quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O filme “Escritores da Liberdade” e a função do pensamento em Hannah Arendt



por Raymundo de Lima

... Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Eu tenho um sonho hoje!...  Martin Luther King – fragmento do memorável discurso "I Have a Dream", de 28/08/1963.

Todos somos atores de nossa vida, mas nem sempre podemos ter sua autoria. O pensar [e o escrever] favorece a autoria da existência.  Dulce Critelli, 2006.

Há muitos filmes americanos sobre escola, mas não como "Escritores da Liberdade". (Freedom Writers, EUA, 2007). Porque é o único filme dessa categoria que incentiva os alunos a lerem literatura, ponto de partida para testar a vocação de cada um para escrever dede um diário sobre o cotidiano trágico de suas vidas até uma poesia hip hopou um livro de ficção. O valor desse filme também está na ousadia da linguagem cinematográfica mostrando os problemas psico-sócio-culturais que atingem a escola contemporânea; também porque ele dá visibilidade à diversidade dos grupos, com seu rígido código de honra, cada um no seu território, o narcisismo da recusa e da intolerância para com “os outros”, o boicote às aulas, a prontidão para aumentar os índices de violência entre os jovens e transformar a escola no seu avesso, isto é, uma comunidade bem próxima da barbárie, o que de fato vai acontecer em 1992, em Los Angeles, EUA.
O filme é baseado na história real de Erin (interpretada por Hilary Swank[1]), uma professora novata interessada em lecionar Língua Inglesa e Literatura para uma turma de adolescentes resistentes ao ensino convencional; alguns estão ali cumprindo pena judicial, e todos são reféns das gangues avessas ao convívio pacífico com os diferentes.
Como em outros filmes sobre turmas problemáticas, a professora Erin toma sua tarefa como um grande desafio: educar e civilizar aquela turma esquizofrênizada e estigmatizada como “os sem-futuro” pelos demais professores. Percebe que seu trabalho deve ir para além da sala de aula, por exemplo, visitando o museu do holocausto, possibilitando aos jovens saber os efeitos traumáticos da ideologia da “grande gangue” nazista, que provocou a 2ª. Guerra Mundial e o holocausto, e também reconhecer as semelhanças com suas “pequenas gangues” da escola. Nota: a palavra “holocausto”[2], referida no filme, é usada mais pelos judeus. E, “genocídio”[3]é o termo cunhado pelo Direito Internacional do pós Guerra. Ambas significam o ato racional de eliminação de seres humanos em escala inimaginável (conferir nota de rodapé).
O método da jovem professora consistiu em entregar para cada aluno um caderno para que escrevessem, diariamente, sobre aspectos de suas próprias vidas, desde conflitos internos até problemas familiares e sociais. Também, instigou-os a ler livros como "O Diário de Anne Frank" com o propósito de despertar alguma identificação e empatia, ainda que os personagens vivam em épocas diferentes; a partir de eventuais encontros imaginários cada aluno poderia desenvolver uma atitude especial de tolerância para com o “outro”. Na vida real, os diários foram reunidos em um livro publicado nos Estados Unidos, em 1999, e terminaram inspirando o diretor Richard LaGravenese para fazer esse filme.
Formada em Direito, Erin se torna professora, desagradando seu pai e marido. No início, ela demonstra ingenuidade, timidez, curiosidade e determinação; sua vocação para o magistério vai se construindo conforme os desafios que ela encontra entre os alunos e ao lidar com a burocracia e o conservadorismo dos funcionários do sistema pedagógico da escola. Os judeus nova-iorquinos diriam que o diferencial de Erin é ela ter “chutzpah”: ousadia, garra, determinação, toma iniciativa, ir-à-luta. Os diversos obstáculos próprios de qualquer sistema escolar faz com que ela se sinta desafiada a fazer algo-mais.
