segunda-feira, 30 de maio de 2011

FILOSOFIA COM CRIANÇAS, UMA MATÉRIA PERIGOSA?


O ingresso da filosofia no currículo do ensino fundamental coloca os educadores diante de um novo desafio: O que ensinar nas aulas de filosofia?   Como tornar as aulas instrutivas e agradáveis? Que tópicos abordar? Estas e outras perguntas inquietam os educadores. Alguns ficam preocupados ante a possibilidade de que as crianças considerem os assuntos cansativos, alheios às suas necessidades. Os professores querem embarcar com sua turma na procura de novas descobertas, motivar os alunos. Fazê-las não só entender os princípios filosóficos, mas também participar das descobertas. Estimulá-las a gostar da reflexão.

As crianças podem filosofar?

Ao falar de filosofia para crianças ou em filosofia com crianças, muitas dúvidas surgem. O assunto é novo e empolgante. Alguns perguntam: As crianças estão capacitadas para aprender filosofia em sala de aula? Também poderíamos questionar o fato de as crianças estarem capacitadas para aprender disciplinas como matemática, português e ciência. E mais ainda, computação!

Se as crianças estão preparadas para navegar pela Internet, então, como não poderão iniciar-se na filosofia? Só é preciso cuidar da abordagem. Deve ser lúdica. Vejamos: uma criança não começa a estudar trigonometria, ela aprende os princípios da matemática, ou seja, primeiro ela aprende a contar até dez, depois até cem, aprende a somar, a subtrair, a multiplicar e a dividir.  Mais para frente, será iniciada em cálculos complexos. O mesmo processo deve acontecer com o estudo da filosofia.

Não podemos subestimar as crianças! Elas nasceram na época da informática, da mídia, da globalização, um mundo diferente do nosso. Elas vão viver, crescer e trabalhar nesse novo mundo.

As crianças podem aproximar-se da filosofia, como dizia Aristóteles, pela admiração, pela curiosidade.  Os gregos se perguntavam: por que uma roseira tem folhas e flores em uma estação e fica sem folhas em outra estação?   Por que existe o som e o silêncio?  De onde veio este universo?

Já Aristóteles assinalava que o filósofo fica admirado por coisas simples, admirado ao contemplar o crescimento de uma planta, o nascimento de uma flor, as mudanças. Admiração é, então, o primeiro estágio da filosofia.
Pestalozzi, o famoso pedagogo suíço (1746 - 1827), afirmou que a verdadeira educação só é possível cara a cara e coração a coração.  É o educador quem pode estimular a capacidade de pensar, compreender e discernir dos alunos.

Filosofia para crianças ou com crianças?

Dizemos que o interesse pela filosofia para crianças ou pela filosofia com crianças está cada vez mais acentuado. Vejamos primeiro a diferença entre os dois conceitos. Alguns filósofos afirmam que filosofia para crianças tem uma conotação dogmática, de conhecimento que o professor dará ao aluno, enquanto a filosofia com crianças exprime um conceito mais moderno em que as crianças aprendem filosofando.

O filósofo francês Bergson afirmou numa palestra que podemos escutar falar horas e horas sobre a cidade de Paris ou ler sobre suas ruas, seus monumentos e sua gente e não teremos um conhecimento tão claro como se conseguíssemos caminhar durante meia hora pelas ruas de Paris. Assim é a filosofia. Não adianta procurar uma definição, temos que filosofar.

A frase “filosofia com crianças” está mais perto da opinião de Bergson de que filosofia se aprende filosofando. Assim, a metodologia das aulas não será baseada em datas e dados que podem ser decorados. O objetivo é criar a capacidade filosófica nos educandos. A capacidade de pensar, de questionar o mundo, de entender, de procurar novos caminhos.

Por exemplo, quando falamos da filosofia de vida de uma pessoa, queremos significar a soma de suas crenças, opiniões, suposições, ideias, pensamentos e ideais que orientam sua vida familiar, social ou profissional. Em outras palavras, as ações de qualquer ser humano estão orientadas pelas suas crenças, ideias e pensamentos, opiniões, suposições, sonhos, valores e ideais. Vejamos como caso prático o fato de aderir ao vegetarianismo.  Por quê? Algumas pessoas pensam que é errado matar animais para comer. Esta é uma postura filosófica. A ação é deixar de comer carne. Se o professor tiver em sala de aula um aluno cuja família é vegetariana, ainda que ele não seja vegetariano nem simpatize com a ideia, deve respeitar e ensinar a turma a respeitar a escolha deste aluno, nesse caso, o vegetarianismo.

Entramos já num tema muito questionador, muito debatido pelos filósofos que é a liberdade de escolha. O tema é assustador para a maioria.  Deixar os outros escolher suas vidas, é assustador, não é? Sartre dizia que o homem sente culpa porque não suporta o peso das próprias escolhas. E a liberdade de escolha é um assunto que pode ser abordado do ponto de vista da filosofia.

Uma aula de “sobrevivência”

O professor precisa deter-se e refletir calmamente sobre a formação dos alunos. Ele quer formar pessoas conformistas, obedientes ao sistema, incapazes de autodeterminação ou quer correr o risco de ensinar a pensar, a questionar e compreender o mundo?... Se quisermos um mundo melhor, evidentemente, precisamos de mudanças.
Um dos objetivos da filosofia é induzir os seres humanos, neste caso as crianças, a pensar por si mesmas. Talvez por isso os governos militares apagaram a Filosofia dos colégios... Nos anos 70, eu ainda morava em meu país e estudava filosofia em Buenos Aires, e como era época de governo militar, um dos professores nos deu uma “aula de sobrevivência”. Ele nos alertou: “Se por casualidade vocês chegarem a ser parados pela polícia, nunca digam que estudam filosofia. Filosofia é vista como matéria perigosa e filósofos são vistos como inúteis, improdutivos e rebeldes ao sistema. Se a polícia os pararem, digam que estudam psicologia. Psicólogos são considerados pessoas inúteis e improdutivos também, mas pacíficas”.

 “Lembrem – continuou – se vocês são parados pela polícia ou pelos militares e dizem que estudam filosofia, com esta resposta vocês já reduziram pela metade as chances de sobreviver. Só ficará meia vida para vocês... Então, sejam inteligentes, vocês são estudantes de psicologia. E agora, meus futuros psicólogos, continuaremos com Platão.

A filosofia é perigosa?

Karl Jaspers (1883-1969), em seu livro "Introdução ao pensamento filosófico", fala que algumas pessoas acham a filosofia demasiadamente complexa e proclamam que a filosofia está além de seu alcance. Continua: “A filosofia é perigosa. Se eu a compreendesse, teria de alterar minha vida. Adquiriria outro estado de espírito, veria as coisas com uma claridade insólita, teria de rever meus juízos. Melhor é não pensar filosoficamente”.

Filosofia em sala de aula significa que os alunos aprenderão junto à matemática, línguas e ciência, a arte de pensar.  E é muito difícil manipular um pensador. Fácil é manipular uma pessoa que segue a opinião dos outros. Para Jaspers, isto assusta e faz as pessoas pensarem que a filosofia é perigosa.

Sabemos que pode acontecer exatamente o contrário, pois existe uma filosofia pacifista, existe uma filosofia que ensina os homens a ser fraternos. Mas filosofia torna o homem consciente, e este poder de pensar e questionar o mundo é assustador para algumas pessoas.

Jaspers culpava também os políticos que se descuidavam da verdadeira educação do povo: “Muitos políticos veem facilitado seu nefasto trabalho pela ausência da filosofia. Massas e funcionários são mais fáceis de manipular quando não pensam, mas tão somente usam de uma inteligência de rebanho”.
Sem necessidade de criar pessoas revoltadas, a filosofia procura orientar para a formação do caráter dos indivíduos, nem conformistas, nem revoltados, simplesmente seres livres e capazes de exercer os direitos de escolha e autodeterminação.
A filosofia constitui uma fonte inesgotável de inspiração, nela podemos beber da sabedoria dos séculos.  A filosofia ajuda a desenvolver o pensamento profundo, criativo e autocorretivo. Estimula a reflexão. Dá bases para compreender o mundo e questioná-lo de maneira inteligente.

O novo milênio chegou. Vivemos na época da “globalização” da Internet, da busca da qualidade total! É hora de perguntarmos onde fica o ser humano neste contexto. O ser humano com suas possibilidades, suas limitações, sua grandeza, suas fraquezas, seus sonhos e sua capacidade de conhecer o mundo e de ser feliz.  É aí que o velho Sócrates volta às salas de aula e enfatiza: Conhece-te a ti mesmo! E Platão, desde sua Academia, ainda ensina a procurar o Bem, a Verdade e a Beleza.

