quarta-feira, 30 de junho de 2010

A INFLUÊNCIA DOS BLOCOS ECONÔMICOS NA TEOLOGIA CRISTÃ

INTRODUÇÃO


O que é o capitalismo?

Capitalismo é definido como um sistema econômico baseado na propriedade privada dos meios de produção e propriedade intelectual, e na liberdade de contrato sobre estes bens (livre mercado). Estes requisitos motivam às pessoas ao acúmulo de capital e a investir este capital em projetos que aumentam a eficiência produtiva, resultando num aumento do padrão de vida da sociedade. Isto porque os produtos e serviços, devido à maior eficiência decorrente do progresso tecnológico que, por sua vez, foi causado pelo investimento do capital acumulado, se tornam progressivamente mais fáceis de adquirir (mais baratos). É importante notar que o capitalismo não é um sistema propriamente dito, pois ninguém é obrigado a acumular capital. Ele apenas é o resultado natural numa sociedade que respeita a propriedade privada e a liberdade de contrato. Nesse tipo de sociedade as pessoas são altamente motivadas a empregar seu capital da forma mais eficiente possível, minimizando o desperdício, já que isso lhes é lucrativo. E, se ocorrer o contrário, ou seja, as pessoas investirem mal o seu patrimônio, desperdiçando produção, irão amargurar prejuízos. De maneira geral o tamanho do lucro/prejuízo é proporcional ao acréscimo/decréscimo de riqueza gerado no processo.

O que é o comunismo?

Comunismo refere-se à obra e às idéias de Karl Marx e, posteriormente, a diversos outros teóricos, notavelmente Friedrich Engels, Rosa Luxemburgo, Vladimir Lênin, entre outros. Uma das principais obras fundadoras desta corrente política é O Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels e a principal obra teórica é O Capital de Marx.As principais características do modelo de sociedade comunal proposto nas obras de Marx e Engels são: A inexistência das classes sociais. As necessidades de todas as pessoas supridas. A ausência do Estado. Para chegar a tal estado, Marx propõe uma fase de transição, com a tomada do poder pelos proletários para abolir a propriedade privada dos meios de produção e a conseqüente orientação da economia de forma planejada com o objetivo de suprir todas as necessidades da sociedade e seus indivíduos. Marx entende que, com as necessidades supridas, deixam de existir as classes sociais e, portanto, não existe mais a necessidade do Estado.

Algumas vertentes do socialismo e do comunismo, identificadas como anarquistas, defendem a abolição imediata do Estado. Tornam-se mais visíveis às diferenças entre estes grupos quando se sabe que a primeira Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) terminou como resultado da cisão entre Marxistas (que acreditavam na necessidade de tomar o poder do Estado para realizar a revolução) e Bakuninistas (que acreditavam que não haveria revolução a menos que o Estado fosse abolido em simultâneo com o capitalismo).

A teoria que dá base à construção do comunismo tem como ponto de partida a análise feita por Marx da sociedade capitalista. Segundo ele, a propriedade privada dos meios de produção, característica fundamental do capitalismo, só existe com a apropriação da mais-valia pela classe dominante, ou seja, a exploração do homem pelo homem é fundamental ao capitalismo.

Marx acreditava que somente em uma sociedade sem classes sociais essa exploração não aconteceria. Considerava, ainda, que somente o proletariado poderia, por uma luta política consciente e conseqüente de seu papel, derrubar o capitalismo, não para constituir um Estado para si, mas para acabar com as classes sociais e derrubar o Estado como instrumento político de existência das classes.

A palavra comunismo apareceu pela primeira vez na imprensa em 1827, quando Robert Owen se referiu a socialistas e comunistas. Segundo ele, estes consideravam o capital comum mais benéfico do que o capital privado. As palavras socialismo e comunismo foram usados como sinônimos durante todo o século XIX. A definição do termo comunismo é dada após a Revolução russa, no início do século XX, pois Vladimir Lênin entendia que o termo socialismo já estava desgastado e deturpado. Por sua teoria, o comunismo só seria atingido depois de uma fase de transição pelo socialismo, onde haveria ainda uma hierarquia de governo.

HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DESSES 02 BLOCOS ECONÔMICOS

O capitalismo teve seu início na Europa. Suas características aparecem desde a Baixa Idade Média (século XI ao XV) com a transferência do centro da vida econômica, social e política dos feudos para as cidades. O feudalismo passava por uma grave crise decorrente da catástrofe demográfica causada pela Peste Negra que dizimou 40% da população européia e pela fome que assolava o povo. Já com o comércio reativado pelas Cruzadas (do século XI ao XII), a Europa passou por um intenso desenvolvimento urbano e comercial, conseqüentemente, as relações de produção capitalistas se multiplicaram, acabando com as bases do feudalismo. Na Idade Moderna, os reis expandem seu poderio econômico e político através do mercantilismo e do absolutismo. A Reforma Protestante com as idéias teológicas de João Calvino começam a dar o respaldo espiritual que os burgueses queriam para combater as idéias teológicas da Igreja de Roma, a qual pregava que era pecado o acumulo de riquezas. Dentre os defensores políticos que começou a descentralizar a Igreja de Roma como autoridade teológico-política, a qual ensinava que é Deus que ungi os reis e autoriza e confirma sua liderança mediante o papa (a igreja), temos: Jean Bodin, Jacques Bossuet e Niccólo Machiavelli.

Com o absolutismo e com o mercantilismo o Estado passava a controlar a economia e a buscar colônias para adquirir metais (metalismo) através da exploração. Isso para garantir o enriquecimento da metrópole. Esse enriquecimento favorece a burguesia que passa a contestar o poder do rei, resultando na crise do sistema absolutista. E com as revoluções burguesas, como a Revolução Francesa e a Revolução Inglesa, estava garantindo o triunfo do capitalismo. A partir da Segunda metade do século XVII, com a Revolução Industrial, inicia-se um processo ininterrupto de produção coletiva em massa, geração de lucro e acúmulo de capital. Na Europa Ocidental, a burguesia assume o controle econômico e político. As sociedades vão superando os tradicionais critérios da aristocracia (principalmente a do privilégio de nascimento) e a força do capital se impõe. Surgem as primeiras teorias econômicas: a fisiocracia e o liberalismo. Na Inglaterra, o escocês Adam Smith (1723-1790), precursor do liberalismo econômico, publica Uma Investigação sobre Naturezas e Causas da Riqueza das Nações, em que defende a livre-iniciativa e a não interferência do Estado na economia. Deste ponto, para a atual realidade econômica, pequenas mudanças estruturais ocorreram em nosso fúnebre sistema capitalista.

