalizados por defenderem idéias próximas ao socialismo. O Macartismo, comandado pelo senador republicano Joseph McCarthy, perseguiu muitas pessoas nos EUA. Essa ideologia também chegava aos países aliados dos EUA, como uma forma de identificar o socialismo com tudo que havia de ruim no planeta.

Na URSS não foi diferente, já que o Partido Comunista e seus integrantes perseguiam, prendiam e até matavam todos aqueles que não seguiam as regras estabelecidas pelo governo. Sair destes países, por exemplo, era praticamente impossível. Um sistema de investigação e espionagem foi muito usado de ambos os lados. Enquanto a espionagem norte-americana cabia aos integrantes da CIA, os funcionários da KGB faziam os serviços secretos soviéticos.

A Cortina de Ferro

Após a Segunda Guerra, a Alemanha foi dividida em duas áreas de ocupação entre os países vencedores. A República Democrática da Alemanha, com capital em Berlim, ficou sendo zona de influência soviética e, portanto, socialista. A República Federal da Alemanha, com capital em Bonn (parte capitalista), ficou sob a influência dos países capitalistas. A cidade de Berlim foi dividida entre as quatro forças que venceram a guerra : URSS, EUA, França e Inglaterra. No final da década de 1940 é levantado o Muro de Berlim, para dividir a cidade em duas partes: uma capitalista e outra socialista. É a vergonhosa "cortina de ferro".

Plano Marshall e COMECON

As duas potências desenvolveram planos para desenvolver economicamente os países membros. No final da década de 1940, os EUA colocaram em prática o Plano Marshall, oferecendo ajuda econômica, principalmente através de empréstimos, para reconstruir os países capitalistas afetados pela Segunda Guerra Mundial. Já o COMECON foi criado pela URSS em 1949 com o objetivo de garantir auxílio mútuo entre os países socialistas.

Envolvimentos Indiretos

Guerra da Coréia: Entre os anos de 1951 e 1953 a Coréia foi palco de um conflito armado de grandes proporções. Após a Revolução Maoísta ocorrida na China, a Coréia sofre pressões para adotar o sistema socialista em todo seu território. A região sul da Coréia resiste e, com o apoio militar dos Estados Unidos, defende seus interesses. A guerra dura dois anos e termina, em 1953, com a divisão da Coréia no paralelo 38. A Coréia do Norte ficou sob influência soviética e com um sistema socialista, enquanto a Coréia do Sul manteve o sistema capitalista.

Guerra do Vietnã : Este conflito ocorreu entre 1959 e 1975 e contou com a intervenção direta dos EUA e URSS. Os soldados norte-americanos, apesar de todo aparato tecnológico, tiveram dificuldades em enfrentar os soldados vietcongues (apoiados pelos soviéticos) nas florestas tropicais do país. Milhares de pessoas, entre civis e militares morreram nos combates. Os EUA saíram derrotados e tiveram que abandonar o território vietnamita de forma vergonhosa em 1975. O Vietnã passou a ser socialista.

Fim da Guerra Fria


A falta de democracia, o atraso econômico e a crise nas repúblicas soviéticas acabaram por acelerar a crise do socialismo no final da década de 1980. Em 1989 cai o Muro de Berlim e as duas Alemanhas são reunificadas. No começo da década de 1990, o então presidente da União Soviética Gorbatchev começou a acelerar o fim do socialismo naquele país e nos aliados. Com reformas econômicas, acordos com os EUA e mudanças políticas, o sistema foi se enfraquecendo. Era o fim de um período de embates políticos, ideológicos e militares. O capitalismo vitorioso, aos poucos, iria sendo implantado nos países socialistas.

A TEOLOGIA CRISTÃ SOB INFLUÊNCIA DOS SISTEMAS ECONÔMICOS

Nos países de maioria cristã protestante o capitalismo utilizado é o de juros baixos, salários altos e preços justos. Lá, (Estados Unidos, Suécia, Escócia, Finlândia, Noruega, Dinamarca, Inglaterra etc.) o modelo de capitalismo protestante é chamado apenas de Capitalismo. Na verdade, praticamente tudo o que fazem é, em geral, nos moldes protestantes (calvinista). Talvez, por isso, o povo brasileiro tenha dificuldades para entender a diferença entre o nosso Capitalismo e o Capitalismo do Primeiro Mundo (o protestante), este foi interpretado por Max Weber no século XX em sua obra “A ética protestante e o espírito do capitalismo”. A partir desta análise econômica houve a necessidade da igreja (protestante-Evangélica) se adaptar a esta nova realidade, tendo em vista que a pregação de Cristo se torna antagônica a esta realidade.

O Socialismo ateu (“científico”, na linguagem dos marxistas), ficou famoso ao ser adotado pela antiga União Soviética, Cuba, Vietnam, Albânia, Coréia do norte tornando-se, no entanto, mais conhecido como Comunismo, este interpretado por Karl Marx e Engels em sua obra: “O manifesto comunista”, onde podemos analisar em suas palavras a sua total separação com a igreja, “a religião é o ópio do povo”. Já o Socialismo Católico é uma adaptação do socialismo marxista e o catolicismo, onde coloca sua religião como oficial do Estado, e prega entre linhas a fraternidade de todos, criticando o capitalismo como um sistema egoísta que faz o ser humano se voltar somente para si (gostaria de lembrar que a Igreja Católica perdeu os monopólios econômicos, religiosos, educacionais e etc, com o sistema capitalista).

A INFLUÊNCIA DO CAPITALISMO NA TEOLOGIA PROTESTANTE

Um fenômeno social que tem despertado a atenção de estudiosos na atualidade é o crescimento acentuado das igrejas neopentecostais que estão inseridas no grupo das religiões “evangélicas”. De acordo com a recente publicação do Atlas da filiação religiosa e indicadores sociais do Brasil (CNBB) os pentecostais cresceram de 6% para 10,6% da população brasileira nos últimos nove anos. O maior crescimento se dá nas camadas de menor renda das regiões metropolitanas onde os indicadores sociais são mais baixos; e também nas regiões norte e centro-oeste.

As causas desse fenômeno são variadas. Uma delas como mostra o estudo são as condições sócio-econômicas; a maciça utilização da mídia também tem seu peso de influência e a competente administração empresarial dessas igrejas é algo relevante. Mas creio que a utilização da “teologia da prosperidade” seja a causa primordial desse sucesso, as outras dependem fundamentalmente dela.

O que é a Teologia da Prosperidade?

Baseado na teologia calvinista, que prega que a prosperidade é sinal das bênçãos divinas, a teologia da prosperidade pode ser entendida como um conjunto de princípios que afirmam que o cristão verdadeiro tem o direito de obter a felicidade integral, e de exigi-la, ainda durante a vida presente sobre a terra. Bastando para isso que tenha confiança incondicional em Jesus. Seu desenvolvimento foi gradual desde a década de 1940. Vejamos:

· Essek William Kenyon (Nova York, EUA, 1867).

Ex-pastor das igrejas batista, metodista e pentecostal, influenciado por idéias de seitas cristãs/metafísicas, desenvolveu estudos que entre outras coisas tratava de: poder da mente, a inexistência das doenças e o poder do pensamento positivo.

· Kenneth Hagin (Texas, EUA, 1918).

Discípulo de Kenyon sofreu várias enfermidades e pobreza na juventude; Aos 16 anos diz ter recebido uma revelação quando lia Marcos 11.23,24, entendendo que tudo se pode obter de Deus, desde que confesse em voz alta, nunca duvidando da obtenção da resposta, mesmo que as evidências indiquem o contrário. Isso é a essência da "Confissão Positiva". Foi pastor da igreja batista; da Assembléia de Deus, em seguida passou por várias igrejas pentecostais, e, finalmente, fundou sua própria igreja, aos 30 anos, fundando o Instituto Bíblico Rhema. As idéias de Hagin que levaram ao estabelecimento da teologia da prosperidade podem ser divididas em três pontos principais:

1) Autoridade Espiritual

Segundo K. Hagin, Deus tem dado autoridade (unção) há profetas nos dias atuais, como seus porta-vozes. Ele diz que "recebe revelações diretamente do Senhor"; “... Dou graças a Deus pela unção de profeta... Reconheço que se trata de uma unção diferente... é a mesma unção, multiplicada cerca de cem vezes” (Hagin, Compreendendo a Unção, p. 7).

2) Bênçãos e Maldições da lei

K.Hagin diz, com base em Gálatas 3.13,14, que fomos libertos da maldição da lei, que são: 1) Pobreza; 2) doença e 3) morte espiritual. Ele toma emprestadas as maldições de Deuteronômio 28 contra os israelitas que pecassem. Segundo essa doutrina, o cristão tem direito a saúde e riqueza; diante disso, doença e pobreza são maldições da lei. Eles ensinam que "todo cristão deve esperar viver uma vida plena, isenta de doenças" e viver de 70 a 80 anos, sem dor ou sofrimento. Quem ficar doente é porque não reivindica seus direitos ou não tem fé. E não há exceções. Pregam que Isaías 53.4, 5 é algo absoluto. Fomos sarados e não existe mais doença para o crente. Os seguidores de Hagin enfatizam muito que o crente deve ter carro novo, casa nova própria, as melhores roupas, uma vida de luxo.

3) Confissão Positiva

É o terceiro ponto da teologia da prosperidade. Ela está incluída na "fórmula da fé", que Hagin diz ter recebido diretamente de Jesus, que lhe apareceu e mandou escrever de 1 a 4, a "fórmula".Se alguém deseja receber algo de Jesus, basta segui-la:

1) "Diga a coisa" positiva ou negativamente, tudo depende do indivíduo. De acordo com o que o indivíduo quiser, ele receberá. Essa é a essência da confissão positiva.

2) "Faça a coisa". Seus atos derrotam-no ou lhe dão vitória. De acordo com sua ação, você será impedido ou receberá.

3) "Receba a coisa". Compete a nós a conexão com o dínamo do céu. A fé é o pino da tomada. Basta conectá-la.

4) "Conte a coisa" a fim de que outros também possam crer. Para fazer a "confissão positiva", o cristão dever usar as expressões: exijo, decreto, declaro, determino, reivindico, em lugar de dizer: peço, rogo, suplico; jamais dizer: "se for da tua vontade", pois isto destrói a fé.