Um mundo novo e um mundo melhor dependem, sobretudo, da educação das crianças. Diálogos, investigação, arte, contação de histórias, reflexão, teatro, poesia...  Os educadores podem utilizar várias técnicas para tornar as aulas interessantes e educativas. 

Se desejarmos mudanças que tornem as sociedades mais humanas, temos que aprender a questionar o mundo, os valores da nossa sociedade. A filosofia é um caminho para compreender e questionar.

Objetivos

A Filosofia no ensino fundamental tem por objetivo estimular as crianças a:
- Participar em grupos.
- Dialogar.
- Entender a responsabilidade de pertencer a um grupo.
- Aumentar a autoestima.
- Aprender a ser tolerante com as ideias dos outros.
- Desenvolver a paciência e a compreensão com aqueles menos favorecidos.
- Alargar a visão do mundo e a capacidade de questionar e de investigar o mundo.
- Refletir sobre valores morais e éticos.
- Despertar para a apreciação da arte e da beleza da vida.

Os educadores devem vivenciar com os alunos as atitudes de companheirismo e colaboração, hábito de leitura, diminuição de preconceitos, amor a si mesmo e aos outros, capacidade de diálogo e comunicação etc.

Lembremos que a filosofia educa o intelecto e a emoção. Não pode reduzir-se a fórmulas feitas. As aulas de filosofia não são somente para lembrar que Platão nasceu em Atenas em 427 a.C. e morreu em 347, nem que foi discípulo de Sócrates. Além destes dados que ajudam a entender como surge e se desenvolve a filosofia ocidental, os alunos precisam ser estimulados a observar, a questionar, a repensar o mundo. Filosofia é observar uma flor, observar uma pedra, observar uma estrela no céu e perguntar-se: Quem sou eu? De onde surgiu este universo? Filosofar é, então, uma atitude espontânea.

Isabel F. Furini é educadora e escritora. Publicou “Joana, a Coruja Filósofa” pela editora Sophos de Florianópolis, em 2005, e a coleção “Corujinha e os Filósofos” pela editora Bolsa Nacional do Livro, de Curitiba, em 2006.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

RELIGIÃO TAMBÉM SE APRENDE NA ESCOLA


Por Lara Sayão Lobato de A. Ferraz

Introdução

Seria a escola o espaço para um ensino religioso? A educação deve considerar o homem enquanto ser em relação com o transcendente? O que é o ensino religioso escolar? O que ele promove na sociedade? Como é percebido pelos alunos? O que esperam dele a família, a sociedade e a própria escola?

Neste artigo, procuraremos desenvolver uma reflexão acerca destas questões visando colaborar com uma discussão que se impõe como necessária e urgente.

Parece que o ensino religioso é mais uma questão do mundo dos homens, criada e nublada por eles. Mas, como não haveria de ser? Se não há como fugir da condição humana, não há espaço para pensar de modo diferente.

O fato é que há uma verdade, há uma certeza: a felicidade do homem, seu fim último é Deus. Todo educador enquanto pessoa que entende que deve trabalhar e viver a fim de promover seu semelhante à condição de felicidade, deve conduzi-lo a Deus. No entanto parece que custa-nos entender a simplicidade da proposta das religiões. Entendendo religião enquanto relação com o transcendente, esta  realidade é compreendida como um convite a pensar a existência humana em sua plenitude. O verbo que se faz carne é a palavra no meio do mundo, é a divindade que eleva a humanidade e a convida a ser plena.
É preciso que todos os homens compreendam e saibam deste seu fim. É preciso que a escola aponte para esta realidade que transcende e que propõe um ser mais. Entender-se convocado para a relação com Deus compromete a vida, transforma o homem e por ele, a sociedade. No entanto, procuramos conformar esta convocação a nossos mecanismos reducionistas. Por isso é preciso que o Estado crie leis para garantir que falemos da essência da vida. Como se fosse preciso. Precisamos das leis porque amamos  pouco (Comte-Sponville, 1995), porque nossas relações são envolvidas pela vontade de poder. Precisamos lutar por um ensino que considere a dimensão religiosa do homem, quando entendemos que este aspecto deveria ser considerado de modo natural. Há uma série de discussões no legislativo sobre a legitimidade de um ensino religioso escolar, questionando seus meios. Se fosse claro para nós que a felicidade humana depende de sua relação com Deus, desenvolveríamos toda a ciência de modo a sermos levados a Deus, de modo a alcançarmos a plenitude de nosso ser, de nossa humanidade que é entender-se um ser convocado à relação com Deus. Esta relação permeia toda a existência humana e permite um olhar novo sobre as questões com as quais o homem  tem que se deparar. O lugar do homem é o entre, a relação.(Buber,2001).

O campo da religião, no entanto, parece ser um campo minado no qual a maioria dos pesquisadores escolhe não pisar. Um campo delicado sobre o qual é preciso se lançar . É urgente buscar uma reflexão filosófica acerca da relação entre religião e educação. A sociedade brasileira possui um intenso apelo religioso, a religião está presente no imaginário popular, nas conversas de bar, na moda, na mídia, no folclore e até mesmo em cada esquina nas inúmeras seitas que surgem a cada dia. É fato que a educação não está alheia à interferência do fenômeno religioso e do modo como este é interpretado e vivenciado. Segundo Bourdieu (1998), o aluno traz consigo um capital cultural herdado, ou seja, uma visão de mundo e uma hierarquia de valores que define sua relação com a escola e sua atitude no processo do conhecimento. A religião é parte fundamental deste capital cultural, muitas vezes norteando as escolhas dos pais em relação à educação de seus filhos. Diante deste fato, pode a escola não pensar sua relação com a religião? Podemos nós educadores fugir deste desafio?

O Ensino Religioso no imaginário da Escola

O modo como conhecemos as coisas não é neutro. Está profundamente marcado por nossa herança cultural, desenvolvida através de inúmeras gerações e que molda nosso olhar diante do fato. Quando o fato analisado compreende uma realidade metafísica, dificilmente definida de maneira positiva, as imagens que formam nossa visão de mundo são fatores relevantes a serem considerados, pois são o que nos permite conhecer e estabelecer conceitos. Devido a um tempo bastante extenso de inserções arbitrárias de ‘ensinos religiosos’ diferentes nas escolas, por motivações muito diversas, foi se gerando ao seu entorno um imaginário, ou seja, idéias formadas a partir do modo como a escola o foi percebendo. O imaginário é interpretativo, relacionado ao preconceito, no sentido de conceito anterior à reflexão, herdado e reproduzido sem questionamentos. 

Por isso, percebemos que paira uma nuvem de confusão sobre o ensino religioso. É preciso definir seu objeto e seu objetivo. É preciso definir a perspectiva que o fundamente como necessário na escola. É necessário ir aos fundamentos que possam justificá-lo.

Uma imagem do ensino religioso irrefletidamente cristalizada no imaginário da escola, prejudica muito a discussão sobre seus fins e, principalmente sobre sua legitimidade. Neste sentido entendemos que nossa reflexão aqui colabora para elucidar o que seja o ensino religioso e seu espaço na grade curricular. Inicialmente procuraremos apontar para o que o ensino religioso não é, ou para o que, não deveria ser.

O ensino religioso não é uma aula de boas maneiras.

Em muitos momentos se espera que o ER dê educação aos alunos: que lhes ensine a sentar , a falar baixo, a não usar palavrões. Muitos pais escolhem escolas confessionais para seus filhos, esperando que esta, através do ER lhes ensine a serem bons meninos. As direções das escolas, em muitos casos cobram do professor de ER que instaure a ordem, promova a disciplina e colabore para dar jeito naquele aluno impossível. Os colegas professores, todos educadores, lançam para o professor de ER a responsabilidade de trabalhar os valores e a ética, enquanto estes temas deveriam estar permeando todas as disciplinas. Em muitos casos, é mais cômodo se abster da responsabilidade de educar e deixar para o ER, já que parece ser algo sem forma definida e que vai se orientando de acordo com a demanda dos focos de incêndio escolares.

No imaginário da escola, o professor de ER é aquele colega perfeito, que fala sempre baixo, não se irrita, está sempre sorridente e que pode atender os alunos mais difíceis e fazer uma boa oração por eles. As aulas de ER são aquelas que amansam a turma para as aulas mais sérias.

O ensino religioso não é uma aula de história.

