quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O SINCRETISMO AFRO-CATÓLICO

INTRODUÇÃO


 
Segundo a cosmovisão afro-católica, lugar comum, para muitos autores, afirmam que as religiões se processam em sincretismos. Se isto é bem verdade, também é real que este processo de aculturação inter-religioso pode, muitas vezes, originar uma adulteração e metamorfose dos cultos. Ora, é precisamente essa adulteração a primordial ocorrência no contexto dos históricos e vigentes diálogos inter-culturais, uma vez que todos esses diálogos se encontram adstritos a códigos valorativos característicos das culturas de base a partir das quais se projetam os colóquios culturais e religiosos. Na realidade os sincretismos são uma constante dos encontros de culturas, cada vez mais multilateralizados. A própria linguagem pode ser vista como um sincretismo mais lato e comum, na medida em que o diálogo entre linguagens ocorre em mútuas interpretações, a que damos o nome de traduções. Porque traduzir um vocábulo de uma língua alvo para a língua de partida é sempre condicionado pelos valores culturais impregnados na educação e formação do indivíduo sócio-cultural. Então, esta aproximação de códigos e valores, parece a mais verosímil forma de entendimento imediato entre culturas inter-dialogantes.

1. DIMENSÃO RELIGIOSA DO FENÔMENO (PERSPECTIVA AFRO-CATÓLICA)
As manifestações religiosas características de cada povo, emergiram a partir de um dado contexto histórico somente entendível a patir de um ponto de vista histórico-cultural da época. Jamais se poderá entender a emergência do Cristianismo independente da figura de Jesus de Nazaré, o Jesus Cristo, e do contexto social, político, econômico e cultural da sociedade em que este se inseria, isto é, a compreensão da mensagem e dos valores vanguardistas da figura de Jesus Cristo só encontra sentido num contexto histórico. Do mesmo modo acontece a emergência do Cristianismo no Ocidente, em plena época do Império Romano, coincidindo com a queda do politeísmo vigente.

Neste contexto temos de entender o sincretismo religioso não só como um diálogo entre religiões, mas, e talvez mais importante ainda, como um fenômeno adequado a um contexto histórico. É deste modo que entenderemos os sincretismos afro-brasileiros.

O diálogo sincrético é, em primeira análise, uma forma de duas culturas se expressarem e compreenderem mutuamente, dentro de um plano religioso. Por isso, quando afirmamos que o deus Thor se assemelha ao Orixá Xangô, não se pretende concluir que ambos são a mesma divindade, mas antes que representam em certas dimensões, as mesmas funções e significados para os seus povos. Thor é Thor, Xangô é Xangô.

Quando o missionário jesuíta viajou para o Brasil com fins de evangelizar os indígenas deparou-se com a necessidade de encontrar um campo de valorizações que sustentasse o diálogo entre realidades distintas, a fim de que fosse passada a mensagem cristã aos povos tupi-guarani. O sincretismo foi essa ponte. Nesse processo, a figura do Deus cristão se sincretizou com a figura de Monan, divindade criadora dos Tupis. Por motivos práticos, os padres jesuítas usaram o deus Tupã, herói mítico, cujos contornos mitológicos o assemelham a Xangô.

Mais importante e crucial ainda, neste diálogo sincrético de religiões, foi o encontro do catolicismo com as tradições e ritos dos escravos, num contexto que mudaria definitivamente o rosto do Brasil. Pela perseguição aos cultos afros e pela organização dos escravos, sob a égide da Igreja Católica em confrarias religiosas, os deuses Iorubas, Bantus e Fons, foram-se sincretizando com os santos católicos. Esta era a única forma de preservar o culto dos Orixás, Inkices e Voduns. Obviamente que tal fato originou um processo de “enbranqueamento” das identidades afros. Nesse sentido, compreende-se que o Orixá Ogun surja no Rio de Janeiro sincretizado a São Jorge e na Bahia a Santo Antônio, divergência que mostra bem a realidade camuflada de um culto.

Na cosmovisão afro, o verdadeiro sincretismo afro-brasileiro é um sincretismo afro-afro, isto é, o diálogo comum e absorvido das diversas culturas africanas. Isto porque os negros foram agrupados, antes da organização urbana dos séculos XVIII e XIX, nas Senzalas, misturando origens étnicas, numa tentativa de evitar rebeliões. Deste processo nasceu o Candomblé, enquanto estrutura que integra uma pluralidade de ritos ligados a uma diversidade de deuses, agregando os Ijexá, os Jeje-Fons, Iorubá-Nagôs, Bantus, etc.

