quarta-feira, 9 de março de 2011

INDÚSTRIA CULTURAL: A Cultura de Massa






O QUE É INDÚSTRIA CULTURAL?

 A existência de meios de comunicação capazes de colocar uma mensagem ao alcance de grande número de indivíduos não basta para caracterizar a existência de uma Indústria Cultural e de uma cultura de massa.

 A Indústria Cultural é fruto da sociedade industrializada, de tipo capitalista liberal. Mais especificamente, porém, a indústria cultural concretiza-se apenas numa segunda fase dessa sociedade, a que pode ser descrita como a do capitalismo de organização (ou monopolista) ou, ainda, como sendo a sociedade dita de consumo.

  considerada ainda como condição para a existência dessa Indústria uma oposição entre a cultura dita superior e a de massa, apesar dos equívocos envolvidos nessa divisão. Admitida essa divisão, pode-se falar na existência de uma cultura superior, outra média(midcult) e uma terceira, de massa (masscult,inferior).A segunda distingue-se da terceira, basicamente, por sua pretensão de apresentar produtos que se querem superiores mas que são,  de fato, formas desbastadas daqueles. Ao passo que a masscult se contenta com o fornecer produtos sem qualquer pretensão ou álibi cultural.

 É possível ainda, estabelecer-se uma oposição entre a cultura popular, entendida como soma dos valores ancestrais de um povo, e a cultura dita pop, outra designação de cultura de massa. Os mesmos excessos de valorização da cultura superior, diante da de massa, também são encontrados na defesa da popular diante da pop.

 Com seus produtos, a Indústria Cultural pratica o reforço das normas sociais, repetidas até a exaustão sem discussão. Em conseqüência, uma outra função: a de promover o conformismo funcional. Ela fabrica seus produtos cuja finalidade é a de serem trocados por moeda; promove a deturpação e a degradação do gosto popular; simplifica  ao máximo seus produtos, a obter uma atitude sempre passiva do consumidor; assume uma atitude paternalista, dirigindo o consumidor ao invés de colocar-se a sua disposição.

 Ao lado da defesa da Indústria Cultural está a tese de que não é fator de alienação na medida em que sua própria dinâmica interior a leva a produções que acabam por beneficiar  o desenvolvimento do homem. A favor desta idéia lembra-se, por exemplo que as crianças hoje dominam muito mais cedo a linguagem graças a veículos como a TV. O acúmulo de informação acaba por transformar-se em formação dos indivíduos, isto é, a quantidade provocando alterações na qualidade. Ou que a Indústria Cultural acaba por unificar não apenas as nacionalidades mas também as próprias massas.

Não se sabe bem o que é massa. Ora é o povo, excluindo-se a classe dominante. Ora são todos. Ou um conjunto amorfo de indivíduos sem vontade. Pode surgir como um aglomerado heterogêneo de indivíduos, ou como entidade absolutamente homogênea para outros. O resultado é que o termo “massa” acaba sendo utilizado quase sempre conotativamente (isto é, com um segundo sentido) quando deveria sê-lo denotativamente com um sentido fixado, normalizado.Na verdade esta é uma questão um tanto bizantina: essa cultura de ou para ou sobre a massa existe para quem se der ao trabalho de abrir os olhos.

 Havendo preconceito de classe diante das reais dificuldades metodológicas de delimitação do conceito de massa, talvez seja melhor falar-se numa cultura industrial ou industrializada, particularmente quando se pretende atribuir a essa entidade um valor negativo.

 Alienação e revelação na indústria cultural

 Entendido como um processo no qual o indivíduo é levado a não meditar sobre si mesmo e sobre a totalidade do meio social circundante, transformando-se com isso em mero joguete e, afinal, em simples produto alimentar do sistema que o envolve.

 Há duas grandes tendências, quando se trata de saber se a indústria cultural provoca a alienação ou produz a revelação. A resposta pode ser dada através da análise do conteúdo veiculado pelos meios de que serve a indústria cultural.