A “TEOLOGIA DA PROSPERIDADE” NO BRASIL

Como vimos a Teologia da Prosperidade teve sua origem na década de 40 nos Estados Unidos, mas a efetiva introdução no meio evangélico se deu na década de 70. Adicionou um forte cunho de auto-ajuda e valorização do indivíduo, agregando crenças sobre cura, prosperidade e poder da fé através da confissão da "Palavra" em voz alta e "No Nome de Jesus" para recebimento das bênçãos almejadas; por meio da Confissão Positiva, o cristão compreende que tem direito a tudo de bom e de melhor que a vida pode oferecer: saúde perfeita, riqueza material, poder para subjugar Satanás, uma vida plena de felicidade e sem problemas. Em contrapartida, dele é esperado que não duvide minimamente do recebimento da bênção, pois isto acarretaria em sua perda, bem como o triunfo do Diabo. A relação entre o fiel e Deus ocorre pela reciprocidade, o cristão semeando através de dízimos e ofertas e Deus cumprindo suas promessas.

No Brasil a primeira e principal igreja seguidora dessa doutrina é a IURD (Igreja Universal do Reino de Deus), fundada em 1977 por Edir Macedo que adaptou as suas práticas para as características brasileiras, além de possuir metodologias e princípios próprios. Em vez de ouvir num sermão que "é mais fácil um camelo atravessar um buraco de agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus" (Mateus 19,24 e Marcos 10,25), agora a novidade reside na possibilidade de desfrutar de bens e riquezas, sem constrangimento e com a aquiescência de Deus.

Para os pobres e desafortunados de uma em maneira geral, o direito de possuir as bênçãos como filho de Deus traz alívio e esperança na solução de todos os seus problemas. Segundo Edir Macedo, Jesus veio pregar aos pobres para que estes se tornassem ricos. Arrependimento e redenção, tema central no Cristianismo, e as dificuldades nesta vida para o justo de Deus são temas raramente tratados. Além da IURD temos as Igrejas Renascer em Cristo, Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra, Bíblica da Paz, Cristo Salva, Cristo Vive, Verbo da Vida, Nacional do Senhor Jesus Cristo e pelas organizações Adhonep, Missão Shekinah, Igreja Internacional da Graça de Deus e etc.

O papel do Diabo nesta teologia

Um importante ponto dentro da doutrina da IURD, assim como na maioria das outras igrejas neopentecostais brasileiras é a intervenção do Diabo na vida do homem. Ele, o Diabo, é o elemento perturbador que está entre a graça de Deus e os pedidos do crente. As bênçãos estão ao alcance de todos mediante a fé, inclusive com a alteração radical de realidades miseráveis em vidas prósperas; porém, se alguém tiver qualquer envolvimento direto ou indireto com o Diabo ou não estiver disposto a "sacrificar" para a obra de Deus, não será agraciado. Não é primordialmente o pecado (individual ou social) que impede a posse dos bens, mas o Diabo, que age segundo seu próprio arbítrio, contra quem o crente deve lutar. Uma vez que a responsabilidade fica por conta do fiel e do Diabo, cria-se uma linha de tensão entre a posse da bênção e a atuação diabólica. Este mecanismo permite explicar porque muitos fiéis não alcançam à graça.

Ao longo do ano de 2001, a IURD passou a utilizar o vocábulo “encosto” que na linguagem popular corresponde aproximadamente à “obsessor” na nomenclatura espírita. O encosto passou a ser a entidade que “pessoalmente” provoca todo e qualquer tipo de mal ao homem, aparentemente a serviço do Diabo. Creio que essa mudança estratégica se deva a dois fatores: Primeiro o de sugerir ao crente que ele pode vencer mais facilmente o inimigo, já que não se trata do próprio Diabo em pessoa; e segundo pelo aprendizado prático dos pastores que perceberam que não estão tratando sempre com a mesma entidade durante as seções onde supostamente o Diabo se manifestava através de alguns fiéis.

A este propósito devemos lembrar, mais uma vez, que segundo a doutrina da IURD, o indivíduo não é exatamente a sede do pecado, o que exigiria dele o arrependimento, mas uma vítima da ação maligna: o ato de pecar não deriva de sua escolha, mas o Mal é fruto do encosto que atrapalha a sua vida, em especial a financeira, que consideram um sinal de bênção.

Doutrina da Reciprocidade

Na busca da bênção, o fiel deve determinar, decretar, reivindicar e exigir de Deus que Ele cumpra sua parte no acordo; ao fiel compete dar dízimos e ofertas. A Deus cabe abençoar. Ao estabelecer esta relação de reciprocidade com Deus, o que ocorre é que Ele, Deus, fica na obrigação de cumprir todas as promessas contidas na Bíblia na vida do fiel. Torna-se cativo de sua própria Palavra.

Macedo ensina como proceder:

"Comece hoje, agora mesmo, a cobrar d'Ele tudo aquilo que Ele tem prometido (...) O ditado popular de que 'promessa é divida' se aplica também para Deus. Tudo aquilo que Ele promete na sua palavra é uma dívida que tem para com você (...) Dar dízimos é candidatar-se a receber bênçãos sem medida, de acordo com o que diz a Bíblia (...) Quando pagamos o dízimo a Deus, Ele fica na obrigação (porque prometeu) de cumprir a Sua Palavra, repreendendo os espíritos devoradores (...) Quem é que tem o direito de provar a Deus, de cobrar d'Ele aquilo que prometeu? O dizimista! (...) Conhecemos muitos homens famosos que provaram a Deus no respeito ao dízimo e se transformaram em grandes milionários, como o Sr. Colgate, o sr. Ford e o sr. Caterpilar". (MACEDO, Vida com Abundância, p. 36).

E prossegue:

"Ele (Jesus) desfez as barreiras que havia entre você e Deus e agora diz ¾ volte para casa, para o jardim da Abundância para o qual você foi criado e viva a Vida Abundante que Deus amorosamente deseja para você (...). Deus deseja ser nosso sócio (...). As bases da nossa sociedade com Deus são as seguintes: o que nos pertence (nossa vida, nossa força, nosso dinheiro) passa a pertencer a Deus; e o que é d'Ele (as bênçãos, a paz, a felicidade, a alegria, e tudo de bom) passa a nos pertencer". (MACEDO, Vida com Abundância, pp. 25,85-86).

O Neo-pentecostalismo se caracteriza exatamente por este tipo de relacionamento do fiel com Deus, inspirada na Teologia da Prosperidade: o cristão tem direito a tudo de bom e de melhor neste mundo. Nas palavras de Macedo: "A Bíblia tem mais de 640 vezes escrita à palavra oferta. Oferta é uma expressão de fé. Se Deus não honrar o que falou há três ou quatro mil anos, eu é que vou ficar mal". (MACEDO, O Globo, 29/4/1990). Cabe ao fiel demonstrar revolta diante de Deus e "de dedo em riste" exigir que as promessas bíblicas se cumpram.

Sacrifícios

Torna-se impossível não evidenciar que essa relação agrega um forte simbolismo ao dinheiro: o fiel propõe trocas com Deus para conseguir a bênção desejada. Neste discurso, a soberania de Deus é compartilhada pelo fiel na relação de troca. É incentivado que o fiel se acomode ao mundo das novas tecnologias, acumule riquezas, more melhor, possua carro e não tenha sentimento de culpa por não negar o mundo; pelo contrário, a conduta ascética tem diminuído entre os pentecostais desde a década de 70.

Na relação de troca o fiel dá o dízimo e ofertas participando das campanhas:

"É necessário dar o que não se pode dar. O dinheiro que se guarda na poupança para um sonho futuro, esse dinheiro é que tem importância, porque o que é dado por não fazer falta não tem valor para o fiel e muito menos para Deus". (MACEDO, Isto é Senhor, 22/11/1989).

E tem a garantia dos pastores de que Deus cumprirá sua parte: "Ele ficará na obrigação de cumprir Sua Palavra". (MACEDO, Mensagens, p. 23). E ainda, "O ditado popular de que 'promessa é dívida' se aplica também a Deus". (CRIVELLA, 501 Pensamentos do Bispo Macedo, p. 103). A ênfase na necessidade de dízimos e ofertas é explicada pelos líderes da IURD: "caso o fiel não alcance o sucesso almejado, a responsabilidade e a falha são suas".

As doações em dinheiro ou bens são presentes colocados no altar de Deus, logo, para uma grande bênção, um valioso presente! A fé é um instrumento de troca; uma mercadoria, e nesta relação "toma lá, dá cá", a imagem de Deus torna-se mais próxima e trivializada, em oposição à doutrina difundida pelo protestantismo histórico e pelo catolicismo tradicional, a partir da qual reverência e submissão são enfatizadas.

"Dependendo do grau de interesse do ofertante, o presente, por mais caro que seja, ainda assim se torna barato diante daquilo que está proporcionando ao presenteado. Quando há um profundo laço de afeto, ternura e amor entre o que presenteia e o que recebe o presente nunca deve ser inferior ao melhor que a pessoa tem condições de dar". (MACEDO, O Perfeito Sacrifício: o significado espiritual do dízimo e ofertas, p. 12).

O fiel deve sacrificar o "seu tudo". A IURD tem uma campanha em que estimula o fiel a doar o máximo que puder na espera da bênção. Muitas pessoas dão tudo o que têm naquele momento de sua vida: uma caderneta de poupança, o dinheiro para comprar comida, o dinheiro para o ônibus, e assim por diante.

Aqueles que vêem as doações das ofertas com maus olhos, ou seja, do ponto de vista meramente mercadológico, principalmente do lado da Igreja, também têm dificuldades para compreender a razão da vinda do Filho de Deus ao mundo. (...) haja vista que a oferta está intimamente relacionada com a salvação eterna em Cristo Jesus. (MACEDO, O Perfeito Sacrifício: o significado espiritual do dízimo e ofertas, p. 14).

O adepto é conclamado a concorrer por melhores condições num mundo de extrema desigualdade social. E ainda tem de assumir uma responsabilidade a mais: a de ter sucesso, senão sua vida pode estar comprometida com as forças malignas ou com sua própria incapacidade de gerenciar suas possibilidades. Há muitas oportunidades para aqueles que vivem nos bolsões de pobreza? É onde se encontram muitas igrejas da Universal. Mas, mesmo assim, é preciso "sacrificar" diante de Deus e, de preferência, em dinheiro: "Aqueles que examinam o custo do sacrifício jamais sacrificarão uma grande oferta, e aqueles que não sacrificam para a obra de Deus jamais conquistarão qualquer vitória". (CRIVELLA, 501 Pensamentos do Bispo Macedo, p. 21).

Colocado nestes termos, é o fiel quem decide: "Tudo depende de você. Se perseverar, automaticamente conquistará as bênçãos de Deus. E assim, entrará na terra prometida". (MACEDO, Mensagens, p. 21).

E a igreja administra a sua doação: "A árvore proibida, no paraíso, representava o dízimo, isto é, à parte de Deus na qual o homem não podia sequer tocar, embora pudesse regá-la e fazê-la crescer". (CRIVELLA, 501 Pensamentos do Bispo Macedo, pp. 99-100). Já ao fiel cabe expulsar Satanás, participar das correntes de prosperidade, ler sobre como muitos irmãos conseguiram resultados exigindo de Deus o que têm direito. De resto, aquele que não alcançar uma bênção, não dará testemunho nem será citado nos livros.