As religiões se constituem em torno de fatos históricos, porém os transcendem. Através do conhecimento dos fatos, é preciso buscar o que seja significativo para a vida humana e que a mobilize e oriente. Na realidade concreta, é Deus que fala ao homem, se propõe, se revela e convoca à relação. Não se trata de um conhecimento frio e distante de fatos históricos, mas de fatos históricos que falam diretamente ao homem, seja qual for a situação em que este se encontre. A educação no Brasil, por sua influência marcadamente positivista, teme o metafísico. No entanto, é esta uma dimensão que coopera para a compreensão da realidade e do próprio homem e que não pode ser descartada pela ciência. Sendo apenas um ensinamento histórico sobre o desenvolvimento das diversas religiões, poderia ser um conteúdo das aulas de história, já que muitos dos temas tratados envolvem a história das religiões.

No entorno do ER, está presente esta imagem, as aulas de ER servem para uma visão panorâmica sobre o fenômeno religioso presente em todos os tempos e no mundo todo e suas diversas manifestações.

Reduzir o ER à aula de história das religiões é considerá-lo desnecessário no currículo escolar.

O ensino religioso não é um freio.

Por diversos motivos, a religião foi usada como fator moralizante e  como um freio à liberdade humana. Este tem sido seu aspecto mais criticado em todos os tempos por diversos pensadores e educadores: a idéia de um Deus- grande olho que tudo vê e espera sedento pelo momento de aplicar seu castigo. Na educação antiga, quando faltavam os argumentos, Deus era uma boa saída para controlar os filhos rebeldes. A formação moral pela culpa diante de um Deus castigador gerou no imaginário da escola a idéia de um ER moralizador. O que constrói no imaginário dos alunos um ER chato, uma aula de ‘ficar comportado, de não poder ser sincero, de ter que dizer o que o professor quer ouvir’. Certa vez, um aluno disse que nas avaliações de ER bastava escrever palavras chaves como  BONDADE, FRATERNIDADE, JUSTIÇA, AMOR E PAZ para se “dar bem”. Neste sentido, ficam proibidos brincadeiras, alegria, bom humor e qualquer espontaneidade. Felizmente, algumas práticas atuais já conseguem reverter este quadro, mas esta idéia ficou muito presente no imaginário da escola.

O ensino religioso não é qualquer coisa.

Pela falta de formação do professor de ER,  muitas escolas optaram por direcionar profissionais de outras áreas para ministrar a disciplina. Isto gerou no imaginário da escola a idéia de que qualquer um pode lecionar esta disciplina, basta ser bonzinho, já que vai entrar em sala para falar qualquer coisa, contar uma história bonitinha que comova a todos e toque os corações. Estes profissionais foram escolhidos mais por sua prática religiosa pessoal do que por sua competência e conhecimento do assunto e da didática do ER. Certamente, muitos exerceram e exercem de modo brilhante sua profissão, mas no imaginário, que registra apenas o que percebe, impregnado pela visão que se tem das coisas, fica a idéia de uma aula que pode ser ministrada por qualquer profissional, ou que nem precisa ser profissional para fazê-lo. Em alguns momentos também, profissionais do ER eram convencidos de que sua prática era uma missão e não um trabalho que devesse ser remunerado. Neste sentido, fica mais uma vez o ER reduzido, sendo menos do que é.

O ensino religioso não é catequese.

A catequese subentende a prática religiosa. É uma preparação doutrinária específica que tem seu lugar nas igrejas e nos grupos religiosos. Com a necessidade de muitas horas de trabalho, a família foi delegando à escola suas obrigações mais básicas. A formação religiosa, primeiramente escolha da família e função desta, passou a ser mais uma função da escola. As diversas igrejas também têm esta função: a de garantir a seus membros um aprofundamento na doutrina e as orientações básicas para os jovens. É responsabilidade das igrejas e grupos religiosos perpetuar sua doutrina pela transmissão de seus textos sagrados e de sua moral. Os grupos religiosos devem se organizar para garantir o estudo e o fomento da compreensão da doutrina, assim como propiciar a vivência em comunidade como experiência viva da doutrina. A catequese tem seu lugar nas igrejas e nas organizações religiosas, até mesmo para que se dê continuidade à prática após o período de vida escolar.

Uma confusão, presente principalmente nas escolas particulares, foi a inclusão da catequese na grade curricular, de modo a facilitar a preparação para os sacramentos. No horário das aulas, os alunos recebiam, no pacote, sua formação doutrinária. Algumas vezes os pais nem se davam conta de que seus filhos receberiam os sacramentos. Certamente, não é esta a função do ER, pois deste modo, deixava de contribuir para uma prática sincera, fruto de uma escolha consciente da família e do aluno. O ER deve mobilizar o aluno a buscar uma prática, não ser um curso comodamente inserido no currículo, desobrigando as famílias de freqüentarem suas comunidades religiosas.

O ensino religioso não é o ministério da justiça.

Quando se fala da necessidade da implantação do ER nas escolas públicas, muitas vezes parece que este ato político resolverá todos os problemas de criminalidade do país. É certo que uma vivência religiosa pode colaborar para a promoção de uma sociedade mais justa, porém não é a garantia da diminuição da criminalidade, que está atrelada a muitos outros fatores de ordem sócio-econômica e estrutural. O homem é livre e adere ao que lhe é proposto de acordo com a sua situação existencial. O ER tem muito a dizer ao homem, mas é este que livremente acolhe às propostas de vida e conduta.

Numa política de muitas cartadas desesperadas, o ER parece ser mais uma. Acredita-se que investindo no pagamento de professores de ER, está se investindo na segurança. defendemos a idéia de que o ER contribui fortemente para uma mobilização em favor de novas condutas, mas consideramos o ER um dos fatores essenciais para uma transformação da sociedade. Não podemos encara-lo como a solução.

O ensino religioso não é campanha beneficente

No imaginário da escola o professor de ER é o ‘pidão’, até fugimos dele, porque, sempre mendicante, está promovendo alguma campanha com seus alunos para nos deixar constrangidos por nossa falta de generosidade! Deixando os exageros de lado, temos que concordar que esta imagem do professor de ER  está muito presente em nossas escolas. Parece que essas aulas só servem para a realização de campanhas solidárias. Sem dúvida, este é um ponto central do ER: a promoção do espírito de solidariedade, de preocupação com o outro e com a realidade exigente na qual estamos inseridos, porém, não é uma atitude artificial e pontual: campanha de natal, campanha de páscoa, campanha de dia das crianças, visita ao asilo... se for, não atingiu o objetivo do ER. O ER deve gerar uma atitude solidária diante da vida, que desperte para ações concretas não pontuais, mas que sejam expressão de toda a reflexão e aprendizado nas aulas de ER.

O ensino religioso não é campo de guerra religiosa

Já que as pessoas estão indo pouco às igrejas, aproveitemos as aulas de ER para ganhar adeptos. Esta idéia errônea do ER é também a mais perigosa. Não se trata de fazer proselitismo, mas de permitir um aprofundamento na fé já escolhida. Não podemos permitir que nossas escolas se tornem um campo de batalha religiosa, onde nossos jovens serão vítimas de uma triste disputa por fiéis, como presenciamos na mídia e nas esquinas. Parece que paira sobre a discussão em torno do ER confessional um espírito bélico que é extremamente preocupante. Os interesses político-ideológicos não podem estar acima da real função do ER, sob o risco de causar mais mal que bem.

Sabemos que o imaginário, enquanto idéias que vão se formando na teia das relações humanas, suscita atitudes e gera as concepções de mundo que norteiam as condutas. Estas idéias só podem ser superadas pela reflexão, que é um dobrar-se sobre a questão. É urgente um dobrar-se sobre o ensino religioso a fim de superar o imaginário em busca de uma compreensão maior sobre ele que promova os fins da educação.

Uma primeira questão que nos parece pertinente é a reflexão sobre o que seja religião, escolhemos a concepção de religião como autêntica relação Eu-Tu, elucidada na obra de Martin Buber e que nos aponta para o aspecto relacional intersubjetivo. Procuraremos então definir o que seja autenticidade e questionar sobre a possibilidade de uma educação para a autenticidade. Apresentaremos então,o que nos parece ser um caminho para o dever ser do ER: a perspectiva dialógica de convocação para o encontro e a responsabilidade.

Conceito de autenticidade

Segundo Jaspers (1925), autêntico é o que é próprio do homem, não superficial, é o mais profundo; o que toca fundo sua existência psíquica, não apenas sua epiderme. Não é momentâneo, é acolhido pela própria pessoa e torna-se ela mesma. O que persegue a educação senão levar o educando ao que permanece? Ao que não seja superficial e momentâneo? A educação tem por fim gerar um ser educado. As grandes discussões sobre currículos e métodos giram em torno da eficácia em gerar algo que se torne a própria pessoa e não a reprodução conteudista que é esquecida em alguns poucos meses.