Já no comunismo as idéias de Karl Marx estão expressas principalmente no livro “O Capital” e “O Manifesto Comunista”, obra que escreveu com Friedrich Engels, economista alemão. Marx acreditava que a única forma de alcançar uma sociedade feliz e harmoniosa seria com os trabalhadores no poder. Em parte, suas idéias eram uma reação às duras condições de vida dos trabalhadores do século XIX, na França, na Inglaterra e na Alemanha. Os trabalhadores das fábricas e minas eram mal pagos e tinham que trabalhar em condições desumanas. Marx estava convencido de que a vitória do comunismo era inevitável. Afirmava que a história segue certas leis imutáveis, na medida em que avançava de um estágio a outro. Cada estágio caracteriza-se por lutas que conduzem a um estágio superior de desenvolvimento. Para Marx, a chave para a compreensão dos estágios do desenvolvimento é a relação entre as diferentes classes de indivíduos na produção de bens. Afirmava que o dono da riqueza é a classe dirigente porque usa o poder econômico e político para impor sua vontade ao povo. Para ele, a luta de classes é o meio pelo qual a história progride. Marx achava que a classe dirigente jamais iria abrir mão do poder por livre e espontânea vontade e que, assim, a luta e a violência eram inevitáveis.

O MUNDO DIVIDIDO EM DOIS BLOCOS ECONÔMICOS E ANTAGÔNICOS (GUERRA FRIA)

Baseada nas filosofias político-econômicas do capitalismo e do comunismo, a Guerra Fria tem início logo após a Segunda Guerra Mundial, pois os Estados Unidos e a União Soviética vão disputar a hegemonia política, econômica e militar no mundo. A União Soviética possuía um sistema socialista, baseado na economia planificada, partido único (Partido Comunista), igualdade social e falta de democracia. Já os Estados Unidos, a outra potência mundial, defendia a expansão do sistema capitalista, baseado na economia de mercado, sistema democrático e propriedade privada. Na segunda metade da década de 1940 até 1989, estas duas potências tentaram implantar em outros países os seus sistemas políticos e econômicos. A definição para a expressão guerra fria é de um conflito que aconteceu apenas no campo ideológico, não ocorrendo um embate militar declarado e direto entre Estados Unidos e URSS. Até mesmo porque, estes dois países estavam armados com centenas de mísseis nucleares. Um conflito armado direto significaria o fim dos dois países e, provavelmente, da vida no planeta Terra. Porém ambos acabaram alimentando conflitos em outros países como, por exemplo, na Coréia e no Vietnã.

Paz Armada

Na verdade, uma expressão explica muito bem este período: a existência da Paz Armada. As duas potências envolveram-se numa corrida armamentista, espalhando exércitos e armamentos em seus territórios e nos países aliados. Enquanto houvesse um equilíbrio bélico entre as duas potências, a paz estaria garantida, pois haveria o medo do ataque inimigo. Nesta época, formaram-se dois blocos militares, cujo objetivo era defender os interesses militares dos países membros. A OTAN - Organização do Tratado do Atlântico Norte (surgiu em abril de 1949) era liderada pelos Estados Unidos e tinha suas bases nos países membros, principalmente na Europa Ocidental. Alguns países membros da OTAN: Estados Unidos, Canadá, Itália, Inglaterra, Alemanha Ocidental, França, Suécia, Espanha, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Áustria e Grécia.

O Pacto de Varsóvia era comandado pela União Soviética e defendia militarmente os países socialistas. Alguns países membros do Pacto de Varsóvia: URSS, Cuba, China, Coréia do Norte, Romênia, Alemanha Oriental, Iugoslávia, Albânia, Tchecoslováquia e Polônia.

Corrida Espacial

EUA e URSS travaram uma disputa muito grande no que se refere aos avanços espaciais. Ambos corriam para tentar atingir objetivos significativos nesta área. Isso ocorria, pois havia certa disputa entre as potências, com o objetivo de mostrar para o mundo qual era o sistema mais avançado. No ano de 1957, a URSS lança o foguete Sputnik com um cão dentro, o primeiro ser vivo a ir para o espaço. Doze anos depois, em 1969, o mundo todo pôde acompanhar pela televisão a chegada do homem a lua, com a missão espacial norte-americana.

Caça as Bruxas

Os EUA lideraram uma forte política de combate ao comunismo em seu território e no mundo. Usando o cinema, a televisão, os jornais, as propagandas e até mesmo as histórias em quadrinhos, divulgou uma campanha valorizando o "american way of life". Vários cidadãos americanos foram presos ou marginalizados por defenderem idéias próximas ao socialismo. O Macartismo, comandado pelo senador republicano Joseph McCarthy, perseguiu muitas pessoas nos EUA. Essa ideologia também chegava aos países aliados dos EUA, como uma forma de identificar o socialismo com tudo que havia de ruim no planeta.

Na URSS não foi diferente, já que o Partido Comunista e seus integrantes perseguiam, prendiam e até matavam todos aqueles que não seguiam as regras estabelecidas pelo governo. Sair destes países, por exemplo, era praticamente impossível. Um sistema de investigação e espionagem foi muito usado de ambos os lados. Enquanto a espionagem norte-americana cabia aos integrantes da CIA, os funcionários da KGB faziam os serviços secretos soviéticos.