 O conteúdo como determinante

 A primeira tendência, assim, pretende-se à questão do conteúdo. Para esta, os produtos da Indústria Cultural serão bons ou maus, alienantes ou reveladores, conforme a mensagem eventualmente a eles vinculada.

 E ela firmou-se e espalhou-se um pouco por toda a parte, estabelecendo consigo a visão puritana e equivocada da eficácia e do trabalho como valores maiores do homem, diante dos quais o prazer é banido da prática cultural.

 É muito comum ler uma crítica que exige seriedade e engajamento da TV ou do rádio ao invés de diversão.

 “A massa é ignorante e portanto não pode perder tempo com prazer; temos, nós, de torná-la culta, através da seriedade”. Maiakovski

1-     Combater o prazer;
2-     Combater o prazer particularmente nos veículos da indústria cultural.

 A limitação do sistema produtor      

 Todo produto traz em  si os vestígios, as marcas do sistema produtor que o engendrou.

 Que a indústria cultural tem seu berço propriamente dito apenas a partir do século XIX, de capitalismo dito a liberal, que a indústria cultural atinge seu grande momento com o capitalismo de organização ou monopolista.

 A mensagem da natureza do veículo     

 McLuhan colocando-se na posição contrária a ocupada pelos que se preocupam com o conteúdo das mensagens produzidas pela indústria cultural (para a partir daí determinar se elas são ou não alientas), McLuhan observa que essa preocupação com o conteúdo e a tendência para atribuir certos efeitos a certos conteúdos são resquícios de uma cultura letrada incapaz de adaptar-se às novas condições.

 Uma preocupação excessiva com os conteúdos veiculados pelos meios da indústria cultural, quando o alvo dessa atenção deveria ser esses mesmos meios considerados em si mesmos, independentemente de qualquer conteúdo e do ponto de vista de sua organização interior, de sua natureza, de sua estrutura.

 McLuhan considera um erro dizer que o valor da TV, por exemplo, depende do tipo de programa por ela divulgado – o que eqüivaleria a dizer que a TV será boa se disparar a munição certa contra as pessoas certas.

 E como, na verdade, o que interessa aqui é ilustrar a tese segundo a qual a questão da alienação através da indústria cultural deve ser analisada sob o ponto de vista estrutural e não a partir do conteúdo das mensagens, ficaremos com apenas um dos veículos dessa indústria, possivelmente o mais expressivo deles: a TV.

 À primeira vista, viria a tentação de dizer que o  modo de recepção pela TV é coletivizante, ao contrário do que ocorre no processo da leitura, experiência individual por excelência.

 Uma coisa é ler no jornal que “foram fuzilados quinze revolucionários”e outra bem diferente é ver na tela pessoas vivas tombarem para trás sob o impacto da balas estraçalhantes, enquanto os membros do pelotão de fuzilamento gritam de satisfação.

 É que tanto para o indivíduo quanto para as nações, a TV é um meio unidirecional, unívoco: a informação por ele veiculada segue apenas um sentido, da fonte para o receptor, sem retorno.

 Análise pelo processo de significação

 Todo processo de significação – e este é o processo em jogo nos veículos da indústria cultural, como aliás em todas as demais atividades relativas ao ser humano –  está baseado na operação de signo.

 E cada tipo de signo tende a provocar um certo tipo de relacionamento entre ele mesmo e a pessoa que o recebe, nesta provocando também u7m tipo particular de interpretante ou significado.

 A)    Ícone, ou signo icônico, é um signo que tem uma analogia com objeto representado: uma foto, uma escultura.

B)     Índice, ou signo indical: signo que representa seu objeto por remeter-se diretamente a ele; o índice aponta para seu objeto, para seu referente; sem ser semelhante a seu objeto, como o ícone, está ligado a ele de tal modo que, sem ele, não pode existis.

O índice não tem autonomia de existência

Mas o conhecimento do índice não possibilita  o conhecimento do objeto significado, a não ser sobre aspectos muito restritos.