Para Kant (1996), a condição de autonomia exige a reflexão como essencial para a acolhida do princípio de ação, neste sentido, a educação visa a autonomia para a escolha refletida das ações e dos usos das competências e potencialidades. Um sujeito não autônomo não poderia ser considerado educado. Como falarmos em autonomia sem compreendermos que ela só é verdadeira enquanto autêntica decisão e opção do sujeito? A prática educativa então nos remete a uma educação para a adesão autêntica aos princípios de ação a partir da reflexão.

É possível educar para a autenticidade?

Entendemos que só é possível educar para a autonomia e, por conseqüência, para a autenticidade, de outro modo, o processo educativo não se completaria. Do ponto de vista do indivíduo, a educação é um aprimoramento, um aperfeiçoamento que tem em vistas os aspectos mais nobres do sujeito. Estes aspectos englobam a noção do ser mais, de Paulo Freire (1987), que subentende um reconhecimento de si diante da realidade e uma liberdade de ação. O sujeito educado deve ter as condições básicas para fazer suas escolhas, reconhecendo-se ser convocado a escolher e aderir ao que considera valor. Entendendo-se sempre como sujeito que acolhe, adere, senhor de sua história, consciente de sua situação no mundo e de sua condição existencial plena de ser humano. Como a educação é normativa, deve apontar para uma teoria do valor que favoreça a adesão aos valores não arbitrários correspondentes ao dever ser do homem.

A educação é entendida como processo que deve levar ao conhecimento do essencial de si mesmo, do mundo e do outro, que vai permitir a autodeterminação, é preciso que se encaminhe o processo educativo para o essencial, não para o acidental (Werneck ,1991:156), logo, a educação encaminha-se para a autenticidade.

O ensino religioso numa perspectiva dialógica de convocação para o encontro e a responsabilidade

Quando nos deparamos com a expressão Ensino Religioso, estamos penetrando em duas áreas extremamente fecundas e significativas da vida humana: a Educação e a Religião. Partindo da premissa que afirma ser a educação uma prática normativa instauradora de valores e a religião uma possibilidade de relação com o transcendente, é essencial e urgente um pensar sobre as implicações filosóficas de um ensino religioso.

Na religião é o infinito que se revela e o finito responde compreendendo-o e colocando-se em relação. O homem como finito tende ao infinito. Se a religião é revelação do infinito, revela a realidade do objeto, sendo portanto um valor para o homem e parte essencial da condição humana.

Parece-nos então que um ensino religioso deveria encaminhar-se necessariamente para uma formação nos valores que permitam a autêntica relação com o infinito. Relação que envolva e comprometa toda a existência humana de modo a ser capaz de tocar e transformar a realidade na qual o homem está inserido. Autêntica, enquanto livre de adornos superficiais que alienam,  e geradora de uma adesão consciente à vivência coerente dos princípios cristãos. Tomamos como referencial o filósofo contemporâneo Martin Buber que aponta para esta concepção responsável de religião enquanto relação com Deus no cotidiano da vida :

Eu não possuo nada além do cotidiano, do qual nunca sou retirado. O mistério não se abre mais, ele se subtraiu e fixou domicílio aqui, onde tudo acontece como aconteceu. Eu não conheço mais nenhum além daquele de cada hora mortal, de exigência e responsabilidade. Longe de estar à altura dela, eu sei, porém que sou solicitado pela exigência e posso responder à responsabilidade, e sei quem fala e quem exige resposta. Muito mais eu não sei.  Se isto é religião, então ela é simplesmente tudo, o simples todo vivido na sua possibilidade do diálogo. Quando tu rezas e com isto não te afastas desta tua vida, mas justamente te referes a esta vida rezando, quer dizer, admitindo-a, seja no inaudito como no assaltante, quando és chamado do alto, requerido, eleito, autorizado, enviado. Com este teu pedaço mortal de vida estás na mente, este instante não é retirado, ele se apóia no que foi e acena para o resto ainda muito vivo. Não és tragado em uma plenitude sem compromisso, és desejado para a solidariedade.

            No contexto atual da sociedade brasileira, parece-nos urgente uma real educação religiosa. É necessária uma convocação para o viver responsável e comprometido com o outro, pois somos desejados para a solidariedade. A sociedade está carente de condições básicas de convivência.

A falsa liberdade instaura um relativismo contraditório, que aceita tudo o que seja relativo e rejeita veementemente o que possa ter ares de verdade. O relativismo não considera o outro, nem sequer promove a solidariedade. Na medida em que cada homem se torna criador de seus próprios valores, é inevitável o choque com o outro que também quer ter o direito de criar os seus.

A intolerância, ora velada, ora declarada, torna-se uma questão com a qual temos que nos deparar enquanto educadores e procurar dar uma resposta que contribua para o viver reciprocamente comprometido. Não podemos falar de compromisso e responsabilidade pelo outro se não entendermos o valor do outro e os valores essenciais à vida humana.

Logo, a educação, como prática normativa, não poderá estabelecer valores arbitrários que não correspondam aodever ser do homem, enquanto ser que tende ao infinito e que está em relação com outros seres que também tendem à completude, mas considerar valor somente aquilo que corresponda a este dever ser e que colabore para sua edificação.

O Ensino religioso como busca do essencial

As religiões de modo geral, apontam para algo essencial que possa nortear a vida. Não faz sentido pensar uma relação com Deus que desconsidere o sujeito em relação (o homem). Considerando o homem, há que se considerar o cotidiano; a vida em seus aspectos dos mais simples aos mais complexos. Infelizmente, na história das práticas religiosas, encontramos relações de poder que parecem desconsiderar o essencial: questões político-ideológicas que, longe de atrair ao essencial, distanciam, gerando um fundamentalismo que se constitui um obstáculo ao dialógico.

“Com Deus declarou-se guerra à vida, à natureza e ao desejo de viver.” (Nietzsche, 1983, p.146), esta concepção de religião impregnou nossos dias de uma contestação à prática religiosa, fundamentada não na autêntica relação com o Tu Eterno, mas em relações reducionistas e ideológicas. As críticas de Nietzsche, presentes nas rodas acadêmicas e nos mil aforismos utilizados de acordo com interesses individuais na mídia reforçam a polêmica acerca do ensino religioso.

Entendemos que suas críticas consideram apenas práticas que não correspondem ao Encontro do homem com Deus, que é uma convocação e não uma abstração. A relação com Deus não é uma negação da vida, mas uma afirmação desta em toda a sua  plenitude. A pessoa humana como relação vive e é nesta situação que pode experimentar seu Encontro com o Infinito. A escola como lugar privilegiado de formação e edificação do homem, não pode desconsiderar este aspecto fundamental de sua existência.

O Ensino Religioso deve oportunizar a possibilidade deste Encontro, promovendo a reflexão sobre o que seja essencial nesta relação: a  abertura ao diálogo, a consciência da alteridade e a responsabilidade do viver. Se pensarmos o Ensino Religioso nesta perspectiva, estaremos recusando a prática político-ideológica que o impregnou durante muitos anos e fez com que grandes pensadores da educação o condenassem, e abriremos caminho para a autenticidade da relação que é possibilidade de acesso ao essencial. Estaremos considerando-o como parte constituinte de uma antropologia filosófica que, no mundo da técnica, se faz cada vez mais necessária.

O Ensino Religioso, enquanto processo educativo, deve agregar valores e  remeter ao eu capaz de autônoma e livremente aderir como pessoa a Pessoa Divina, dialogar com ela e estabelecer um compromisso que altere seu ser e o ser do mundo. Caso contrário, será apenas um depósito de ensinamentos sem significado ou uma estratégia para reprimir a indisciplina. Estará assumindo um papel de freio e não de mola propulsora de uma vivência plena, digna e autêntica. É somente o encontro entre pessoas, Eu-Tu – o homem e Deus, que se compromete a vida e se transforma uma realidade social exigente.

A fé cristã reconhece e exalta a dignidade do homem ao proclamar incessantemente sua origem e destino mais alto: o amor criador de Deus Pai que nos chama a ser seus filhos e em seu Filho Jesus Cristo, fundamento da fraternidade universal entre os homens. Para a Igreja, a pessoa humana é  um valor central em si mesma que fundamenta o serviço gratuito e a solidariedade com todos, especialmente com os menos favorecidos. Por isso, o professor de religião, como educador cristão, há de ser mestre de humanidade.

Neste sentido, entendemos o Ensino Religioso como uma oportunidade de humanização e promoção do ser humano e da sociedade fundamentada nos valores cristãos. Este entendimento nos faz vislumbrar uma metodologia dialógica que promove uma síntese entre fé e cultura, analisando os acontecimentos contemporâneos sob a ótica do cristianismo, dialogando com a realidade e promovendo um encontro com  Deus no cotidiano da vida. A doutrina é a base para a análise do contexto social e existencial e para a formação para a vivência da fé.