A Cortina de Ferro

Após a Segunda Guerra, a Alemanha foi dividida em duas áreas de ocupação entre os países vencedores. A República Democrática da Alemanha, com capital em Berlim, ficou sendo zona de influência soviética e, portanto, socialista. A República Federal da Alemanha, com capital em Bonn (parte capitalista), ficou sob a influência dos países capitalistas. A cidade de Berlim foi dividida entre as quatro forças que venceram a guerra : URSS, EUA, França e Inglaterra. No final da década de 1940 é levantado o Muro de Berlim, para dividir a cidade em duas partes: uma capitalista e outra socialista. É a vergonhosa "cortina de ferro".

Plano Marshall e COMECON

As duas potências desenvolveram planos para desenvolver economicamente os países membros. No final da década de 1940, os EUA colocaram em prática o Plano Marshall, oferecendo ajuda econômica, principalmente através de empréstimos, para reconstruir os países capitalistas afetados pela Segunda Guerra Mundial. Já o COMECON foi criado pela URSS em 1949 com o objetivo de garantir auxílio mútuo entre os países socialistas.

Envolvimentos Indiretos

Guerra da Coréia: Entre os anos de 1951 e 1953 a Coréia foi palco de um conflito armado de grandes proporções. Após a Revolução Maoísta ocorrida na China, a Coréia sofre pressões para adotar o sistema socialista em todo seu território. A região sul da Coréia resiste e, com o apoio militar dos Estados Unidos, defende seus interesses. A guerra dura dois anos e termina, em 1953, com a divisão da Coréia no paralelo 38. A Coréia do Norte ficou sob influência soviética e com um sistema socialista, enquanto a Coréia do Sul manteve o sistema capitalista.

Guerra do Vietnã : Este conflito ocorreu entre 1959 e 1975 e contou com a intervenção direta dos EUA e URSS. Os soldados norte-americanos, apesar de todo aparato tecnológico, tiveram dificuldades em enfrentar os soldados vietcongues (apoiados pelos soviéticos) nas florestas tropicais do país. Milhares de pessoas, entre civis e militares morreram nos combates. Os EUA saíram derrotados e tiveram que abandonar o território vietnamita de forma vergonhosa em 1975. O Vietnã passou a ser socialista.

Fim da Guerra Fria


A falta de democracia, o atraso econômico e a crise nas repúblicas soviéticas acabaram por acelerar a crise do socialismo no final da década de 1980. Em 1989 cai o Muro de Berlim e as duas Alemanhas são reunificadas. No começo da década de 1990, o então presidente da União Soviética Gorbatchev começou a acelerar o fim do socialismo naquele país e nos aliados. Com reformas econômicas, acordos com os EUA e mudanças políticas, o sistema foi se enfraquecendo. Era o fim de um período de embates políticos, ideológicos e militares. O capitalismo vitorioso, aos poucos, iria sendo implantado nos países socialistas.

A TEOLOGIA CRISTÃ SOB INFLUÊNCIA DOS SISTEMAS ECONÔMICOS

Nos países de maioria cristã protestante o capitalismo utilizado é o de juros baixos, salários altos e preços justos. Lá, (Estados Unidos, Suécia, Escócia, Finlândia, Noruega, Dinamarca, Inglaterra etc.) o modelo de capitalismo protestante é chamado apenas de Capitalismo. Na verdade, praticamente tudo o que fazem é, em geral, nos moldes protestantes (calvinista). Talvez, por isso, o povo brasileiro tenha dificuldades para entender a diferença entre o nosso Capitalismo e o Capitalismo do Primeiro Mundo (o protestante), este foi interpretado por Max Weber no século XX em sua obra “A ética protestante e o espírito do capitalismo”. A partir desta análise econômica houve a necessidade da igreja (protestante-Evangélica) se adaptar a esta nova realidade, tendo em vista que a pregação de Cristo se torna antagônica a esta realidade.

O Socialismo ateu (“científico”, na linguagem dos marxistas), ficou famoso ao ser adotado pela antiga União Soviética, Cuba, Vietnam, Albânia, Coréia do norte tornando-se, no entanto, mais conhecido como Comunismo, este interpretado por Karl Marx e Engels em sua obra: “O manifesto comunista”, onde podemos analisar em suas palavras a sua total separação com a igreja, “a religião é o ópio do povo”. Já o Socialismo Católico é uma adaptação do socialismo marxista e o catolicismo, onde coloca sua religião como oficial do Estado, e prega entre linhas a fraternidade de todos, criticando o capitalismo como um sistema egoísta que faz o ser humano se voltar somente para si (gostaria de lembrar que a Igreja Católica perdeu os monopólios econômicos, religiosos, educacionais e etc, com o sistema capitalista).

A INFLUÊNCIA DO CAPITALISMO NA TEOLOGIA PROTESTANTE

Um fenômeno social que tem despertado a atenção de estudiosos na atualidade é o crescimento acentuado das igrejas neopentecostais que estão inseridas no grupo das religiões “evangélicas”. De acordo com a recente publicação do Atlas da filiação religiosa e indicadores sociais do Brasil (CNBB) os pentecostais cresceram de 6% para 10,6% da população brasileira nos últimos nove anos. O maior crescimento se dá nas camadas de menor renda das regiões metropolitanas onde os indicadores sociais são mais baixos; e também nas regiões norte e centro-oeste.

As causas desse fenômeno são variadas. Uma delas como mostra o estudo são as condições sócio-econômicas; a maciça utilização da mídia também tem seu peso de influência e a competente administração empresarial dessas igrejas é algo relevante. Mas creio que a utilização da “teologia da prosperidade” seja a causa primordial desse sucesso, as outras dependem fundamentalmente dela.

O que é a Teologia da Prosperidade?

Baseado na teologia calvinista, que prega que a prosperidade é sinal das bênçãos divinas, a teologia da prosperidade pode ser entendida como um conjunto de princípios que afirmam que o cristão verdadeiro tem o direito de obter a felicidade integral, e de exigi-la, ainda durante a vida presente sobre a terra. Bastando para isso que tenha confiança incondicional em Jesus. Seu desenvolvimento foi gradual desde a década de 1940. Vejamos:

· Essek William Kenyon (Nova York, EUA, 1867).

Ex-pastor das igrejas batista, metodista e pentecostal, influenciado por idéias de seitas cristãs/metafísicas, desenvolveu estudos que entre outras coisas tratava de: poder da mente, a inexistência das doenças e o poder do pensamento positivo.