 Já o índice não existe se seu receptor não conhecer previamente o objeto representado: se eu já não tiver visto a relação entre nuvem escura e chuva, não poderei interpretar o signo “nuvem escura”.

 a)      Símbolo, ou signo simbólico: signo que representa seu objeto em virtude de uma convenção de um acordo.

 Quanto ao símbolo, diversamente do ícone, não tem nenhum traço em comum com seu objeto, nem está ligado a ele de algum modo: ele é arbitrário. O exemplo mais comum de símbolo é a palavra , qualquer palavra.

 Ela representa o objeto cão graças a uma convenção entre os homens: Diz a convenção que uma coisa com um c associada a uma um o, mais o traço gráfico ~ deve ser entendida como significado um certo tipo de animal doméstico.

 Não exige que seu receptor conheça o objeto a que se refere, como o índice: o símbolo é, mesmo, um modo de conhecer coisas novas.

 Símbolo não implica o conhecimento da coisa representada tal como ela é.

 O símbolo não tem ligações com a coisa significada, independe desta.

 Alienação/ revelação na indústria cultural

 O que se pretende dizer com consciência icônica é que se trata de uma consciência que procede com seu objeto, com o objeto sobre o qual se debruça, do mesmo modo como o signo icônico faz com seu objeto. Isto é: ela procede por analogia.

 Uma seta que indica um certo caminho só funciona efetivamente como signo indicial para alguém interessado em descobrir esse caminho e que o descobre, locomovendo-se: ou o signo indicial funciona ou não será signo indicial. 

A recepção do signo indicial implica um certo esforço, físico ou mental.

 É que, não sendo uma consciência de instituição, a indicial é uma consciência de instatação: o cata-vento me diz que realmente a vento e que o vento sopra nesta direção. Eu constato, não intuo.

 A categoria do signo simbólico corresponde a da consciência simbólica: trata-se de uma consciência interessada na investigação do objeto em questão, uma consciência que produz as convenções, as normas, que pretende conhecer as causas. Não se contenta com sentir ou intuir uma coisa, nem em constatar que ela existe: quer saber porque desiste. Se a icônica é analógica e intuitiva, enquanto a indicial é operativa, a consciência simbólica é lógica.

 Aqui, então, vai ser possível dizer que o problema com a indústria cultural não é tanto o que ela diz ou não; não é tanto o fato de ser ela deste ou daquele modo, estruturalmente; nem o fato de ter surgido neste ou naquele sistema político-social – mas, sim, no modo como diz. É o paraíso do signo indicial, da consciência indicial.

 Toda a indústria cultural vem operando com signos indiciais e, assim, provocando a formação e desenvolvimento de consciências indiciais. Tudo, signos e consciências e objetos, é efêmero, rápido, transitório; não a tempo para a intuição e o sentimento das coisas, nem para o exame lógico dela; a tônica consiste apenas em mostrar, indicar, constatar.

 O que interessa não é sentir, intuir ou argumentar, propriedades da consciência icônica e simbólica; apenas, operar.

 A  capacidade de interpretar o mundo iconicamente, de distinguir o sentido nas coisas, vê-se cada vez mais diminuída.

 Voltando à indústria cultural, deve-se observar, então, ser totalmente fora de propósito dizer que a indústria cultural é o universo do ícone; que, através da indústria cultural, estamos na era do ícone e da consciência icônica.
 Os ícones existem superficialmente, mas o modo pelo qual são dispostos é indicial, formando-se no indivíduo receptor uma consciência sob a forma de mosaico, composta por retalhos de coisas vistas rapidamente, numa tela onde se multiplicam e se sucedem imagens desconexas a impedir, para esse indivíduo, uma visão totalizante de si e de seu mundo, provocando, dessa forma, o processo de alienação.

Por ora fiquemos com uma síntese a respeito dos modos de encarar a questão revelação / alienação na indústria cultural:

 A)    Há uma corrente que aborda o problema sob o ponto de vista do conteúdo das mensagens divulgadas pela indústria cultural. Para esta, a indústria cultural e seus veículos são instrumentos passíveis de serem usados tanto para o esclarecimento como para o embotamento  (e conseqüente manipulação) de seus receptores, sendo decisiva a ideologia responsável pela elaboração desses produtos culturais.