Para alcançar este fim, é preciso estabelecer conexões com as outras disciplinas do currículo escolar, visando tornar clara a relação fundamental da religião com a vida e com todas as áreas do conhecimento, buscando superar a dicotomia fé e ciência.
É urgente superar as imagens presentes no imaginário da escola e entender o ER como o referencial que aponta para o dever ser do homem de modo pleno, e que o capacite a viver de modo autêntico a sua condição de ser religioso.

Conclusão

Sendo o homem um ser essencialmente religioso e sendo o mundo contemporâneo, o mundo do absurdo, contraditoriamente fundamentalista e indiferente, com valores manipuláveis pela mídia e com um apelo religioso confuso, o ER deve ser uma possibilidade de encontro autêntico com Deus, já que inserido no contexto educativo, deve ser uma prática refletida diante dos fins da educação, livre de interesses imediatos dos diversos grupos, uma promoção da oportunidade de adesão autônoma à convocação para uma vida de diálogo com Deus, com o mundo e com o outro. Conhecendo-se a si mesmo e entendendo-se ser convocado a estar em relação, o aluno do ER deve ter a oportunidade de perceber-se no entre, onde lhe é exigida uma resposta responsável.

A educação não pode negar-se considerar este aspecto da existência humana, por isso, religião se aprende na escola.

Referências Bibliográficas

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BUBER, Martin. Eu e Tu. São Paulo: Centauro, 2001.
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FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido, 29ª ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987.
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WERNECK,Vera Rudge. O Eu Educado: uma teoria da educação fundamentada na fenomenologia. Rio de Janeiro: Rio Fundo Ed. 1991.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

A SEDUÇÃO DOS NOVOS MOVIMENTOS RELIGIOSOS


Um breve estudo sobre o processo de sedução nos novos movimentos religiosos 
Qualquer pessoa que se mantém informada com o que se passa ao seu redor vai perceber, sem dificuldades, que a presente época é também marcada por uma explosão de misticismo e novos movimentos religiosos. Nas últimas décadas, uma avalanche de pessoas, em sua maioria, jovens, foi seduzida por diferentes seitas e grupos religiosos. É, de fato, surpreendente, que, numa época como esta, depois de ter feito tanto progresso tecnológico, depois de todo fantástico desenvolvimento da ciência, o ser humano ainda continue disposto a se tornar escravo, espiritual e mentalmente, um de outro. Como isso acontece e o que leva uma pessoa a comportar-se assim, serão discutidos nas páginas seguintes.

Este trabalho fará uma breve análise sobre o emprego do termo seita, terminologia esta bastante controvertida nos dias atuais. Depois, o papel do líder no processo de manipulação. Por último, algumas formas de controle e manipulações produzidas por alguns grupos, além das considerações finais e uma bibliografia sobre o assunto.II - O TERMO SEITA

De acordo com a Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, o termo "seita ‘vem do latim, secta, derivado do particípio passado de secare (cortar, separar) ou de sequi (seguir), e tem o sentido de partido, escola, facção (...) A palavra seita tem sido normalmente usada para referir-se a grupos que se separam de outros já existentes, como foi o caso dos primeiros cristãos que se separaram do judaísmo (...) Nos círculos evangélicos, porém, o termo seita tem adquirido o sentido de grupo herético".[1] Para Van Baalen, seita é "qualquer religião tida por heterodoxa ou espúria".[2] Walter Martin define seita como "um grupo de indivíduos reunidos em torno de uma interpretação errônea da Bíblia, feita por uma ou mais pessoas."[3] 

Margaret Singer, conhecida autoridade sobre os novos movimentos religiosos na América do Norte, prefere usar a frase "cultic relationships" (relacionamentos de seita) para explicar mais precisamente os processos e interações que acontecem dentro do grupo. Para ela, isso acontece quando "uma pessoa, intencionalmente, induz outras tornarem-se totalmente ou quase totalmente dependentes dele ou dela para quase todas as principais decisões da vida e inculca nesses seguidores a crença de que ele ou ela tem algum talento, dom ou conhecimento especial."[4] 

Para a senhora Singer, o rótulo seita tem a ver com três fatores: 

A origem do grupo e a figura do líder. 

A estrutura de poder, ou o relacionamento entre o líder (ou líderes) e os seguidores. 

O emprego de um programa coordenado de persuasão (chamado de reforma de pensamento, mais conhecido como lavagem cerebral). 

Margaret Singer comenta ainda:

O que é rotulado como seita por um pesquisador, pode não ser identificado como tal por outro. Por exemplo, alguns pesquisadores consideram apenas os grupos de cunho religioso, descartando a miríade de grupos formados ao redor de uma variedade de doutrinas, teorias e práticas. Usando os três fatores de líder, estrutura e reforma de pensamento permitem-nos avaliar a natureza cultual de uma situação ou de um grupo em particular, independente do seu sistema de crença.[5]

Na conferência da American Family Foundation em 1985, em Los Angeles, vários eruditos e representantes da polícia americana, adotaram a seguinte definição de seita:

Um grupo ou movimento exibindo grande ou excessiva devoção ou dedicação a alguma pessoa, idéia, ou coisa, e empregando técnicas manipuladoras antiéticas ou coercitivas de persuasão e controle (ex.: isolamento de antigos amigos e da família, debilitação, uso de métodos especiais para elevar a sugestionabilidade e subserviência, poderosas pressões do grupo, gerenciamento de informações, suspensão da individualidade ou julgamento crítico, promoção de total dependência do grupo e medo de sair dele), destinadas a alcançar os alvos dos líderes do grupo, num possível detrimento dos membros, suas famílias ou da comunidade.[6] III - O LÍDER NO PROCESSO DE MANIPULAÇÃO

Geralmente, o líder da seita é dotado de carisma, magnetismo irresistível, aparência de vencedor, demonstrando grande entusiasmo pela causa que defende ou pelo produto que vende. Em seu livro Ensaios de Sociologia, Max Weber traz um comentário interessante sobre o fator carisma:

A expressão "carisma" deve ser compreendida como referindo-se a uma qualidade extraordinária de uma pessoa, quer seja tal qualidade real, pretensa ou presumida. "Autoridade carismática", portanto, refere-se a um domínio sobre os homens, seja predominantemente externo ou interno, a que os governados se submetem devido a sua crença na qualidade extraordinária da pessoa específica. O feiticeiro mágico, o profeta...o chefe guerreiro...o chefe pessoal de um partido são desses tipos de governantes para os seus discípulos, seguidores, soldados, partidários, etc. A legitimidade de seu domínio se baseia na crença e na devoção ao extraordinário, desejado porque ultrapassa as qualidades humanas normais e originalmente considerado como sobrenatural. A legitimidade do domínio carismático baseia-se, assim, na crença dos poderes mágicos, revelações e culto do herói. [7] 

O fascínio e poder que um líder pode exercer sobre seus adeptos pode ser notado também nas observações de Michael Green:

Os fiéis, na verdade, endeusam o líder; ele é supremo e a sua vontade term que ser obedecida. De fato, sua posição corresponde quase que exatamente àquela do imperador romano que exercia completo poder político sobre o mundo conhecido e era adorado por seus subjugados. Da mesma forma Hitler declarou ser o emissário do Todo-Poderoso e o fundador do reino de mil anos. Os nazistas morriam invocando o seu nome e sua personalidade era considerada transcendente. O mesmo aconteceu com Mao. Ele não era apenas um líder; ele era divindade. Ele foi adorado. As pessoas se ajoelhavam diante dele. Elas recitavam seus pensamentos. Elas acreditavam que ele as curava através das mãos de um cirurgião. Ele tomou o lugar de Deus.[8] 

Os fiéis do Tabernáculo da Fé seguem os ensinos de William Marion Branham, um controvertido pregador de cura divina nos Estados Unidos, já falecido. Branham declarou ser o anjo do Apocalipse 3:14 e 10:7 e que o arrebatamento da Igreja e a destruição do mundo aconteceriam em 1977. Seus seguidores exibem, com muito orgulho, uma foto de Branham tirada em Houston, Texas, em 1950, em que aparece uma auréola de luz sobre a sua cabeça, enquanto falava do púlpito. Depois de falecer, em 1965, seus devotos acreditavam que ele ressuscitaria. Alguns de seus discípulos criam ser ele o próprio Deus, enquanto outros afirmavam que ele havia nascido através de uma virgem (nascimento virginal). Alguns oravam a ele e outros batizavam em seu nome.