Seu estilo não é teatral, tal como os professores protagonistas dos filmes “O triunfo”,“Sociedade dos poetas mortos”, “Escola da vida”. Também não é autoritária como “Meu mestre, minha vida”, e nem experimentalista como é o professor Ross, do filme “A onda”. Seu estilo pedagógico está para o ensaísmo apaixonado, romântico, humanista, mas sem perder de vista a racionalidade do propósito educativo. Primeiro, ela tenta “dar aula” segundo manda o modelo tradicional, que não funciona com alunos indiferentes ao propósito da escolaeminentemente ensinante. Uma aluna questiona pra que serve aprender tal conteúdo abstrato considerado inútil para melhorar sua vida real; outro dirá que o fato de ela ser professora “branca” não é suficiente para ele respeitá-la. Cabe à professora ter argumentos consistentes que respondam essas questões imprescindíveis na escola contemporânea. No segundo momento, Erin faz o reconhecimento dos grupos de iguais (narcísicos), e, obviamente sente empatia com os excluídos. Terceiro, devolve aos alunos esse reconhecimento com um pensamento crítico, fazendo-os reconhecer, sentir e pensar sobre a realidade criada por eles próprios. Quarto, não os aceita na condição de vítimas reativas, e cobra-lhes responsabilidadepor suas escolhas e seus atos de exclusão para com os diferentes. Ou seja, sua ação pedagógica é inovadora porque desperta a motivação dos alunos para expressar seus sentimentos, ler, pensar, escrever, e mudar a partir do reconhecimento como sujeito-de-sua-história.
Na concepção de Hannah Arendt, duas causas podem ter relação profunda com a crise da educação em nossa época: a incapacidade de a escola levar os alunos para pensar e a perda da autoridade dos pais e professores. Ambas fazem com que as crianças e adolescentes fiquem sujeitos à tirania de uma maioria qualquer (grupo social, tribos, gangs) e de um líder carismático ou populista. Portanto, o ato educativo de Erin é ao mesmo tempo político e ético, porque visa transformar alunos “não-pensantes”, “incivilizados”, “não-humanizados”, em seres humanos que podem exercitar o pensamento crítico sobre a realidade e seus atos; suas propostas de dinâmicas com os grupos leva-os a rememorar situações e rever suas posições na história de cada um, podendo até criar em cada aluno uma nova ética que melhor orienta seus gestos e palavras para evitar magoar o seu próximo. As dinâmicas e debates em sala de aula desmarcaram o recorrente discurso vitimista desses grupos, que tendem ao comodismo da sua desgraça, e ao mesmo tempo projeta no outro a responsabilidade pela sua própria irresponsabilidade ou fracasso como sujeito-cidadão no meio social. É preciso que cada qual se responsabilize e se comprometa “fazer sua parte”, ou como diz a velhinha que abrigou Anne Frank: “fazer a coisa certa” ou ética, como uma pessoa comum, anônima, e representante do que é ser civilizado.
Uma educação que não exercita o ato de pensar, com todos os seus riscos, além da própria ausência de pensamento, tem como efeito o não comprometimento, o não tomar decisões, ounão se responsabilizar por elas. “A tarefa fundamental do pensar é descongelar as definições que vão sendo produzidas, inclusive pelo conhecimento e pela compreensão e que vão sendo cristalizados na história. A tarefa do pensar é abrir o que os conceitos sintetizam, é permitir que aquilo que ficou preso nos limites da sua própria definição seja liberado. É livrar o sentido e o significado dos acontecimentos e das coisas da camisa-de-força dos conceitos” (CRITELLI, 2006, p. 80).
É preciso, portanto, criar dispositivos – como ler, escrever, falar elaborado – que “operem como obstáculo para que aqueles que não se decidiram a ser maus não cometam maldades”(CORREIA, A. 2006, p. 50). Conforme diz Arendt: “os maiores malfeitores são aqueles que não se lembram porque nunca pensaram na questão, e, sem lembrança, nada consegue detê-los[...]. O maior mal não é radical, mas possui raízes, e, por não ter raízes, não tem limitações, pode chegar a extremos impensáveis e dominar o mundo todo”, como foi a trágica experiência dos regimes totalitários, o nazi-fascismo e o stalinismo.