 B)     De outro lado, diz – se que o conteúdo e irrelevante, importante a natureza específica da indústria cultural e seus veículos.

 Aqui, verifica – se uma tendência no sentido de apresentar essa indústria como produto de uma sociedade (a do capitalismo liberal e, a seguir, do capitalismo monopolista) cujo traço maior seria a produção da alienação. Neste caso, a indústria cultural também seria produtora de alienação, não importando o conteúdo das margens.

 Uma outra tendência, defendida entre outros por McLuhan, preocupa – se também com a natureza dos meios e não com o conteúdo de suas mensagens, mas não opta por uma análise ideológica do fenômeno, como a interior.  Privilegia uma análise da natureza específica de cada meio, detendo – se em seus aspectos ditos técnicos.

 C)    O terceiro modo de abordar o problema, aqui exposto, não privilegia nem o estudo do conteúdo, nem a análise da natureza da indústria cultural e seus veículos. Partindo de uma teoria, a semiótica – que estuda o signo, seus modos de elaboração e formulação e suas relações com o processo humano de interpretação – esta tendência coloca o problema na maneira de interpretar o mundo, no modo de formar uma visão no mundo.


 INDÚSTRIA CULTURAL NO BRASIL

  O que é a indústria cultural no Brasil? Veremos a seguir algumas de suas características e estatísticas gerais:
 Há no Brasil, cerca de mil estações de rádio e mais de 75 de televisão; a estes números correspondem aproximadamente 37 milhões de aparelhos receptores de rádio (uma audiência possível de 60 a 90 milhões de pessoas) e 13 milhões de aparelhos de TV (audiência possível de 50 milhões de pessoas), dos quais pouco mais de 10% a cores.

 Na imprensa escrita, em números aproximados, são 280 jornais diários, chegando a alcançar um público superior a 4 milhões de pessoas. Cerca de 1000 publicações mensais e semanais e 700  revistas da mais variada natureza: da história em quadrinhos à revista de circulação dirigida, voltada para assuntos econômicos, passando pelas revistas para a “dona de casa” e as destinadas a um “público masculino”.

 O Estado de São Paulo e a Folha de São Paulo, O Globo e O Jornal do Brasil – durante os domingos rodam entre 350 a 400 mil exemplares.

 É muito comum, quando se fala da indústria cultura no Brasil, omitir-se completamente o setor da edição de livros. De fato, em termos numéricos essa área é tão reduzida no Brasil que não entra no cálculo da cultura de massa, mesmo considerada em nossos padrões. No entanto, dada sua importância cultural e a título de curiosidade, sejamos alguns dados: por ano são lançados no mercado entre 4000 e 6000 títulos; a tiragem mais comum é de 3000 exemplares por título; um livro do qual se espera uma vendagem maior é rodado em 5000 exemplares. Um romance cuja a edição inicial seja de 30 mil exemplares é considerado um grande êxito.

 A maioria esmagadora desses veículos – excetuando-se as editoras de livros e as emissoras ditas – vive essencialmente de publicidade. Os jornais brasileiros dela dependem numa percentagem não inferior a 80% (o francês Le Monde, considerado o melhor do mundo, vive basicamente da venda ao leitor, como uma editora de livros) e as emissoras de rádio e TV dependem da publicidade em 100%.

 Com todos esses números, no entanto, cerca de 20% da população brasileira não ouve rádio; 50% não vê televisão e pelo menos 80% não lê jornal ou revista. Os livros vendidos em livrarias (brochuras de ensaio de ficção; excluem-se os encadernados e os didáticos) são lidos pôr apenas 25% da população, na melhor das hipóteses. 

Assim como o livro, o cinema e o teatro são, rigorosamente, veículos de comunicação de massa no Brasil. Uma cidade como São Paulo tem cerca de 150 salas públicas de projeção, com alguma coisa ao redor de 50 mil lugares oferecidos (no Morumbi cabem mais de 100 mil pessoas); em São Paulo há ainda 30 salas de teatro, com pouco mais de 12 mil lugares. Paris, cidade de dimensões equivalentes às de São Paulo, tem aproximadamente 300 salas de cinema e 80 de teatro.