Um dos exemplos mais chocantes do relacionamento doentio entre um líder e seus seguidores pôde ser constatado no grupo Ramo Davidiano, de David Koresh, em Waco, Texas, nos Estados Unidos. Em abril de 1993, o FBI cercou, por vários dias, o rancho onde Koresh e seu grupo estavam reunidos, enquanto a sociedade acompanhava os fatos pela mídia, aguardando um final feliz. Infelizmente, o final feliz não aconteceu. Depois de perceberem que a polícia invadiria o local, Koresh e seu grupo preferiram transformar o rancho em chamas do que entregar-se ao FBI. No dia 19 de abril de 1993, cerca de 80 pessoas morreram, incluindo aproximadamente 25 crianças, sacrificadas por causa da agenda e megalomania de um líder doentio. Nove pessoas sobreviveram. 

Dois autores dão mais informações sobre o caráter de David Koresh:

No seu cartão pessoal estava impresso "Messias" e ele é citado como tendo declarado em inúmeras ocasiões: "Se a Bíblia é verdade, então eu sou o Cristo". Alguns acreditaram nele. Ele foi capaz de convencer os maridos a entregarem-lhe suas esposas, famílias a entregarem-lhe dinheiro e filhos. Seu estilo de vida paradisíaco permitiu-lhe viver da renda dos outros. Em 19 de abril de 1993, havia quase cem pessoas dispostas a morrer com ele pela promessa de uma vida no céu após a morte.[9] 

Outros grupos já provocaram tragédias parecidas, apresentando padrões de liderança mais ou menos parecidos, tais como Heaven’s Gate, Aum Shinrikio e seu guru Shoko Asahara. Entretanto, de todas as tragédias envolvendo seitas, a mais notória até agora aconteceu no fim de 1978, nas selvas da Guiana. Na ocasião, o líder do Templo do Povo, Jim Jones, levou mais de 900 pessoas a um suicídio coletivo. Um repórter que acompanhou os fatos constatou vários aspectos nocivos da personalidade de Jim Jones e os relatou assim:

O Reverendo Jim Jones, nos dias finais da colônia do Templo do Povo na selva da Guiana, era um personagem que poderia perfeitamente ter sido criado por Joseph Conrad. Era o messias paranóico de uma congregação aterrorizada, mas devota, cujo fim ele previa todas as noites, pelas forças das trevas e ameaçadoras que os cercavam: CIA, Ku Klux Klan, racismo, fascismo, holocausto nuclear...Declarava às vezes ser o herdeiro espiritual de Cristo e/ou Lenin. Pregava uma doutrina de socialismo apostólico ao mesmo tempo em que se apropriava para o seu Templo de um tesouro de milhões de dólares em bens imóveis, dinheiro, cheques de seguro e assistência social do rebanho. Nos últimos anos de sua pregação em São Francisco e depois na Guiana, Jones tornou-se um dos mais macabros líderes de cultos religiosos da história americana. Se houvesse alguma atenção nacional à sua mensagem e aos brados de alerta dos primeiros membros que romperam com a seita, talvez fosse possível prever o trágico desenlace na Guiana e se tomar alguma providência para evitá-lo.[10]

Um outro exemplo vem do mormonismo. O testemunho de um mórmon sempre vai incluir uma reverência ao fundador do movimento, Joseph Smith. Geralmente, o adepto, ao dar o seu testemunho, no púlpito ou fora dele, dirá: "Creio que a Igreja Mórmon é a igreja verdadeira e que Joseph Smith é um profeta de Deus". Os mórmons rendem louvores ao seu fundador com o hino 108 do seu hinário oficial, intitulado, "Hoje ao Profeta Louvemos"! 

No livro intitulado O Império Moon, um jornalista francês, Jean-François Boyer, fez uma análise da agenda econômica e política da Igreja da Unificação do Reverendo Moon. Boyer faz revelações impressionantes sobre o relacionamento doentio de Moon com seus adeptos: 

Logo que aceito na "família", o novo membro só tem uma preocupação: provar que ama Moon mais do que a si próprio; pois o "Novo Messias" jamais escondeu que ele esperava muito de seus filhos. Há mais de vinte anos que se dirige a seus fiéis e tem delineado, de discurso em discurso, o retrato falado do moonista perfeito. "Se vocês me amam, mostrem-me que vocês me amam", diz em 1977 a seus fiéis americanos. E cada um busca nos textos sagrados - uma coletânea de locuções em inglês intitulada "O Mestre fala" - a fim de procurar saber sobre as regras de conduta que farão deles filhos dignos do amor do "Pai". [11] 

Na Seita Moon, existe até mesmo a perspectiva de dar a vida pela igreja e pelo líder, como pode ser observado nas palavras do "Pai":

"Procurar sempre o mais difícil é uma maneira de pensar", diz Moon, por ocasião de um seminário teológico em 1979. "Vocês poderiam mesmo se perguntar", acrescenta à sua atenta platéia, "quando o reverendo Moon vai me pedir para morrer? Pois nada é mais difícil do que isso". E um dos principais pregadores, Ken Sudo, vai ainda mais longe. Diante de uma platéia extasiada, composta por jovens casados naquele mesmo ano pelo "Pai", diz: "Agora é minha vez de dar a vida pelo ‘Pai’... Sou voluntário para morrer... Se você sente verdadeiramente que é uma alegria morrer pelo ‘Pai’, não somente em palavras, mas em atos, isso é formidável!"[12]

Pelas pesquisas de Boyer, pode-se notar que a Seita Moon não propõe à humanidade um ideal para a eternidade como a maioria das religiões, mas um projeto em curto prazo: a instauração de uma teocracia. Moon deve estabelecer o reino de Deus sobre a Terra antes de morrer, senão terá falhado em sua missão, como o fez Cristo a quase dois mil anos. O projeto Moon não foi feito para ser efetivado em longo prazo. A Igreja da Unificação é uma igreja apressada; ela tem necessidade, então, de um sem-número de pessoas, prontas a se sacrificarem pelo profeta, mas não poderia vencer sem o aliciamento rápido e decisivo de pessoas importantes nas cidades a serem conquistadas: magistrados, advogados, professores, jornalistas e políticos.[13] 

Os discípulos do Rev. Moon carregam consigo uma foto do líder para garantir a proteção dos anjos e do bom mundo espiritual (revista Mundo Unificado, maio/junho de 1984, p. 8). As orações no grupo são feitas em nome dos verdadeiros pais, isto é, o Rev. Moon e a sua esposa. Moon se intitula o Senhor do Segundo Advento. 

Os aspectos negativos da figura do líder dentro de um grupo religioso aparecem bastante também na figura e no comportamento de David Berg (chamado de Moisés Davi ou Mo), fundador do grupo Os Meninos de Deus, conhecido, hoje, como A Família. A própria filha de David Berg, Deborah (Linda Berg) Davis, que viveu muitos anos dentro da seita e saiu chocada com os ensinos e o estilo de vida de seu pai, escreveu um livro revelador, expondo os abusos dentro do grupo. Por várias vezes, no livro, Deborah cita um professor de sociologia, Roy Wallis, da Queen’s University de Belfast, que estudou David Berg e os Meninos de Deus sob a perspectiva do carisma. Wallis examina a dinâmica do carisma na liderança, a necessidade que as pessoas têm de aceitação, e a disposição de prestar toda a devoção e apoio a um homem como seu pai:

Tornar-se carismático não é algo que acontece de uma vez e para sempre. É uma característica crucial do carisma que ele exista somente no seu reconhecimento por outros. Ele deve ser constantemente reforçado e reafirmado ou deixa de existir. O líder carismático, e aqueles ao seu redor, devem encontrar, constantemente, meios de garantir a reafirmação requerida. Berg obteve este reconhecimento contínuo da mesma forma que ele o produziu originalmente, isto é, através de um sistema de trocas. Berg selecionava as pessoas que seriam alvo de atenção especial, afeição e elogios; elas também acreditavam estar alcançando o que aspiravam, isto é, dedicar suas vidas ao serviço de Deus. Tendo rejeitado os padrões mundanos, somente através da aprovação de Berg elas poderiam ter certeza de que estavam fazendo a vontade de Deus. Lisonjeadas por receberem tanta atenção e cuidado por parte do profeta, elas, por sua vez, estavam muito dispostas a aceitar o status que lhes foi proposto, e assim confirmar o status de Mo como oráculo de Deus, reafirmar o conceito que ele tinha de si mesmo, apoiar suas aspirações, e encorajá-lo em qualquer situação em que ele se sentisse desanimado, mal sucedido, ou quando surgia na sua mente que as coisas não aconteceriam como ele havia pensado.[14] 

Pelas informações relatadas acima, poe-se observar que os líderes de seitas são pessoas autoritárias, gananciosas, gostam de controlar os outros e garantem que possuem uma missão especial para desenvolver na terra. IV - CONTROLE E MANIPULAÇÕES

O desenvolvimento da tecnologia e da mídia tem fornecido as seitas com tantas ferramentas sofisticadas que se tornou quase impossível para qualquer pessoa escapar de suas propagandas ou manipulações. A Enciclopédia de Psicologia define manipulação como:

O gerenciamento e a direção dos seres humanos pelo uso hábil de seus desejos e qualidades com o propósito de controlá-los com fins sociais, científicos ou políticos, contrários as suas próprias escolhas.[15] 

Pode ser dito que a sociedade hoje não está sujeita apenas às manipulações sociais, científicas ou políticas, mas bastante vulnerável às manipulações religiosas e espirituais em todas as partes do mundo.