Para alguns, é insuficiente o(a) professor(a) apenas “fazer sua parte”, visto existir um mundo para além dos limites de sua sala de aula. Mas, a lição da professora do filme está em “fazer-bem-sua-parte” exatamente no ponto nevrálgico e temporal que é a educação: ser um atocivilizatório entre o passado e o futuro. Diz ela: “A tarefa da educação é justamente a de apresentar o mundo às gerações do presente, tentando fazê-las conscientes de que comparecem a um mundo que é o lar comum de múltiplas gerações humanas. Ao conscientizá-los do mundo a que vieram, estas deverão compreender a importância de sua relação e ligação com as outras gerações, passadas e vindourasTal relação se dará, primeiro, no sentido de preservar o tesouro das gerações passadas, isto é, no sentido de a geração do presente tomar o cuidado de trazer a esse mundo sua novidade sem que isso implique a alteração, até o irreconhecimento, do próprio mundo, da construção coletiva do passado” (apud FRANCISCO, 2006, p.35).
Tal posicionamento pedagógico-político-ético da função docente deve ser marcado pela sua autoridade, sensibilidade, e senso de inovação, que ao ser testado na realidade cotidiana da escola costuma pagar um preço em forma de resistências, incompreensões e críticas maldosas. Assim posicionado nesse tripé é que o docente pode tanto se defender dos ataques de fora como resistir às frustrações advindas do seu próprio trabalho. Também, a partir desse estilo ela pode melhor se preparar para evitar cair no criticismo raso dirigido ao sistema, como forma única de luta; ou seja, a experiência tem demonstrado que muitos na escola e na universidade usam de verbosidade sem ação, não se comprometem de corpo e alma testando táticas inovadas de lutas (no sentido da esquerda política) visando melhorar a qualidade do ensino; outros ficam esperando que o governo ou dono de escola tomem iniciativas, ou autorizem (o)a professor(a) fazer algo inovador no seu trabalho docente no sentido de reverter o baixo rendimento dos alunos, por exemplo.
Que cada professor(a) faça diferença no seu ato de ensinar. O ensino regular visa levar os alunos aprenderem os conteúdos programados pelos currículos. Contudo, não se pode ensinar sem incluir também uma mudança educativa. Um ensino sem educação para o pensar é vazio de sentido prático e existencial. Uma educação sem aprendizagem dos conteúdos também é vazia e tende a degenerar em retórica moral e emocional. Ensinar e educar implicam em responsabilidades: pedagógica, política e moral, dentro e fora da escola; implica, ainda, na responsabilidade do coletivo[4] do professorado de civilizar a nova geração que irá povoar o mundo.
No dizer de Arendt (1989) “A educação é, também, onde decidimos se amamos nossas criançaso bastante para expulsá-las a seus próprios recursos, e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum”.
Nós, professores e professoras, devemos assistir ao filme “Escritores da Liberdade” por várias razões: para que possamos inovar o ato de ensinar adequado à realidade cultural dos alunos; para que, além de ensinar, também possamos adotar uma atitude de pesquisa-ação com os grupos que se formam em sala de aula e na escola, quase sempre atraídos pela semelhança formando grupos narcísicos, cujo sintoma visível é a intolerância para com os demais; para que aprendamos a acolher e contextualizar as situações de vida dos alunos com as de outras vidas relatadas pela história da humanidade – que, através de um diário ou redação qualquer eles aprendam a significar suas histórias com outras histórias; para que os professores do nosso Brasil se empenhem mais-e-mais em ler literatura, porque só podemos cobrar dos alunos esse hábito se nós também nos habituamos a ler, isto é, se ler e compreender[5] já fazem parte de nossa virtude pessoal. (aquele que lê e compreende tem maior probabilidade de escrever suas próprias narrativas); para que os professores façam autocrítica sobre o quantum de paixão (ou libido) têm pelo trabalho com os alunos não deve necessariamente implicar a sua desatenção (ou desapaixonamento) para com os seus próximos: marido, esposa, filhos, etc.
Bom filme pra todos!!!