· Kenneth Hagin (Texas, EUA, 1918).

Discípulo de Kenyon sofreu várias enfermidades e pobreza na juventude; Aos 16 anos diz ter recebido uma revelação quando lia Marcos 11.23,24, entendendo que tudo se pode obter de Deus, desde que confesse em voz alta, nunca duvidando da obtenção da resposta, mesmo que as evidências indiquem o contrário. Isso é a essência da "Confissão Positiva". Foi pastor da igreja batista; da Assembléia de Deus, em seguida passou por várias igrejas pentecostais, e, finalmente, fundou sua própria igreja, aos 30 anos, fundando o Instituto Bíblico Rhema. As idéias de Hagin que levaram ao estabelecimento da teologia da prosperidade podem ser divididas em três pontos principais:

1) Autoridade Espiritual

Segundo K. Hagin, Deus tem dado autoridade (unção) há profetas nos dias atuais, como seus porta-vozes. Ele diz que "recebe revelações diretamente do Senhor"; “... Dou graças a Deus pela unção de profeta... Reconheço que se trata de uma unção diferente... é a mesma unção, multiplicada cerca de cem vezes” (Hagin, Compreendendo a Unção, p. 7).

2) Bênçãos e Maldições da lei

K.Hagin diz, com base em Gálatas 3.13,14, que fomos libertos da maldição da lei, que são: 1) Pobreza; 2) doença e 3) morte espiritual. Ele toma emprestadas as maldições de Deuteronômio 28 contra os israelitas que pecassem. Segundo essa doutrina, o cristão tem direito a saúde e riqueza; diante disso, doença e pobreza são maldições da lei. Eles ensinam que "todo cristão deve esperar viver uma vida plena, isenta de doenças" e viver de 70 a 80 anos, sem dor ou sofrimento. Quem ficar doente é porque não reivindica seus direitos ou não tem fé. E não há exceções. Pregam que Isaías 53.4, 5 é algo absoluto. Fomos sarados e não existe mais doença para o crente. Os seguidores de Hagin enfatizam muito que o crente deve ter carro novo, casa nova própria, as melhores roupas, uma vida de luxo.

3) Confissão Positiva

É o terceiro ponto da teologia da prosperidade. Ela está incluída na "fórmula da fé", que Hagin diz ter recebido diretamente de Jesus, que lhe apareceu e mandou escrever de 1 a 4, a "fórmula".Se alguém deseja receber algo de Jesus, basta segui-la:

1) "Diga a coisa" positiva ou negativamente, tudo depende do indivíduo. De acordo com o que o indivíduo quiser, ele receberá. Essa é a essência da confissão positiva.

2) "Faça a coisa". Seus atos derrotam-no ou lhe dão vitória. De acordo com sua ação, você será impedido ou receberá.

3) "Receba a coisa". Compete a nós a conexão com o dínamo do céu. A fé é o pino da tomada. Basta conectá-la.

4) "Conte a coisa" a fim de que outros também possam crer. Para fazer a "confissão positiva", o cristão dever usar as expressões: exijo, decreto, declaro, determino, reivindico, em lugar de dizer: peço, rogo, suplico; jamais dizer: "se for da tua vontade", pois isto destrói a fé.

A “TEOLOGIA DA PROSPERIDADE” NO BRASIL

Como vimos a Teologia da Prosperidade teve sua origem na década de 40 nos Estados Unidos, mas a efetiva introdução no meio evangélico se deu na década de 70. Adicionou um forte cunho de auto-ajuda e valorização do indivíduo, agregando crenças sobre cura, prosperidade e poder da fé através da confissão da "Palavra" em voz alta e "No Nome de Jesus" para recebimento das bênçãos almejadas; por meio da Confissão Positiva, o cristão compreende que tem direito a tudo de bom e de melhor que a vida pode oferecer: saúde perfeita, riqueza material, poder para subjugar Satanás, uma vida plena de felicidade e sem problemas. Em contrapartida, dele é esperado que não duvide minimamente do recebimento da bênção, pois isto acarretaria em sua perda, bem como o triunfo do Diabo. A relação entre o fiel e Deus ocorre pela reciprocidade, o cristão semeando através de dízimos e ofertas e Deus cumprindo suas promessas.

No Brasil a primeira e principal igreja seguidora dessa doutrina é a IURD (Igreja Universal do Reino de Deus), fundada em 1977 por Edir Macedo que adaptou as suas práticas para as características brasileiras, além de possuir metodologias e princípios próprios. Em vez de ouvir num sermão que "é mais fácil um camelo atravessar um buraco de agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus" (Mateus 19,24 e Marcos 10,25), agora a novidade reside na possibilidade de desfrutar de bens e riquezas, sem constrangimento e com a aquiescência de Deus.

Para os pobres e desafortunados de uma em maneira geral, o direito de possuir as bênçãos como filho de Deus traz alívio e esperança na solução de todos os seus problemas. Segundo Edir Macedo, Jesus veio pregar aos pobres para que estes se tornassem ricos. Arrependimento e redenção, tema central no Cristianismo, e as dificuldades nesta vida para o justo de Deus são temas raramente tratados. Além da IURD temos as Igrejas Renascer em Cristo, Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra, Bíblica da Paz, Cristo Salva, Cristo Vive, Verbo da Vida, Nacional do Senhor Jesus Cristo e pelas organizações Adhonep, Missão Shekinah, Igreja Internacional da Graça de Deus e etc.

O papel do Diabo nesta teologia

Um importante ponto dentro da doutrina da IURD, assim como na maioria das outras igrejas neopentecostais brasileiras é a intervenção do Diabo na vida do homem. Ele, o Diabo, é o elemento perturbador que está entre a graça de Deus e os pedidos do crente. As bênçãos estão ao alcance de todos mediante a fé, inclusive com a alteração radical de realidades miseráveis em vidas prósperas; porém, se alguém tiver qualquer envolvimento direto ou indireto com o Diabo ou não estiver disposto a "sacrificar" para a obra de Deus, não será agraciado. Não é primordialmente o pecado (individual ou social) que impede a posse dos bens, mas o Diabo, que age segundo seu próprio arbítrio, contra quem o crente deve lutar. Uma vez que a responsabilidade fica por conta do fiel e do Diabo, cria-se uma linha de tensão entre a posse da bênção e a atuação diabólica. Este mecanismo permite explicar porque muitos fiéis não alcançam à graça.