Auto–ajuda

"É certo que muitas pessoas neste mundo são ricas, mesmo sem possuírem Deus no coração. Vencem, entretanto, porque confiam na força do seu trabalho, e por isso, são possuidoras de uma riqueza honesta e digna. (...) Reafirmo que nossa vida depende de nós mesmos". (MACEDO, Mensagens, pp. 27, 22).

Algumas das características do discurso iurdiano denotam a recomendação de autoconfiança; o fiel deve crer nele mesmo, em sua capacidade individual. A estratégia oferecida pela IURD, baseada na Teologia da Prosperidade, estimula o membro da igreja a ser participativo nos cultos em relação a ofertas e dízimos e reivindicar perante Deus aquilo que lhe pertence por direito. Se todo o discurso sobre espiritualidade vem atrelado à intervenção do Diabo, quando se trata de dinheiro, o fiel tem de ir à luta e buscar a Deus com revolta, que neste caso, assume um sentido de inconformidade com a própria situação: doença, pouco dinheiro, ser empregado assalariado, etc., e é Deus quem tem que assumir Sua posição diante do fiel: a IURD assim o exige. Porque Deus é obrigado, como em um contrato, a fazer sua parte!

""Depende apenas de você o que será feito de sua vida, pois quem decide nosso destino somos nós mesmos. Não são as outras pessoas; não é Deus, nem o Diabo. (...) Não adianta ficar só jejuando ou orando. É preciso buscar o que você quer; fazer a sua parte, e então falar ousadamente com Deus, revoltado com a situação. Você deve dar o primeiro passo, pois Deus não o fará por você. (MACEDO, Mensagens, p. 28).

É evidente que esta teologia tem conseguido, até o momento, um grande sucesso tendo em vista o objetivo da expansão do número de fiéis e da área de abrangência das igrejas, inclusive a nível internacional. Não é objetivo julgar se esse fenômeno (o crescimento dessas igrejas) é um fato positivo ou negativo, mas sim, levar a uma análise social fundamentada no capitalismo vigente.

A INFLUÊNCIA DO COMUNISMO NA TEOLOGIA CATÓLICA

A influência do comunismo na teologia católica veio acompanhada de várias outras situações sociais que estavam acontecendo, principalmente nos países do terceiro mundo. Esta teologia é conhecida como “Teologia da Libertação”.

A Teologia da Libertação (TDL) nasce na América Latina e Caribe num contexto histórico bem definido. Três ordens de fatores marcam e explicam sua gênese e seu desenvolvimento. Primeiramente, numa perspectiva sócio-econômica e política, grande parte dos países latino-americanos e caribenhos, sofria sob o peso da ditadura militar. Acrescida da dependência econômica em relação ao Primeiro Mundo, os regimes de exceção contribuem poderosamente para agravar as desigualdades sociais que se verificam no interior dos países periféricos do Terceiro Mundo, bem com entre estes e os países centrais. Nesse estado de coisas, opressão política e dívidas sociais crescentes constituíam duas faces da mesma moeda. As nações subdesenvolvidas, embora formalmente independentes, na verdade viviam sob a égide de uma nova colonização, ou melhor, jamais haviam saído dela.

Em segundo lugar, desde uma perspectiva científica, o instrumental de análise social marxista jogava luz sobre essa realidade de domínio político e econômico. Na medida em que disseca a partir de suas entranhas o funcionamento da acumulação capitalista, a teoria marxista põe a nu as contradições do liberalismo econômico. Basta uma olhada rápida às obras de Gustavo Gutierrez, Juan Luis Segundo, Clodovis e Leonardo Boff, Jon Sobrino, Hugo Asmann, Ellacuría - entre tantos outros - para dar-se conta de que, em termos de análise social, implícita ou explicitamente, elas se guiam pela matriz teórica do marxismo. Convém não esquecer, porém, que os autores da TDL recorrem a essa matriz teórica muito mais para entender a gênese da opressão social, do que na busca de um projeto social alternativo. Neste caso, a orientação e a luz partem antes da Palavra de Deus.

A terceira ordem de fatores que ajuda a entender o surgimento da TDL está vinculada ao campo eclesial. Cinco aspectos desta inflexão eclesial devem ser destacados. Primeiro, a experiência da Ação Social Católica nos anos 50 e 60, especialmente entre a classe operária francesa. A difusão do método VER-JULGAR-AGIR mergulha aí suas raízes, ajudando a entender os problemas sociais através de uma pedagogia crítica, por um lado, e de uma prática transformadora, por outro.

Depois, temos a realização do Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965), como tentativa bem sucedida de a Igreja entrar em diálogo aberto com o mundo moderno. Tratava-se, em poucas palavras, de afinar o compasso com as descobertas da ciência e com o progresso tecnológico. A Constituição Pastoral Gaudium et Spes, sobre a Igreja no Mundo de Hoje, traça um retrato da realidade, em suas "mudanças rápidas e profundas", que ainda hoje mantém grande atualidade.

O terceiro aspecto refere-se à II Conferência dos Bispos da América Latina e Caribe, realizada na cidade de Medellín, Colômbia, no ano de 1968. Estamos em plena vigência das ditaduras militares. O tema - La Iglesia en la actual transformación de la América Latina, a la luz del Concilio Vaticano II - retrata um contexto de grande efervescência social e política. Os bispos cunham a expressão "violência institucionalizada" para sublinhar que "um surdo clamor brota de milhões de homens, como injustiça que clama aos céus". Falam também da "vigência de estruturas inadequadas e injustas" que pesam duramente sobre os povos do continente.

O aspecto de número quatro representa a prática libertadora das Comunidades Eclesiais de Base (CEB) em vários países da América Latina e do Caribe. Inspiradas no método Ação Católica, por uma parte, e por outra, estimuladas pelas conclusões do Vaticano II e do Documento de Medellín, as comunidades cristãs passam a uma militância ativa pela transformação das estruturas sociais injustas. A leitura da realidade à luz da Palavra de Deus e a busca de soluções concretas para os problemas reais define sua prática religiosa frente à dominação política e à pobreza econômica. Esse "novo jeito de ser igreja" realiza entre a fé e o compromisso social um casamento indissociável e rico em conseqüências. Vale sublinhar que essa "opção preferencial pelos pobres" tem na hierarquia amplo respaldo.

E chegamos assim ao quinto e último aspecto a ser lembrado: um discurso social fortemente combativo, acompanhado de uma prática conseqüente, seja por parte de algumas conferências episcopais latino-americanas e caribenhas, seja por parte de alguns bispos isolados. No caso das conferências, o destaque vai para o Brasil, onde o enfrentamento à ditadura militar produziu documentos de uma veemência profética surpreendente. Quanto aos pastores mais engajados, vale apontar os nomes de Dom Hélder Câmara, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Oscar Romero - para só citar alguns.

As três ordens de fatores e os cinco aspectos eclesiais, combinados entre si, estão na raiz da Teologia da Libertação. Esta nasce e se desenvolve como uma reflexão crítica a partir da práxis libertadora dos cristãos. Ou seja, num primeiro momento desenrolam-se em inúmeros grupos, movimentos e pastorais sociais a luta pela libertação; só depois, num segundo momento, é que se desenvolve a reflexão teórica. Esta, no decorrer do tempo torna-se simultaneamente causa e efeito de novas lutas e novas sínteses reflexivas. Instala-se o que Juan Luis Segundo irá chamar de círculo hermenêutico: a consciência sobre a realidade opressiva leva a uma prática libertadora, a qual alimenta uma reflexão teórica que, por sua vez, retroage sobre a realidade, renovando e aprofundando a ação social e política.

Esse esquema de dupla face - práxis transformadora e reflexão teórica - ganharam impulso sob as botas dos militares. Não é à toa que a perseguição política e o martírio acompanharam de perto essa nova forma de viver a fé cristã. Militantes de base, agentes pastorais e teólogos, às dezenas e centenas, sofreram no corpo e na alma o peso e o impacto da ação repressiva.

A “TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO” NO BRASIL

Se deixarmos de lado os primeiros anos da igreja católica, quando cidades como Antioquia, Constantinopla e Jerusalém tiveram forte influência na consolidação do Cristianismo, pode-se dizer que os estudos teológicos sempre estiveram vínculos profundos com a Europa, em geral, e com Roma em particular, que não por acaso é o centro do catolicismo latino. Fato curioso foi o aparecimento, na América Latina, por volta da segunda metade do século XX, de um movimento teológico que ficou conhecido como “Teologia da Libertação”. Este movimento se inscreve no contexto tanto dos preparativos como dos desdobramentos do famoso Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965) quando os católicos tentaram restabelecer o diálogo com a cultura moderna. Para situar o surgimento da Teologia da Libertação é preciso ter consciência de que mesmo na Europa, nos anos que antecederam o Concílio, havia um forte apelo em favor da renovação dos métodos pelos quais a igreja se fazia presente no mundo. É neste contexto que ações junto aos operários, aos camponeses, as mulheres, aos jovens não somente se consolidaram como também ganharam o mundo. Servindo inclusive de base para se propor um modelo de igreja mais próximo dos pobres. Aliás o próprio termo Igreja dos Pobres não é estranho para alguns bispos e teólogos que tiveram um papel fundamental no Concílio.

De volta para suas respectivas dioceses, os bispos tratam de implantar as deliberações conciliares. Aqui na América Latina crescia a consciência de que o principal problema a ser enfrentado pela igreja não era de ordem filosófica (com o ateísmo, por exemplo), mas era de ordem econômica e, conseqüentemente, política (a pobreza). Em outras palavras, alguns setores da igreja descobrem que a injusta pobreza estrutural, na qual estavam mergulhadas as sociedades latino-americanas, era uma afronta ao amor de Deus e, portanto, a vivência da religião exigia a transformação da sociedade.

Foi assim que desafiado pela própria realidade e estimulado pelos bispos (primeiro na Conferência de Medelin - Colômbia, 1968 - e depois na Conferência de Puebla - México, 1979) surge a Teologia da Libertação. Justamente por se tratar de uma reflexão de cunho pastoral vivida no interior das diferentes igrejas particulares os primórdios deste movimento teológico acontecem de forma livre, o que não impede a identificação de alguns marcos importantes como, por exemplo, o trabalho de teólogos com o peruano Gustavo Gutierrez autor do livro A força histórica dos pobres, ou dos brasileiros Hugo Assmman e Leonardo Boff que entre outras obras escreveram respectivamente Teologia desde la Práxis de la Liberación e Jesus Cristo Libertador.