No filme "Deceived", Mel White mostra como Jim Jones usou várias técnicas de manipulações para alcançar seus alvos: o abuso do tempo, de dinheiro, disciplina e intimidade, foram largamente usados a fim de manter seus seguidores sob controle, mesmo até a morte. Houve, nas últimas quatro décadas, uma multiplicação de grupos religiosos, dos quais muitos tornaram-se nocivos ao indivíduo, à família e à sociedade em geral, representando, ao mesmo tempo, um desafio para as igrejas históricas tradicionais.

Por que tais grupos alcançam tanto sucesso? Como conseguem tantos adeptos? Como vários novos movimentos religiosos tornam-se, política e financeiramente, tão poderosos? É óbvio que tais grupos possuem diversos recursos que são estratégicos para o crescimento, principalmente, numérico. Uma das táticas é o assalto que os líderes de tais seitas fazem à mente humana, manipulando-a para a sua própria vantagem. 

A posição de Jim Jones e o seu poder de manipular e controlar as pessoas em sua igreja foi contada, num livro, por dois jornalistas do jornal San Francisco Chronicle. A agenda política de Jim Jones, sua vida sexual promíscua, seu relacionamento com a imprensa e, praticamente, todos os atos de Jones são chocantes. Em tudo havia abusos, terror, desonestidade. A hierarquia funcionava assim:

No topo do império estava, naturalmente, Jones, cujo poder era incontrastável. O conselho jamais votaria contra ele. E ninguém tinha a pretensão de demover Jones de uma decisão qualquer, uma vez tomada. Em torno dele havia talvez entre uma dúzia e vinte pessoas, que constituíam o seu círculo imediato. Na sua maioria eram mulheres. Abaixo desse segundo escalão, vinha o terceiro, a comissão de planejamento, composta de uma centena de dignitários da igreja. No seio desse grupo havia uma elite, cerca de 12 "secretários" ou "conselheiros". Reuniões da comissão de planejamento, ou P.C. (planning comission) constituíam o centro da vida do Templo. Eram sessões de estratégia, realizadas à noite, em dias de semana, e presididas por Jones, do alto do seu pódium. Nos primeiros anos da década de 1970 essas reuniões já se haviam transformado em verdadeiras maratonas que duravam a noite inteira. Nessas reuniões, Jones passava a maior parte do tempo presidindo sessões de "catarse": longos interlúdios em que os membros da P.C. eram dissecados emocionalmente - uma experiência extenuante. Por que a senhora usa essas roupas novas, quando há tanta gente faminta? Não é exato que o senhor quis conquistar a mulher de outro homem? Admita-o! Como poderá qualquer um queixar-se de trabalhar até de madrugada quando o Pai se sacrifica tanto por todos?[16] 

Por várias vezes, Jim Jones serviu bebida, supostamente envenenada, às pessoas ao seu redor, como se fosse um ato de brincadeira. Ele chegou a fazer isso com a sua comissão de planejamento. Depois que obedeceram, Jones disse-lhes que haviam tomado veneno e que estariam mortos dentro de 45 minutos. Quando o tempo se esgotou, disse-lhes que não se preocupassem, pois estava apenas testando a fé de cada um deles. Sem dúvida, essas "brincadeiras" prepararam o caminho para a grande tragédia que aconteceria anos depois.[17] 

Os Meninos de Deus são conhecidos por exercer intensa pressão e atividade grupal sobre os convertidos em potencial. Palestras, estudos bíblicos, cultos longos e muitas horas assistindo vídeos contendo os ensinos do movimento, são parte de uma constante atividade para envolver o adepto na sua nova vida. De acordo com os depoimentos de ex-adeptos das seitas, algum tipo de privação sensorial acontece - normalmente, dietas com poucas proteínas e poucas horas de sono a cada noite, diminuem as defesas físicas e psicológicas da pessoa, tornando-a receptiva à nova doutrina. Flo Conway e Jim Sigelman comentam:

Sob pressões cumulativas de controle físico, emocional e intelectual, o autocontrole e crenças pessoais cedem. Isolado do mundo e cercado de armadilhas exóticas, os convertidos absorvem os estilos alterados de pensamento e da vida diária da seita. Em pouco tempo, antes de perceberem o que está acontecendo, os novos adeptos entram num estado mental em que não são mais capazes de pensar por si mesmos.[18]

Através da história grupos extremistas têm aplicado, com muito sucesso, esse tipo de ataque à mente e às emoções, adquirindo assim, o controle sobre membros de tribos, sociedades e até nações inteiras, reduzindo o valor da personalidade individual do ser humano. Um ex-adepto de uma seita informa:

As seitas destroem a mente por completo. Elas destroem a sua habilidade de questionar as coisas, e ao destruir a sua habilidade de pensar, destroem também a sua habilidade de sentir. Pensar, para o membro de uma seita, é exatamente como ser apunhalado no coração. É muito doloroso, pois foi-lhe dito que a mente é Satanás e pensar é uma maquinaria do Diabo.[19]

Quando alguém se junta aos Meninos de Deus, a pessoa é completamente separada o mundo exterior. Não lhe é permitido ir a qualquer lugar sem a companhia de um irmão ou irmã do grupo. Qualquer pessoa de fora da seita é classificada como um "sistemista" (de sistema). Moisés Davi, ou Davi Berg, o fundador, sempre usou um rosário de adjetivos pejorativos para descrever os de fora: "sistemistas", servos de Satanás, podres, decadentes, decrépitos, hipócritas, etc.

Um outro aspecto intrigante desse grupo é que o adepto adota um novo nome, geralmente da Bíblia. No início, ele é chamado "bebê". Após três meses, ele é admitido no treinamento de liderança. A forma como ele chega à liderança é sendo o que a seita quer que ele seja, sem qualquer reclamação ou questionamento, fazendo exatamente as coisas que são esperadas dele. 

As seitas destroem a individualidade da pessoa e o seu senso crítico. Um dos meios que Moisés David usou para fazer isso foi através de suas cartas, chamadas "Cartas de Mo", como informa sua própria filha:

Ao declarar tais cartas como a Palavra de Deus, ele sufocou os poderes mentais criativos de seus seguidores. Eles não precisam mais pensar por si mesmos, ler a Bíblia e aplicá-la, dinamicamente, às suas vidas pessoais, ou fazer qualquer oração criativa. A única função deles é ler as cartas de Mo, deixar que Mo faça toda a comunicação com Deus, e seguir o que Mo escreve. É simplesmente uma questão de obediência. Suas mentes devem ser como computadores, e ele é o programador. Todos os novos dados e informações entrarão em suas mentes apenas através do seu trabalho. Eles são um pouco mais do que robôs incapazes de criar.[20] 

Depois de entrar na seita, o novo discípulo é protegido de toda informação negativa que circula do lado de fora sobre o grupo. O uso de termos especiais é empregado para facilitar a manipulação dos membros. Quase todas as seitas estimulam seus membros a não pensar, praticam o controle da mente ou alguma forma de manipulação mental como parte de uma atividade. Para neutralizar os questionamentos de seus adeptos, o Reverendo Moon declarou: "Eu sou um pensador. Eu sou seu cérebro".[21] 

O império financeiro da Seita Moon é de fato impressionante. A Igreja da Unificação tem feito um grande sucesso na América Latina, principalmente no Uruguai. Os moonistas referem-se à cidade de Montevidéu como Moontevidéu. Possuem ali o melhor jornal, a melhor estação de rádio e o melhor hotel do país. Moon é tão sutil que, no primeiro semestre de 1996, conseguiu levar mais de 800 pastores do Brasil para suas reuniões no Uruguai. 