Filme: Escritores da liberdade (Original: Freedom Writers) País: EUA/Alemanha - Gênero:drama.  Classificação: 14 anos. Duração: 123 min. Ano: 2007. Direção: Richard LaGravenese . Produção: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher.  ElencoHilary SwankPatrick DempseyScott GlennImelda StauntonApril Lee Hernandez, Mario, Kristin HerreraJacklyn NganSergio Montalvo, Jason Finn, Deance WyattVanetta SmithGabriel ChavarriaHunter Parrish, Antonio Garcia.
Sinopse: Hilary Swank é uma professora novata que tenta inspirar seus alunos problemáticos a aprender algo mais sobre tolerância, valorizar a si mesmos, investir em seus sonhos e dar continuidade a seus estudos além da escola básica. Também ela é ousada ao enfrentar os grupos formadores de gangs em sala de aula, levando-os a pensar sobre a formação e ideologia dos próprios.


Referências
ARENDT, H. As origens do totalitarismo. São Paulo: Cia. das Letras, 1989.
ARENDT, Hanna. A crise na educação. In: Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2001, p. 238-9.
CORREIA, Adriano. O pensamento pode evitar o mal? In: Rev. Educação: Hannah Arendt pensa a educação. São Paulo: Segmento, n.4, 2006, p.46-55.
CRITELLI, Dulce. O ofício de pensar. In: Rev. Educação: Hannah Arendt pensa a educaçãoSão Paulo: Segmento, n.4, 2006, p.74-83.
FRANCISCO, Maria de Fátima S. Preservar e renovar o mundo. In: Rev. Educação: Hannah Arendt pensa a educação. São Paulo: Segmento, n.4, 2006, p. 26-35.
REBELLO DE SOUZA, Denise Trento. Formação continuada dos professores e fracasso escolar: problematizando o argumento da incompetência. In: rev. Educação e Pesquisa, São Paulo, v.32, n3, p.477-492, set./dez.2006.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O SINCRETISMO AFRO-CATÓLICO

INTRODUÇÃO


 
Segundo a cosmovisão afro-católica, lugar comum, para muitos autores, afirmam que as religiões se processam em sincretismos. Se isto é bem verdade, também é real que este processo de aculturação inter-religioso pode, muitas vezes, originar uma adulteração e metamorfose dos cultos. Ora, é precisamente essa adulteração a primordial ocorrência no contexto dos históricos e vigentes diálogos inter-culturais, uma vez que todos esses diálogos se encontram adstritos a códigos valorativos característicos das culturas de base a partir das quais se projetam os colóquios culturais e religiosos. Na realidade os sincretismos são uma constante dos encontros de culturas, cada vez mais multilateralizados. A própria linguagem pode ser vista como um sincretismo mais lato e comum, na medida em que o diálogo entre linguagens ocorre em mútuas interpretações, a que damos o nome de traduções. Porque traduzir um vocábulo de uma língua alvo para a língua de partida é sempre condicionado pelos valores culturais impregnados na educação e formação do indivíduo sócio-cultural. Então, esta aproximação de códigos e valores, parece a mais verosímil forma de entendimento imediato entre culturas inter-dialogantes.

1. DIMENSÃO RELIGIOSA DO FENÔMENO (PERSPECTIVA AFRO-CATÓLICA)
As manifestações religiosas características de cada povo, emergiram a partir de um dado contexto histórico somente entendível a patir de um ponto de vista histórico-cultural da época. Jamais se poderá entender a emergência do Cristianismo independente da figura de Jesus de Nazaré, o Jesus Cristo, e do contexto social, político, econômico e cultural da sociedade em que este se inseria, isto é, a compreensão da mensagem e dos valores vanguardistas da figura de Jesus Cristo só encontra sentido num contexto histórico. Do mesmo modo acontece a emergência do Cristianismo no Ocidente, em plena época do Império Romano, coincidindo com a queda do politeísmo vigente.

Neste contexto temos de entender o sincretismo religioso não só como um diálogo entre religiões, mas, e talvez mais importante ainda, como um fenômeno adequado a um contexto histórico. É deste modo que entenderemos os sincretismos afro-brasileiros.

O diálogo sincrético é, em primeira análise, uma forma de duas culturas se expressarem e compreenderem mutuamente, dentro de um plano religioso. Por isso, quando afirmamos que o deus Thor se assemelha ao Orixá Xangô, não se pretende concluir que ambos são a mesma divindade, mas antes que representam em certas dimensões, as mesmas funções e significados para os seus povos. Thor é Thor, Xangô é Xangô.

Quando o missionário jesuíta viajou para o Brasil com fins de evangelizar os indígenas deparou-se com a necessidade de encontrar um campo de valorizações que sustentasse o diálogo entre realidades distintas, a fim de que fosse passada a mensagem cristã aos povos tupi-guarani. O sincretismo foi essa ponte. Nesse processo, a figura do Deus cristão se sincretizou com a figura de Monan, divindade criadora dos Tupis. Por motivos práticos, os padres jesuítas usaram o deus Tupã, herói mítico, cujos contornos mitológicos o assemelham a Xangô.

Mais importante e crucial ainda, neste diálogo sincrético de religiões, foi o encontro do catolicismo com as tradições e ritos dos escravos, num contexto que mudaria definitivamente o rosto do Brasil. Pela perseguição aos cultos afros e pela organização dos escravos, sob a égide da Igreja Católica em confrarias religiosas, os deuses Iorubas, Bantus e Fons, foram-se sincretizando com os santos católicos. Esta era a única forma de preservar o culto dos Orixás, Inkices e Voduns. Obviamente que tal fato originou um processo de “enbranqueamento” das identidades afros. Nesse sentido, compreende-se que o Orixá Ogun surja no Rio de Janeiro sincretizado a São Jorge e na Bahia a Santo Antônio, divergência que mostra bem a realidade camuflada de um culto.