O ponto central e original da Teologia da Libertação foi a opção preferencial pelos pobres. Trata-se, portanto, de uma perspectiva epistemológica pela qual se buscava não apenas visitar todo o patrimônio cultural e cientifico da teologia cristã mas também se queria, à luz desta opção, responder aos problemas que o mundo moderno coloca para a presença e ação da igreja no mundo. Não se esquecendo nunca de que o principal problema é a pobreza estrutural. A consciência de que a pobreza estrutural é o principal problema a ser enfrentado, permitiu estabelecer a interface entre as exigências religiosas, os desafios econômicos e os obstáculos políticos. Enquanto teologia, isto é, como reflexão sobre Deus, a Teologia da Libertação aceitou o desafio de revelar este mesmo Deus a partir do lugar social do pobre, o que não significa de forma alguma uma santificação romântica deste último, nem muito menos uma resignação frente a pobreza na qual vivem grandes segmentos da população brasileira.

O ex-frei Leonardo Boff foi um dos expoentes brasileiros da Teologia da Libertação,Por outro lado, ao se perceber que a pobreza é um problema estrutural também se percebeu que sem transformações econômicas e políticas não haverá superação da pobreza e, conseqüentemente, um discurso sério sobre Deus. Na opção pelos pobres, portanto, reside o ponto forte e, ao mesmo tempo, a fraqueza desta reflexão teológica. Seu ponto forte porque foi graças a criatividade do diferentes modos de presença juntos aos pobres e de solidariedade para com o empobrecidos que a igreja latino americana, principal protagonista da Teologia da Libertação, conseguiu estabelecer interlocução tanto internamente (com os diferentes segmentos da sociedade) quanto externamente (com as igreja e organizações esparramadas pelo mundo, em geral, e presentes, particularmente, nos países ricos - Alemanha, Itália, Estados Unidos, Canadá etc). A literatura que dá conta deste intercambio é imensa.

Mas também foi justamente este compromisso com os pobres que despertou as principais oposições e perseguições a Teologia da Libertação. Neste ponto os teólogos da libertação, apesar de honrosas exceções, por falta de uma correta análise do momento histórico nacional, sucumbiram. Boa parte deles deixou a luta ao lado dos pobres para dedicar-se a consolidação de organizações por eles criadas. Além do mais, há que se reconhecer que a atual reversão das prioridades pela qual passa a igreja católica se viabiliza, de um lado, porque a hierarquia, mesmo a brasileira que inicialmente apoiou a Teologia da Libertação, hoje, consegue neutralizar os efeitos desta reflexão que tinha a pobreza como principal desafio religioso, econômico e político. E do outro lado porque ao neutralizar a Teologia da Libertação, os articuladores do atual discurso teológico oficial conseguiram se alinhar às expectativas espiritualizantes de um segmento dos católicos que não está nenhum pouco preocupado com o exercício da solidariedade como caminho para o conhecimento de Deus. A famosa transformação econômica e política da sociedade entendida como exigência religiosa para a comunhão com Deus deixou de ser prioridade fazendo com que a ação política dos cristãos não tenha como meta a emancipação dos pobres mas sim a consolidação da igreja. Por esta razão, se pode dizer que apesar de ter sido muito importante para as gerações dos anos 60, a Teologia de Libertação - mesmo que ainda presente em alguns espaços - sem uma radical e atualizada volta à opção preferencial pelos pobres entrará para história como um movimento marginal que adormece esperando que as cinzas que escondem as brasas sejam assopradas.


CONCLUSÃO


Podemos chegar a conclusão, que há uma grande necessidade do discurso teológico das igrejas se adaptarem a uma realidade economico-politica, até mesmo para atrair novo adeptos para seu rebanho, tendo em vista que o discurso que não se moderniza, se fossiliza. Isso é o que tem acontecido com muitas religiões atualmente, mas qual é o certo a fazer? adaptar o discurso dentro do adágio de Maquiavel: "o fim justifica os meios", ou se manter convicto que as verdades Bíblicas transcendem as questões culturais?


terça-feira, 22 de junho de 2010

AS DIFERENÇAS TEOLÓGICAS ENTRE OS TESTAMENTOS DA BÍBLIA (A.T. E N.T.)

O presente artigo consiste numa introdução valiosa a estas matérias, teologia do Antigo e do Novo Testamento, freqüentemente complexa pelo fato de não haver estudos específicos nas igrejas, transparecendo as diferenças dessas teologias que elucidem melhor o entendimento do leigo a cerca das Escrituras Sagradas.

O Antigo Testamento forma a primeira parte das Escrituras, é uma coleção de trinta e nove livros (46 na Bíblia católica), que se refere a “Antiga Aliança”, ou seja, a aliança que Deus fez com o povo de Israel.

Já o Novo Testamento forma a segunda parte da Bíblia, ela é uma coleção de vinte e sete livros, mas tem somente um terço do volume do Antigo Testamento. O Antigo Testamento cobre um período de milhares de anos de história, mas o Novo Testamento menos de um século.

Novo Testamento quer dizer, de fato, “Novo Pacto” em contraste com “Antiga Aliança”. O vocábulo “testamento” transmite-nos a idéia de uma última vontade, e só passa a ter efeito na eventualidade da morte do testador. Assim é que o novo pacto entrou em vigor em face da morte de Jesus (Hb 9.15-17).

Existem muitas diferenças entre a teologia do Antigo Testamento e do Novo Testamento. A teologia do Antigo Testamento é o estudo dos atributos de Deus e propósito das suas atividades na história e na vida do povo de Israel, de acordo com a doutrina da revelação divina nos livros sagrados deste povo.

Quando falamos da religião de Israel ou da teologia do Antigo Testamento, não estamos nos referindo a uma religião com objetivos de fazer prosélitos de todas as nações, povos e línguas, e sim, de uma fé nacional cujo objetivo é somente a edificação dos judeus.

Existe um contraste entre a teologia judaica e a teologia no Novo Testamento. Os israelitas não dão ênfase a doutrinas tais como criação, queda do homem, dilúvio, demônios, etc. para os judeus estas coisas não tem importância. A fé judaica tem a ver com a vida do povo de Israel e seu desenvolvimento por todo Antigo Testamento. Ensinos sobre Satanás, demônios, possessões demoníacas, curas, etc. não são de grande valor para o judeu, pois, apesar de constar alguma coisa sobre estes assuntos no Antigo Testamento, somente tiveram ênfase no Novo Testamento.

Entretanto, quando falamos da teologia do Novo Testamento e Antigo Testamento, estamos falando do estudo sistemático numa ordem lógica de assuntos sobre Deus, Revelação, a ação e função do Espírito Santo, salvação, conceito de pecado, etc. Assim sendo, existe diferença da teologia que encontramos no Antigo Testamento e a teologia que encontramos no Novo Testamento.

As características da teologia do Novo Testamento têm aspectos diferentes e esclarecedores quando comparadas à teologia do Antigo. Para termos uma visão do ensino teológico do Novo Testamento tem que haver o conhecimento do pensamento nos escritos dos Evangelhos sinópticos, Evangelho de João, a teologia de Paulo, de Tiago, de Pedro, Judas e do Apocalipse.

A teologia do Antigo Testamento é voltada para as massas, para o povo de uma forma coletiva, dentro dos princípios da visão da Lei mosaica. O cerne da teologia do Antigo Testamento tem como figura relevante o povo de Israel e não o fator gentil. Para as demais nações existe a promessa das bênçãos mencionadas a Abraão: “Abençoarei aos que te abençoarem, e amaldiçoarei aquele que te amaldiçoar; e em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12.3). As festas mosaicas, costumes dietéticos, sacrifícios de animais e vida do povo judeu sob a Lei de Moisés resultam a construção da teologia do Antigo Testamento que os colocava na condição de nação separada por Deus.

Na teologia do Novo Testamento a individualidade da salvação de cada um passa a ter importância decisiva para se alcançar o Reino de Deus. A questão do juízo divino é bem mais enfocada nas páginas do Novo Testamento. Enquanto as batalhas no Antigo Testamento são conflitos entre nações, no Novo são espirituais. Na teologia Paulina a batalha mais intensa e feroz não é a luta com as armas de uma guerra comum, e sim, uma luta espiritual: “Pois não é contra carne e sangue que temos que lutar, mas sim contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes do mundo destas trevas, contra as hostes espirituais da iniqüidade nas regiões celestes” (Ef 6.12). A ação demoníaca não é tão ensinada nos ensinos judaicos, enquanto que, nos Evangelhos, muitos que eram curados por Jesus, deles saíam demônios. Inclusive na teologia encontrada nos ensinos de Jesus, há um imperativo para se curar enfermos e expulsar demônios: “Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos, expulsai os demônios; de graça recebestes, de graça dai” (Mt 10.8). Os contrastes encontrados nas duas teologias nos permitem assegurar que somente os ensinos do Antigo Testamento não seriam o suficiente para a pregação da libertação que a história humana ainda tem necessidade. A doutrina que encontramos na teologia do Novo testamento complementa ou elucida melhor o que ficou um tanto obscuro pela teologia judaica.

O Antigo Testamento é a parte preparatória de Deus para revelações maiores e mais profundas ao homem. Por isso é especial. Deus providenciou uma revelação e mostrou seus diferentes métodos. Nesta época era muito enfatizada a questão do “temor do Senhor”, uma idéia que começou na era patriarcal e que foi sendo desenvolvida até que a casa de Davi e o templo de Salomão tivesse sido estabelecidos, sendo assim, os profetas poderiam a partir deste momento, focalizar sua atenção sobre o plano e reino de Deus no seu alcance mundial, usando é claro a nação de Israel. Infelizmente, porém, o pecado de Israel também exigiu boa parte da atenção dos profetas, pois ao invés de quererem a conversão das nações, quiseram a destruição delas ou ser igual a elas. Com essas revelações o mundo deveria esperar até que chegasse a “plenitude dos tempos” (Gl 4.4), no Novo Testamento.

Na teologia do Antigo Testamento, Israel foi chamado de “reino de sacerdotes e nação santa” (Ex 19.6). Deus, com todo o amor delineava os meios morais, cerimoniais e civis de se cumprir tão alta vocação. Viria no ato primário do Êxodo, com a graciosa libertação de Israel do Egito, operada por Deus, a subseqüente obediência de Israel, em fé, aos dez mandamentos, a teologia do Tabernáculo e dos sacrifícios, e semelhantes detalhes do código da aliança (Ex 21-23) para o governo civil. Deus tinha o propósito com isso, fazer com que Israel intercedesse pelos outros povos e anunciasse que somente Yahweh é Deus, sendo assim, o propósito de Deus com Israel no seu plano de alcançar as nações era atraí-las usando Israel como exemplo para que as outras nações adorassem o Senhor como o único Deus.