A Igreja da Unificação tem sido muito criticada pelos seus métodos de levantamento de fundos. Normalmente, um moonista arrecada entre 100 e 500 dólares por dia, vendendo canetas, flores, envelopes e papel de carta. 200 dólares é a média. É dito, muitas vezes, que o dinheiro será usado na recuperação de viciados em droga, menores abandonados ou alguma outra obra filantrópica. É comum o moonista começar bem cedo as suas atividades e trabalhar até depois da meia noite. Nenhum membro pode questionar o destino do dinheiro. Por outro lado, muitos adeptos da seita sabem que a família Moon vive no luxo. 

A mente é um dos alvos principais das seitas, pois o seu controle garante o sucesso do grupo. Steve Hassan, (ex-adepto do Reverendo Moon), um conhecido pesquisador de seitas nos Estados Unidos, define assim o controle mental: 

Na realidade, o controle mental é um conjunto de métodos e técnicas, tais como hipnose ou interrupção de pensamento, que influencia como uma pessoa pensa, sente e age. Ao ser empregado por seitas destrutivas, o controle mental procura nada menos do que desfazer a identidade autêntica de um indivíduo - comportamento, pensamentos, emoções - e reconstruí-la na imagem do líder da seita. Isso é feito controlando, rigidamente, a vida espiritual, física, intelectual e emocional do membro. O controle mental da seita é um processo social que encoraja obediência, dependência e conformidade. O processo desencoraja autonomia e individualidade ao imergir os recrutados num ambiente que reprime a livre escolha. O dogma do grupo torna-se a única preocupação da pessoa. Qualquer coisa ou qualquer pessoa que não se encaixe na sua realidade reformada torna-se irrelevante.[22] 

A Ciência Cristã ensina aos seus adeptos que o pecado, a doença e a morte são todos ilusões da mente que precisam ser corrigidas pela maneira correta de pensar. Mary Baker Eddy, a fundadora, cunhou uma frase interessante que dizia: "Não existe realidade na dor e nem dor na realidade". Seus ensinos enfatizam também a negação da existência física. Para ela, tudo o que existe é uma ilusão da mente. Dr. Walter Martin informa:

Existe na Ciência Cristã uma supressão da mente, uma expulsão consciente da mente da pessoa de certas coisas que são desconcertantes para a configuração total dos padrões psicológicos de condicionamento. Os adeptos da Ciência Cristã são condicionados a crer na inexistência do mundo material, ainda que os seus sentidos testifiquem de sua realidade objetiva.[23] 

Os novos movimentos religiosos procuram atrair os seus convertidos em potencial com uma grande quantidade de atenção e afeição. O sentimento, e não a razão, é a armadilha. Há uma estratégia usada pelas seitas que os estudiosos chamam de "love bombing" (bombardeio do amor), como informa o jornalista Jean-François Boyer: 

Para acolher os candidatos nas melhores condições psicológicas possíveis - na calma, longe da família, dos amigos e tentações - a igreja necessita de casas afastadas, espaçosas e, se possível, atraentes...Isso explica o porquê de o Movimento possuir em todo o mundo e em tão pouco tempo um rico patrimônio imobiliário. Como recusar um convite com tudo pago ao castelo de Mauny, a um dos pequenos castelos campestres da região de Lyonnais, ou mesmo a um casarão na zona sul de Paris, que tem como ornamento o parque de Sceaux? Como recusar um retorno quando, à beleza da paisagem, se soma o calor da acolhida? Pois, retomando uma fórmula do reverendo Moon, os novos chegados devem ser "bombardeados de amor". E eles o são![24] 

Os sentimentos ou emoções não se constituem em critérios válidos para se analisar uma seita. Um mórmon, por exemplo, afirma saber que o Livro de Mórmon é a palavra de Deus porque, orientado pelo bispo da igreja, ele perguntou para Deus, em oração, se tal livro é inspirado por Deus. De acordo com o mormonismo, se a pessoa perguntar com fé e sinceridade, ela vai sentir um arder no peito. Dali em diante, ela permanecerá cega e surda às evidências históricas, arqueológicas, literária, ou qualquer outra, que denuncie a falta de confiabilidade do Livro de Mórmon e outras obras oficiais do mormonismo. Existem mórmons que chegam a afirmar que se eles soubessem, sem qualquer sombra de dúvida, que Joseph Smith, o fundador da Igreja Mórmon, foi um falso profeta, que a Igreja Mórmon é falsa, mesmo assim, eles não deixariam o mormonismo. Pode-se perceber que não se trata mais de uma questão da razão, mas da vontade. Não que não entendam, ou que não saibam, mas porque não querem. Assim, de uma forma surpreendente, tais devotos conseguem colocar a vontade e o sentimento acima da razão. 

Em várias seitas, após a mente do novo adepto ser neutralizada, inicia-se o período de doutrinação. Para garantir o sucesso do programa, emprega-se uma série de mecanismos, entre eles, a privação quanto às necessidades básicas do ser humano - pouca comida com baixa caloria e horas de sono bastante reduzidas, são algumas delas. Em seguida, o iniciado torna-se mentalmente, emocionalmente e espiritualmente dependente da seita para sua sobrevivência, decisões e direção. O quadro ameaçador pintado pela liderança da seita sobre o mundo exterior, um mundo inseguro controlado por Satã e condenado à destruição pelo juízo de Deus, força o novo adepto a permanecer na seita para sua própria segurança.

Logo no início, os laços que o prendem aos seus pais, irmãos ou qualquer outro parente, são bastante danificados. Muitas vezes, é dito ao novo discípulo que as pessoas que Satã mais vai usar para tirá-lo do novo e verdadeiro caminho que lhe foi revelado por Deus são as pessoas mais íntimas de sua família. Apesar de hoje adotar o nome A Família, os Meninos de Deus já separaram muitos casais e filhos. 

V - CONSIDERAÇÕES FINAIS 

No encerramento da conferência da American Family Foundation, em maio de 2001, na cidade de Nova York, o Dr. Langone, diretor executivo da organização, declarou, com razão, que as seitas chegaram para ficar. De fato, elas são protegidas pelo sistema legal de muitos países, arrecadam somas imensas de dinheiro, tornando-se grandes impérios financeiros. 

Seria bom que as autoridades governamentais prestassem mais atenção à problemática dos novos movimentos religiosos, criando legislação que possa coibir os abusos de tais grupos, evitando assim danos à pessoa ou à sociedade em geral, a exemplo de vários países europeus como Alemanha, Bélgica e França, que já o estão fazendo.

As igrejas também precisam fazer a lição de casa, incluindo o estudo sobre os novos movimentos religiosos na programação de suas atividades, promovendo a conscientização dos seus membros quanto às investidas de tais grupos. É preciso alertar principalmente os jovens, muitas vezes, presas fáceis desses movimentos que atuam também no ambiente estudantil. 

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[1]ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, p. 375–376.

[2]VAN BAALEN, J.K. O Caos das Seitas, p. 282.

[3]MARTIN, Walter. O Império das Seitas, p. 11.

[4]SINGER, Margaret. Cults in our Midst, p. 7.

[5] Ibid.

[6] TOBIAS, Madaleine. & LALICH, Janja. Captive hearts, Captive minds, p. 12.

[7]WEBER, Max. Ensaios de Sociologia, p. 340.

[8]GREEN, Michael. I Believe in Satan’s Downfall, p. 158. 

[9]TOBIAS, Madaleine L. & LALICH, Janja, op.cit, p. 81.

[10]KRAUSE, Charles A. O Massacre da Guiana, p. 32.

[11]BOYER, Jean-François. O Império Moon: os bastidores de uma seita impiedosa, p. 39.

[12]Ibid, p. 40.

[13]Ibid, p. 30.

[14]DAVIS, Deborah. The Children of God – The Inside History, p. 60.

[15]EYSENCK, H. J. Encyclopedia of Psychology.

[16]KILDUFF, Marshall & JAVERS, Ron. O Culto do Suicídio, p. 53–54.

[17] Ibid., p. 54.

[18]CONWAY, Flo & SIEGELMAN, Jim. Snapping America’s Epidemic of Sudden Personality Change, p. 57.

[19]Ibid., p. 64-65.

[20]DAVIS, Deborah, op.cit., p. 203.

[21]CARRIKER, Thimothy C. Eu sou seu cérebro.

[22]HASSAN, Steven. Releasing the bonds: empowering people to think for themselves, p. 38.

[23]MARTIN, Walter. The Kingdom of the cults, p. 36.

[24]BOYER, Jean-François, op.cit., p. 27.


É pastor e um dos mais renomados apologistas evangélicos. Bacharel em Jornalismo; cursou o Gordon-Conwell Theological Seminary em Boston; É professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Mackenzie.