terça-feira, 17 de agosto de 2010

OS ADVERSÁRIOS DA IDÉIA DE DEUS


"Como pensam os que acreditam que a religião cristã é não somente falsa, como nociva, tendo contribuído para a permanência da obscuridade e impedido o avanço da razão e do progresso científico, político e moral"


O francês Voltaire e os alemães Nietzsche e Marx: texto apresentado segundo estes três principais opositores da idéia de Deus e da religião. 

O debate sobre a existência de Deus, que ocupou o cerne do debate filosófico durante séculos, encontrou, como não poderia deixar de ser, em antítese ao pensamento de ardorosos defensores da fé e da religiosidade, igualmente virulentos adversários e combativos livre-pensadores, que tinham como objetivo a demonstração de que a religião cristã não era somente falsa, mas também nociva, uma instituição repressiva que contribuia para a permanência do obscurantismo, da ignorância, e para o impedimento do avanço da razão e do progresso científico, político e moral.

Tal foi o caso de parte do Iluminismo no século XVIII. A partir do desencantamento do mundo e da matematização da natureza operada pela física de Galileu, que ao afirmar que a Terra não era o centro do universo, mas o Sol, descoberta científica que o conduziu às barras dos tribunais da Inquisição, uma plêiade de pensadores se encaminhou cada vez mais para uma atitude de repúdio crítico, ou de aberto confronto com a religião estabelecida. O caso mais célebre, suponho, é o de Voltaire.

Formado pela tradição do empirismo inglês de John Locke, que afirmava que todo conhecimento possível passa pelos sentidos humanos, retrabalhados pela razão, Voltaire elegeu, como primeiro adversário, a superação do pensamento de Pascal, a quem chamava de "aublime misantropo". Os argumentos pascalianos, que insistiam no caráter miserável da condição humana, com o intuito de constituir uma apologética do cristianismo e uma conversão para Deus, são criticados por Voltaire, que se vale da idéia de common sense, rejeitando as sutilezas da metafísica e propondo explicações naturais, racionais e científicas para os fenômenos do mundo, da cultura, da sociedade e do espírito.

O problema da existência do mal, como já aludimos, sempre foi um espinho na crença cristã. Uma vez que Deus é concebido como um ser absolutamente bom e perfeito, e a existência concreta do Mal no universo, incontestável, as duas proposições parecem antitéticas, ou negarem-se entre si: como pode um ser de infinita bondade permitir a vigência do mal entre os homens, criaturas constituídas à forma e semelhança divinas?

Duas soluções básicas foram oferecidas para o problema. A primeira, na teologia de Agostinho, é negar o caráter ontológico do mal. Para Agostinho, o mal não existe, sendo antes uma carência do bem, uma ausência do bem. Não há para o Bispo de Hipona um mal positivo, efetivamente existente.

Nos esforços de teodicéia de Leibniz e Shafstebury, por sua vez, o mal é assim compreendido graças à fraqueza do entendimento humano. Caso pudéssemos compreender a totalidade das relações causais do universo, ou seja, caso tivéssemos acesso a uma visão da totalidade, só atribuível a um Deus onisciente, nos daríamos conta de o que o que chamamos de mal, em eventos singulares, é na verdade a melhor solução possível na economia completa do universo. Segundo a célebre frase do otimismo metafísico de Leibniz, "vivemos no melhor dos mundos possíveis", onde tudo é concebido por um Deus bondoso e infinatamente sábio, da forma melhor e mais perfeita para a vida dos homens e de todos os seres.

Voltaire em seu Cândido ridicularizará, por intermédio da saborosa figura do Dr. Pangloss, o otimismo do pensamento leibniziano. Mesmo em face dos maiores horrores, o impávio Dr. Pangloss argumentará que vivemos nos melhor dos mundos possíveis, de forma muito semelhante àquela sustentada por Leibniz.

Como nos explica Ernest Cassirer no capítulo dedicado a idéia da religião em seu estudo clássico A filosofia da ilustração: "Aqueles que sustentam que tudo é bom não são mais que charlatães. Confesse-se que o mal existe, e não se ajunte a todos os horrores de nossa existência o zelo de negá-lo. Mas, se este é o caso, Voltaire se declara a favor do ceticismo teórico e contra a teologia e a metafísica, por via direta se encontra prisioneiro da demonstração de Pascal que pretendia rebater.Porque ao menos no resultado, se encontra na mesma posição de Pascal".

O cético e terrível polemista Voltaire, cujo brado notórico de Écrasez l'infame (esmaguem a infame) -, e o adjetivo pejorativo não se refere aqui a nada menos que a Igreja Católica - se encontraria, segundo Cassirer, no mesmo plano do cristianismo radical, representado pelo jansenismo de Pascal. Como podemos dar conta de tal contradição aparente?

A resposta é simples. Na sua busca de uma apologética da religião cristã, Pascal não se cansa de demonstrar a incapacidade e a insuficiencia da razão humana - se destituídas da revelação divina - que, ao voltar-se apenas a si própria, atingiria o ceticismo, ou seja, sem o concurso de Deus chegaríamos apenas à conclusão de nossa própria ignorância a respeito do mundo, da moral, da política, das ciências e das artes.