Na teologia do Novo Testamento, vemos um propósito diferente de Deus com a igreja, ao invés de atrair as outras nações como no Antigo Testamento mediante testemunhos de vitórias em guerras, santidade excessiva, prosperidade material e etc, Deus mandou imperativamente que sua igreja fosse às nações e pregasse pura e exclusivamente o evangelho de Jesus Cristo, não os colocando como padrão de coisa alguma, mais sim, Cristo pelo poder do Espírito Santo.

Na teologia do Antigo Testamento, quando vemos as doutrinas propriamente ditas, observamos que o conceito do Espírito do Senhor passou por um processo de desenvolvimento. Os israelitas nunca entenderam o Espírito do Senhor como sendo a terceira pessoa da Trindade. Somente no Novo Testamento é que a doutrina do Espírito de Deus se torna mais definida teologicamente. O conceito de Israel sobre o Espírito de Deus é diferente da interpretação da igreja, pois, dentro da teologia judaica somente se crê na pessoa do Pai. Porém, a igreja vê nas palavras de Jesus a existência irrefutável da Trindade (Mt 28.19).

Na teologia do Novo Testamento, a ação do Espírito Santo no ministério do apóstolo Paulo era real. Paulo nos orienta a termos uma vida totalmente voltada para submissão ao Espírito Santo.

A santificação, o crescimento na graça são frutos do viver no Espírito. O Espírito Santo é Deus operando no aperfeiçoamento do corpo de Cristo, a igreja. A igreja aparece como corpo onde Cristo é a cabeça.

Do ponto de vista dos escritores do Antigo Testamento, o pecado para com Deus não era algo propriamente individual e sim, uma questão nacional. A responsabilidade quanto ao pecado era um problema coletivo da nação de Israel (Jr.2.13). Os profetas denunciaram os males sociais como pecados contra Deus (Mq 3.9-11; Am 2.6). As gerações presentes sofriam as conseqüências das transgressões das gerações passadas (Lm 5.7). O recado de Deus sempre era uma mensagem para o conserto do povo (2Cr 7.14). A conseqüência da desobediência envolvia o castigo na vida nacional (Ez 14.13). Os profetas ensinaram com clareza e com ênfase que qualquer injustiça praticada contra o próximo é pecado contra Deus. Condenaram severamente todas as formas do pecado social, o adultério, a opressão do pobre e do operário, o suborno, a fraude e todos os atos perversos. Os profetas deram mais ênfase à natureza pecaminosa do homem que comete o pecado. Atos de pecador que, no seu egoísmo, na sua arrogância e no seu espírito revoltoso contra o Senhor, trazia a ruína sobre a nação.

Na teologia do Novo Testamento, podemos observar o conceito de pecado de Paulo como um conceito que enfatiza o indivíduo e não uma coletividade. Em Romanos 5.21 “Para que assim como o pecado veio a reinar na morte, assim também viesse a reinar a graça pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor”, ou seja, o pecado é uma realidade e Paulo o apresenta como uma herança de Adão. Romanos 5.12 “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram”, ou seja, Adão fora criado para viver eternamente e continuaria nesta condição se não houvesse pecado. Toda criação sofre por causa do pecado, este é universal e afeta toda natureza e não somente o homem. Romanos 8.19-22, “Porque a criação aguarda com ardente expectativa a revelação dos filhos de Deus. Porquanto a criação ficou sujeita a vaidade, não por sua vontade, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que também a própria criação há de se libertar do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda criação, conjuntamente, geme e está com dores de parto até agora”.

As características da salvação na teologia judaica estão impressas na vida social do povo. Se o povo sofria fome, derrotas nas guerras, doenças, pestes e pragas nos animais e nas plantações, estas coisas eram interpretadas como o povo estando em pecado e sendo castigado por Deus, entretanto, se ocorresse o contrário, o povo tendo fartura, vencendo nas guerras, realizando boas colheitas e não sofrendo doenças nem pragas, significava que a nação estava sendo abençoada por Deus e fazendo o que era reto diante dos seus olhos. A prosperidade do povo para o judeu era visto como bênçãos vindas da parte do Senhor (Jr 29.7; Dt 28.11-14). Mediante a este fato, a salvação do judeu nunca era interpretada como sendo algo individual, e sim, algo coletivo e nacional. Havia promessas de melhoras na terra caso o povo se concertasse (Is 1.9; 2Cr 7.14).

Jesus (teologia do Novo Testamento), no entanto, na sua mensagem ao povo de Israel, enfatizou o aspecto da salvação individual, mostrando a responsabilidade pessoal de cada indivíduo diante de Deus (Jo 3.3; 3.16; 6.35). Jesus veio abrir os olhos dos “legalistas”, mostrando que não bastava apenas cumprir de forma mecânica o código ético das leis morais, era preciso saber discernir entre o “cumprir por cumprir” e o “cumprir por amor”, e que isso não levaria ninguém para o céu. É o que Paulo vai deixar claro em algumas de suas epístolas, quando enfatiza a salvação pela graça de Deus mediante o sacrifício do Senhor Jesus Cristo e não por simplesmente guardar a Lei mosaica.

No conceito dos escritores do Antigo Testamento, a esperança messiânica significava crença na vinda de um Messias ideal por parte de Deus, com aspectos importantes para a vida judaica como o juízo divino, redenção de Israel, e uma nova era na história com a direção e reinado do próprio Messias (Sl 98.7-9; Is 40.10, 11). Segundo algumas profecias do Antigo Testamento, Yahweh virá pessoalmente estabelecer o seu reino na terra para sempre, e reinará com seu povo. Nesta era vindoura Israel será uma benção para toda nação (Dt 28.10).

Os judeus tinham tanta esperança nesse reinado do Messias à frente da nação de Israel que pensou que ele viria como um “rei Davi” que guerrearia a favor deles, no plano físico, por isso, no momento um pouco antes da ascensão de Jesus aos céus, os judeus-cristãos pensaram que naquele instante Israel seria restaurado e passaria a reinar no mundo sob a direção de Deus (At 1.6). Jesus, no entanto, respondeu que quanto ao dia em que o Senhor virá para implantar o seu Reino ninguém sabe somente o Pai nos céus (At 1.7).

Uma das características da teologia do Novo Testamento são as pregações de Jesus nos evangelhos sinópticos enfatizando o “Reino de Deus”. O reino de Deus é chegado e se torna uma experiência presente, ou pode ser interpretado também como afirmam muitos teólogos: “o Reino era totalmente futuro, mas estava tão próximo que seu poder já poderia ser sentido no presente”. O Reino de Deus tem então dois momentos: no cumprimento das promessas do Antigo Testamento com a missão histórica de Jesus, e na consumação dos séculos por ocasião da segunda vinda de Cristo. Para os judeus, o reino era sempre uma esperança terrena; algo assim como a terra sendo redimida da maldição do mal e a restauração de Israel num reino governado pessoalmente por um líder vindo diretamente da parte de Deus. Jesus Cristo veio esclarecer que seu reino não seria como os reinos políticos terrenos (Jo 18.36). Dentro das páginas dos Evangelhos Sinópticos há muito mais ênfase a demônios e possessões demoníacas do que no quarto evangelho. No ensino dos sinópticos, também, a idéia do Messias (o Ungido), indicava alguém com uma designação divina e unção especial para uma missão exclusiva determinada por Deus. A expressão “Filho do Homem” tem uma referencia particular a humanidade real de Jesus: era o Deus-Homem.

Jesus Cristo pregava o Evangelho do Reino, não um reino político ou material, mas um reino espiritual e futuro. Jesus enfatizava o aspecto escatológico. Nos seus ensinamentos, Jesus Cristo enfatizava que sua morte e ressurreição era uma necessidade para a salvação do ser humano. Por várias ocasiões Jesus Cristo ensinou esta doutrina.

O aspecto da teologia encontrada entre os judeus no Antigo Testamento se dissipa e dá lugar ao ensino para comunidades gentílicas, livres da Lei – uma ruptura entre a igreja e a sinagoga. Com a conversão dos gentios a igreja cada vez mais se torna menos judaicas, para dar lugar a uma doutrina livre dos ditames dos costumes dos judeus. A segunda vinda do Senhor tem também algum destaque na teologia Paulina (1Ts 4.13-16), apesar de seus ensinos enfatizarem muito mais a conduta cristã no mundo.

Cristo foi divinamente nomeado ao sumo sacerdócio. Cristo ofereceu-se a si mesmo voluntariamente como um sacrifício que jamais precisará ser repetido, ao passo que as repetitivas ofertas de animais desmascaram a sua ineficácia, pois animais inferiores não podem tirar os nossos pecados. Jesus é apresentado por Pedro como o Salvador cuja obra redentora foi consumada no gólgota.

Conclui-se que mesmo que as teologias do Antigo Testamento e do Novo tenham bastantes diferenças, podemos ver a forte influencia da teologia o Antigo no Novo. Pois, Para os primeiros cristãos, a teologia do Antigo Testamento com base na Lei, continuava sendo a palavra de Deus e um guia para vida, mas já não era o centro das atenções. Jesus agora era o centro de todo o pensamento cristão. A luz da vinda de Jesus, os primeiros cristãos concluíram que certas partes da Lei não tinham mais validade. Contudo, todos os dez mandamentos são reafirmados no Novo Testamento, exceto a observância do sábado.

Essas decisões sobre como aplicar a teologia do Antigo Testamento tomavam tempo e com freqüência causavam conflitos, como mostra o livro de Atos. Estevão enfraqueceu a ênfase no templo de Jerusalém (At 7.47-50). Pedro teve uma visão na qual viu alimentos impuros; ele concluiu que alimentos e pessoas não devem mais ser considerados impuros (At 10.9-16, 28; Marcos 7.19).

O concílio de Jerusalém decidiu que os gentios não precisavam observar a Lei judaica para se tornarem cristãos. (At 15). Não precisavam ser circuncidados. Essa foi uma decisão crucial, que tornou a atividade missionária mais fácil e evitou que o cristianismo prosseguisse como uma seita do judaísmo.

A epístola dos Hebreus pôs de lado o sacerdócio ineficaz do Antigo Testamento com seus sacrifícios de animais (Hb 7.11-18). Jesus é visto como sacerdote eterno cuja morte e ressurreição foram eficazes de uma vez por todas. Os sacrifícios no Antigo Testamento não passam de sombra do que agora é a realidade em Cristo.