Na cosmovisão afro, o verdadeiro sincretismo afro-brasileiro é um sincretismo afro-afro, isto é, o diálogo comum e absorvido das diversas culturas africanas. Isto porque os negros foram agrupados, antes da organização urbana dos séculos XVIII e XIX, nas Senzalas, misturando origens étnicas, numa tentativa de evitar rebeliões. Deste processo nasceu o Candomblé, enquanto estrutura que integra uma pluralidade de ritos ligados a uma diversidade de deuses, agregando os Ijexá, os Jeje-Fons, Iorubá-Nagôs, Bantus, etc.

É fundamental, então, entender que o sincretismo se iniciou com as senzalas, ainda antes de o colonizador perguntar ao negro que era Oxalá/Olissa/Lembá. Se bem que os Inkices continuem a ser cultuados de acordo com as suas culturas de origem, mantendo a designação primária, como é o caso do Inkice Katendê, divindade das insabas, as folhas, no fundamental estes adotaram a essência dos Orixás Iorubas.

Em rigor da verdade, o sincretismo religioso afro-católico tem por base um contexto de proteção vital por parte dos negros, no entanto, a sua validade atual se deve tão-somente a jogos de interesses e falta de aculturação original, o que leva a um mau entendimento do rico universo religioso-cultural afro-brasileiro. Certo é que o verdadeiro sincretismo, pragmático e coerente, foi aquele que emergiu dos contatos entre os povos africanos em solo brasileiro, formando o candomblé.

2. DESCONSTRUINDO SINCRETISMOS (PERSPECTIVA AFRO-CATÓLICA)
O sincretismo afro-ocidental processou-se em moldes disformes e até desconexos, variando de região para região, ao sabor dos encontros dialogantes entre os povos. No Estado do Rio de Janeiro, Ogun é sincretizado com São Jorge, sincretismo esse presente na cantiga de Umbanda “Ogun é meu pai, Ogun é meu guia, Ogun é São Jorge, filho de Deus e da Virgem Maria”. Ogun, divindade dos caminhos, senhor de Irê (oníìré), nada tem a ver com o guerreiro armênio que se converteu ao cristianismo. Embora ambos possuam uma faceta guerreira, motivo do sincretismo incorre-se em erro assumir que ambos são uma e a mesma entidade. O mesmo acontece com Oyá, deusa africana dos raios, sincretizada com Santa Bárbara. Tratam-se, portanto, de uma adaptação de dois imaginários a um contexto comum, duas realidades religiosas na busca de um entendimento, unilateral, uma vez que o processo majoritário partiu dos negros, num processo de adaptação a uma dimensão religiosa vigente.

Consequentemente, diferente modalidade tem o sincretismo inter-africano, onde os cerca de 400 deuses se mesclaram e se fundiram, assimilando a maioria das características dos deuses iorubá-jeje. Obaluaiyê, Nanã, Oxumaré, Yewá, Irokô, são divindades originárias das terras Ewe-Fon (Jeje), que foram assimiladas pelas demais tribos chegadas ao Brasil.

CONCLUSÃO
Podemos então afirmar que, embora existam diferentes nuances rituais características das denominadas «nações» de candomblé, o sincretismo inter-africano é o legítimo e verdadeiro sincretismo, pois foi na mescla entre Mukixes-Inkices, Orixás e Voduns, que nasceu o candomblé, e se encontrou correspondência real e pragmática entre as enumeradas divindades. É a aproximação entre panteões que origina um sentimento de vivência e espiritualidade comum, sem que isso possa, pelo menos num futuro próximo, originar a perda de identidade do rito Angola-Congo, Jeje, Nagô-Ketú, Nagô-Vodun, Jeje-Mahí, Ijexá, Mina, etc.

REFERÊNCIAS

DAMIÃO, Valdemir. História das religiões. Rio de janeiro: Editora CPAD.
LEITE, Tácito da Gama. História das religiões. Rio de Janeiro: Editora Juerp, volume II.; 1965.
WILGES, Irineu. As religiões no mundo. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 4ª Edição, 1983.
BROWKER, John. Para entender as religiões. São Paulo: Editora Ática.
CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, teologia e filosofia. São Paulo: Hagnus, 2007.
MARIANO, Leonardo. Educação Religiosa Vols: I e II. Coleção Docência Cristã (e - book): 2009.
OLIVEIRA, Lílian Blanck; JUNQUEIRA, Sérgio Azevedo; ALVES, Luiz Alberto Souza; KEIM, Ernesto Jacob. Ensino Religioso no Ensino Fundamental. Ed. Cortez.
BARROS, Sandra dos Reis. Ensino Religioso na Formação do Cidadão. Associação de Educação Católica de São Paulo.
site:http://www.umbanda.etc.br