 Dessa indústria cultural pode-se dizer ainda que apresenta as seguintes características gerais:

Não é raro ouvir que não se pode falar em cultura de massa ou em meios de comunicação de massa no Brasil porque a comunicação de massa e os meios de comunicação de massa pressupõem a existência de uma sociedade de massa, de uma sociedade de onde existe consumo de massa. E não haveria consumo de massa no Brasil. De fato, inexiste consumo de massa no Brasil. A divisão de renda é tal, que apenas os bolsões situados no centro-sul do país podem pensar em consumir, e mesmo assim em termos relativamente modestos. Por outro lado, é também correto que esta indústria cultural gera produtos dirigidos diretamente a essa pequena parcela da população capaz de consumir.

 De qualquer modo, deveria ser bastante claro que, embora os grupos consumidores sejam em pequena proporção diante da população nacional e embora os produtos da indústria cultura sejam dirigidos diretamente para eles, sobre eles e a partir deles é gerada uma produção cultural que acaba por afirmar-se e estender-se, embora são homogeneamente, a todos os demais grupos socais são consumidores. E estes grupos acabam pôr consumir simbolicamente aqueles produtos dirigidos à pequena minoria. E isto quer através de atividade imaginária de participação naqueles produtos e naquela cultura, quer através da participação também ilusória, excepcional e passageira.

Seja como for, esses meios de comunicação de massa acabam produzindo uma estrutura cultural que se torna impositivamente comum ao número dos atingidos pôr esses meios, razão pela qual é possível falar na existência de uma cultura de massa e de meios de comunicação de massa, ainda que nossa sociedade não seja uma sociedade de consumo de massa; a inexistência desta não impede a existência daqueles. 

A indústria cultural no Brasil apresenta-se marcada pelos traços mais evidentes e grotescos do comercialismo em particular e do capitalismo em geral. Os poucos veículos de massa subtraídos ao mercantilismo, também se caracterizam pela existência de estímulos à atividade crítica. Ao contrário do que ocorre em emissoras de outro países controladas também pelo governo (como as da França, Inglaterra e Itália), as do Brasil não têm nenhuma liberdade de movimentação em relação ao governo que as suporta, e qualquer veleidade no sentido de estimular a reflexão  crítica  sumariamente podada. Nossa indústria cultural está bastante voltada para temas, assuntos e culturas estrangeiras, particularmente a norte-americana. No rádio, são as músicas estrangeiras; na TV, os “enlatados” e, na imprensa escrita, as notícias sobre o exterior são veiculadas com grande destaque, enquanto que as nacionais são banalisadas.

 A dialética nacional x estangeiro não deve e não pode ser evitada, hoje. O único problema é que deve ser realmente uma dialética – um jogo entre opostos onde ambos os elementos de partida são anulados na direção de um terceiro, novo – e não o predomínio de um sobre o outro.

Traços específicos da indústria cultural no Brasil

 Um desses traços é relativo à homogeneização da cultura através da indústria cultural. No Brasil, porém, a cultura formada pela indústria cultural está longe de ser homogênea. As desigualdades gritantes na divisão da renda nacional impedem que se fale na existência, de uma sociedade  de consumo; há bolsões de consumo, em certas regiões, ao lado de grupos voltados  para o subconsumo e de outros  entregues  ao desespero da simples sobrevivência. Assim, mesmo que a indústria cultural tenda a veicular uma cultura só para toda a sua audiência, a disparidade entre os receptores é tamanha que essa cultura, embora tendendo para a uniformidde, não pode deixar de apresentar vertentes diversas. A indústria cultura apresenta, assim, fatias mais populares, ou popularescas, e fatias mais eruditas, ou “erudicizantes”. De um lado, na TV, são programas como os do “Sílvio Santos, Mega Tom, Bolinha, Raul Gil; e outro, os Concertos Internacionais  e os raros programas de entrevistas ou debates, além dos sempre abordados e eternamente retomados “Teatros na TV”.