Ao longo do ano de 2001, a IURD passou a utilizar o vocábulo “encosto” que na linguagem popular corresponde aproximadamente à “obsessor” na nomenclatura espírita. O encosto passou a ser a entidade que “pessoalmente” provoca todo e qualquer tipo de mal ao homem, aparentemente a serviço do Diabo. Creio que essa mudança estratégica se deva a dois fatores: Primeiro o de sugerir ao crente que ele pode vencer mais facilmente o inimigo, já que não se trata do próprio Diabo em pessoa; e segundo pelo aprendizado prático dos pastores que perceberam que não estão tratando sempre com a mesma entidade durante as seções onde supostamente o Diabo se manifestava através de alguns fiéis.

A este propósito devemos lembrar, mais uma vez, que segundo a doutrina da IURD, o indivíduo não é exatamente a sede do pecado, o que exigiria dele o arrependimento, mas uma vítima da ação maligna: o ato de pecar não deriva de sua escolha, mas o Mal é fruto do encosto que atrapalha a sua vida, em especial a financeira, que consideram um sinal de bênção.

Doutrina da Reciprocidade

Na busca da bênção, o fiel deve determinar, decretar, reivindicar e exigir de Deus que Ele cumpra sua parte no acordo; ao fiel compete dar dízimos e ofertas. A Deus cabe abençoar. Ao estabelecer esta relação de reciprocidade com Deus, o que ocorre é que Ele, Deus, fica na obrigação de cumprir todas as promessas contidas na Bíblia na vida do fiel. Torna-se cativo de sua própria Palavra.

Macedo ensina como proceder:

"Comece hoje, agora mesmo, a cobrar d'Ele tudo aquilo que Ele tem prometido (...) O ditado popular de que 'promessa é divida' se aplica também para Deus. Tudo aquilo que Ele promete na sua palavra é uma dívida que tem para com você (...) Dar dízimos é candidatar-se a receber bênçãos sem medida, de acordo com o que diz a Bíblia (...) Quando pagamos o dízimo a Deus, Ele fica na obrigação (porque prometeu) de cumprir a Sua Palavra, repreendendo os espíritos devoradores (...) Quem é que tem o direito de provar a Deus, de cobrar d'Ele aquilo que prometeu? O dizimista! (...) Conhecemos muitos homens famosos que provaram a Deus no respeito ao dízimo e se transformaram em grandes milionários, como o Sr. Colgate, o sr. Ford e o sr. Caterpilar". (MACEDO, Vida com Abundância, p. 36).

E prossegue:

"Ele (Jesus) desfez as barreiras que havia entre você e Deus e agora diz ¾ volte para casa, para o jardim da Abundância para o qual você foi criado e viva a Vida Abundante que Deus amorosamente deseja para você (...). Deus deseja ser nosso sócio (...). As bases da nossa sociedade com Deus são as seguintes: o que nos pertence (nossa vida, nossa força, nosso dinheiro) passa a pertencer a Deus; e o que é d'Ele (as bênçãos, a paz, a felicidade, a alegria, e tudo de bom) passa a nos pertencer". (MACEDO, Vida com Abundância, pp. 25,85-86).

O Neo-pentecostalismo se caracteriza exatamente por este tipo de relacionamento do fiel com Deus, inspirada na Teologia da Prosperidade: o cristão tem direito a tudo de bom e de melhor neste mundo. Nas palavras de Macedo: "A Bíblia tem mais de 640 vezes escrita à palavra oferta. Oferta é uma expressão de fé. Se Deus não honrar o que falou há três ou quatro mil anos, eu é que vou ficar mal". (MACEDO, O Globo, 29/4/1990). Cabe ao fiel demonstrar revolta diante de Deus e "de dedo em riste" exigir que as promessas bíblicas se cumpram.

Sacrifícios

Torna-se impossível não evidenciar que essa relação agrega um forte simbolismo ao dinheiro: o fiel propõe trocas com Deus para conseguir a bênção desejada. Neste discurso, a soberania de Deus é compartilhada pelo fiel na relação de troca. É incentivado que o fiel se acomode ao mundo das novas tecnologias, acumule riquezas, more melhor, possua carro e não tenha sentimento de culpa por não negar o mundo; pelo contrário, a conduta ascética tem diminuído entre os pentecostais desde a década de 70.

Na relação de troca o fiel dá o dízimo e ofertas participando das campanhas:

"É necessário dar o que não se pode dar. O dinheiro que se guarda na poupança para um sonho futuro, esse dinheiro é que tem importância, porque o que é dado por não fazer falta não tem valor para o fiel e muito menos para Deus". (MACEDO, Isto é Senhor, 22/11/1989).

E tem a garantia dos pastores de que Deus cumprirá sua parte: "Ele ficará na obrigação de cumprir Sua Palavra". (MACEDO, Mensagens, p. 23). E ainda, "O ditado popular de que 'promessa é dívida' se aplica também a Deus". (CRIVELLA, 501 Pensamentos do Bispo Macedo, p. 103). A ênfase na necessidade de dízimos e ofertas é explicada pelos líderes da IURD: "caso o fiel não alcance o sucesso almejado, a responsabilidade e a falha são suas".

As doações em dinheiro ou bens são presentes colocados no altar de Deus, logo, para uma grande bênção, um valioso presente! A fé é um instrumento de troca; uma mercadoria, e nesta relação "toma lá, dá cá", a imagem de Deus torna-se mais próxima e trivializada, em oposição à doutrina difundida pelo protestantismo histórico e pelo catolicismo tradicional, a partir da qual reverência e submissão são enfatizadas.