Quando Voltaire confronta o problema da existência do mal e dos esforços de teodicéia do pensamento cristão, sustenta contra eles uma espécie de ceticismo prático, ou seja, a idéia de que o pensamento racional não deve se ater a nenhuma esfera de transcedência, como a defendida através das delicadas e intrincadas argumentações da escolástica de São Tomás de Aquino. Curiosamente, portanto, o polemista ateu que se vale de sua pena como arte de combate através do humor, e busca opor-se violentamente ao pensamento cristão, a partir do problema fundamental da teodicéia, termina por se encontrar ao lado do catolicismo radical de Pascal.

Como bem aponta Cassirer na obra citada, a posição de Votaire é um tanto sistêmica, irregular e talvez pouco sólida teoricamente, no percurso de sua vida. O que parece fazer sentido em um espírito tão avesso ao aspecto sistemático da filosofia e ao caráter restritivo da moralidade religiosa, por exemplo. Em sua juventude, Voltaire advogou uma posição hedonista, ou seja, a da existência voltada para os prazeres e luxos da vida mundana. O terremoto que destruiu Lisboa, com amarga ironia no Dia de Todos os Santos - 1º de novembro de 1755 - , e arrasou uma das mais belas capitais da Europa, ascendeu a chama das discussões filosóficas acerca da existência de Deus e do problema do mal, e produziu uma profunda impressão em Voltaire.

Sua posição então se transforma. É impossível negar a existência do mal, como a catástrofe que se bateu sobre Lisboa demonstra. Não podemos nos manter nos limites escritos de um otimismo filosófico inocente e paralisador, ao contrário, para Voltaire, o mal existe como um desafio para o espírito, para o desenvolvimento progressivo das luzes e da moralidade, para o avanço da civilização. È portanto nesse caráter de atividade do espírito, constantemente movido e instigado a partir dos males do mundo, e nesse combate perpétuo e não mais no relaxamento dos prazeres, na defesa do hedonismo, que se deve dar a felicidade humana, o espectro possível da realização da existência dos homens.

Quando se toca no tema do ateísmo e no combate a religião cristã, outro nome como que desponta, imediatamente, ao espírito. O nome do autodenominado "anticristo", o homem que ensinava a "filosofar com o martelo": Friedrich Nietzsche. Oriundo de uma família religiosa (o pai era um pastor luterano), estava destinado a seguir carreira paterna, tendo até estudado teologia.

A partir dos estudos de filologia antiga, nos quais se destacou com brilhantismo, Nietzsche volta-se para o pensamento grego, e extrai daí conclusões inéditas e surpreendentes. Para ele, os males da civilização, a decadência da cultura que diagnosticou no século XIX, se devem à confluência de duas vertentes igualmente falsas, prejudiciais, quais sejam, a influência da moralidade e do pensamento judaico-cristão, e a racionalidade e metafísica filosóficas, cujo início remontaria, para o filósofo, a Sócrates e Platão.

Já em sua obra de juventude O nascimento da tragédia e o espírito da música, Nietzsche estabelecerá uma divisão que se tornou conhecida, mas mas que vale ser lembrada, entre o espírito apolíneo e o dionisíaco. Segundo Nietzsche, os gregos antigos compreendiam a necessidade da combinação do caráter racional, solar, ordenado, da forma e da beleza, epítetos aplicados a Apolo, o deus grego da forma e da razão, com os aspectos caóticos, irracionais, violentos, próximos da insanidade de Dionísio, o deus do vinho, da festa, da orgia, dos sentidos. Não é difícil notar o motivo pelo qual o pensamento de Nietzsche exerce uma sedução sobre os psicanalistas (Freud afirmou, certa vez, evitar a leitura de Nietzsche, pois parecia que a teoria psicanalítica já se encontrava ali expressa, em potência); o aspecto dionisíaco da alma humana, sublinhado por Nietzsche, aproxima-se muito ao que a moderna psicanálise chamaria de pulsões do inconsciente.
A separação entre o apolíneo e o dionisiaco, entre Lógos e Eros, entre a razão eo inconsciente foi realizada, segundo Nietzsche, por Sócrates e seu dileto discípulo Platão. Ao conceder toda hegemonia ao caráter racional da existência, ao predomínio totalitário da razão filosófica sobre os instintos irracionais, Sócrates negava a vida. é esse aspecto de totalidade da experiência humana que Nietzsche admira na na força do povo grego, e que afirma haver sido destruído pelo racionalismo socrático.

A metafísica platônica, ao localizar a verdade, o bem e o belo em uma esfera transcendental, aprofunda a cisão iniciada pelo pensamento socrático. Para Nietzsche, o idealismo platônico, e de todos os filósofos posteriores, que julga metafísicos, não foi senão uma tentativa de localizar o sentido da existência humana em outro plano que não o da vida dos homens na Terra. Somos, para Nietzsche, "humanos, demasiado humanos" e é nessa condição que devemos buscar a realização de nossa humanidade.