 A heterogeneidade da indústria cultura brasileira explica outro traço específico seu, que a permanência do grotesco. Diz-se que uma conseqüência da indústria cultura é o fato de ela tender para a eliminação do grotesco das manifestações culturais na medida em que aspira às formas ditas superiores. Entre nós a indústria cultural instalou-se não propriamente eliminando a cultura popular mas sobrepondo-se a ela, permeando-a – e a cultura popular, no Brasil  (mas não somente aqui) é frequentemente tecida sobre o grotesco, o chulo, o “cafajéstico”. A reação de repúdio do público brasileiro diante do filme nacional – do qual se dizia, e se diz, que era exatamente “grotesco” e “cafajeste “ é um exemplo.  

Um outro traço da indústria cultura brasileira a ser destacado é o relativo à permeação da cultura dela resultante por elementos de culturas e o conseqüente fato de essa cultura da indústria cultural não tratar, como se afirma, de temas do cotidiano. Em relação a este último ponto,  diz-se que a indústria cultural brasileira é, basicamente, a indústria do divertimento, da distração, e não da reflexão sobre o que acontece na vida diária. Deve-se observar ainda que não estamos distante assim dos temas do dia-adia e que ela se apresenta mesmo, guardadas as proporções, como instrumento de combate contra aquela parte dela mesma voltada para a cultura estrangeira.  Na verdade, é necessário reconhecer que, pôr mais imbecilizantes que possam ser, programas como os das novelas têm tudo para atrair grandes parcelas da população (mesmo as que, nominalmente pelo menos, possuem formação  universitária) quando comparados com o cinema, particularmente o estrangeiro. E muito mais interessante, de fato saber se Renata  vai ficar com Paulo ou com João, e se seu ex marido vai ou não conseguir tirar-lhe a tutela da filha do que acompanhar as aventuras de um john wayne num distante vietnã. A novela da tv( mas não só ela: o programa do chacrinha também,  e ainda as transmissões esportivas, entre outras) traz sim, os elementos da vida comum. Pode fazê-lo de modo alienado e alienante- e  é isto  que cabe resolver. Mas importa notar que mesmo uma industria cultural ‘’colonizada’’, como se diz, acaba pôr vincular-se à realidade cultural do país. E isto não pôr idealismo mas porque ela precisa vender seus produtos e, para tanto, precisa usar como chamariz algo que chegue  mis perto das pessoas E o grau de alimentação  com que o faz é bastante variável. Nem sempre é um grau  elevado (programas recentes como carga pesada e malu mulher , em sua face inicial, apesar  de todas as falhas ideológicas possíveis, demonstram isso) e nem sempre  é tão forte.

 Perspectivas diante da indústria cultural  

Para a maioria dos estudiosos da indústria cultural, pouco ou nada se pode esperar dela no sentido da libertação do homem. Nem de seu veículos isoladamente tomados, como a tv. Para esses, nenhuma modificação  resulta positiva( como a reforma  da programação da indústria  cultural) se não for precedida de ampla reforma ou revolução  estrutural da sociedade. O fundamental  no problema  da comunicação  e da indústria  cultural não está nem na questão quantitativa, nem na questão  da natureza ou conteúdo da mensagem divulgadas, mas na estrutura mental e psíquica dos indivíduos receptores dessas informações.


Bibliografia:

CHAUÍ, Marilena. Filosofia – Série novo ensino médio. Editora Ática.

MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia. Ed. JZE.

BROWN, Colin. Filosofia e fé cristã. Ed. Vida Nova.

CARDOSO, Fernando Henrique e IANNI, Octávio. Homem e Sociedade. São Paulo: Nacional, 1971.

DURKHEIM, Emile. Educação e Sociologia. São Paulo: Melhoramentos, 1952.

GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992.

CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, teologia e filosofia. São Paulo: Hagnus, 2007.

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