"Dependendo do grau de interesse do ofertante, o presente, por mais caro que seja, ainda assim se torna barato diante daquilo que está proporcionando ao presenteado. Quando há um profundo laço de afeto, ternura e amor entre o que presenteia e o que recebe o presente nunca deve ser inferior ao melhor que a pessoa tem condições de dar". (MACEDO, O Perfeito Sacrifício: o significado espiritual do dízimo e ofertas, p. 12).

O fiel deve sacrificar o "seu tudo". A IURD tem uma campanha em que estimula o fiel a doar o máximo que puder na espera da bênção. Muitas pessoas dão tudo o que têm naquele momento de sua vida: uma caderneta de poupança, o dinheiro para comprar comida, o dinheiro para o ônibus, e assim por diante.

Aqueles que vêem as doações das ofertas com maus olhos, ou seja, do ponto de vista meramente mercadológico, principalmente do lado da Igreja, também têm dificuldades para compreender a razão da vinda do Filho de Deus ao mundo. (...) haja vista que a oferta está intimamente relacionada com a salvação eterna em Cristo Jesus. (MACEDO, O Perfeito Sacrifício: o significado espiritual do dízimo e ofertas, p. 14).

O adepto é conclamado a concorrer por melhores condições num mundo de extrema desigualdade social. E ainda tem de assumir uma responsabilidade a mais: a de ter sucesso, senão sua vida pode estar comprometida com as forças malignas ou com sua própria incapacidade de gerenciar suas possibilidades. Há muitas oportunidades para aqueles que vivem nos bolsões de pobreza? É onde se encontram muitas igrejas da Universal. Mas, mesmo assim, é preciso "sacrificar" diante de Deus e, de preferência, em dinheiro: "Aqueles que examinam o custo do sacrifício jamais sacrificarão uma grande oferta, e aqueles que não sacrificam para a obra de Deus jamais conquistarão qualquer vitória". (CRIVELLA, 501 Pensamentos do Bispo Macedo, p. 21).

Colocado nestes termos, é o fiel quem decide: "Tudo depende de você. Se perseverar, automaticamente conquistará as bênçãos de Deus. E assim, entrará na terra prometida". (MACEDO, Mensagens, p. 21).

E a igreja administra a sua doação: "A árvore proibida, no paraíso, representava o dízimo, isto é, à parte de Deus na qual o homem não podia sequer tocar, embora pudesse regá-la e fazê-la crescer". (CRIVELLA, 501 Pensamentos do Bispo Macedo, pp. 99-100). Já ao fiel cabe expulsar Satanás, participar das correntes de prosperidade, ler sobre como muitos irmãos conseguiram resultados exigindo de Deus o que têm direito. De resto, aquele que não alcançar uma bênção, não dará testemunho nem será citado nos livros.

Auto–ajuda

"É certo que muitas pessoas neste mundo são ricas, mesmo sem possuírem Deus no coração. Vencem, entretanto, porque confiam na força do seu trabalho, e por isso, são possuidoras de uma riqueza honesta e digna. (...) Reafirmo que nossa vida depende de nós mesmos". (MACEDO, Mensagens, pp. 27, 22).

Algumas das características do discurso iurdiano denotam a recomendação de autoconfiança; o fiel deve crer nele mesmo, em sua capacidade individual. A estratégia oferecida pela IURD, baseada na Teologia da Prosperidade, estimula o membro da igreja a ser participativo nos cultos em relação a ofertas e dízimos e reivindicar perante Deus aquilo que lhe pertence por direito. Se todo o discurso sobre espiritualidade vem atrelado à intervenção do Diabo, quando se trata de dinheiro, o fiel tem de ir à luta e buscar a Deus com revolta, que neste caso, assume um sentido de inconformidade com a própria situação: doença, pouco dinheiro, ser empregado assalariado, etc., e é Deus quem tem que assumir Sua posição diante do fiel: a IURD assim o exige. Porque Deus é obrigado, como em um contrato, a fazer sua parte!

""Depende apenas de você o que será feito de sua vida, pois quem decide nosso destino somos nós mesmos. Não são as outras pessoas; não é Deus, nem o Diabo. (...) Não adianta ficar só jejuando ou orando. É preciso buscar o que você quer; fazer a sua parte, e então falar ousadamente com Deus, revoltado com a situação. Você deve dar o primeiro passo, pois Deus não o fará por você. (MACEDO, Mensagens, p. 28).

É evidente que esta teologia tem conseguido, até o momento, um grande sucesso tendo em vista o objetivo da expansão do número de fiéis e da área de abrangência das igrejas, inclusive a nível internacional. Não é objetivo julgar se esse fenômeno (o crescimento dessas igrejas) é um fato positivo ou negativo, mas sim, levar a uma análise social fundamentada no capitalismo vigente.

A INFLUÊNCIA DO COMUNISMO NA TEOLOGIA CATÓLICA

A influência do comunismo na teologia católica veio acompanhada de várias outras situações sociais que estavam acontecendo, principalmente nos países do terceiro mundo. Esta teologia é conhecida como “Teologia da Libertação”.

A Teologia da Libertação (TDL) nasce na América Latina e Caribe num contexto histórico bem definido. Três ordens de fatores marcam e explicam sua gênese e seu desenvolvimento. Primeiramente, numa perspectiva sócio-econômica e política, grande parte dos países latino-americanos e caribenhos, sofria sob o peso da ditadura militar. Acrescida da dependência econômica em relação ao Primeiro Mundo, os regimes de exceção contribuem poderosamente para agravar as desigualdades sociais que se verificam no interior dos países periféricos do Terceiro Mundo, bem com entre estes e os países centrais. Nesse estado de coisas, opressão política e dívidas sociais crescentes constituíam duas faces da mesma moeda. As nações subdesenvolvidas, embora formalmente independentes, na verdade viviam sob a égide de uma nova colonização, ou melhor, jamais haviam saído dela.