A religião judaico-cristã colaboraria para os erros da cisão entre o apolíneo e o dionisíaco, ao apontar para o homem cuja realização plena só se pode dar na salvação, num plano transcendente, divino. Além disso, segundo ométodo genealógico de Nietzsche, a moralidade judaico-cristã da piedade, da fraternidade, da caridade é uma "moralidade de escravos", ética do rebanho, que nega os valores poderosos e vitais da existência, e a força de espíritos superiores.

Nietzsche defendia o "niilismo acabado", que seria realizado através do Ubermensch, o além-do-homem. Apesar da posterior incorporação do pensamento de Nietzsche ao nazismo (ele se tornou o filósofo oficial do Terceiro Reich de Hitler), a partir da falsificação dos textos e simplificação excessiva de sua filosofia, o além-do-homem nietzschiano não guarda traço de similitude com o homem ideal ariano.

O além-do-homem é aquele que conseguiu compreender os erros da metafísica, da racionalidade ocidental e da moralidade de escravo judaico-cristão, e pratica o amor fati, ou seja, que ama a existência em tudo o que esta possa oferecer em prazer, alegria, realização, mas também em dor, em desesperança, em sofrimento, em trevas. O além-do-homem, o espírito livre, o Zaratustra de Nietzsche é o mestre que não reconhece mestres, é o sábio que superou os sábios, é o niilista que superou o niilismo.

Seria de indagar qual o grau da crítica de Nietzsche, seu poder efetivo, e sua atualidade. Nietzsche não estaria próximo demais da adoção do irracionalismo, e, tudo bem pesado, a doutrina do amor fati, do dizer sim incondicionalmente à vida, não seria uma forma refinada do que chamaríamos, em jargão marxista de ideologia e conformismo? (o pensador marxista de Frankfurt, Theodor Adorno, chegou a afirmar que o amor fat de Nietzsche é o "amor que o prisioneiro sente pela própria cela").

A passagem aqui foi intencional, pois comentaremos a seguir outra notável oposição à idéia e da religião: o pensamento do materialismo histórico de Karl Marx e de seus seguidores. Para Marx, a religião tem o efeito ideológico de obnubilar a capacidade de consciência dos proletários de sua condição de explorados numa trama de relações sociais perversas. Note-se que para Santo Agostinho um cristão deve abster-se das preocupações com a política terrena, já que só encontrará a felicidade na "Cidade de Deus", no reino dos céus.

O cristianismo, portanto, para Marx, admirável adversário de toda espécie de metafísicas e abstrações, ao recusar a história e a luta de classes, colaboraria para manter garantidos os grilhões da opressão capitalista. A liberdade humana deve se realizar na Terra a partir da consciência da distinção entre classes e do mecanismo da luta de classes, e da atividade revolucionária.

As revelações burguesas destituíram a aristocracia e seus privilégios de nobreza, e instauraram os ideais de igualdade, liberdade e fraternidade, lema da Revolução Francesa de 1789, abrindo caminho para a instituição do Estado burgês e capitalista. Porém, uma vez no poder, a burguesia traiu seus próprios ideais reformistas e liberais, como expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, e tornou-se, ela mesma, reacionária, uma espécie de nova aristocracia (vide apoio dos burgueses franceses ao massacre do levante operário durante a Revolução de 1848).

A revolução socialista, levada a cabo pelo proletariado, continuaria o movimento histórico rumo ao caminho da liberdade e da realização humanas. Para Marx, também somos humanos, demasiado humanos, mas ao contrário de Nietzsche, não se trata de apregoar a vida de um "espirito livre" ou niilista, mas de um combate real e revolucionário para destruir a sociedade do fetichismo da mercadoria, o capitalismo e sua capacidade destrutiva e opressora, impeditiva de plena realização humana.

Voltaire, Nietzsche e Marx, cada um à sua maneira, foram poderosos adversários da idéia de Deus, poderiamos ter acrescentado Darwin e Freud, mas será tema para outras postagens. Todos eles participaram do pensamento crítico das contradições da modernidade. E continuam a fornecer substrato para a reflexão acerca das relações entre a religião e o poder, a felicidade humana e a prática política, a vida justa e a vida feliz.


Referência Bibliográfica:


__________. Revista Biblioteca Entre Livros, Duetto Editorial, 2007.

Um comentário:

  1. Pe. Antônio de Melo25 de agosto de 2010 10:55

    Este texto está muito interessante, gostaria que também falasse de Freud e Darwin, pois foram juntamente com estes que você sitou adversários da religião. Tenho visitado este blog com frequência e tenho indicado para meus alunos na faculdade que leciono no curso de filosofia e teologia e eles tem gostado muito junto comigo. Continue nestes estudos que você está beneficiando uma classe acadêmica que é muito injustiçada no meio. Você esta mostrando que a religião pode ser sim, estudada no âmbito acadêmico com seriedade, comprometimento e principalmente imparcialidade necessária que um filósofo e teólogo precisa. Parabéns!

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