Os cristãos de hoje não podem ignorar a teologia do Antigo Testamento. É claro que o enfoque nunca pode estar em suas práticas de rituais e cerimoniais, nem em uma obediência legalista. Os cristãos devem estudar a teologia do Antigo Testamento a luz da teologia do Novo Testamento que é baseado na vida, morte e ressurreição de Cristo, para aprender sobre como Deus se relaciona na história com as pessoas e sobre sua vontade de que elas vivam em amor. Então poderão entender porque Tiago 1.25 fala da lei como “lei perfeita e lei da liberdade”.


BIBLIOGRAFIA

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quarta-feira, 16 de junho de 2010

O Ensino Religioso na Escola


Historicamente, em grande parte das investigações efetuadas pelos estudiosos do Ensino Religioso brasileiro, a fonte mais utilizada era a legislação, e não as linhas educacionais. Na atualidade, estudiosos dedicados a esse componente curricular buscam, entre outras perspectivas de investigação, identificar correntes pedagógicas subjacentes às diferentes formas de Ensino Religioso desenvolvidas no Brasil e as concepções de educação, escola, professor, currículo e processos de ensino-aprendizagem relacionadas a essa disciplina, bem como seus impasses e desafios.

 
Nesse sentido, ressaltam-se dois enfoques significativos na articulação da formatação dos componentes curriculares:

 
· O primeiro é o enfoque social sobre os processos de ensino e aprendizagem, de modo que sejam propostos à discussão pedagógica aspectos de extrema relevância, particularmente no que se referem à forma pela qual se devem entender as relações entre desenvolvimento e aprendizagem, à importância da relação interpessoal nesse processo, à relação entre cultura e educação e ao papel da ação educativa ajustada às situações de aprendizagem e às características da atividade mental construtiva do aluno em cada momento de sua escolaridade;

 
· O segundo é a compreensão do processo de desenvolvimento na construção do conhecimento. Compreender os mecanismos pelos quais o indivíduo constrói suas representações.

 
Os diferentes componentes do currículo escolar devem ser espaço de formação e informação em que a aprendizagem dos conteúdos, necessariamente, favoreça a inserção do aluno no dia-a-dia das questões sociais marcantes em um universo cultural maior e se vincule à compreensão das profundas transformações nos modos de conhecer. Tal compreensão relaciona-se, igualmente, à transformação do modo de organizar a sociedade, onde a cultura se torna elemento diferencial na intensificação da interdependência transnacional e das interações globais.

 
Cada componente curricular caracteriza-se por fazer uso de uma linguagem específica e favorecer a compreensão dos fenômenos próprios de sua área. Isso se dá com intuito de contribuir com o aluno na produção de argumentos e elaborações em sua interação com as diversas situações do cotidiano, numa relação de construção de autonomia e cidadania.

 
O Ensino Religioso, particularmente, tem a leitura e a decodificação do fenômeno religioso como base de sustentação de sua estrutura cognitiva e educativa e visa contemplar tanto a pluralidade que envolve o contexto de sua temática quanto à complexidade das duas áreas por ele incorporadas, a saber: a Educação e a Religião.

 
O componente curricular de Ensino Religioso, articulado com as demais disciplinas, contribui para a construção de outra visão de mundo, de ser humano e de sociedade, considerando o religioso na qualidade do questionamento e da atitude com que a realidade de cada um é abordada. Percebe o religioso como uma dimensão humana que vai além da superfície dos fatos, acontecimentos, gestos, ritos, normas e formulações e auxilia o ser humano a interagir na sociedade de forma responsável e atuante.

 
Os estudiosos da fenomenologia da religião investigam o ser humano como naturaliter religiosus, concepção segundo a qual a religião constituiria característica constante dos seres humanos em todas as épocas. Os dados paleontológicos mais recentes atestam que o homo sapiens surgiu entre quatrocentos mil e cem mil anos atrás e provavelmente o Homo erectus tenha vivido de um milhão a cento e cinqüenta mil anos atrás; este já produzia objetos com cisões de caráter simbólico, os quais podiam ter significado cultural e mágico-religioso (LEEUW, 1960). Para nossos ancestrais, a experiência religiosa traduzir-se-ia na experiência da presença do sagrado, o que poderia tratar-se de um evento específico para a estruturação da religião, no qual se apoiariam diversas formas de tradições estabelecidas ao longo da história.

 
O estudo e a decodificação do fenômeno religioso no contexto educativo são fatores de crescimento e de construção coletiva para professores e estudantes, num processo de reflexão crítica sobre a práxis que estabelece significados, percebe a dimensão religiosa como um compromisso histórico diante da vida e do transcendente e contribui para a instauração de novas relações do ser humano como a natureza mediante o progresso das ciências e das técnicas (Fonaper, 1997).

 
Portanto, o que se pretende com o Ensino Religioso não se restringe à identificação do fenômeno religioso, mas visa à gradual descoberta e releitura de seus diferentes aspectos no cotidiano escolar e social. É de vital importância que esse componente curricular supere e ultrapasse a dimensão das informações e das curiosidades e se empenhe para alcançar uma educação para a ação transformadora numa perspectiva de planetariedade. O Ensino Religioso, como elemento normal do sistema escolar brasileiro, não deve ser entendido como o ensino de uma religião ou como o ensino das religiões nas escolas, mas, sim, como um componente curricular centrado na antropologia religiosa (Fonaper, 1997).

 
OBJETO E OBJETIVOS

 
O objeto do Ensino Religioso é o fenômeno religioso, assumindo a conceituação de religião dada pelo latim religio, na forma de sua derivação: relegere, que em português significa “reler”.

 
Cícero, filósofo do século I a.C., definia religio como o ‘culto aos deuses segundo os costumes dos ancestrais’. Para ele, a melhor religião era a mais antiga, porque mais próxima dos deuses, configurando-se, portanto, como um conjunto de crenças e práticas tradicionais próprias a uma sociedade humana particular, que assim honrava seus deuses e merecia o respeito das demais comunidades. Um exemplo dessa posição é o reconhecimento dos romanos do direito dos judeus de praticar livremente, em todo o império, seu culto monoteísta a Iavé, ao qual foi concedido o estatuto jurídico de religio licita (Junqueira, 2002).

 
O termo religio, que, entre os romanos tinha uma aceitação diferente da atual, designava a realização escrupulosa da observância cultual, no respeito e na piedade devidos aos poderes superiores. Tal observância fundamentava-se numa tradição.

 
A religião pode auxiliar o ser humano e definir-se no mundo e em relação a seus semelhantes e emprestar-lhe um sentido de vida. Constitui uma fonte de informações para seus fiéis e orienta-os, em suas ações, em questões relacionadas à origem, destino e sentido da existência. Ela também pode fornecer respostas às ameaças que pesam sobre toda a vida dos seres humanos.

 
Com essa compreensão, o Ensino Religioso na escola brasileira propõe estudar e interpretar o fenômeno religioso como base no convívio social dos alunos, constituindo-o objeto de estudo e conhecimento na diversidade cultural-religiosa do Brasil. Contribui na busca de respostas aos questionamentos existenciais dos estudantes, no entendimento da identidade religiosa, na convivência com as diferenças e na alteridade, numa perspectiva de compromisso histórico diante da vida e da transcendência (Fonaper, 1997).

 
Compreender o fenômeno religioso no contexto do Ensino Religioso requer, entre outros pontos, o uso de exercícios de análise da constância, das construções e da permeabilidade de determinados valores ou credos ao longo do tempo; a utilização de documentos; responsabilidade e compromisso ético além da técnica, a fim de enviar qualquer tipo de classificação histórica ou sociológica proselitista.

 
Assim, pode-se comparar o estudo do fenômeno religioso com o estudo de um fenômeno social ou similar, em que são designadas as estruturas do ser humano por sistemas de relações com outros seres humanos. Tal posição suscita novas questões, tais como: poder-se-ia descrever o fenômeno religioso como um mundo de estrutura estritamente relacional?

 
Essas e outras questões correlatas remetem ao fato de que, no fundo de toda a situação verdadeiramente religiosa, se encontra a referência aos fundamentos últimos do ser humano no que diz respeito às suas origens, compreensão de finitude e profundidade; ou seja, ao sentido da vida. O problema religioso, dessa forma, toca o ser humano em sua raiz ontológica e não permite ser tratado como um fenômeno superficial, uma vez que implica a pessoa como um todo. Em outras palavras, a religião tem que ver com o sentido último da pessoa, da história e do mundo (Zilles, 1991).

 
A preocupação dos estudiosos em estabelecer a compreensão etimológica dos termos utilizados na formatação do atual modelo foi favorecer a estruturação curricular do Ensino Religioso, sobretudo em um país com significativas diferenças culturais, as quais objetivamente desafiam os espaços pedagógico-didáticos da disciplina.

 
Com base nessas reflexões e na legislação que regulamenta e situa esse componente curricular na atualidade, alguns aspectos estruturais da disciplina apresentam-se organizados e propostos. Em nível nacional, o Ensino Religioso:

 
· É parte integrante da formação básica do cidadão. Ou seja, a disciplina alicerça-se nos princípios de uma cidadania planetária, no respeito ao outro como tal e na formação integral dos estudantes;

 
· É componente curricular cujos conhecimentos constroem significados com base nas relações que os estudantes estabelecem no entendimento do fenômeno religioso;

 
· Veicula um conjunto de conhecimentos e conteúdos que subsidiam o entendimento do fenômeno religioso à luz da relação entre culturas e tradições religiosas, a fim de conhecer os componentes básicos desse objeto de estudo;

 
· Orienta os alunos para a sensibilidade ao mistério e à alteridade, ao tratar dos conhecimentos religiosos que historicamente se apresentam como revelados e elaborados;

 
· Encaminha processos de aprendizagem processual, progressista e permanente, tendo em conta os conhecimentos anteriores dos estudantes, os contextos socioculturais deles e da comunidade escolar onde se encontram inseridos, a fim de possibilitar um entendimento gradual de diferentes aspectos do fenômeno religioso, sem comparações, confrontos ou preconceitos de qualquer espécie;

 
· Desenvolve práticas pedagógico-didáticas contextualizadas e organizadas, que se concretizam nas relações de ensino-aprendizagem com base em questões como as seguintes: quem é esse aluno? Para que ensinar isso? O que o estudante deseja aprender? O que é necessário saber para ser mediador nas reflexões e elaborações propostas? Como fazer qualitativamente as mediações pedagógico-didáticas desse componente curricular no cotidiano educativo escolar?

 
· Percebe a avaliação como um processo que permeia os objetivos, os conteúdos e as práticas pedagógico-didáticas como um todo, constituindo diagnósticos que viabilizam os conhecimentos como elementos integradores e articuladores do processo educativo (Fonaper, 2000).