Em segundo lugar, desde uma perspectiva científica, o instrumental de análise social marxista jogava luz sobre essa realidade de domínio político e econômico. Na medida em que disseca a partir de suas entranhas o funcionamento da acumulação capitalista, a teoria marxista põe a nu as contradições do liberalismo econômico. Basta uma olhada rápida às obras de Gustavo Gutierrez, Juan Luis Segundo, Clodovis e Leonardo Boff, Jon Sobrino, Hugo Asmann, Ellacuría - entre tantos outros - para dar-se conta de que, em termos de análise social, implícita ou explicitamente, elas se guiam pela matriz teórica do marxismo. Convém não esquecer, porém, que os autores da TDL recorrem a essa matriz teórica muito mais para entender a gênese da opressão social, do que na busca de um projeto social alternativo. Neste caso, a orientação e a luz partem antes da Palavra de Deus.

A terceira ordem de fatores que ajuda a entender o surgimento da TDL está vinculada ao campo eclesial. Cinco aspectos desta inflexão eclesial devem ser destacados. Primeiro, a experiência da Ação Social Católica nos anos 50 e 60, especialmente entre a classe operária francesa. A difusão do método VER-JULGAR-AGIR mergulha aí suas raízes, ajudando a entender os problemas sociais através de uma pedagogia crítica, por um lado, e de uma prática transformadora, por outro.

Depois, temos a realização do Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965), como tentativa bem sucedida de a Igreja entrar em diálogo aberto com o mundo moderno. Tratava-se, em poucas palavras, de afinar o compasso com as descobertas da ciência e com o progresso tecnológico. A Constituição Pastoral Gaudium et Spes, sobre a Igreja no Mundo de Hoje, traça um retrato da realidade, em suas "mudanças rápidas e profundas", que ainda hoje mantém grande atualidade.

O terceiro aspecto refere-se à II Conferência dos Bispos da América Latina e Caribe, realizada na cidade de Medellín, Colômbia, no ano de 1968. Estamos em plena vigência das ditaduras militares. O tema - La Iglesia en la actual transformación de la América Latina, a la luz del Concilio Vaticano II - retrata um contexto de grande efervescência social e política. Os bispos cunham a expressão "violência institucionalizada" para sublinhar que "um surdo clamor brota de milhões de homens, como injustiça que clama aos céus". Falam também da "vigência de estruturas inadequadas e injustas" que pesam duramente sobre os povos do continente.

O aspecto de número quatro representa a prática libertadora das Comunidades Eclesiais de Base (CEB) em vários países da América Latina e do Caribe. Inspiradas no método Ação Católica, por uma parte, e por outra, estimuladas pelas conclusões do Vaticano II e do Documento de Medellín, as comunidades cristãs passam a uma militância ativa pela transformação das estruturas sociais injustas. A leitura da realidade à luz da Palavra de Deus e a busca de soluções concretas para os problemas reais define sua prática religiosa frente à dominação política e à pobreza econômica. Esse "novo jeito de ser igreja" realiza entre a fé e o compromisso social um casamento indissociável e rico em conseqüências. Vale sublinhar que essa "opção preferencial pelos pobres" tem na hierarquia amplo respaldo.

E chegamos assim ao quinto e último aspecto a ser lembrado: um discurso social fortemente combativo, acompanhado de uma prática conseqüente, seja por parte de algumas conferências episcopais latino-americanas e caribenhas, seja por parte de alguns bispos isolados. No caso das conferências, o destaque vai para o Brasil, onde o enfrentamento à ditadura militar produziu documentos de uma veemência profética surpreendente. Quanto aos pastores mais engajados, vale apontar os nomes de Dom Hélder Câmara, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Oscar Romero - para só citar alguns.

As três ordens de fatores e os cinco aspectos eclesiais, combinados entre si, estão na raiz da Teologia da Libertação. Esta nasce e se desenvolve como uma reflexão crítica a partir da práxis libertadora dos cristãos. Ou seja, num primeiro momento desenrolam-se em inúmeros grupos, movimentos e pastorais sociais a luta pela libertação; só depois, num segundo momento, é que se desenvolve a reflexão teórica. Esta, no decorrer do tempo torna-se simultaneamente causa e efeito de novas lutas e novas sínteses reflexivas. Instala-se o que Juan Luis Segundo irá chamar de círculo hermenêutico: a consciência sobre a realidade opressiva leva a uma prática libertadora, a qual alimenta uma reflexão teórica que, por sua vez, retroage sobre a realidade, renovando e aprofundando a ação social e política.

Esse esquema de dupla face - práxis transformadora e reflexão teórica - ganharam impulso sob as botas dos militares. Não é à toa que a perseguição política e o martírio acompanharam de perto essa nova forma de viver a fé cristã. Militantes de base, agentes pastorais e teólogos, às dezenas e centenas, sofreram no corpo e na alma o peso e o impacto da ação repressiva.

A “TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO” NO BRASIL

Se deixarmos de lado os primeiros anos da igreja católica, quando cidades como Antioquia, Constantinopla e Jerusalém tiveram forte influência na consolidação do Cristianismo, pode-se dizer que os estudos teológicos sempre estiveram vínculos profundos com a Europa, em geral, e com Roma em particular, que não por acaso é o centro do catolicismo latino. Fato curioso foi o aparecimento, na América Latina, por volta da segunda metade do século XX, de um movimento teológico que ficou conhecido como “Teologia da Libertação”. Este movimento se inscreve no contexto tanto dos preparativos como dos desdobramentos do famoso Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965) quando os católicos tentaram restabelecer o diálogo com a cultura moderna. Para situar o surgimento da Teologia da Libertação é preciso ter consciência de que mesmo na Europa, nos anos que antecederam o Concílio, havia um forte apelo em favor da renovação dos métodos pelos quais a igreja se fazia presente no mundo. É neste contexto que ações junto aos operários, aos camponeses, as mulheres, aos jovens não somente se consolidaram como também ganharam o mundo. Servindo inclusive de base para se propor um modelo de igreja mais próximo dos pobres. Aliás o próprio termo Igreja dos Pobres não é estranho para alguns bispos e teólogos que tiveram um papel fundamental no Concílio.

De volta para suas respectivas dioceses, os bispos tratam de implantar as deliberações conciliares. Aqui na América Latina crescia a consciência de que o principal problema a ser enfrentado pela igreja não era de ordem filosófica (com o ateísmo, por exemplo), mas era de ordem econômica e, conseqüentemente, política (a pobreza). Em outras palavras, alguns setores da igreja descobrem que a injusta pobreza estrutural, na qual estavam mergulhadas as sociedades latino-americanas, era uma afronta ao amor de Deus e, portanto, a vivência da religião exigia a transformação da sociedade.