É fundamental, então, entender que o sincretismo se iniciou com as senzalas, ainda antes de o colonizador perguntar ao negro que era Oxalá/Olissa/Lembá. Se bem que os Inkices continuem a ser cultuados de acordo com as suas culturas de origem, mantendo a designação primária, como é o caso do Inkice Katendê, divindade das insabas, as folhas, no fundamental estes adotaram a essência dos Orixás Iorubas.

Em rigor da verdade, o sincretismo religioso afro-católico tem por base um contexto de proteção vital por parte dos negros, no entanto, a sua validade atual se deve tão-somente a jogos de interesses e falta de aculturação original, o que leva a um mau entendimento do rico universo religioso-cultural afro-brasileiro. Certo é que o verdadeiro sincretismo, pragmático e coerente, foi aquele que emergiu dos contatos entre os povos africanos em solo brasileiro, formando o candomblé.

2. DESCONSTRUINDO SINCRETISMOS (PERSPECTIVA AFRO-CATÓLICA)
O sincretismo afro-ocidental processou-se em moldes disformes e até desconexos, variando de região para região, ao sabor dos encontros dialogantes entre os povos. No Estado do Rio de Janeiro, Ogun é sincretizado com São Jorge, sincretismo esse presente na cantiga de Umbanda “Ogun é meu pai, Ogun é meu guia, Ogun é São Jorge, filho de Deus e da Virgem Maria”. Ogun, divindade dos caminhos, senhor de Irê (oníìré), nada tem a ver com o guerreiro armênio que se converteu ao cristianismo. Embora ambos possuam uma faceta guerreira, motivo do sincretismo incorre-se em erro assumir que ambos são uma e a mesma entidade. O mesmo acontece com Oyá, deusa africana dos raios, sincretizada com Santa Bárbara. Tratam-se, portanto, de uma adaptação de dois imaginários a um contexto comum, duas realidades religiosas na busca de um entendimento, unilateral, uma vez que o processo majoritário partiu dos negros, num processo de adaptação a uma dimensão religiosa vigente.

Consequentemente, diferente modalidade tem o sincretismo inter-africano, onde os cerca de 400 deuses se mesclaram e se fundiram, assimilando a maioria das características dos deuses iorubá-jeje. Obaluaiyê, Nanã, Oxumaré, Yewá, Irokô, são divindades originárias das terras Ewe-Fon (Jeje), que foram assimiladas pelas demais tribos chegadas ao Brasil.

CONCLUSÃO
Podemos então afirmar que, embora existam diferentes nuances rituais características das denominadas «nações» de candomblé, o sincretismo inter-africano é o legítimo e verdadeiro sincretismo, pois foi na mescla entre Mukixes-Inkices, Orixás e Voduns, que nasceu o candomblé, e se encontrou correspondência real e pragmática entre as enumeradas divindades. É a aproximação entre panteões que origina um sentimento de vivência e espiritualidade comum, sem que isso possa, pelo menos num futuro próximo, originar a perda de identidade do rito Angola-Congo, Jeje, Nagô-Ketú, Nagô-Vodun, Jeje-Mahí, Ijexá, Mina, etc.

REFERÊNCIAS

DAMIÃO, Valdemir. História das religiões. Rio de janeiro: Editora CPAD.
LEITE, Tácito da Gama. História das religiões. Rio de Janeiro: Editora Juerp, volume II.; 1965.
WILGES, Irineu. As religiões no mundo. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 4ª Edição, 1983.
BROWKER, John. Para entender as religiões. São Paulo: Editora Ática.
CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, teologia e filosofia. São Paulo: Hagnus, 2007.
MARIANO, Leonardo. Educação Religiosa Vols: I e II. Coleção Docência Cristã (e - book): 2009.
OLIVEIRA, Lílian Blanck; JUNQUEIRA, Sérgio Azevedo; ALVES, Luiz Alberto Souza; KEIM, Ernesto Jacob. Ensino Religioso no Ensino Fundamental. Ed. Cortez.
BARROS, Sandra dos Reis. Ensino Religioso na Formação do Cidadão. Associação de Educação Católica de São Paulo.
site:http://www.umbanda.etc.br



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