 
O conhecimento religioso, suas construções e reconstruções fazem parte do substrato cultural dos diferentes grupos sociais. O Ensino Religioso, valorizando a diversidade cultural-religiosa brasileira e consciente da função social da educação no atual contexto histórico-cultural, busca auxiliar na compreensão das diferentes formas de exprimir o transcendente na superação da finitude humana, as quais, de modo subjacente, podem determinar o processo histórico da humanidade. Por esse prisma, o componente curricular em pauta apresenta-se na escola como um de seus muitos interlocutores e objetiva:

 
· Proporcionar o conhecimento dos elementos básicos que compõem o fenômeno religioso, tomando como princípio as experiências religiosas percebidas no contexto dos estudantes;

 
· Subsidiar os estudantes na formulação do questionamento existencial em profundidade, para darem sua resposta devidamente informada;

 
· Analisar o papel das tradições religiosas na estruturação e manutenção das diferentes culturas e manifestações socioculturais;

 
· Facilitar a compreensão do significado das afirmações e verdades da fé das tradições religiosas;

 
· Refletir sobre o sentido da atitude moral como conseqüência do fenômeno religioso e expressão da consciência e da resposta pessoal e comunitária do ser humano;

 
· Possibilitar esclarecimentos sobre o direito à diferença na construção de estruturas sociais que tenham na liberdade seu valor inalienável;

 
· Promover o diálogo como um dos elementos construtores da cidadania, da reverência e da alteridade (Fonaper, 1997).

 
Em consonância com os objetivos propostos, identifica-se a preocupação em desenvolver os aspectos informativos e formativos, ao contribuir para que sejam sistematizados, com os alunos, os conhecimentos básicos dos elementos componentes do fenômeno religioso, destacando a estrutura e o significado das diversas tradições religiosas. Esses aspectos são considerados e incorporados à medida que o contexto de origem dos alunos e a formulação de seus questionamentos existenciais integram e mobilizam o conjunto das atividades pedagógico-didáticas desenvolvidas no exercício formador.

 
A partir da promulgação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a escola já não pode considerar o Ensino Religioso simples informação sobre determinada religião e/ou grupo religioso; nem considera-lo pelos princípios de um regime legalista, como se verificou, por longo tempo, no período republicano.

 
Uma educação orientada pelos princípios democráticos, que vise ao pleno desenvolvimento do ser humano (LDBEN 9.394/96, art. 2°), há de ter em conta os alunos de diferentes tradições e/ou denominações religiosas, aqueles que não pertencem a nenhuma delas e os que dizem não professar crença alguma.

 
Deverá favorecer, pelo exercício do diálogo, da pesquisa, do estudo, da construção e reconstrução coletiva dos saberes, o respeito ao diferente e às diferenças, a prática da solidariedade e a participação na constituição de uma sociedade justa, fraterna e humana, que questiona as fontes geradoras do sofrimento, a ignorância e a injustiça. Com base nos conteúdos veiculados no componente curricular de Ensino Religioso, devem ser discutidas as relações de poder que permeiam as concepções materialistas, históricas e religiosas presentes na sociedade humana.

 
CONTEÚDO E METODOLOGIA

 
Certas discussões sobre Ensino Religioso como componente do currículo, muitas vezes, ainda o concebem como a banalização do “religioso”, restringindo-o a práticas ou dados que se aprendem, conhecem ou rejeitam; ou ainda, vendo nele a manutenção do dualismo “sagrado x profano”, utilizado na elaboração de alguns esquemas para organizar discursos sobre formação de professores e na produção de manuais próprios para orientar processos de ensino-aprendizagem.

 
Segundo a concepção de educação proposta na LDBEN 9.394/96, o Ensino Religioso constitui um dos elementos para a formação integral do ser humano no espaço da escola, juntamente com os demais componentes curriculares. Assume o compromisso de pensar, discutir, analisar e organizar critérios encaminhadores de vivências fundamentadas numa ética planetária que se percebe e se conjuga na alteridade e tem na liberdade, na justiça, no direito à diferença, na solidariedade e na defesa da dignidade do ser humano os referenciais para uma educação diferenciada (Junqueira, 2002).

 
Progressivamente, busca-se melhor compreensão da dimensão religiosa como elemento constituinte do ser humano, ao considerar que as realidades internas e externas da pessoa são conteúdos a ser trabalhados nessa disciplina. Contextos, situações e sentimentos tais como alegria, sofrimento, miséria, exclusão, problemas sociais, psicológicos, passado, presente e futuro, tudo contribui para o estudante identificar e formular, em profundidade, os questionamentos na ordem do religioso e, gradualmente, buscar e organizar respostas num processo de construção de autonomia, com responsabilidade na alteridade.

 
A presença de diversas culturas, saberes e conhecimentos na escola exigem uma tomada de consciência sobre a definição e o encaminhamento de suas diretrizes e propostas curriculares.

 
As singularidades dessas situações, denominadas por Sacristán (1995) multiculturais, criam dificuldades relacionadas à disponibilidade de esquemas conceituais e modelos pedagógicos válidos que desbordam de certos contextos para outros, indo muito além da mera clarificação de um conjunto de objetivos e idéias.

 
Na atualidade, a discussão e o pensamento educacional acerca dessas questões encontram-se ainda em fase embrionária, como decorrência de uma educação ocidental secularizada e monocultural que, de forma abrangente, aciona seus mecanismos “extracurriculares” de propagação e conseqüente perpetuação dos estereótipos culturais de crenças e valores sobre a identidade dos diferentes povos, nações, religiões e culturas.

 
Urge uma mudança nos métodos pedagógicos em direção a uma perspectiva cultural, que contemple a complexidade da cultura e das experiências humanas e propicie a discussão e a reflexão em torno de uma prática educativa radicalmente comprometida com a vida solidária num contexto marcado pela alteridade, bem como seu posterior encaminhamento.

 
Diferenças são próprias de uma sociedade pautada por política de competição e exclusão, guiada pela intolerância, pela ausência de diálogo e pelo descaso aos diferentes, regidos por um processo de globalização que, longe de suas falácias doutrinárias de preocupação e suporte para com todos, busca, na verdade, o monopólio (pelo exercício da privatização) dos mais fortes (Torres, 1995).

 
A presença de diversas culturas, com suas diferentes expressões de ordem lingüística, artística, religiosa, etc, num sistema educacional requer indubitavelmente uma tomada de consciência, uma reflexão sobre os encaminhamentos e a elaboração de suas propostas curriculares.

 
Ao minimizar o papel de subsídios e atividades que embasem o desenvolvimento do pensamento religioso, a escola exclui o processo formativo um dos elementos constituintes da integralidade do ser humano, assim como nega ao estudante conteúdos elaborados historicamente pela humanidade que integram o substrato cultural dos diferentes povos (Fonaper, 1997).

 
Uma vez que a religiosidade constitui parte importante da vida dos seres humanos, o mundo que circunda os alunos e a própria natureza do Ensino Religioso exigem, frequentemente, a retomada de conteúdos e falas tratados e desenvolvidos em outras áreas, tempos de estudo e/ou disciplinas. A abordagem de diferentes temáticas na ótica da dimensão religiosa ou perpassada por ela possibilita a abertura de outros horizontes e suscita uma série de pontos de vista e questionamentos que encaminham e requerem estudos e pesquisas genéricas e aprofundadas.

 
É no exercício do diálogo com o diferente que o ser humano engendra a possibilidade de flagrar-se também como um diferente e um outro diante de alguém outro. Quando o eu e o outro se percebem, nasce à ética. Dialogar é exercitar essencialmente a escuta; é conhecer o outro em diferentes espaços e situações; é buscar compreender na alteridade; é respeitar os costumes; dizer, se é preciso ser dito, com palavras que soam serenas, com o tempero na medida certa; é usar de delicadeza, respeito, humildade, ternura, muita empatia e, acima de tudo, olhar o outro com o olhar da afetividade, do amor. Dialogar não é falar do outro, sobre o outro, para o outro; dialogar é falar com o outro (Oliveira, 2003).

 
Esses e outros estudos demonstram a necessidade da compreensão dos diferentes aspectos que influenciam o sujeito-estudante em seus múltiplos processos de ensino-aprendizagem, incluindo o aspecto religioso. Como a finalidade do Ensino Religioso não é a iniciação a uma confissão religiosa (Fonaper, 1997), esse componente curricular tem liberdade e compromisso para abordar dados que favoreçam o desenvolvimento da religiosidade pessoal dos alunos, ampliando seus olhares e leituras numa perspectiva de alteridade, de modo que se posicionem no mundo como inventores e como cidadãos.

 
Os alunos constituem a parte dinâmica nos processos de ensino-aprendizagem. Condições positivas que alimentam e fomentam o dinamismo, e a qualidade nesse processo são criadas quando, à volta do projeto educativo: se forma uma alegre e sadia cooperação de todos; as relações interpessoais são mantidas na linha liberdade, da inclusão e do compromisso; cada um (professores e alunos) oferece aos outros seus conhecimentos e testemunhos adquiridos na vida cotidiana; desafios são identificados e projetos educativos são construídos coletivamente; a escola se conserva constantemente aberta às famílias, à comunidade eclesial, à sociedade civil, à comunidade científica; os diferentes e as diferenças são respeitados, integrados e valorizados, atingindo assim níveis mais altos de desenvolvimento humano no processo educativo.

 
O Ensino Religioso, como disciplina, ocupa-se do conhecimento dos componentes básicos do fenômeno religioso, e o tratamento didático de seus conteúdos realiza-se em nível de análise e conhecimento, na pluralidade cultural da sala de aula (Fonaper, 1997). Esses conteúdos atuam não como fins em si mesmos, mas como meios para o desenvolvimento dos estudantes.

 
Existem critérios que apontam linhas orientadoras para a organização e seleção dos conteúdos trabalhados em cada ciclo ou série do ensino fundamental. Na atualidade, a questão-guia é do Ser (vida, existência e todas as suas manifestações) ante a ameaça do Não-Ser (morte em todos os seus níveis e sentidos). As respostas que a humanidade vem oferecendo e organizando como possíveis, no sentido da vida após a morte, articulam-se segundo as concepções de ancestralidade, reencarnação, ressurreição e nada (Fonaper, 1997).

 
As quatro possíveis respostas enunciadas pela humanidade indicam ou permeiam os critérios para a organização e seleção dos conteúdos da disciplina de Ensino Religioso. Esses conteúdos devem ser vistos como fontes de pesquisa e de reflexão e como oportunidades de conhecer a riqueza existente no relato da experiência e das práticas religiosas de cada tradição, e não como forma de determinar o valor ou a valia de uma delas.