Foi assim que desafiado pela própria realidade e estimulado pelos bispos (primeiro na Conferência de Medelin - Colômbia, 1968 - e depois na Conferência de Puebla - México, 1979) surge a Teologia da Libertação. Justamente por se tratar de uma reflexão de cunho pastoral vivida no interior das diferentes igrejas particulares os primórdios deste movimento teológico acontecem de forma livre, o que não impede a identificação de alguns marcos importantes como, por exemplo, o trabalho de teólogos com o peruano Gustavo Gutierrez autor do livro A força histórica dos pobres, ou dos brasileiros Hugo Assmman e Leonardo Boff que entre outras obras escreveram respectivamente Teologia desde la Práxis de la Liberación e Jesus Cristo Libertador.

O ponto central e original da Teologia da Libertação foi a opção preferencial pelos pobres. Trata-se, portanto, de uma perspectiva epistemológica pela qual se buscava não apenas visitar todo o patrimônio cultural e cientifico da teologia cristã mas também se queria, à luz desta opção, responder aos problemas que o mundo moderno coloca para a presença e ação da igreja no mundo. Não se esquecendo nunca de que o principal problema é a pobreza estrutural. A consciência de que a pobreza estrutural é o principal problema a ser enfrentado, permitiu estabelecer a interface entre as exigências religiosas, os desafios econômicos e os obstáculos políticos. Enquanto teologia, isto é, como reflexão sobre Deus, a Teologia da Libertação aceitou o desafio de revelar este mesmo Deus a partir do lugar social do pobre, o que não significa de forma alguma uma santificação romântica deste último, nem muito menos uma resignação frente a pobreza na qual vivem grandes segmentos da população brasileira.

O ex-frei Leonardo Boff foi um dos expoentes brasileiros da Teologia da Libertação,Por outro lado, ao se perceber que a pobreza é um problema estrutural também se percebeu que sem transformações econômicas e políticas não haverá superação da pobreza e, conseqüentemente, um discurso sério sobre Deus. Na opção pelos pobres, portanto, reside o ponto forte e, ao mesmo tempo, a fraqueza desta reflexão teológica. Seu ponto forte porque foi graças a criatividade do diferentes modos de presença juntos aos pobres e de solidariedade para com o empobrecidos que a igreja latino americana, principal protagonista da Teologia da Libertação, conseguiu estabelecer interlocução tanto internamente (com os diferentes segmentos da sociedade) quanto externamente (com as igreja e organizações esparramadas pelo mundo, em geral, e presentes, particularmente, nos países ricos - Alemanha, Itália, Estados Unidos, Canadá etc). A literatura que dá conta deste intercambio é imensa.

Mas também foi justamente este compromisso com os pobres que despertou as principais oposições e perseguições a Teologia da Libertação. Neste ponto os teólogos da libertação, apesar de honrosas exceções, por falta de uma correta análise do momento histórico nacional, sucumbiram. Boa parte deles deixou a luta ao lado dos pobres para dedicar-se a consolidação de organizações por eles criadas. Além do mais, há que se reconhecer que a atual reversão das prioridades pela qual passa a igreja católica se viabiliza, de um lado, porque a hierarquia, mesmo a brasileira que inicialmente apoiou a Teologia da Libertação, hoje, consegue neutralizar os efeitos desta reflexão que tinha a pobreza como principal desafio religioso, econômico e político. E do outro lado porque ao neutralizar a Teologia da Libertação, os articuladores do atual discurso teológico oficial conseguiram se alinhar às expectativas espiritualizantes de um segmento dos católicos que não está nenhum pouco preocupado com o exercício da solidariedade como caminho para o conhecimento de Deus. A famosa transformação econômica e política da sociedade entendida como exigência religiosa para a comunhão com Deus deixou de ser prioridade fazendo com que a ação política dos cristãos não tenha como meta a emancipação dos pobres mas sim a consolidação da igreja. Por esta razão, se pode dizer que apesar de ter sido muito importante para as gerações dos anos 60, a Teologia de Libertação - mesmo que ainda presente em alguns espaços - sem uma radical e atualizada volta à opção preferencial pelos pobres entrará para história como um movimento marginal que adormece esperando que as cinzas que escondem as brasas sejam assopradas.


CONCLUSÃO


Podemos chegar a conclusão, que há uma grande necessidade do discurso teológico das igrejas se adaptarem a uma realidade economico-politica, até mesmo para atrair novo adeptos para seu rebanho, tendo em vista que o discurso que não se moderniza, se fossiliza. Isso é o que tem acontecido com muitas religiões atualmente, mas qual é o certo a fazer? adaptar o discurso dentro do adágio de Maquiavel: "o fim justifica os meios", ou se manter convicto que as verdades Bíblicas transcendem as questões culturais?


2 comentários:

  1. Nunca tinha parado para analisar, estas influências nas teologias cristãs, mas creio que isso realmente aconteça. Realmente a igreja universal e suas copiadoras se tornaram grandes mercados da fé, onde a religiosida tornou-se em mercadoria para as pessoas. Por outro lado, se analisarmos que todas as pessoas que militaram com a teologia da libertação no passado, hoje estão no poder, como o presidente LULA, e os demais presidentes dos países da América Latina. Este texto esta muito interessante! gostei muito.

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  2. É eu vejo isto como algo alarmante pois A VERDADE já foi esquecida, tenho analisado sobre tudo isso e como a influencia de todo um sistema tem se tornado cada vez mais uma característica marcante de um pensamento comum entre religiosos, os quais tem se perdido totalmente as raízes a ponto de não admitirem um pensamento contrário aquele ditado pelo mundo. Essa postagem é realmente muito válida para o nosso tempo, desejaria que elas fossem fixadas nas portas das igrejas, assim como em 1517 Lutero afixou as 95 teses na porta da igreja castelo em Wittenberg, Alemanha.

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