 
Com base nesses pressupostos, a estrutura dos conteúdos para o Ensino Religioso, sugeridas nos Parâmetros Curriculares (Fonaper, 1997), apresenta-se organizada de acordo com cinco invariantes propostas para o conhecimento religioso:

 
a) Cultura e tradição religiosa: encaminha o estudo do fenômeno religioso à luz da razão humana, analisando questões como função e valores da tradição religiosa, relação entre tradição e ética, teodicéia, tradição religiosa natural, e revelada, existência e destino do ser humano nas diferentes culturas;

 
b) Textos sagrados (orais e escritos): apresenta os textos que transmitem, conforme a fé dos seguidores, uma mensagem do transcendente, mediante a qual, pela revelação, cada forma de afirmá-lo faz conhecer aos seres humanos seus mistérios e sua vontade, dando origem às tradições. Estão ligados ao ensino, à pregação, à exortação e aos estudos eruditos;

 
c) Teologias: contempla o conjunto de afirmações e conhecimentos elaborados pela religião sobre o transcendente e repassados aos fiéis de um modo organizado ou sistematizado;

 
d) Ritos: identifica uma série de práticas celebrativas das tradições religiosas, formando um conjunto de rituais, símbolos e espiritualidades;

 
e) Ethos: apresenta a forma interior da moral humana em que se realiza o próprio sentido do ser. É formado na percepção interior dos valores, por meio dos quais nasce o dever como expressão da consciência e como resposta do próprio “eu” pessoal. O valor moral tem ligação com um processo dinâmico da intimidade do ser humano, e, para atingi-lo, não basta deter-se à superfície das ações humanas.

 
O Ensino Religioso, como as demais disciplinas do currículo escolar, prevê também a organização social das atividades, a organização do tempo e do espaço, assim como a seleção e os critérios de uso de materiais e recursos.

 
Existe uma diversidade de itinerários metodológicos que variam segundo a concepção de educação. Para aplicar as atuais definições de Ensino Religioso, é necessário, entretanto, assumir um referencial metodológico na perspectiva de totalidade. Atualmente já não é possível compreender uma proposta educacional fragmentada e fragmentária; tudo se percebe interligado, inter-relacionado e interdependente.

 
O Ensino Religioso utiliza-se da avaliação como um elemento integrador da aprendizagem dos estudantes à atuação dos professores na construção coletiva dos conhecimentos. Na forma de avaliação processual, o objetivo maior será sempre desenvolver o diálogo, oferecendo a uns e outros oportunidades para que cresçam mediante percepções diferenciadas sobre um mesmo dado social, num constante processo de construção e reconstrução de conhecimentos.

 
O PROFESSOR DE ENSINO RELIGIOSO: IDENTIDADE E FORMAÇÃO

 
A prática docente pressupõe uma concepção educacional que determine a compreensão dos papéis de professor e estudante, da metodologia, da função social da escola e dos conteúdos a ser trabalhados. A discussão dessas questões é importante, para que se explicitem os pressupostos pedagógicos subjacentes à atividade de ensino na busca de coerência entre o que se pensa estar fazendo e o que realmente se faz.

 
Tal prática constitui-se em conformidade com as concepções educativas e com as metodologias de ensino que permeiam a formação educacional e o percurso profissional do professor, incluídas suas próprias experiências escolares, suas experiências de vida, a ideologia compartilhada com seu grupo social e as tendências pedagógicas que lhe são contemporâneas. As tendências pedagógicas que se firmam nas escolas brasileiras públicas e privadas, na maioria dos casos, não aparecem em forma pura, mas com características particulares, muitas vezes mesclando aspectos de mais de uma linha pedagógica.

 
O professor é visto, então, como mediador no processo de busca de conhecimento que se deve iniciar no estudante. Cabe-lhe organizar, coordenar e mediar às situações de aprendizagem, adaptando suas ações às características individuais dos estudantes, para desenvolver suas capacidades e habilidades intelectuais e humanas. Para tanto, os professores de Ensino Religioso devem estar plenamente inseridos no contexto das instituições escolares, sem que haja discriminação nem privilégios de qualquer natureza.

 
É preciso reconhecer que, ao longo da história desse componente curricular, sempre houve a preocupação com a formação docente específica, embora esta tenha sido marcada por conflitos políticos e ideológicos em decorrência da dificuldade de definir com clareza a identidade pedagógica da disciplina.

 
A reflexão iniciada na década de setenta, com a promulgação e aplicação da LDBEN 5.692/71, que apresentava o Ensino Religioso como oferta obrigatória por parte da unidade escolar, conferindo ao aluno o direito de opção, gerou um salto de qualidade na busca da identidade desse componente curricular, com distinção entre seu desenvolvimento na escola e catequese na comunidade eclesial. Criaram-se programas curriculares e de formação de professores em que aspectos antropológicos, sociológicos, pedagógicos e políticos foram evidenciados, deixando para trás conteúdos doutrinários e práticas da experiência científica e cultural (Figueiredo, 1996).

 
Uma das fortes temáticas a envolver toda a reforma educativa brasileira, desencadeada a partir da década de oitenta, abordava a pluralidade cultural-religiosa presente nas escolas brasileiras e, em conseqüência, a necessidade de uma proposta de Ensino Religioso que integrasse esse referencial.

 
A reflexão sobre o Ensino Religioso que levava em consideração esse contexto, propiciava uma abordagem diferenciada da disciplina, em que o acesso ao conhecimento religioso sistematizado historicamente pela humanidade é assegurado a todo cidadão.

 
Essa discussão amadureceu nos trâmites da atual legislação de ensino (LDBEN 9.394/96, nova redação do artigo 33) e na elaboração dos PCNER, chegando à instituição das Diretrizes Curriculares Nacionais (Resolução CEB 02/98), a fim de contemplar as aspirações e necessidades da atual sociedade brasileira no que diz respeito à disciplina de Ensino Religioso.

 
A formação de docentes nessa área, até a década de noventa, era orientada, quase que em sua totalidade, pelas denominações religiosas cristãs e, em alguns casos, ocorria em parceria com os sistemas de ensino. Semelhante situação decorria da linha confessional e/ou interconfessional adotada pela disciplina, em consonância com a legislação vigente. O interesse e a participação das diversas denominações religiosas cristãs e outros similares. Essa ação, na maior parte dos casos, ficava condicionada à ajuda financeira do exterior e/ou aos recursos do próprio professor.

 
É preciso mencionar que esse tipo de formação, apesar de envolver empenho e qualidade, não graduava os professores, diferentemente do que ocorria com os profissionais da educação de outras disciplinas, o que gerava impasses e dificuldades em sua vida funcional.

 
Os professores das outras disciplinas tinham as graduações reconhecidas pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), fator que lhes dava direito a prestar concurso público e, consequentemente, seguir plano de carreira funcional. Os professores de Ensino Religioso, embora muitas vezes formados por cursos de caráter teológico, não eram reconhecidos pelo MEC. Por imperativo da legislação, eram lhes negados os acessos funcionais na área do magistério, sendo permitida a contratação de seus serviços apenas em caráter temporário (Oliveira, 2003).

 
Diante desse cenário, registrou-se emergente interesse, compromisso, estudo e discussão voltados à busca de parcerias com denominações religiosas, com a comunidade acadêmica e com os sistemas de ensino naquilo que concernem aos encaminhamentos previstos, em forma de lei, para a habilitação dos professores de Ensino Religioso.

 
Na construção das parcerias para a formação de docentes da disciplina, a Lei 9.475/97 determina que os sistemas de ensino regulamentem os procedimentos para a definição dos conteúdos do Ensino Religioso e estabeleçam as normas para a habilitação e admissão dos professores. As diferentes denominações religiosas, constituídas em entidade civil, seriam ouvidas pelos sistemas de ensino no tocante à definição dos conteúdos da disciplina. As instituições de ensino superior, em sintonia com os sistemas de ensino, têm a tarefa de habilitar o profissional correspondente, fomentando o ensino, a pesquisa e a extensão.

 
Santa Catarina era um Estado que, havia mais de duas décadas, já vinha buscando formas de criar um curso de licenciatura voltado para o Ensino Religioso. No decorrer do ano de 1996, a Universidade Regional de Blumenau (Furb), a Universidade da Região de Joinville (Unisul) elaboraram e aprovaram projetos de criação de curso superior para essa área do conhecimento com a emissão de concurso vestibular no ano em curso.

 
Percebe-se a urgência de adequada e reconhecida formação de professores em Ensino Religioso, a qual deve ser própria de licenciados. Nessa direção, o Fonaper propôs alguns objetivos básicos para os cursos de licenciatura em Ensino Religioso: possibilitar ao profissional um referencial teórico-metodológico que propicie a leitura e a interpretação crítica e consciente do fenômeno religioso pluralista; habilita-lo ao pleno exercício pedagógico mediante a busca da construção do conhecimento e à compreensão do fenômeno religioso presente em todas as culturas, para o exercício pedagógico no âmbito social, cultural, antropológico, filosófico, ético, pedagógico, científico e religioso; possibilitar-lhe o acesso aos direito previstos nas legislações específicas do magistério (Fonaper, 1998).

 
O professor de Ensino Religioso, assim como os demais professores na unidade escolar, é uma pessoa que em relação com os estudantes e com os conhecimentos próprios dessa área do conhecimento, contribui nos muitos processos de aprendizagem realizados. Importa que saiba desencadear e ativar processos dialógicos cujos confrontos abertos e construtivos entre estudantes, conhecimentos e professores promovam o rigoroso respeito à liberdade e à consciência de cada um.

 
Na primeira metade da década de noventa, diferentes editoras criaram espaços para a discussão sobre questões pertinentes ao Ensino Religioso, bem como para a formação e atualização dos professores da disciplina. Os objetivos dessas experiências foram à formação pessoal dos professores, a discussão sobre a identidade desse componente curricular, assim como sobre sua metodologia, conteúdo e linguagem, e a articulação dele com os demais componentes do currículo. Nesse cenário, diferentes autores e professores no contexto da educação brasileira, particularmente dessa disciplina, teceram e registraram a muitas mãos a história do Ensino Religioso no Brasil.

 
Apesar dos esforços para estruturar uma identidade para o Ensino Religioso e para a formação de professores para esse componente curricular, deve se reconhecer que, desde o princípio, essas iniciativas se revestem de um caráter muito mais político do que pedagógico, favorecendo, dessa forma, um embate que ainda levará muito tempo para ser resolvido.

 
Os professores e a disciplina de Ensino Religioso vivem, na atualidade, numa constante encruzilhada entre o velho e o novo, o estabelecido e o desafiador. A sabedoria talvez resida em retirar tanto do velho quanto do novo o que permanece válido: princípios que, no encontro dos tempos, desnudos de suas roupagens contextuais e históricas, detêm o poder de denunciar, enunciar e desafiar outras perspectivas; ir ao encontro e promover vivências pedagógico-didáticas inovadoras; valorizar e respeitar o diferente e as diferenças.


BIBLIOGRAFIA

 
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